Cultura Material militar::A linhagem FAL::


Certa vez, tive a oportunidade de ter nas mãos um FAL. Claro, todo mundo que já teve oportunidade de assistir uma parada de 7 de Setembro, ou, mais recentemente, mora no Rio de Janeiro, sabe do que falo. Confesso que, na época, não gostei muito do FAL: pareceu-me muito comprido e muito pesado. Mas naquele tempo eu ainda não sabia muita coisa, mesmo.

O FAL é um clássico, no mesmo nível do StuG44 e do AK47. Surgiu, de fato, um pouco depois, mas era uma peça destinada ao sucesso. Vamos contar essa história em capítulos.::

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Um clássico...

Um clássico...

 

Parte 1/3 Em 1947 fazia dois anos que a 2a GM tinha terminado. Os estados europeus, ainda as voltas com todos os problemas ocasionados pela maior guerra da história, tentavam se rearrumar. Alguns desses estados eram proprietários de complexos industriais que estavam razoavelmente intactos, e poderiam voltar a produzir rapidamente, o que era necessário em função da situação econômica próxima da catástrofe. No caso da Bélgica, um desses complexos era a estatal Fabrique National d´Armes de Guerre, em Herstal, cidadezinha próxima de Liége. O objetivo era chegar primeiro no grande mercado que se abria, com a necessidade criada pela reorganização, nos diversos países libertados, de suas forças armadas e policiais.

A questão central é que, já antes de estourar a 2a GM, estava claro que certos tipos de armamento estavam obsoletos. Um desses era o fuzil de ferrolho, amplamente utilizado na 1a GM, e cujos enormes estoques tinham adiado sua aposentadoria. Antes de 1939, algumas nações já investiam na pesquisa e produção de fuzis semi-automáticos – os EUA tinham introduzido o Garand em 1939, e os russos já distribuiam o SVT-38. Durante a guerra, a excelência do Garand e a surpresa provocada pelo Tokarev STV-40 levaram os alemães a tentar, sem grande sucesso, complementar os milhões de Mausers com uma arma semi-automática. Os britânicos fizeram algumas experiências com o SMLE, mas a situação não permitia maiores ousadias. 

Logo depois da guerra, em 1946, a FN começou a desenvolver vários projetos de armas portáteis, dentre os quais um fuzil semi-automático e um novo modelo de fuzil de assalto. O primeiro, projeto iniciado antes da guerra, foi concebido para projeteis convencionais de alta potência e resultou num modelo de fuzil muito bem sucedido, o SAFN-49 (Semi-Automatic Fabrique Nationale modelo 1949); o segundo se baseava no projétil 7.92X33 mm, desenvolvido pelos alemães durante a guerra. Este último projeto, entretanto, não foi adiante em função de problemas de patente, mas em 1947, alguns protótipos estavam prontos para a fase de testes. Os britânicos, tendo testado a nova arma, solicitaram ao engenheiro Dieudonne Saive (sucessor, com todas as honras, do grande John Moses Browning, como líder da equipe de projetos da FN), que a redesenhasse para uso de um cartucho intermediário que estava então em desenvolvimento. Esse cartucho, 0 .280 British, vinha se saindo muito bem em testes, mas bateu de frente com o confuso ambiente da segunda metade dos anos 1940, no qual diversas idéias disputavam a futura padronização das armas de infantaria. Como, nessa época, estava claro que os EUA teriam a liderança militar do mundo não-comunista, os olhos da indústria voltavam-se para lá.

E a tendência, na América, era por munição de maior potência. A doutrina do Exército dos EUA, amplamente difundida durante a guerra, estabelecia que o uso de armas semi-automáticas (no caso, o *Garand) disparando projeteis de alta potência, dava a medida do poder de fogo necessário para o combate de infantaria. Nesse combate, o tiro automático era um complemento. Assim, os planejadores norte-americanos viam com grande desconfiança as idéias britânicas em torno de armas portáteis plenamente automáticas, que exigiam a redução da potência da munição. Não havia, assim, nenhuma urgência para a substituição da munição Springfield .30-06 (7.62X63 mm modelo 1906) e do onipresente Garand M1- que, anos depois, ainda seria arma-padrão da infantaria dos EUA. Ainda assim, os norte-americanos admitiam que esse rifle semi-automático tinha limitações, e todas elas apontavam o dedo para a munição Springfield: era muito pesada e limitava tanto a carga da arma quanto o número de recargas que cada soldado poderia transportar. Diversas experiências foram feitas, ainda durante a guerra tentando contornar esse problema, algumas buscando criar uma versão automática do Garand. Outros testes examinaram uma possível versão militar do cartucho .300 Savage, projetado nos anos 1920, e que mostrou desempenho apenas ligeiramente menor do que o Springfield. O Savage tinha, entretanto, uma vantagem – era mais curto e mais leve do que o outro. Esse projétil ganhou a notação T65 (de test), que atendia as requisições do Exército de alcance e potência equivalentes ao Springfield. Logo começaram a aparecer propostas de armas projetadas para a nova munição. Essas propostas convergiram para o protótipo T44, apresentado no início dos anos 1950, e ficou então claro que os EUA não iriam aderir à idéia de um calibre intermediário.

Nessa época já havia um poderoso fator para inflamar a disputa: em 4 de abril de 1949 tinha sido criada a NATO, pelo Tratado do Atlântico, organização de defesa mútua da Europa Ocidental. A organização discutia a estandartização do armamento dos países membros, o que significava a possibilidade de um enorme mercado consumidor.  

Diante da insistência dos EUA em torno do uso de munição T65, e do posicionamento do Canadá por uma arma padronizada, em 1950, os ingleses propuseram aos EUA que testassem tanto o modelo EM2 quanto o FN, ambos adaptados para o cartucho .280 contra o protótipo T25, concebido para o projétil T65. O EM2, apesar de apresentar ótimo desempenho, foi considerado como ainda passível de desenvolvimento; o FN (já a essa altura denominado Fusil Automatique Legére – FAL) foi considerado excelente, de modo que os norte-americanos propuseram que a FN apresentasse um protótipo desenhado para usar o cartucho T65. Os meses seguintes levaram as negociações a um impasse, com as partes britânicas e norte-americanas fazendo pressão pela adoção de suas propostas.

Ainda que de forma vacilante, os belgas resolveram desenvolver o protótipo solicitado pelos EUA. Com a crescente intransigência britânica, provocada por questões de política interna, a FN decidiu por uma proposta radical: ofereceram o FAL aos EUA, para produção livre da necessidade de pagamento de royalties, desde que, se selecionada, a arma não fosse exportada para a Europa. Ao mesmo tempo, os britânicos abandonaram as negociações e adotaram o *EM2 como sua nova arma-padrão, decisão que, entretanto, não durou muito. O Partido Trabalhista perdeu as eleições locais e o novo governo, liderado por Winston Churchill, parecia ter duas obsessões: agradar os EUA e economizar.  Pouco depois, Churchill e o presidente dos EUA, Truman,  chegaram a um acordo: os britânicos aceitariam o cartucho T65 como padrão da NATO, desde que os norte-americanos aceitassem o fuzil belga como arma-padrão da NATO. A FN vinha fazendo testes e introduzindo pequenas mudanças no desenho norte-americano que, de fato, foi, em 1954, adotado como *7.62X51 NATO; os norte-americanos protelaram sua parte no acordo enquanto puderam, insistindo que a nova arma precisava de mais testes. Os EUA nunca chegariam a adotar o FAL, e, anos depois, acabariam optando pelo protótipo T44, que, de fato, era um Garand automático, e recebeu a notação militar M14. Nesse meio tempo, diversos outros países-membros da NATO adotaram o FAL.

O M14 não durou muito, mesmo considerando a teimosia dos militares e políticos dos EUA com o cartucho de alta potencia. O FAL tornou-se, nos dez anos seguintes, um dos mais bem-sucedidos produtos da indústria militar do pós-guerra, juntamente com o AK47, que fazia o mesmo papel no Pacto de Varsóvia.::

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14 pensamentos sobre “Cultura Material militar::A linhagem FAL::

  1. Bitt, me desculpe.

    Com toda história que o FAL tem, é obsoleto.
    Já há uma corruptela desde a década de 70: “Fuzil Automático Lerdo”.
    Tente colocar dois pentes grudados por fita isolante, dê uma rajada (vinte projéteis), vire para o outro pente e continue na rajada.
    Se não engripar, coloque o terceiro pente, nesse você se lasca.
    A arma peca no pistão de gás.
    Creio que você entende mais da matéria, fico por aqui.
    O post está ótimo (como sempre).

    🙂

    • Prof,
      o prob básico é a potência da munição. O sistema de recuo a gás funciona bem, desde q a munição seja adequada. E a 7.62X51 centamente não é – o FAL não foi projetado pra ela. O q eu queria era mostrar como questões políticas interferem nessas coisas. A solução britânica era a melhor.

    • Bem, eu também. Se bem que prefiro os rifles de menor calibre e maior precisão, o q não é o caso do AK. Os calibres 5.45 curtos de alta pressão.

  2. Do pouquíssimo contato que tive com o FAL quando servi na Cavalaria, em ’76, lembro bem de duas coisas: falhava muito tiro, pois a munição beirava a podre e, depois de 1 hora correndo fardado sob o sol esturricante do planalto central, fazendo todo tipo de malabarismos sem deixar o fuzil tocar o chão, o FAL pesava mais que consciência de político brasileiro, ou seja, uns três tanques de guerra… e meio!

    Muito bons textos, Bitt!

    • Já ouvi coisas semelhantes. Os fuzileiros navais diziam que uma coisa era treinar com aquilo, outra teria sido entrar em combate com aquilo. Mas imagino q o problema, nesse caso, fosse do EB, mesmo. E do país. Apesar dos golpes militares, os pps militares não ligavam para as FA.

    • Não, ao contrário. O objetivo dessa pesquisa é mostrar como questões políticas, depois da guerra, influenciaram em tudo. Pretendo ir somando capítulos nessa coisa, mas o q se pode dizer, no momento, é q o AK é a melhor arma surgida depois da 2a GM. Estou preparando um post sobre ele. Por sinal, parabéns pelo seu blog. Diria q é melhor do q este aqui.

  3. Qualquer soldado armado com AK 47, M16 ou M4 tem toda a possibilidade de vencer um soldado brasileiro armado com FAL 7,62 OTAN. O FAL é desajeitado, pesado, com pouca munição (só 20 balas), recuo exagerado, troca de carregador complicada, enfim, um dinossauro que condenará nosso EB à derrota num conflito com qualquer guerrilheiro armado com as armas acima citadas.

  4. VCs ja tiveraum alguma oportunidade de operaçao real kom o FAL 762 em missão real !!!?

    numka por isso que vcs estaum falando merda seus ingnorantes FAL 762 é arma de HOMEM naum de um frouxo é prsado ´r mais naum te abandona !!!

    quero saber que dai levou um tiro de 762 na carcaça e ta aki pra kontar á jistoria!!!!

    vlw thau!!

    • Concordo com o colega Wilson do Carmo.
      Há pouco tempo foram expostos às intempéries ( na Amazônia ) o M16, O G3 e o FAL. Após
      foram testados sem manutenção alguma. O M16 e o G3 engriparam. Somente o FAL respondeu
      perfeitamente sem nenhuma falha. Já usei muito o FAL e nunca falhou nenhum tiro.
      É uma arma excelente. O problema é com a munição de baixa qualidade.Outra coisa. Rajada só serve para filmes de Hollywood. O calibre 5.56 mm é fraco e suas deficiências foram comprovadas em combate.
      Duvido que alguém que dependeu do FAL em combate possa reclamar.
      Tratem de estudar o assunto e não falem sobre o que não conhecem.

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