Cultura Material militar::Capacetes::


parte3.3.1Muitos anos atrás, tive a honra de conviver, durante um ano, com os veteranos da FEB . O primeiro-tenente Luís Paulino Bonfim, então presidente da ANVFEB, principal dentre as associações de veteranos em funcionamento (aos trancos e barrancos) em nosso país, convidou-me para reorganizar o pequeno museu que funcionava no térreo do prédio da rua das Marrecas, no Rio de Janeiro. Na época eu já tinha conhecimentos relativamente grandes sobre cultura material militar, mas não pude deixei de me emocionar em ter contato direto com aqueles velhos objetos, últimos vestígios de nossa passagem pela 2a GM.  Soube, outro dia, que novo destino será dado ao considerável acervo: o Museu Militar Conde de Linhares, mantido em São Cristóvão pelo Exército Brasileiro. Menos mal, se o Exército der publicidade ao evento, e passar a atribuir aquelas centenas de artefatos o valor cidadão que  eles tem. Mas essa é outra história. O período em que passei no Museu da Força Expedicionária Brasileira me permitiu observar certos detalhes do equipamento militar usado em combate. Chamaram-me a atenção certos aspectos quase invisíveis, que mostram o aporte de engenharia  investido em cada um desses objetos, não importa o quanto simples aparentem ser. Lembrei de tudo isso quando resolvi colocar no ar mais um artigo da série “Capacetes” – justamente o que talvez minha meia-dúzia de pacientes leitores/amigos (conheço cada um pelo nome…) mais espera: sobre o Stahlhelm,  o “capacete alemão” que todo mundo conhece. Filhos, podem me considerar um verdadeiro privilegiado: muito do que estou escrevendo aqui é produto do que pude observar naquele período, com os ditos na mão – e nem eram assim tão pesados. Por sinal, não estranhem a numeração esquisita abaixo: como o assunto é extenso, resolvi subdividir a parte 3::

:: :: :: :: :: :: :: :: :: ::

parte 3/3.1:: O stahlhelm (literalmente, “capacete de aço”), o “capacete alemão”, facilmente mantém o galardão de símbolo mais evidente do último conflito mundial: quase todo mundo o conhece e sabe o que significa. Suas origens remontam ao capacete de aço adotado na 1ª GM, que substituiu o também familiar *“capacete pontudo” prussiano, pickelhaube. A adoção , pelos alemães, de uma proteção de cabeça está ligada ao impasse das trincheiras, durante a 1a GM, e curiosamente, se pensando mais nos defensores. Estes, imobilizados numa trincheira, tinham a cabeça exposta. De fato, as armas de infantaria não provocaram, na 1a GM, mais do que 20 por cento das baixas observadas em combate. A maioria delas foi ocasionada por sopro de explosão e fragmentos resultantes:  estilhaços (os destroços da estrutura da granada) e balins (pequenas peças de metal colocadas no interior da granada, disparadas pela energia da explosão).  Esses fragmentos, independente da natureza, eram designados, então, pelo termo schrapnel.

 

França e Inglaterra foram as primeiras nações a disponibilizar capacetes a seus soldados. A Alemanha não demorou muito a perceber a necessidade desse equipamento. Desde 1915, experiências estavam sendo feitas, mas se revelavam mais-ou-menos inóquas, pois partiam do pressuposto que poderiam aproveitar o desenho totalmente inadequado do pickelhaube. Entretanto, um dos resultados dessas experiências foi mantido: o material. A melhor liga de metal encontrada foi o aço-cromo-níquel, que, mesmo sendo pesada, era mais leve do que outras testadas. Os desenhistas alemães recuperaram modelos usados por tropas antigas, e um deles mostrou-se engenhoso: um elmo usado pela cavalaria centro-européia do século 15-16, que oferecia, inclusive, proteção para o pescoço. Por outro lado, a requisição de que o equipamento protegesse inclusive contra impactos de projéteis de armas portáteis era problemática, independente do desenho. Resultou numa peça consideravelmente grande e pesada (1400 gramas, mais ou menos), mas vista como o preço que o soldado teria de pagar por sua segurança. Esse capacete foi denominado “Modelo 1916”, e logo recebeu o apelido de *Kohleneimer  (“balde de carvão”). Era, de fato, um tipo experimental, e seu desenho foi melhorado, inclusive com relação à “carneira” (o aparelhamento interno: suportes de couro e cadarços que adaptavam o casco à cabeça do usuário). Também houve uma tentativa de reforçar o conjunto, adotando uma espécie de proteção adicional denominada *Stirnpanzer (ao pé-da-letra, “testeira”), outra idéia resultante de pesquisas em arquivos medievais. Um placa adicional de metal era fixada sobre a parte frontal do conjunto através de pinos, que também serviam com entradas de ar. Essas peças foram denominadas modelos “1917” e “1918”, e mantidas após o fim da guerra. Diversos outros acessórios, como uma cobertura de lona destinada a diminuir a visibilidade do conjunto, foram concebidos. Em 1918, uma variação no desenho foi introduzida, como tentativa de economizar peso e diminuir ferimentos nas orelhas. Essa variante logo passou a ser chamada – por motivos óbvios – de *Telephonistehut (“chapéu de telefonista”). O “modelo 1917” acabou sendo adotado pelos aliados austríacos dos alemães, e teve versões, com pequenas alterações, produzidos localmente. O início dos anos 1930 veria o “modelo 1917” ainda em uso pela Reichswehr, o exército alemão de 100.000 efetivos permitido pela pelo Tratado de Versalhes.

 

A subida de Hitler ao poder, em 1933, já encontrou, bastante avançados, estudos teóricos e metodológicos que visavam prover o exército de planos para um eventual rearmamento. Os planejadores envolvidos nesse processo sabiam que a próxima guerra teria características totalmente diversas da anterior, e, dentre essas características, a infantaria seria mais móvel e mais rápida, possivelmente transportada, em parte, em veículos motorizados. Os uniformes desenhados para essa nova infantaria seriam diferentes, embora os oficiais do Estado-maior Geral tivessem mantido aspectos tradicionais – símbolos e insígnias – e alguns elementos práticos, como a cor, o cinza esverdeado (“cinza de campo”, feldgrau), considerada adequada para a região. O desenho do “modelo 1917” foi considerado razoável, mas a nova peça, denominada “M35”, era bem diversa da antecessora.

Stahlhelm M35. Note a borda "virada para dentro" e os pinos de fixação da carneira.

Stahlhelm M35. Note a borda "virada para dentro" e os pinos de fixação da carneira.

O novo modelo era estampado a partir de uma chapa de aço com espessura de 1,2 mm, cujas bordas eram dobradas para o interior do conjunto. Como forma de economizar peso, o domo foi diminuído e achatado nas laterais; a guarda do pescoço e o visor foram encurtados, de modo que o perfil tornou-se menor, embora a aparência geral se mantivesse a mesma do modelo anterior, que oferecia excelente proteção à cabeça. Uma nova carneira, baseada na adotada para o *modelo de capacete distribuído em 1931 tornou o conjunto bastante confortável, por permitir uma quantidade maior de ajustes, feitos por aperto ou afrouxamento de cadarços. No novo modelo, a carneira era mantida no lugar por três pinos de alumínio, um na parte posterior e dois na posição aproximada das têmporas. O Stirnpanzer e seus pinos de suporte foram considerados desnecessários, e deram lugar a duas aberturas de ventilação.

Stahlhelm M35. Bem visíveis as aberturas de ventilação e o acabamento por ilhoses, refinamento destinado a ser o primeiro a "dançar", com a produção em massa.

Stahlhelm M35. Bem visíveis as aberturas de ventilação e o acabamento por ilhoses, refinamento destinado a ser o primeiro a "dançar", com a produção em massa.

Essas aberturas eram protegidas por ilhoses aplicados separadamente, refinamento que até poderia ser pensado em tempos de paz, mas rapidamente desapareceu quando a guerra exigiu a produção em massa.

A carneira era inovadora: uma única tira de metal, que podia ser alumínio ou qualquer liga leve, ligada a um sistema de molas, ajudava a absorver choques e tornava a coisa toda mais fácil de ser sacada da cabeça pelo usuário (experimente ter um fragmento de metal, quente e pontudo, encostando em seu couro cabeludo e entenderá o problema…). Essa estrutura servia para prender uma única tira de couro macio ligada a oito “dedos”, cada um com um conjunto de furos de ventilação, que envolviam a cabeça do usuário A tira de queixo (“jugular”) era parte da carneira. O mais surpreendente é que, enquanto todos os outros capacetes da época tinham um único tamanho, regulado pela amarração da carneira, o M35 era distribuído em cinco tamanhos diferentes.
Todas as corporações das forças armadas alemãs receberam e usaram o novo modelo de capacete, que tinham um acabamento primário com cores de cada uma delas. A cor-padrão do exército era o “cinza de campo”, enquanto a Luftwaffe recebia os seus em uma cor azul acinzentada.

Um dos aspectos que distinguia o capacete alemão de seus similares era o uso de dacalques industriais para identidicar a corporação. A partir de 1933, a Alemanha começou a usar as cores nacionais (vermelho, branco e preto) formando um escudo, que era posicionado do lado direito. No caso do exército, uma águia heráldica em prata era posicionada do lado esquerdo; a Luftwaffe tinha, nessa posição, uma águia em vôo, em ouro; a Marinha usava a mesma águia do exército, em ouro. As unidades SS e de polícia não usavam as cores nacionais, mas o símbolo do partido – uma suástica negra em campo vermelho. As SS incorporavam a dupla “runa da vitória” (um raio) negra em campo prata, enquanto a polícia tinha, nessa posição, um escudo negro com a águia envolvida por uma coroa de carvalho prata. Variações nessas posições podiam ser observadas ocasionalmente, mas não eram comuns.


Depois de 1940, os decalques se tornaram mais raros, em função da produção em massa ocasionada pela expansão da guerra.::

Anúncios

13 pensamentos sobre “Cultura Material militar::Capacetes::

    • Samuel, obrigado. É interessante o fato de q a internet brasileira, em termos de recursos de pesquisa, aida deixa mto a desejar – e daí minha idéia básica, visto q tem mta gente, como eu e vc, q apreciam aspectos técnicos e históricos de caráter militar. Se eu tivesse tempo – e não tenho – gostaria de fazer uns 5 blogs sobre assuntos de q sinto falta.

  1. Muito bom texto.

    Percebe-se que foi escrito por alguém que entende, e que pricipalmente, GOSTA do assunto.

    Aliás, esses posts com perspectiva histórica e evolutiva dos equipamentos estão entre os meus preferidos.

  2. Pois é, Diogo. Não gosto de nazistas nem de violência. Por sinal, acho q armas só deveriam estar em museus e nas mãos de colecionadores ou praticantes de tiro ao alvo. Mas tenho a sorte de conviver com um gpo, de todo o Brasil, q tem a mm posição.
    Samuel, olhei o flickr da moça. Sempre achei interessante o fato de q o exército israeli usa uma variação do olive drab q, se for clareada, irá dar no field gray (cinza de campo), ou seja, na cor do uniforme da Wehrmacht. Mostra o espírito prático dos caras.

    • De modo algum, meu bom. Entendi bem, e concordo com o q vc disse – a melhor maneira de gostar de armas, guerras e coisas do genero, é em teoria. Dicuto com um gpo, q tem gente de todo o país, q só gostam de armas desse jeito. Por sinal, acho q um dos problemas, em nosso país, é q tem armas demais circulando por aí, e as pessoas não tem mta idéia sobre o q elas significam.

  3. Ótimo texto Bitt, levantou aspectos muito legais como a pesquisa de capacetes baseada em armaduras medievais e a questão da adequação ergonomica, detalhamento técnico e produção em massa. Esse texto seria uma ótima referência para designers de produto verem a evolução de um projeto.

  4. Oi Bitt!

    Tô aqui de novo.

    Ótimo texto.

    🙂

    Olha, utilizei muito os capacetes do EB, vc sabe.
    Um por cima do outro (por cima o de aço).
    Num treinamento de tiro (com FAL) no 2º BC na década de 80 em São Vicente, devido ao calor, desmaiei.
    E não fui o único, vários companheiros também desmaiaram, um calor infernal no dia, o treino quase foi interrompido.
    É um equipamento que (assim como o coturno) obrigatoriamente deve ser confortável, os nossos não são (infelizmente).

    :-/

  5. Alba,
    obrigadinho – a gente faz o possível prá divertir a moçada… :c)

    Prof,
    o problema é q não existe um “uniforme brasileiro”, mas equipamento adaptado do padrão norte-americano. É interessante dar uma olhada na tal “infantaria de caatinga” – parece q o uniforme foi desenhado pesquisando-se a cultura material local.

  6. Caro Bitt.
    Li, faz alguns séculos, que o capacete alemão dos paraquedistas, durante a II Guerra Mundial, não apresentava a tão característica aba traseira, pois descobriram que no choque do soldado com o chão, caso caísse deitado de costas, a aba podia fraturar o pescoço. Então, os paraquedistas seriam os únicos soldados que não usavam o capacete padrão. Isso é verdade?

    • De fato, entre as FAs alemãs, a única q teve um capacete especial foram os FSchJg. Dentre outros motivos, o principal era q a aba de proteção de pescoço provocava arrasto – e podia, de fato, podia provocar problemas no pescoço e cabeça do cara. Semana q vem vai ter o outro capítulo – acho q esse assunto está lá. E obrigado pela visita.

  7. Eu que agradeço. Embora o assunto de seu blog seja meio indigesto, vale a leitura pela quantidade de informações precisas que fornece. Um abraço.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s