“Tropa de elite” ou “Bandido se combate com forças especiais?”::Parte 2::


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Estávamos falando do BOPE e de suas “táticas de combate urbano”. E eis que o ex-prefeito César Maia divulgou, ontem (31 de março), a foto que tomei a liberdade de reproduzir. Mostra algumas das “baixas em combate” do “outro lado”. Segundo notícia do jornal “O Globo”, 11 (isso mesmo, o-n-z-e) “corpos de homens”, supostos traficantes, mortos pela polícia nos acontecimentos do fim-de-semana passado, no bairro carioca de Copacabana. Segundo a notícia, uma outra foto mostraria policiais sorridentes diante de 4 corpos, um deles mutilado. O ex-prefeito chama atenção para “evidentes sinais de sadismo”. Ora, quem pretende se meter em casa de maribomdo e não ser picado não sabe o que faz: mutilar corpos de adversários mortos é, simbolicamente, uma forma de subjugá-los de maneira absoluta – aprisionar-lhes o poder. Era prática comum nas guerras antigas, e nunca foi eliminada, na guerra moderna, principalmente nas formas de contra-insurgência. Basta lembrar o coronel Jaime Nevese seus “Caçadores Especiais”, que faziam colares com as orelhas dos guerrilheiros do MPLA; ou talvez dos ingleses cortando cabeças de guerrilheiros malaios para enfeitas seus veículos… Por que seria diferente, com a PM carioca? É onde está nos levando a opção repressiva e a militarização do problema da segurança pública. O interessante é que nem mesmo em áreas de guerra aberta, como a Colômbia, essa solução mostrou-se efetiva. As autoridades cariocas parecem agora interessadas nas práticas adotadas em centros urbanos colombianos, como Bogotá e Medellin, nos quais a inclusão cidadã das populações das periferias mostrou-se bastane eficaz. Por outro lado, desmilitarizar a polícia, instituir ações conjuntas tanto de inteligência quanto de enfrentamento, realizar campanhas de esclarecimento – enfim, adotar políticas inteligentes na abordagem do problema das drogas é outro lado da moeda. São essas as operações especiais de que precisamos.    

Mas, enquanto não acontecem, vejamos alguma coisa das outras operações especiais, as militares. São operações não-convencionais destinadas a obter o máximo de ganhos com o mínimo de custos. Operações geralmente planejadas sem levar em consideração os aspectos formais da guerra: manobra, emassamento, desdobramento, buscando submeter o adversário e seu território. As operações que buscam esse objetivo são operações convencionais, travadas por forças convencionais: infantaria, artilharia, cavalaria (claro, hoje em dia, isso quer dizer veículos motorizados, terrestres ou voadores). As “forças especiais” não buscam, em princípio, submeter nada; não manobram como as tropas convencionais; não contam com apoio de artilharia ou aéreo. Atuam com base na ação furtiva e na surpresa, na velocidade e na improvisação. Chegam até o inimigo se infiltrando, buscando provocar-lhe danos e então se retirar – fugir mesmo. “Bata e corra”, diz um dos motes das Forças Especiais; “rápido, silencioso, mortífero”, diz outro.

Para isso, usam meios não-convencionais. O treinamento de tropas especiais dá ênfase à criatividade e ao inesperado. O soldado dessas forças é, geralmente, voluntário, selecionado por características físicas e intelectuais acima da média. Como as OpEsp buscam o máximo de ganhos com o mínimo de custos, isso significa muito “investimento”, ou seja, treinamento contínuo, visando prever situações de ação, imprevistos, riscos e dispor de táticas para cada uma das eventualidades. A hierarquia é, para essas forças, é mais do que o elemento estruturador da cadeia de comando: é o catalisador que possibilita à equipe agir como equipe.

As Forças Especiais surgiram, sem esse nome e nem o conceito, na 1ª GM, com a criação das “Tropas de Choque” (Stosstrüppen), ramo especializado da engenharia de combate do Exército do Kaiser. Essas tropas, que geralmente alistavam à força presidiários militares, surgiram na fase final do conflito, com a função de infiltrar linhas de trincheiras e abrir brechas por onde a infantaria convencional pudesse penetrar. Na 2ª GM, o Exército Britânico formou companhias independentes, denominadas commandos. Essas tropas foram formadas logo após a expulsão dos ingleses do continente, e originalmente tinham por função executar operações de reconhecimento e assédio. Os Commandos do Exército Britânico eram unidades de pequena dimensão, altamente treinadas e móveis, capazes de transportar todo o armamento, equipamento e suprimentos. As operações dessas unidades eram planejadas para durar não mais de 36 horas. Por volta de 1942, norte-americanos, canadenses e australianos formaram suas tropas especiais, cujos métodos eram copiados dos commandos britânicos.

Depois da 2ª GM, praticamente todos os exércitos do mundo formaram unidades de forças especiais. O Exército dos EUA, ainda durante a guerra, tinha formado unidades destinadas a “operações cobertas”, por determinação do “Departamento de Serviços Especiais” (em inglês, Office of Special Services – OSS), órgão supramilitar cuja função era coordenar as atividades de informações e inteligência das diversas agências do governo dos EUA. Isso significa que o OSS (que viria a ser o embrião da CIA) recolhia e analisava informações, e, com base nelas, estabelecia diretrizes que pudessem contribuir para a vitória. Englobava órgãos de inteligência militares e civis, e estava diretamente subordinado ao comando conjunto das forças armadas dos EUA. Entre 1943 e 1945, o OSS recrutou espiões, recolheu informações e treinou líderes politicos da resistência em países ocupados. Mas também organizava o treinamento de forces militares em Guerra contra os japoneses, enfatizando ações de guerrilha, sabotagem e guerra psicológica. Foram atendidas até mesmo as guerrilhas comunistas do Exército Popular de Mao Tse-tung e do Viet Mihn.

O contato com esses irregulares mostrou aos estrategistas do Serviço a eficácia das táticas não convencionais. Algumas das unidades do OSS foram criadas e treinadas para ações diretas similares às cumpridas pelas unidades especiais do exército. Eram essas unidades que se infiltravam no território inimigo para treinar e liderar guerrilhas. Entre essas, os “Grupos Operacionais” do OSS , geralmente empregados em missões de resgate de prisioneiros e ações diretas, são considerados os antecedentes diretos das Forças Especiais do Exército dos EUA.

As Forças Especiais foram amplamente usadas durante a Guerra do Vietnam, passando a ser conhecidas como “Boinas Verdes”, embora não exista uma unidade com esse nome ou peça de uniforme (a boina das SFU é, em geral, preta ou, no caso de tropas pára-quedistas, carmim). Essas tropas eram usadas em operações de reconhecimento, guerra não-convencional, contra-guerrilha e operações psicológicas. Era comum que suas missões tivessem aberto caráter político e buscassem infiltrar observadores e recrutar colaboradores.

As táticas não-convencionais das Forças Especiais chegaram, de forma indireta, ao meio civil com a criação, em 1968, de unidade especial de intervenção, inicialmente chamada Special Weapons Atack Team, nome depois modificado para Special Weapons, Arms And Tatics. O acrônimo, entretanto, continuou o mesmo – SWAT.

De fato, não existe continuidade entre as Forças Especiais e a unidade SWAT criada no estado da Califórnia, para lidar com eventos em que suspeitos portassem armas militares. Alguns dos policiais das primeiras unidades SWAT eram, de fato, veteranos do Vietnam, e os armamentos postos à disposição da unidade eram armas militares adaptadas. Entretanto, o treinamento era bem diferente do treinamento militar e levava em consideração o fato de que o teatro de operações (no caso policial, chamado de “cenário”) era o meio urbano e os adversários, civis. O que se assemelhava era o regime de treinamento, extremamente rigoroso.O primeiro emprego da SWAT que se tornou amplamente conhecido foi um enfrentamento, acontecido em dezembro de 1969, contra um grupo de ativistas “Panteras Negras”. O tiroteio durou 4 horas, mais de 5000 tiros foram disparados, mas ninguém morreu (três guerrilheiros e três policiais ficaram feridos). Entretanto, as táticas usadas pela SWAT foram consideradas ineficientes, parcialmente porque alguns dos ativistas tinham treinamento militar e os policiais temiam perder o controle da situação. Após esse incidente, ficou claro que o SWAT era uma boa aquisição para a polícia, mas que suas táticas e armas teriam de ser repensadas. Embora as unidades SWAT sejam parte, atualmente, das polícias de quase todas as grandes cidades dos EUA (nos EUA, os departamentos de polícia são responsabilidade municipal, com custos divididos entre governo estadual e municipal), nos últimos anos o caráter militar dessas unidades tem sido fortemente criticado. Incidentes recentes, como o massacre de Columbine, tem levado algumas cidades a experimentar treinar todos os policiais em táticas especiais. Existem divergências quanto a eficácia dessa solução; alguns especialistas tem proposto que unidades especiais sejam postas sob responsabilidade estadual, solução ainda mais polêmica.::

 

 

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10 pensamentos sobre ““Tropa de elite” ou “Bandido se combate com forças especiais?”::Parte 2::

  1. bitt,

    Perfeita a análise e o histórico.

    Em que pese o apelo midiático e fácil, do filme Tropa de Elite que, sim, aponta questões recorrentes como a corrupção entre os policiais e, além disso, toda uma rede de relações sociais que acabam por se estabelecer nas favelas, incluindo especulação imobiliária, que corre solta e otras cositas más, tendo a concordar com algo que li nos comentários anteriores (do Renato, acho) sobre a pálida presença do Estado nessas áreas.

    Por outro lado, pelo que tenho lido, o Cabral pensa em construir, vejam só, um muro, separando a favela dos bem-nascidos, como se esse muro não estivesse construído tempos atrás, ainda que não de forma física.

    Daí, pensar em resolver, de fato, as questões da cidade, passa por pseudo-soluções, como a construção de muros que só nos aproximam, por exemplo, de Israel querendo segregar (e conseguindo mesmo!) palestinos, e Europa e EUA, condenando os segregados, muitas vezes à morte, como se viu recentemente na Europa.

    Abraço

  2. Pensa não – está construindo. Já tentou uma cerca, e não deu certo. Nada indica q um muro vá funcionar, apesar da imprensa, por aqui gostar da idéia…

  3. bandido se combate com forças especiais sim,eu como um membro do BOPE sei muito bem como é a situação no Rio,onde só se entra com Caveirões.

    • Olha só – espero não ter dado a impressão equivocada de q sou contra a polícia. Pelo contrário. Mas imagino q a polícia tamb não seja contra a população civil. O grave da coisa é q o Estado tem de assumir seu papel e intervir nas comunidades desvalidas de modo a “mostrar quem manda”. Se não assume, está jogando TODA a responsabilidade na mão dos operativos, e esses é q vão comer fogo ns linha de frente.

  4. wagner,

    Acho muito interessante ouvir a opinião de alguém que está no meio do fogo. Gostaria realmente que falasse mais sobre isso.

    • Eu realmente tamb gostaria de ouvir mais alguma coisa de alguém do ramo. Esse o tipo de assunto q mostra como o debae sobre políticas de segurança passa em gde medida pelo aspecto técnico.

  5. Amigo parabéns pelo exposto assim somente um detalhe acredito que vc não tenha consciência da realidade da segurança pública no Brasil, vejamos alguns pontos, as principais tropas de operações especiais policiais no mundo são unidades militares e não civis, vejamos SAS, Comandos da Colômbia, BOPE no rio de janeiro, Carabineiros, entre outras, por um motivo obvio, o comprometimento com suas funções que abrange algo que vai alem de segurança pública, sendo acima de tudo uma ideologia de dever a cumprir, quanto as ações de guerrilha e contra guerrilha esta se faz com maior ênfase na guerra psicológica sim, o símbolo da caveira esta ai para isto, é conhecido no meio policial que o fator psicológico faz com que se evite a maioria do combate desnecessário, o que falta no Brasil para diminuir os conflitos é sem sombra de duvida este fator, pois veja, quando os marginais vêem o policial comum de área tende a entrar em conflito com este por não temer sua ação, porem basta ver um grupo do BOPE que evita o conflito, as operações especiais se baseia em grupos de reconhecimento, tudo iniciou ai, e o BOPE também faz parte disto, um pequeno grupo capaz de se infiltrar no terreno inimigo conseguindo informações e recrutando adeptos para seu país, hoje já se mudou isto vemos agora as ações de ONGs internacionais para desestabilizar um país e tomar este sem ao menos dar um único tiro, quanto aos atos de policiais perto de corpos e rindo, queria o que amigo, estamos em uma guerra, logo qualquer policial envolvido tende a se embrutecer e sofrer vários traumas psicológicos e distúrbios de personalidades que são necessários para a sua sobrevivência, queria o que, um cara que ta na maior troca de tiro ficar chorando se o cara que tava atirando nele morreu, quanto a Swat não faz paralelos para se discutir como ideal para nossa policia, pois ali só age em situações controladas, não entra em conflitos com estados paralelos e a única vez que entrou como o caso dos panteras negras não matou ninguém e ainda sofreu baixas logo provou que o treinamento civil é uma merda para parâmetros de guerra urbana. Prova maior que esta que nossa policia deva continuar militar com seus rígidos treinamentos acredito que não haja.

  6. Caro uniãopm,
    obrigado pela visita e pelo comentário. Acho q já disse a outro membro da corporação q tvz não tenha conseguido me expressar bem, e tenha deixado a idéia, equivocada, de que sou contra a polícia. De forma alguma! Como qq estudioso do assunto, sei q a polícia é uma instituição permanente de Estado, necessária em qq sociedade organizada. A questão não é esta. Também concordo com vc que unidades especiais de polícia são necessárias em qq instituição policial, de modo q não proponho, de forma alguma a extinção de unidades como o BOPE ou o GATE. Tb não discuto que o treinamento militar é parte integrante e necessária da formação dessas unidades. O q discuto é que treinamento militar e militarição são coisas completamente diferentes. A questão da segurança pública foi, em determinado momento, militarizada em nosso país, e mal militarizada – se podemos dizer pouco. Pq passar a considerar comunidades de onde o Estado se retirou como “inimigos”, como vc diz, realmente temos um problema, pq a questão é q somos todos brasileiros, inclusive esses caras. Se queremos viver em um estado de direito, de forma alguma podemos excluir cidadãos desviantes desse estado. Vc já deve estar pensando – “esse cara não sabe nada!”. Calma! Não estou, de forma alguma , dizendo q bandido deva ser tratado com beijoca. Bandidos armados têm de ser desarmados – é essa a função da polícia. Mas não se pode tratar essa gente só com polícia. É esse o caso, e é disso q eu estava falando. Esse espaço é curto para aprofundar a questão.

  7. o ideal disso tudo é q podemos dizer o q está errado blablabla…mas com o devido respeito não se faz um omelete sem quebrar alguns ovos.só acredita na guerra quem está no front.e se não fosse estas tropas de opesp vagabundo já teria dominado tudo.estes homens idealistas ainda estão tentando fazer a difernça.

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