Recordar é viver::Anos 70: Détente, SALT e outros quetais::


   

Pois é – eis um post de que gosto muito, pelo estilo. Não me lembro bem quando publiquei pela primeira vez, mas lembro que resultou de um dos debates que tínhamos no falecido Weblog, aquele de nosso desaparecido Pedro Doria. Na época, eu estava entusiasmado por ter arrumado o xerox de um livro de Henry Kissinger – Diplomacy – um calhamaço enviado por um amigo que passava uma temporada em Yale. Acabei não lendo, a coisa está atravancando a estante, e acabou que o livro foi lançado, tempos pouco tempo depois, em nossa língua. Um pouco mais cedo, eu o olhava na vitrine de uma das ubíquas “Leitura”, aqui em Belo Horizonte. Comentei com minha mulher – que demonstra grande paciência com minha mania por impressos de todos os tipos: “Eu o comprarei, mas não agora…” Agora, fiquem com as duas partes do post, visto que ainda não finalizei a novela dos submarinos::

Parte 1/2:: Por que o mundo de hoje é como é? Imagino que uma pessoa que tenha vivido os anos 1960 talvez estranhe o clima de instabilidade localizada que vivemos hoje. Nos “fabulosos sessenta” alinhavam-se duas superpotências, uma ameaçando a outra – e à humanidade – como a incineração nuclear instantânea. Por trás das duas, duas zonas geopolíticas de influência, cujos limites eram mutuamente respeitados. E também havia uma espécie de quintal comum, mais conhecido como “Terceiro Mundo”, onde as superpotências disputavam, de maneira atroz, quem iria mandar.

É claro que, para pensar essas coisas, essa pessoa que estou imaginando teria de saber que o palco geopolítico ainda era – digamos… –, em 1968, resultado da estabilidade conseguida pelos vencedores da 2ª GM. Ao longo daqueles 23 anos, a estabilidade fora não apenas mantida, mas aprofundada. Os dois principais atores aprenderam como não deixar que conflitos localizados, como a Guerra da Coréia, os choques no Oriente Médio, a crise de Cuba e a Guerra do Vietnam acabassem por se transformar em conflito generalizado; aprenderam que a ameaça de destruição mútua, por mais paradoxal que pudesse parecer, era a melhor forma de se ter alguma segurança de que o desastre não aconteceria. Absurdos concretos se tornaram ícones dessa estabilidade – a existência de uma cidade enorme dividida em duas por um muro; um país insignificante desafiando com sucesso uma das superpotências, separado dela por 180 quilômetros de água. No entanto, os dois blocos pareciam atuar de forma mais ou menos articulada: Brasil e Coréia do Sul, ou Tchecoslováquia e Coréia do Norte, por exemplo, não faziam exigências aos EUA ou a URSS. Ao contrário, pareciam adaptados ao papel de soldados em uma guerra perene. Chegavam a declarar-se “vencedores” de batalhas imaginárias uns contra os outros.

O próprio contexto por si mesmo apresentava-se como um paradoxo: uma “guerra fria”. Uma guerra com inimigos, estratégia, mobilização, armas e batalhas; e tréguas. Mas uma guerra em que fronteiras eram respeitadas e as batalhas quentes, com tiros e mortes, eram cuidadosamente mantidas restritas.

Os paradoxos eram generalizados: boa parte dos “povos-soldados” nos dois lados era mantida apartada de níveis mínimos de liberdade (pela qual dizia-se lutar) e sem perspectiva visível de prosperidade (a qual, dizia-se, seria geral após a “vitória final”). Mas a vitória final não estava à vista, apenas num virtual horizonte em direção ao qual, afirmavam dos dois lados, os ideólogos, movia-se, inapelavelmente, a história. Até que se completasse esse movimento, e ambos os lados diziam que se completaria confirmando as próprias idéias, o que se deveria buscar era a estabilidade. Por mais injusta que essa fosse. Isso significava manter e apoiar o statu quo ante (o a corruptela “status quo”, termo latino traduzido por “estado existente” que, em 1968, essa pessoa de que falo talvez não conhecesse a tradução exata, mas saberia o significado geral), ou seja, a situação política e social interna não apenas das superpotências, mas também – e tão importante como – das nações coadjuvantes.

Esse contexto paradoxal não livrava o mundo das crises. Em mais de uma oportunidade, os mísseis foram armados e apontados – em 1962 e 1973, por exemplo. As superpotências rosnavam uma para outra e confrontos surgiam o tempo todo, mas a possibilidade de que um desses acabasse degenerando na crise final, gerava mais um paradoxo: se mantinha abertos canais de diálogo e a possibilidade de cooperação.

Paradoxo em cima de paradoxo, essa tal pessoa, vivendo lá no mundo de 1968, talvez considerasse, naquela época, moralmente discutível, mas legítima, a situação geral de “libertícidio” (termo, segundo consta, criado pelo teatrólogo Berthold Brecht, diante da sangrenta repressão à revolta de Berlim, em 1953) e de opressão. E talvez até concordasse com Henry Kissinger, que afirmava – “legitimidade não deve ser confundida com justiça”.

Pois em função da legitimidade criada pela estabilidade, valia à pena tolerar o sacrifício da liberdade e a violação maciça de direitos humanos, de ambos os lados. Os EUA viam como legítima a derrubada e assassinato de um presidente eleito democraticamente e a morte, a sangue frio, de milhares de seus seguidores; a URSS considerava legítima a invasão militar de qualquer de seus aliados (!!!), diante de uma ameaça de mudança no tal statu quo ante. Assim, não é de se estranhar que a situação tivesse evoluído até o paradoxo absoluto de que os lados adversários passassem a considerar como legítima a pretensão de estabilidade interna do outro: “A invasão da Tchecoslováquia nunca chegou a ser assunto de guerra ou paz entre nós e a União Soviética, por mais ignóbil que possa parecer”, afirmou aos jornalistas o Secretário de Estado de Lyndon Johnson, Dean Rusk.

O problema é que a situação paradoxal de sacrifício da liberdade em nome da liberdade futura, da justificação da opressão em nome da luta contra a opressão, da privação como promessa da fartura e da guerra permanente como pressuposto da paz, acabava criando tensões. Não importa como essas tensões se manifestavam ou como eram tratadas pontualmente, mas o fato é que as autoridades, por toda parte do mundo, consideravam que a estabilidade na tensão, e não a paz, era o valor absoluto a ser buscado e alcançado. “A tentativa de um lado de impor uma justiça absoluta será encarada pelo outro como absoluta injustiça. A estabilidade depende da relativa satisfação e, portanto, da relativa insatisfação dos vários estados.” Palavras de Henry Kissinger::

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6 pensamentos sobre “Recordar é viver::Anos 70: Détente, SALT e outros quetais::

  1. [O termo Status Quo, pelo menos, deu origem a uma das melhores bandas de rock que já existiu.]

    Aliás, ótimo texto.

    Isso me faz lembrar um documentário sobre um soldado polonês que lutou ao lado dos russos na Segunda Guerra, foi feito prisioneiro pelos alemães e libertado pelos soviéticos ao final da guerra.

    Pois bem, ficou mais vinte anos preso devido a política repressora do Partido Comunista, que o acusou de dissidente.

    Na verdade, penso que o fim da Segunda Guerra, para muitos países do leste europeu, só veio mesmo com o fim da Guerra Fria.

    • Lembro do Status Quo, banda inglesa, não? Eu era doido pro rock progressivo, e essa era mais pra pesado, me parece. Ainda tenho trinta e tantos CDs de Pink Floyd, outros tantos de Jethro Tull e mais outros tantos de Genesis, do tempo de Peter Gabriel. E principalmente… Bom… King Crimson… Por sinal, haviam umas bandas de rock interessantes na tcheco-Eslováquia e na Hungria. Daria um post interessante, eu acho.

  2. Também sou fã de rock progressivo, principalmente Jethro Tull e Genesis.

    Mas, a propósito do excelente post, não posso deixar de imaginar, divertida, qual seria a reação do nosso caro Chesterton a esse período cheio dos tais “relativismos” que ele afirma odiar! 🙂

  3. Bom, será q um homem adulto consegue morder a própria bunda?.. :c) Até hj escuto “Thick as a Brick” como uma obra prima.

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