Cultura material militar::Capacetes

parte3/3Esta é a última parte da última parte (até agora – fiquem atentos!..) e continuaremos falando sobre o stahlhelm, o “capacete alemão”. É interessante observar que ainda hoje em dia é uma das peças mais procuradas por colecionadores, sendo que alguns exemplares alcançam preços bem razoáveis, para um item de produção em massa. Depois do fim do bloco soviético, surgiram, naqueles países, notadamente na Polônia e nos Países Bálticos, grupos de “arqueólogos” especializados em encontrar relíquias da 2a GM, que acabam indo parar nas mãos de colecionadores norte-americanos, ingleses e canadenses. Existe também um indústria de cópias, feitas em diversos materiais (inclusive plástico), destinadas principalmente aos produtores de cinema e a reencenadores (reenactors). Trata-se de um curioso tipo de passatempo muito comum nos países de língua inglesa: um bando de marmanjos se junta e representa, em escala menor, batalhas de diversas guerras, ou até mesmo a vida em um quartel. Enfim, nada mais que a popular “brincadeira de soldado”, só que com equipamentos cujo preço total pode chegar até 15.000 dólares. Como diz o ditado, “o que separa os homens dos meninos é o preço de seus brinquedos“…::

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Parte 3.2 Uma vez iniciada a guerra, o capacete M35 passou, no início de 1940, pela primeira das poucas modificações que viria a sofrer. Destinada a facilitar o processo de produção, reduzindo o número de operações necessárias, mudou o orifício de ventilação, que passou a ser uma simples perfuração, perdendo o complicado acabamento de fábrica. Entretanto, essa mudança dificilmente seria percebida sem muita atenção, mesmo pelos usuários. Essa *nova versão foi denominada “M40”. Pequenas mudanças incluem a diminuição drástica no uso de decalques – as tropas tendiam a implicar com as insígnias nacionais – e o surgimento de padrões de pintura não usados até então.
Mudanças radicais só viriam a aparecer em 1942. O estabelecimento da política de “guerra total”, supervisionada por Albert Speer, levou a que uma enorme gama de processos industriais fosse auditada, para simplificação e economia. As fábricas que produziam capacetes receberam instruções para eliminar as bordas viradas para dentro, resultando num acabamento mais grosseiro, no qual o corte da chapa passava a ser virado para fora e com polimento bem menos cuidado. O tempo de produção de cada artefato, em conseqüência, foi grandemente reduzido. Paralelamente, o uso de dois decalques (insígnias nacionais e de corporação) foi quase eliminado, mantendo-se, em geral, apenas o de corporação. Outra mudança notável foi a diminuição da qualidade da carnera e da jugular, providências tomadas para economizar couro. O M42 seria o modelo usado pelas forças armadas alemãs e serviços auxiliares pelo resto da guerra.

Uma das variantes mais interessantes do stahlhelm, e que se tornou também, após a guerra, bastante rara, é o capacete de pára-quedista (ou em alemão, Fallschirmjäger). É basicamente o modelo 1935/40, do qual foram eliminados o visor e a proteção para o pescoço. Essa versão foi denominada *M37/38, e também se caracteriza por uma carneira e jugular almofadadas. Um detalhe pouco conhecido é que haviam pára-quedistas do exército e da Luftwaffe, de modo que é possível observar capacetes especiais com cores e dacalques de ambas as corporações. Não existe certeza sobre os motivos que levaram às modificações no stahlhelm e resultaram no “capacete de pára-quedista”. Algumas fontes falam de uma tentativa de diminuir o peso do conjunto; outras, em acidentes motivados pelo arrasto provocado pelo formato do protetor de pescoço. É possível que ambas as razões sejam corretas.

Embora as cores básicas do capacete alemão sejam aquelas mencionadas na primeira parte deste artigo, uma grande variedade de padrões surgiu no decorrer da guerra, principalmente padrões de camuflagem. Esses padrões de pintura se tornaram comuns após o primeiro inverno na Frente Oriental, que levou a Wehrmacht a providenciar equipamentos mais adequados para as condições de combate naquela frente. Coberturas de tecido, praticamente inexistentes até então, passaram a ser distribuídas em grande quantidade. Ainda assim, as tropas em campanha não se acostumaram muito rapidamente a usá-las. Antes da primavera de 1942 era mais comum o uso de coberturas pela SS militarizada, as Waffen SS (ao pé-da-letra, “SS armadas”), enquanto tropas do exército preferiam *pintar os capacetes, hábito observado desde o início do conflito e que persistiu até o término da guerra. Também era comum que as tropas regulares usassem redes de camuflagem ou até mesmo telas metálicas cobrindo seus capacetes. Depois de 1941, um tipo de tinta removível foi distribuíd0, principalmente na Frente Oriental, durante o inverno.

Para terminar, vale chamar atenção para os capacetes que passaram a ser distribuídos, depois de iniciada a guerra, para o pessoal da Guarda Anti-aérea (Luftschutz), policiais, tropas auxiliares da SS, bombeiros e membros de serviços civis. Esses capacetes eram, em geral, diferentes dos modelos entregues aos militares. O material era mais leve e de menor espessura e o acabamento, muito grosseiro. Os capacetes de bombeiro eram providos de um ressalto de ventilação, feito de alumínio, que os torna completamente diferentes dos outros.
É impossível calcular quantos capacetes foram fabricados pela Alemanha durante a 2a GM. Não existe sequer documentação que identifique com segurança as fábricas que os produziram, mas sabe-se que subiam a mais de 200, distribuídas por toda a Europa ocupada. No periodo final da guerra, a manufatura tinha sido muito simplificada, e grandes estoques foram descobertos pelas tropas aliadas. O exército da Alemanha Oriental chegou a usar, durante algum tempo, stahlhelms obtidos de estoques capturados. Em meados dos anos 1950, *um novo desenho, claramente uma tentativa de manter a tradição do stahlhelm, foi adotado. O *Exército do Chile, que, entre 1931 e 1937 foi treinado por uma missão militar alemã, também adotou o stahlhelm – e o uniforme alemão -, e, até recentemtne, ainda o usava em ocasiões cerimoniais. Muito adequado, para o exército que deu ao mundo a figura adorável de Augusto Pinochet…::

O filminho mostra a busca por relíquias in situ. Pela “técnica de escavação” do sujeito, pode-se notar que ele é tão arqueólogo quanto eu…::

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Um rapaz (das Forças Especiais) às Terças::

Sniper, Regimento de Cavalaria Mecanizada 278, Iraque. Rifle de precisão M21 cal. 7.62X51 mm, com Telescópio de Alcance Ajustável Leatherwood 3X9

Atirador de escol, Regimento de Cavalaria Mecanizada 278 (Guarda Nacional do Teneessee), Iraque. Rifle de precisão M21 cal. 7.62, com Mira Telescópica de Alcance Ajustável (Adjustable Range Telescope, ou ART, em inglês) Leatherwood Opticals 3X9 e monopé recolhido. Trata-se de uma versão do fuzil automático M14 padrão com coronha em material leve.

Uma fortificação, posto que é Segunda::Ehrenbreitstein::

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A Fortaleza de Ehrenbreitstein (ao pé da letra, “a venerável rocha”) foi construída como pedra angular do sistema de fortificações de Coblença (Festung Koblentz), pelo governo real da Prússia, entre 1817 e 1832. O sítio era local de um castelo, pelo menos desde o século 11, com função de guardar a região do Médio Reno, área que permitia o acesso ao interior da atual Alemanha e tinha sido invadida por tropas francesas diversas vezes, até então. Sob a autoridade do arcebispo de Coblença, a fortaleza foi, no final do século 16, expandida. Ao longo dos séculos 17 e 18, sucessivos arcebispos se valeram de sua posição estratégica para influenciar as contendas políticas regionais, que geralmente envolviam França e Prússia. Em 1672, no início da Guerra entre França e o Brandenburgo, o chefe religioso recusou-se a atender ultimatos dos enviados tanto de Luís XIV quanto do embaixador de Brandenburgo, que exigiam permissão para que tropas cruzassem o Reno. Em 1794, tropas do governo francês revolucionário tomaram Coblença, depois de um cerco de quase um ano. As tropas francesas não tentaram, então, nenhuma ação ofensiva, mas apenas deixaram que a fome derrotasse os defensores. Em 1799, a fortaleza foi entregue à tropas francesas, que destruíram o castelo antes de partir, em 1801. Depois da derrota de Napoleão, o Congresso de Viena colocou a Renânia sob a autoridade da Prússia. Os prussianos consideravam a fortificação da área de Coblença como prioritária, devido à sua proximidade com a França, e por constituir um gargalo no acesso ao interior da região. Em torno da cidade foi construído, entre 1817 e 1834, um sistema de fortificações, que passou a ser chamado a “Fortaleza Coblença”. Ehrenbreitstein era parte desse sistema. A partir de então, difundiu-se a idéia que se tratava da maior fortaleza da Europa Ocidental. De fato, é um engano: as proporções da Festung Ehrenbreitstein são até um tanto modestas, a começar por sua guarnição, de 1200 homens. Apesar de sua importância e imponência, Ehrenbreitstein nunca foi atacada até sua desativação, como estrutura militar, em 1890. Durante a 2ª GM, serviu como depósito de documentos e obras de arte e posto de comando de bateriais anti-aéreas.::

Duas frases para pensar::Afinal, é Sexta-feira::

causa:: pretende, nesta sexta-feira dar elementos para que seus os leitores parem de pensar nos iranianos com base no mau-humor do presidente da República Islâmica. O Irã é um país de gente muito bem-humorada…::

Se o homem que casou com uma prima-irmã cometer adultério com a mãe dela, o casamento não será anulado.

O guerreiros de Allah são capazes de parar tanques com seus peitos. Suficiente é que acreditem nisso.

 É absolutamente proibido dissecar o corpo de um muçulmano, mas a dissecação do corpo de não-muçulmanos é permitida.

Ayatollah Ruhollah Khomeini (1900-1989), lider espiritual e político iraniano e primeiro ativista a conseguir fazer uma revolução por telefone.

Não há uma só coisa sobre a face da Terra que não possa ser feita retamente, e isso significa fazer segundo os ditames da Lei.

Aiatollah Ali Khamenei, falando a uma classe de futuros engenheiros na cidade de Isfahan

Certa vez apareceram uns religiosos aqui. Alguém tinha lhes dito que não estávamos cumprindo os ritos direito. Nós os tratamos respeitosamente e os pusemos para voar em um Lear Jet. Eles nos abençoaram, foram embora e não tivemos mais problemas com a religião.

Capitão Ahmad Sahedi, Força Aérea da República Islâmica do Irã

Recordar é viver::Anos 70: Détente, SALT e outros quetais::

   

Pois é – eis um post de que gosto muito, pelo estilo. Não me lembro bem quando publiquei pela primeira vez, mas lembro que resultou de um dos debates que tínhamos no falecido Weblog, aquele de nosso desaparecido Pedro Doria. Na época, eu estava entusiasmado por ter arrumado o xerox de um livro de Henry Kissinger – Diplomacy – um calhamaço enviado por um amigo que passava uma temporada em Yale. Acabei não lendo, a coisa está atravancando a estante, e acabou que o livro foi lançado, tempos pouco tempo depois, em nossa língua. Um pouco mais cedo, eu o olhava na vitrine de uma das ubíquas “Leitura”, aqui em Belo Horizonte. Comentei com minha mulher – que demonstra grande paciência com minha mania por impressos de todos os tipos: “Eu o comprarei, mas não agora…” Agora, fiquem com as duas partes do post, visto que ainda não finalizei a novela dos submarinos::

Parte 1/2:: Por que o mundo de hoje é como é? Imagino que uma pessoa que tenha vivido os anos 1960 talvez estranhe o clima de instabilidade localizada que vivemos hoje. Nos “fabulosos sessenta” alinhavam-se duas superpotências, uma ameaçando a outra – e à humanidade – como a incineração nuclear instantânea. Por trás das duas, duas zonas geopolíticas de influência, cujos limites eram mutuamente respeitados. E também havia uma espécie de quintal comum, mais conhecido como “Terceiro Mundo”, onde as superpotências disputavam, de maneira atroz, quem iria mandar.

É claro que, para pensar essas coisas, essa pessoa que estou imaginando teria de saber que o palco geopolítico ainda era – digamos… –, em 1968, resultado da estabilidade conseguida pelos vencedores da 2ª GM. Ao longo daqueles 23 anos, a estabilidade fora não apenas mantida, mas aprofundada. Os dois principais atores aprenderam como não deixar que conflitos localizados, como a Guerra da Coréia, os choques no Oriente Médio, a crise de Cuba e a Guerra do Vietnam acabassem por se transformar em conflito generalizado; aprenderam que a ameaça de destruição mútua, por mais paradoxal que pudesse parecer, era a melhor forma de se ter alguma segurança de que o desastre não aconteceria. Absurdos concretos se tornaram ícones dessa estabilidade – a existência de uma cidade enorme dividida em duas por um muro; um país insignificante desafiando com sucesso uma das superpotências, separado dela por 180 quilômetros de água. No entanto, os dois blocos pareciam atuar de forma mais ou menos articulada: Brasil e Coréia do Sul, ou Tchecoslováquia e Coréia do Norte, por exemplo, não faziam exigências aos EUA ou a URSS. Ao contrário, pareciam adaptados ao papel de soldados em uma guerra perene. Chegavam a declarar-se “vencedores” de batalhas imaginárias uns contra os outros.

O próprio contexto por si mesmo apresentava-se como um paradoxo: uma “guerra fria”. Uma guerra com inimigos, estratégia, mobilização, armas e batalhas; e tréguas. Mas uma guerra em que fronteiras eram respeitadas e as batalhas quentes, com tiros e mortes, eram cuidadosamente mantidas restritas.

Os paradoxos eram generalizados: boa parte dos “povos-soldados” nos dois lados era mantida apartada de níveis mínimos de liberdade (pela qual dizia-se lutar) e sem perspectiva visível de prosperidade (a qual, dizia-se, seria geral após a “vitória final”). Mas a vitória final não estava à vista, apenas num virtual horizonte em direção ao qual, afirmavam dos dois lados, os ideólogos, movia-se, inapelavelmente, a história. Até que se completasse esse movimento, e ambos os lados diziam que se completaria confirmando as próprias idéias, o que se deveria buscar era a estabilidade. Por mais injusta que essa fosse. Isso significava manter e apoiar o statu quo ante (o a corruptela “status quo”, termo latino traduzido por “estado existente” que, em 1968, essa pessoa de que falo talvez não conhecesse a tradução exata, mas saberia o significado geral), ou seja, a situação política e social interna não apenas das superpotências, mas também – e tão importante como – das nações coadjuvantes.

Esse contexto paradoxal não livrava o mundo das crises. Em mais de uma oportunidade, os mísseis foram armados e apontados – em 1962 e 1973, por exemplo. As superpotências rosnavam uma para outra e confrontos surgiam o tempo todo, mas a possibilidade de que um desses acabasse degenerando na crise final, gerava mais um paradoxo: se mantinha abertos canais de diálogo e a possibilidade de cooperação.

Paradoxo em cima de paradoxo, essa tal pessoa, vivendo lá no mundo de 1968, talvez considerasse, naquela época, moralmente discutível, mas legítima, a situação geral de “libertícidio” (termo, segundo consta, criado pelo teatrólogo Berthold Brecht, diante da sangrenta repressão à revolta de Berlim, em 1953) e de opressão. E talvez até concordasse com Henry Kissinger, que afirmava – “legitimidade não deve ser confundida com justiça”.

Pois em função da legitimidade criada pela estabilidade, valia à pena tolerar o sacrifício da liberdade e a violação maciça de direitos humanos, de ambos os lados. Os EUA viam como legítima a derrubada e assassinato de um presidente eleito democraticamente e a morte, a sangue frio, de milhares de seus seguidores; a URSS considerava legítima a invasão militar de qualquer de seus aliados (!!!), diante de uma ameaça de mudança no tal statu quo ante. Assim, não é de se estranhar que a situação tivesse evoluído até o paradoxo absoluto de que os lados adversários passassem a considerar como legítima a pretensão de estabilidade interna do outro: “A invasão da Tchecoslováquia nunca chegou a ser assunto de guerra ou paz entre nós e a União Soviética, por mais ignóbil que possa parecer”, afirmou aos jornalistas o Secretário de Estado de Lyndon Johnson, Dean Rusk.

O problema é que a situação paradoxal de sacrifício da liberdade em nome da liberdade futura, da justificação da opressão em nome da luta contra a opressão, da privação como promessa da fartura e da guerra permanente como pressuposto da paz, acabava criando tensões. Não importa como essas tensões se manifestavam ou como eram tratadas pontualmente, mas o fato é que as autoridades, por toda parte do mundo, consideravam que a estabilidade na tensão, e não a paz, era o valor absoluto a ser buscado e alcançado. “A tentativa de um lado de impor uma justiça absoluta será encarada pelo outro como absoluta injustiça. A estabilidade depende da relativa satisfação e, portanto, da relativa insatisfação dos vários estados.” Palavras de Henry Kissinger::

Cultura Material militar::A linhagem FAL::

Certa vez, tive a oportunidade de ter nas mãos um FAL. Claro, todo mundo que já teve oportunidade de assistir uma parada de 7 de Setembro, ou, mais recentemente, mora no Rio de Janeiro, sabe do que falo. Confesso que, na época, não gostei muito do FAL: pareceu-me muito comprido e muito pesado. Mas naquele tempo eu ainda não sabia muita coisa, mesmo.

O FAL é um clássico, no mesmo nível do StuG44 e do AK47. Surgiu, de fato, um pouco depois, mas era uma peça destinada ao sucesso. Vamos contar essa história em capítulos.::

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Um clássico...

Um clássico...

 

Parte 1/3 Em 1947 fazia dois anos que a 2a GM tinha terminado. Os estados europeus, ainda as voltas com todos os problemas ocasionados pela maior guerra da história, tentavam se rearrumar. Alguns desses estados eram proprietários de complexos industriais que estavam razoavelmente intactos, e poderiam voltar a produzir rapidamente, o que era necessário em função da situação econômica próxima da catástrofe. No caso da Bélgica, um desses complexos era a estatal Fabrique National d´Armes de Guerre, em Herstal, cidadezinha próxima de Liége. O objetivo era chegar primeiro no grande mercado que se abria, com a necessidade criada pela reorganização, nos diversos países libertados, de suas forças armadas e policiais.

A questão central é que, já antes de estourar a 2a GM, estava claro que certos tipos de armamento estavam obsoletos. Um desses era o fuzil de ferrolho, amplamente utilizado na 1a GM, e cujos enormes estoques tinham adiado sua aposentadoria. Antes de 1939, algumas nações já investiam na pesquisa e produção de fuzis semi-automáticos – os EUA tinham introduzido o Garand em 1939, e os russos já distribuiam o SVT-38. Durante a guerra, a excelência do Garand e a surpresa provocada pelo Tokarev STV-40 levaram os alemães a tentar, sem grande sucesso, complementar os milhões de Mausers com uma arma semi-automática. Os britânicos fizeram algumas experiências com o SMLE, mas a situação não permitia maiores ousadias. 

Logo depois da guerra, em 1946, a FN começou a desenvolver vários projetos de armas portáteis, dentre os quais um fuzil semi-automático e um novo modelo de fuzil de assalto. O primeiro, projeto iniciado antes da guerra, foi concebido para projeteis convencionais de alta potência e resultou num modelo de fuzil muito bem sucedido, o SAFN-49 (Semi-Automatic Fabrique Nationale modelo 1949); o segundo se baseava no projétil 7.92X33 mm, desenvolvido pelos alemães durante a guerra. Este último projeto, entretanto, não foi adiante em função de problemas de patente, mas em 1947, alguns protótipos estavam prontos para a fase de testes. Os britânicos, tendo testado a nova arma, solicitaram ao engenheiro Dieudonne Saive (sucessor, com todas as honras, do grande John Moses Browning, como líder da equipe de projetos da FN), que a redesenhasse para uso de um cartucho intermediário que estava então em desenvolvimento. Esse cartucho, 0 .280 British, vinha se saindo muito bem em testes, mas bateu de frente com o confuso ambiente da segunda metade dos anos 1940, no qual diversas idéias disputavam a futura padronização das armas de infantaria. Como, nessa época, estava claro que os EUA teriam a liderança militar do mundo não-comunista, os olhos da indústria voltavam-se para lá.

E a tendência, na América, era por munição de maior potência. A doutrina do Exército dos EUA, amplamente difundida durante a guerra, estabelecia que o uso de armas semi-automáticas (no caso, o *Garand) disparando projeteis de alta potência, dava a medida do poder de fogo necessário para o combate de infantaria. Nesse combate, o tiro automático era um complemento. Assim, os planejadores norte-americanos viam com grande desconfiança as idéias britânicas em torno de armas portáteis plenamente automáticas, que exigiam a redução da potência da munição. Não havia, assim, nenhuma urgência para a substituição da munição Springfield .30-06 (7.62X63 mm modelo 1906) e do onipresente Garand M1- que, anos depois, ainda seria arma-padrão da infantaria dos EUA. Ainda assim, os norte-americanos admitiam que esse rifle semi-automático tinha limitações, e todas elas apontavam o dedo para a munição Springfield: era muito pesada e limitava tanto a carga da arma quanto o número de recargas que cada soldado poderia transportar. Diversas experiências foram feitas, ainda durante a guerra tentando contornar esse problema, algumas buscando criar uma versão automática do Garand. Outros testes examinaram uma possível versão militar do cartucho .300 Savage, projetado nos anos 1920, e que mostrou desempenho apenas ligeiramente menor do que o Springfield. O Savage tinha, entretanto, uma vantagem – era mais curto e mais leve do que o outro. Esse projétil ganhou a notação T65 (de test), que atendia as requisições do Exército de alcance e potência equivalentes ao Springfield. Logo começaram a aparecer propostas de armas projetadas para a nova munição. Essas propostas convergiram para o protótipo T44, apresentado no início dos anos 1950, e ficou então claro que os EUA não iriam aderir à idéia de um calibre intermediário.

Nessa época já havia um poderoso fator para inflamar a disputa: em 4 de abril de 1949 tinha sido criada a NATO, pelo Tratado do Atlântico, organização de defesa mútua da Europa Ocidental. A organização discutia a estandartização do armamento dos países membros, o que significava a possibilidade de um enorme mercado consumidor.  

Diante da insistência dos EUA em torno do uso de munição T65, e do posicionamento do Canadá por uma arma padronizada, em 1950, os ingleses propuseram aos EUA que testassem tanto o modelo EM2 quanto o FN, ambos adaptados para o cartucho .280 contra o protótipo T25, concebido para o projétil T65. O EM2, apesar de apresentar ótimo desempenho, foi considerado como ainda passível de desenvolvimento; o FN (já a essa altura denominado Fusil Automatique Legére – FAL) foi considerado excelente, de modo que os norte-americanos propuseram que a FN apresentasse um protótipo desenhado para usar o cartucho T65. Os meses seguintes levaram as negociações a um impasse, com as partes britânicas e norte-americanas fazendo pressão pela adoção de suas propostas.

Ainda que de forma vacilante, os belgas resolveram desenvolver o protótipo solicitado pelos EUA. Com a crescente intransigência britânica, provocada por questões de política interna, a FN decidiu por uma proposta radical: ofereceram o FAL aos EUA, para produção livre da necessidade de pagamento de royalties, desde que, se selecionada, a arma não fosse exportada para a Europa. Ao mesmo tempo, os britânicos abandonaram as negociações e adotaram o *EM2 como sua nova arma-padrão, decisão que, entretanto, não durou muito. O Partido Trabalhista perdeu as eleições locais e o novo governo, liderado por Winston Churchill, parecia ter duas obsessões: agradar os EUA e economizar.  Pouco depois, Churchill e o presidente dos EUA, Truman,  chegaram a um acordo: os britânicos aceitariam o cartucho T65 como padrão da NATO, desde que os norte-americanos aceitassem o fuzil belga como arma-padrão da NATO. A FN vinha fazendo testes e introduzindo pequenas mudanças no desenho norte-americano que, de fato, foi, em 1954, adotado como *7.62X51 NATO; os norte-americanos protelaram sua parte no acordo enquanto puderam, insistindo que a nova arma precisava de mais testes. Os EUA nunca chegariam a adotar o FAL, e, anos depois, acabariam optando pelo protótipo T44, que, de fato, era um Garand automático, e recebeu a notação militar M14. Nesse meio tempo, diversos outros países-membros da NATO adotaram o FAL.

O M14 não durou muito, mesmo considerando a teimosia dos militares e políticos dos EUA com o cartucho de alta potencia. O FAL tornou-se, nos dez anos seguintes, um dos mais bem-sucedidos produtos da indústria militar do pós-guerra, juntamente com o AK47, que fazia o mesmo papel no Pacto de Varsóvia.::

Um rapaz (das Forças Especiais) às Terças::Dragões das Minas::

E já que hojé é dia 21 de abril…::

Tiradentes em uniforme da Regimento de Dragões das Minas. Imagem (muito idealizada) de José Washt Rodrigues, 1940

Tiradentes em uniforme da Regimento de Dragões das Minas. Imagem (muito idealizada) de José Washt Rodrigues, 1940

O nome “dragão” (em inglês dragoon) refere-se a um soldado de cavalaria leve, em oposição às tropas de “cavalaria couraçada”. Essas tropas descendem da cavalaria auxiliar que, no início da Idade Moderna, dirigia-se ao campo de batalha montada, mas combatia a pé, como infantaria. A partir do século XVI, com a disseminação de armas de fogo e de lançadores de flechas mecânicos extremamente potentes (chamados *bestas), tropas couraçadas começaram a sumir dos campos de batalha, e a cavalaria, em particular, ganhou novas missões: reconhecimento e incursões de flanco. Portavam armamento consideravelmente mais leve, como arcos, sabres, lanças e armas de fogo adaptadas para serem usadas com uma única mão.  As armaduras, durante algum tempo usadas por *tropas a pé, no início do século XVIII, tinham sido totalmente abandonadas, por não proverem proteção eficaz contra armas de fogo. Foi mantido apenas o capacete, em metal ligeiro, dotado de uma crista rígida destinada a prover alguma proteção contra golpes de sabre. No Brasil colonial [para mais informações sobre a defesa da colônia, clique aqui], essas tropas eram, em geral de*milícias“, ou seja, tropas da “2a linha”, que complementavam a “1a linha”, ou seja, o exército profissional. Essas tropas tinham organização parecida com  do exército, mas eram providas por pessoal local, moradores das freguesias em torno da sede.::