Cultura Material Militar::A linhagem M16::


E já que estamos continuamos falando do assunto…

Renato Berlim, um dos cinco ou seis comentadores fiéis do causa:: levantou a questão sobre a arma empunhada pelos “rapazes” do Grupo de Resgate e Retomada (GRR) do BOPE. Já que o assunto da semana é o BOPE, mesmo, e a militarização da questão da segurança no Rio, resolvi pesquisar para ver que arma é aquela. Certamente não é o M16A2, pois esta é uma das versões da série M16, facilmente reconhecível. Imaginei que fosse alguma versão do *AR15, até hoje denominação usada pela Colt Firearms Inc. para suas carabinas civis, semi-automáticas (nos anos 1990, “AR15” quase virou sinônimo de “arma militar” nas mãos do tráfico carioca). Acabei descobrindo que se trata de um *M4A1 (quando * clique para foto), parte da série mais moderna de “descendentes” do fuzil automático M16. A M4A1 é uma carabina, ou seja, uma arma de cano encurtado (370 mm), disparo seletivo (tiro simples ou em rajadas), ação a gás e trancamento por ferrolho rotativo,com uma cadência de tiro de até 950 salvas por minuto. A M4A1 foi concebida em 1994 dentro da moderna doutrina de combate de infantaria, mas logo atraiu a atenção das unidades de forças especiais que utilizavam a versão militar do AR15, denominada CAR15 “Commando”. Ou seja, estamos diante de uma longa linhagem de armas. Vamos tentar traçar-lhe a trajetória.::

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 “AR” é acrônimo de “ArmaLite Rifle”, fuzil automático desenvolvido em meados nos anos 1950 pela empresa norte-americana ArmaLite Inc. O AR15 é a versão criada para usar o cartucho M193 5.56X45 mm, desenhado pela empresa Remington com base no esportivo .222 (nosso conhecido “vintidois”).

A adoção do calibre 5.56 tem uma historinha interessante. Em 1948 o Exército dos EUA considerava a idéia de adotar uma espécie de armadura para soldados de infantaria. A organização governamental encarregada (ORO – Operations Research Office) começou o trabalho analisando ferimentos de combate por projeteis de arma de fogo portátil. Os pesquisadores descobriram que a maioria dos encontros entre tropas de pequeno efetivo, notadamente esquadras e pelotões, não era planejada, acontecendo ao acaso. Nessas condições o número de impactos não dependia da pontaria dos atiradores pois o combate se dava a curta distância. Conseguia a vitória o grupo com maior poder de fogo e que disparasse primeiro. Essas conclusões sugeriam dotar a infantaria de armas automáticas, e que o treinamento devesse condicionar os soldados a dispararem suas armas em conjunto, de forma a aumentar o peso de fogo. Por outro lado, esse padrão de tiro aumentava o consumo de munição e obrigava cada soldado a transportar maior número de carregadores, com cartuchos bem mais leves do que os tipos disponíveis.

O problema é que a munição e os fuzis então existentes tornavam esse tipo de proposta inexeqüível. Em 1957, as forças armadas norte-americanas começaram a receber o excelente fuzil automático *M14, desenhado pelo Arsenal Springfield (fábrica de armas portáteis do govêrno dos EUA) em torno do cartucho 7.62X51 NATO. O M14 não passava de um *Garand M1 – arma padrão da infantaria dos EUA desde 1939 – modernizado. Apesar das qualidades evidentes o M14 era excessivamente longo (1,18 m), pesado (5,2 kg) e inadequado para situações de combate a curta distância. Era arma de outra época, em que o tiro de precisão era privilegiado.

O ArmaLite *AR10 apareceu em 1956, durante os testes conduzidos pelo Exército dos EUA para a escolha do novo fuzil padrão. Foi concebido em torno do cartucho 7,62X51 NATO e do sistema de ferrolho rotativo, um tipo de ação por recuperação de gás que iria se revelar, no futuro, ao mesmo tempo confiável e problemático.  Uma inovação notável nessa arma era o uso extensivo de materiais leves em sua fabricação – plásticos de alto impacto e ligas de alumínio. O conceito inovador do AR10 acabou comprometendo suas possibilidades de sucesso, visto que partes essenciais do sistema – como o cano em liga de alumínio – não tinham sido testadas e acabaram por se mostrar ineficazes. Na mesma época (1956-1957) a ArmaLite desenhou uma versão do AR10 “reduzida” para usar o cartucho M193, denominada AR15.

ArmaLite AR15 5.56 1958. Talvez uma das primeiras "aparições públicas" dessa arma tenha sido no (péssimo) filme The Green Berets (1968), nas mãos de John Wayne...

ArmaLite AR15 5.56 1958. Talvez uma das primeiras "aparições públicas" dessa arma tenha sido no (péssimo) filme "The Green Berets" (1968), nas mãos de John Wayne...

 O mau desempenho do AR10 nos testes do Exército tinha comprometido o modelo e, para agravar a situação, a ArmaLite entregou aos militares, em 1958, um lote experimental de AR15, que teve um desempenho ainda pior do que o do irmão mais velho. Diante desse novo fracasso e convencida da impossibilidade de sucesso do projeto, a empresa vendeu o pacote para a Colt, em 1959. Essa última investiu fortemente no desenvolvimento do AR15, oferecendo o modelo a diversas forças armadas ao redor do mundo como forma de demonstrar sua efetividade. No ano seguinte, a Força Aérea dos EUA resolveu adquirir um lote da nova arma sem realizar testes extensivos. Os defeitos eram muitos, mas as condições de demonstração, segundo se conta, foram cuidadosamente montadas para que esses de não aparecessem.

Em 1962, a DARPA (Defense Advanced Research Projects Agency) encomendou um pequeno lote de AR15, que, uma vez entregues, foram enviados ao Vietnam para testes. As condições de combate naquele teatro eram totalmente novas, e pareciam confirmar o resultado das pesquisas da ORO (que, a essa altura, já não existia mais). A guerrilha irregular estava extensivamente equipada com fuzis de assalto AK47 fabricados na China, que se revelavam sem comparação possível com os M14 e com as carabinas M1 disponíveis para os “conselheiros militares” norte-americanos e infantaria sul-vietnamita. Curiosamente, os primeiros relatórios sobre o desempenho da arma, repassados pelo Exército da República do Vietnam (ARVN, em inglês) foram animadores, e acabaram por fazer com que o Exército dos EUA, no ano seguinte, encomendasse 85.000 AR15, sob a denominação XM16E1. Essas armas foram distribuídas a partir de 1964, com especificações de uso baseadas principalmente nos relatórios vindos do Vietnam e da Força Aérea. Embora os motivos exatos da rapidez da adoção oficial sejam nebulosos, é possível que as condições de combate no Vietnam e o crescente envolvimento dos EUA naquele conflito tenham forçado a decisão; também correm histórias sobre pressões políticas exercidas pela Colt em Washington.

Não levou mais que um ano para que a decisão parecesse um “tiro no pé”. Entre 1965 e 1967, relatórios acompanhados por cientistas e engenheiros do Exército davam conta que novo M16 se mostrava frágil para as condições daquele teatro e não despertava a menor confiança nos soldados. Exames aprofundados revelaram que os problemas tinham sido aumentados por uma série de decisões equivocadas dos militares, aceitas pela Colt como forma de não prejudicar o contrato. Na prática, as especificações da munição tinham sido mudadas para aumentar a cadência de fogo: uma pólvora mais potente subia a pressão da expansão do gás e fazia o sistema funcionar mais rápido. O baixo peso da arma, entretanto, diminuía a precisão em modo automático e aumentava o desgaste das peças móveis de forma exponencial. Além do mais, a mudança complicou as exigências de manutenção de campanha. O AR15, em condições “de quartel”, exigia relativamente pouca manutenção, daí o Exército ter deixado de lado o treinamento da infantaria sobre como desmontar e limpar a arma corretamente. Para complicar, a entrada de água em quantidades moderadas, que se mostrava inócua no M1 e M14, era desastrosa no M16, chegando a fazer a arma explodir.

Colt M16A1 5.56 (1967) Qualquer um pode notar que não passa de um AR15 com outro nome.

Colt M16A1 5.56 (1967) Qualquer um pode notar que não passa de um AR15 com outro nome. Mas existem diferenças: note a cor do metal - o ArmaLite é em boa parte feito de alumínio, enquanto o M16A1 é feito principalmente de aço, daí a cor mais escura das partes de metal.

 O problema é que a velocidade com que os M14 foram recolhidos não deixou alternativa que não fosse o desenvolvimento do agora padrão *M16A1. A primeira providência foi o retorno às especificações da munição e o treinamento correto das tropas. Aperfeiçoamentos no projeto da arma, como a cromagem da superfície interior do cano e das peças do ferrolho melhoraram o desempenho geral e a resistência. A adoção de um carregador de 30 cargas, de plástico, foi exigência recolhida junto aos soldados.

No final dos anos 1970, já terminada a Guerra do Vietnam, a Colt resolveu testar o M16A1 com um tipo de munição 5.56X45 desenvolvida pela empresa belga FN (denominada SS109) para a NATO. O uso dessa munição exigiu modificações no projeto, que resultou na variante M16A1E1. A principal mudança era um cano mais pesado e raiamento mais fechado, de 1 volta a cada 7 polegadas, enquanto no M16 padrão, o raiamento era mais aberto (1 volta a cada 12 polegadas). Essas modificações de desenho, combinadas com o maior peso do projétil, resultavam numa velocidade de boca ligeiramente menor, e um tiro mais preciso. As armas européias projetadas em torno dessa nova munição passaram a adotar um regime de tiro de 3 salvas por rajada, ao invés do sistema plenamente automático, como forma de forçar a economia de munição.

O redesenho da Colt foi denominado, pelo Departamento de Defesa dos EUA *M16A2. Em 1983 foi distribuído pelo Corpo de Fuzileiros Navais e, no início de 1985, tornou-se arma de infantaria padrão do Exército dos EUA.::   

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10 pensamentos sobre “Cultura Material Militar::A linhagem M16::

  1. Obrigado, foi um prazer ser citado num artigo.
    A despeito dos problemas das primeiras versões do M-16 ele foi enviado para tropas em combate. Fico pensando se ninguém levou uma bola na época para aprovar esse troço. Mas talvez eu esteja pensando demais como brasileiro 😉

  2. Bem, mtas das histórias se referem às “pressões” feitas em Washington. Lá, como cá, tem essas coisas. Aqui chamam “corrupção”, lá, “lobby”. Dá no mesmo. Agora – imagine o número de GIs mortos porq a arma falhou na hora H…

  3. Eu sou fã de quadrinhos e me lembro de ler The Nam nos anos 90, ótimas história e me lembro que até lá os soldados criticavam os M-16.

    Imagino como devia ser desmoralizante para os ´joes ficar com inveja do vietcong e seus AK´s

  4. Pingback: Um rapaz (das Forças Especiais) às Segundas:: « Causa::

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    • Bom, karlos, tem o seguinte – imagino q vc saiba: aqui no Brasil, a posse de armas longas de infantaria têm restrições mesmo para militares de carreira. Para colecionadores, é mais fácil. Ainda assim, armas de colecionador não podem atirar em modo automático e apenas em salva simples. Concordo com vc qto à preferência pelo M16A1 – é a arma usada pelos GIs no Vietnam.

  6. Tu sabe as especificações dela tipo
    peso -carregada e descarregada
    calibre
    capacidade
    velocidade da bala na boca do cano
    alcançe efetivo

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