“Tropa de elite” ou “Bandido se combate com forças especiais?”::


O Rio de Janeiro esteve, esta semana, pela enésima vez nos últimos anos, em estado de choque, em função de outra batalha urbana ocorrida no bairro de Copacabana. Nem vamos entrar no mérito de que, na “Cidade (nem-tão) Maravilhosa” de hoje em dia, batalhas urbanas acontecem todos os dias. Talvez o “choque” se deva ao fato de que a guerra já chegou e se instalou nos domínios da elite da pequena-burguesia local.

Não é o assunto e nem sei se vale à-pena discutir essas coisas; prefiro deixar a que meu amigo blogueiro Pax fomente esse debate (taí minha sugestão…), uma vez que uma coisa tem tudo com a outra.

O que me importa aqui é o fato de que toda vez que acontece uma confusão dessas, os primeiros policiais a serem lançados no fogo são os “caveiras” – ou “bruxas”, como a rapaziada do tráfico os chama -, os homens do Batalhão de Operações Policiais Especiais – o BOPE.

Como tudo no Rio de Janeiro acaba se tornando rotina, a população está, atualmente, acostumadas a presença ostensivas dos “caveiras” – e do “caveirão”, um tipo de blindado desenhado para operações em favelas. O que a população parece não notar é que a própria existência de uma tropa como o BOPE aponta para um grau de militarização da segurança urbana que enfatiza a repressão e a intervenção pontual, sem chegar a propor soluções que previnam o surgimento do crime e a execução da ação criminosa.

O BOPE é a tropa de choque da Polícia Militar do Rio de Janeiro. Sua origem recua ao ano de 1978, ainda em plena ditadura militar, quando as secretarias de segurança estaduais eram filiais do sistema de repressão política e as polícias militares estavam sob controle de um órgão do Exército. A situação da segurança na cidade era completamente diferente: o “crime organizado” de então era formado principalmente pelas “famílias” do jogo do bicho, que mantinham relação estreita com a política da cidade, e uma até hoje não bem explicada simbiose com os órgãos de segurança do regime. A preocupação maior era a “segurança nacional” e o MCI (Movimento Comunista Internacional), que, segundo o imaginário militar da época, tinha sido derrotado pelas forças armadas na batalha pelo Brasil. As polícias civis, militares e até mesmo o corpo de bombeiros (!!!) eram parte da “repressão”.

O surgimento do BOPE está ligado ao então Secretário de Segurança do Rio de Janeiro, general-de-brigada Nílton Albuquerque Cerqueira, que sancionou a criação do Núcleo da Companhia de Operações Especiais – NuCOE. A idéia partiu do então Capitão PM Paulo César Amendola, que propôs ao comandante da corporação, coronel Mário Sotero de Menezes, a criação de uma força de elite PM. Essa tropa deveria ser composta por 86 oficiais e praças voluntários, que receberiam treinamento especial para operações de “combate urbano”. Não se pode saber até que ponto Amendola, um personagem até hoje controverso, inspirou-se nas formações SWAT da polícia norte-americana, mas diz a lenda que o capitão tinha se impressionado com um seriado norte-americano de grande popularidade na TV brasileira, “S.W.A.T.”.

Mas a idéia já vinha sendo cultivada desde 1974, em função de um episódio em que a PM, através de uma unidade chamada “Destacamento de Atividades Especiais” (DAE) – que, apesar do nome, não tinha treinamento especial algum – falhou no resgate de um major, feito refém e morto numa rebelião de presos no Rio. O general-de-brigada Cerqueira, figura notória no bestiário da ditadura brasileira, se destacou nas operações de contra-insurgência e chegou ao Rio depois de carreira nos órgãos de informação do exército. Ao que parece, sua idéia de ordem pública era a de enfrentamento, o que ficava claro na política de emprego da nova unidade: operações policiais militares não-convencionais, missões de contraguerrilha urbana ou rural e missões envolvendo efetivos de grande preparo técnico, tático e psicológico, dotados de armamento e equipamentos especiais. Também ficava claro que a unidade seria afastada do policiamento de rotina – ou seja, ficaria afastada da missão de polícia.

Os elementos que se voluntariavam para a unidade tinham de ter passado por unidades de primeira linha das forças armadas, e passavam por um curso que nada mais era do que um estágio de operações especiais misturado ao treinamento do pessoal do Batalhão de Polícia de Choque, baseado em uma doutrina conhecida, na época como “Controle de Distúrbios Civis”.  

Logo de início o general envolveu-se numa polêmica estéril em torno do símbolo adotado pelo NuCOE, inspirado no distintivo de todas as formações de forças especiais militares: uma caveira trespassada por uma faca de trincheira. O símbolo fica sobre as duas pistolas de pederneira cruzadas da PM. Os grupo de direitos humanos implicaram com a proposta, associada ao fascismo (para piorar, o desenho ficava sobre um fundo preto). Após mais de dez anos, o BOPE foi criado em 1991, destinado a desenvolver “Operações de Policiais Especiais”.

O que é isso? Boa pergunta. Vejam o depoimento de um ex-oficial, e me digam se isso parece tarefa de polícia.

A Força de Incursão e Contato estava dividida em três patrulhas de combate: ALFA, BRAVO E CHARLIE, formadas por oito combatentes portando armas automáticas, como metralhadoras de mão e fuzis. A vanguarda tinha uma ponta-dupla, ou seja, dois homens seguiam sempre um pouco à frente, fazendo papel de reconhecedores-esclarecedores, uma missão mortal.

É como o nome diz, mesmo: “operações especiais”, de caráter totalmente militar. O jargão acima poderia perfeitamente descrever uma operação dos “Rangers” do Exército dos EUA, nas montanhas Tora-Bora (onde a lambança foi semelhante aquelas que o BOPE apronta, de vez em quando, por aqui) ou do SAS, na Guerra das Malvinas.

Vamos continuar no assunto depois, mas acho que já ficou claro que o pessoal dessa unidade se vê como se estivesse envolvido numa guerra, e parte considerável da população do Rio de Janeiro fosse constituída de inimigos a submeter. Quando pesquisava para esse post, descobri uma  entrevista de quatro anos atrás, com aquele capitão Pimentel, o tal da “Elite da tropa” (que deu origem ao filme), que me parece ainda um tanto atual, visto que mostra onde levou a militarização da questão da segurança pública.  Ou onde não levou.::

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4 pensamentos sobre ““Tropa de elite” ou “Bandido se combate com forças especiais?”::

  1. Eu lembro da participação do Pimentel no notícias de uma guerra particular, um dos grandes momentos foi ver um oficial do Bope admitindo que enquanto a polícia for o único repreesentante do estado que subir a favela não há solução.

    Inclusive ele confirmou uma impressão que tive ao ler “Abusado” do Caco Barcellos de que o problema do Rio é mais a fraqueza do estado que a força do crime. Repare que os traficantes nunca conseguem sustentar o conflito contra a polícia. Eles dão uns tiros, enrolam um pouco mas no final os policiais sempre botam os caras para correr ou se esconder.

  2. A mim parece que a fraqueza do Estado tb se manifesta não intenção, indicada pelo mns duas vzs (na Constituinte 88 e no gov Garotinho) de desmilitarizar a PM, sem conseguir. A questão é mais ampla, mas acho q passa por tirar da polícia o caráter militar – visto q, para começo, a corporação tem estatutos pps e está circunscrita à justiça militar. Qto à sua observação sobre a “fortaleza” do tráfico, acho q aí está um dos pontos. Basta fazer uma comparação do “body count”: em condições “normais”, sempre é da ordem de 5, 6Xnenhum.

  3. No mundo todo há uma força especial nas polícias, senão houver, não há apoio suficiente. Não é coisa de militar apenas, nem de época de “ditadura” militar. Aliás, aqui nunca houve ditadura, ditadura há em Cuba.

    • Reis,
      vc tem toda razão – todas as polícias do mundo têm forças de tarefa. O modo como ela foi formada é q é diferente – basta ver o q está escrito lá. E concordo tb q Cuba é uma ditadura, mas isso não muda as características do regime brasileiro entre 1964 e 1985.

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