Cultura material militar::Pistola Colt .45 ACP – O clássico da FEB::

Clássico mesmo. Ou me citem outra arma pessoal que, desenhada no início do século 20, é até hoje conhecida como verdadeiro paradigma de pistola semi-automática? Pensaram em alguma? Talvez a Luger 9 mm. Serve… Mas não é páreo, pois depois da 2ª GM tornou-se peça de colecionador e souvenir dos soldados aliados. A Colt continuou sua trajetória por mais quatro décadas.

É uma arma realmente confiável: resistente, potente, precisa e fácil de desmontar e limpar. Essas eram, entretanto, apenas algumas das vantagens apresentadas pela Colt .45 (11,45 mm). Durante 70 anos, foi a pistola oficial das forças armadas dos Estados Unidos, e seu excelente desempenho contribuiu para que fosse utilizada também por dezenas de outras forças armadas, em todo o mundo. Amplamente conhecida através do cinema, acabou por se tornar objeto de desejo de quase todos os entusiastas, sejam atiradores utilitários, atiradores esportivos ou colecionadores. Falar dela é falar um pouco de como desenvolvimento da tecnologia é geralmente motivado por problemas objetivos. Sem exagero, a Colt .45 ACP, junto com o Mauser KAR98K, o Garand M1 e o Kalashnikov AK47, é mais do que simples artefato – é um documento sobre o período histórico em que existiu::

Já falamos em algum lugar dessa série que a 1ª Divisão de Infantaria Expedicionária da FEB era organizada como uma divisão de infantaria regular do exército dos EUA. Isso significava que um enorme número de armas, em volume nunca sonhado, até então por um pé-de-poeira brasileiro, distribuído entre os três regimentos e suas tropas complementares. Consistia em 16.245 armas individuais: fuzis M1903 versões A1e A2, e Garand, carabinas M1, submetralhadoras (M1A1 Thompson e M3 Grease Gun) e fuzis-metralhadores BAR. Essas eram as armas efetivamente usadas por uma esquadra de infantaria. Entretanto, havia outro tipo de arma, que, embora aparecesse pouco, também fazia parte do equipamento individual de oficiais e graduados (cabos e soldados não os recebiam): eram os revólveres Smith&Wesson M1917 e a pistola semi-automática Colt .45. Eram consideradas “armas pessoais”, que, dentre outras funções, simbolizavam a autoridade do oficial ou do graduado (sub-oficiais e sargentos). Mas a pistola também pode ser uma arma de defesa individual, embora, segundo boa parte da bibliografia, depois da 1ª GM as armas longas se tornaram potentes e precisas o suficiente para, no combate, relegar a pistola a uma posição secundária. O surgimento da pistola Colt, está intrinsecamente ligado à invenção do cartucho .45 ACP, pelo projetista John Moses Browning. Desde a segunda metade do século 19, a Cavalaria do Exército dos EUA vinha procurando novos tipos de armas curtas para equipar suas tropas. Por volta de 1890, o revolver que tinha sido padrão naquela corpo, o *Colt M1873 de Ação Simples “Exército”, calibre .45 (Colt Single Action Army, ou simplesmente Colt Army), também conhecido como Peacemaker, já tinha sido substituído. A Cavalaria adotou, na falta de coisa melhor, um revólver de ação dupla (podia ser disparado a partir da pressão do gatilho, sem ter de ter o cão armado antes) de calibre .38 Long, que as tropas logo perceberam ser bem menos eficaz do que o anterior, quando disparado contra um oponente disposto a morrer lutando. Essa constatação, feita durante os combates nas Filipinas, em 1898, disparou a discussão, até hoje não resolvida, do “poder de parada” (em inglês stopping power) e fez com que os soldados preferissem as antigas armas, que se revelaram, naquela situação, até mais eficazes do que o fuzil Krag da infantaria dos EUA. Pouco mais tarde, em 1904, experiências conduzidas pelo Exército, os Testes Thompson-LaGarde fizeram os militares concluir que o calibre .45 (11,45 mm) era o mínimo a ser adotado para uma arma individual.

Browning já vinha trabalhando, em associação com a Colt Firearms Manufacturing, em um cartucho calibre .41, (10,41 mm), projetado para uma pistola automática denominada Browning Automatic Pistol, que estava em fase de protótipo. Em 1905 o Exército consultou a fábrica sobre a possibilidade de redesenhar essa arma para um cartucho calibre .45, a empresa respondeu com uma arma que foi denominada Colt M1905, projetada para um novo cartucho, denominado *.45 ACP (significando Automatic Colt Pistol). Esse cartucho foi desenvolvido por Browning e surgiu em 1904. Testado por diversos laboratórios especializados, foi considerado pouco potente, devido à baixa velocidade inicial (em torno de 235 m/s). Diversas sugestões foram incorporadas, a principal das quais o aumento da carga de pólvora química, que passou a 230 grãos (15 gramas – o “grão” é uma medida para carga de munição para armas portáteis onde 7000 grãos equivalem a 4535 gramas), o que elevou a velocidade inicial para 260 m/s, o que pareceu aceitável para os militares.

A partir de 1906, o Exército testou protótipos apresentados por seis indústrias, todos desenhados para o calibre .45 ACP. Três fabricantes tiveram selecionados seus produtos (um dos quais a Deutsche Waffen und Munitionfabrik, que apresentou uma versão da Luger adaptada para o cartucho .45), e, em 1910, uma nova série de testes fez a Colt .45 ser declarada vencedora.

O exército encomendou certa quantidade de exemplares para testes nas unidades militares, e, no final do ano, a arma foi oficialmente adotada, como *Colt M1911 calibre .45 ACP. Tratava-se de uma arma do *sistema chamado “recuo curto”, no qual o cano está preso ao ferrolho durante o percurso do recuo provocado pelo disparo e recua por um percurso menor que o comprimento do estojo do cartucho. Em certo ponto, o cano deixa de recuar sendo retido em seu percurso por uma ressalto. O ferrolho continua seu deslocamento, extraindo e ejetando o estojo vazio, recolocando outro proveniente do carregador.

Entre 1911 e 1914, cerca de 50.000 Colts M1911 foram distribuídas, e, nessa época, o Exército inventariou as sugestões enviadas pelos usuários e introduziu diversas delas, a principal das quais foi o redesenho no sistema de acionamento, que permitiu que a arma, muito pesada (1130 gramas, sem as oito cargas de munição) pudesse ser manejada com apenas uma mão. Essa versão foi distribuída como United States Pistol, cal. .45, M1911. Outras medidas da pistola eram mais, digamos, aceitáveis: comprimento total de 210 mm, comprimento do cano de 127 mm.

Essa arma cumpriu o que o Exército dos EUA esperava dela: substituir por uma pistola automática os revólveres calibre .38 regulares. Durante a 1ª GM foram feitas algumas modificações destinadas a aumentar a segurança do manuseio e da operação. Mas as principais modificações aconteceram em 1926, inclusive mudanças no desenho da capa superior da mola do recuperador e na empunhadura de segurança instalada no cabo. Também foram feitas modificações na maça e alça de mira e no gatilho, cuja ergonomia foi modificada para facilitar o manejo.Esse desenho melhorado recebeu a notação *M1911A1. Permaneceria em serviço até meados dos anos 1980. Alguns especialistas calculam que quase três milhões de Colts, em diversas versões, tenham sido fabricadas.

A pistola semi-automática Colt foi adotada por 14 nações como arma militar, e foi vendida em mais de 50 outras. Esteve presente em todas as campanhas dos EUA no século 20. O Exército dos EUA a retirou de serviço em 1985, depois de alguns anos experimentando uma série de outros modelos. Atualmente, o cartucho 9X19 mm Parabelum é o padrão para arma pessoal, e a pistola Beretta 92S, conhecida nos EUA como M9 substituiu a Colt. 

A Colt M1911A1 esteve entre as primeiras armas repassadas para a FEB. De fato, mesmo antes da guerra, a arma foi adquirida diretamente da fábrica pelo governo brasileiro, em 1937, e começou a ser entregue em 1938. Essa versão “brasileira” é facilmente reconhecida pelas armas da República e a inscrição “EXÉRCITO BRASILEIRO”, gravadas do lado direito. Com a chegada da FEB ao teatro italiano, Colts foram repassadas às tropas brasileiras diretamente dos estoques norte-americanos. Não há, entretanto, registro de seu uso em combate. Depois da 2a GM, o calibre .45 ACP e as armas desenhadas em torno dele foram amplamente adotados pelas forças armadas brasileiras, em função da forte influência que a doutrina norte-americana passou a ter no país. Em meados dos anos 1950, a munição .45 começou a ser fabricada no Brasil, e até mesmo uma *submetralhadora passou a ser fabricada em torno desse cartucho, embora nunca tenha funcionado direito::

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Minha comemoração particular do fim da 2a GM:: FEB

A Segunda Guerra Mundial atingiu o Brasil aos poucos. Em setembro de 1939 as notícias publicadas nos principais órgãos de imprensa brasileiros eram pouco elucidativas. O país mantinha intenso relacionamento comercial com a Alemanha, e, de início, essas relações foram afetadas apenas pelo bloqueio naval que a Grã-Bretanha tentou montar contra a navegação oceânica da Alemanha. Alguns navios mercantes alemães, surtos em portos brasileiros foram, segundo as normas internacionais, internados, o que frisou a intenção do governo nacional em se manter neutro. A partir de 1940, conforme os EUA começaram a manifestar apoio irrestrito à Grã-Bretanha, se tornou mais forte a pressão para permitir a utilização, por parte das forças armadas daquele país, de instalações militares, portos, aeroportos e facilidades de infra-estrutura no Norte e do Nordeste brasileiros: estradas de ferro e de rodagem, usinas elétricas e armazéns, por exemplo. As pressões norte-americanas encontraram resistência entre boa parte dos setores militares brasileiros, cuja formação sempre se caracterizou por forte sentimento nacionalista. Esses militares viam a presença de tropas estrangeiras em território brasileiro como violação inaceitável da soberania nacional. Além disso, parte da oficialidade, representada principalmente pelo comandante do Exército, general Góis Monteiro, nutria certa simpatia pelo regime nazista, e preferia que o país permanecesse neutro. A recusa norte-americana em colaborar com o re-aparelhamento das forças armadas brasileiras, na segunda metade dos anos 1930, contribuiu para piorar a antipatia.

As vitórias iniciais da Alemanha na Europa, a instalação do governo fantoche de Vichy, após a derrocada da França em 1940 e o desembarque de uma força expedicionária alemã na Líbia na primeira metade de 1941 despertaram, no Departamento de Estado dos EUA, o temor que os alemães pudessem estar planejando uma invasão ao Nordeste brasileiro a partir de Dakar (Senegal, colônia que se mantinha alinhada a Vichy) ou do arquipélago dos Açores. O desembarque aeroterrestre em Creta, em maio de 1941 só contribuiu para aumentar a desconfiança: caso acontecesse essa operação (que, de fato, não passava de fantasia), os nazistas poderiam ameaçar o canal do Panamá e o Caribe. Entretanto, os diversos planos preventivos elaborados pelo Estado-maior das forças armadas dos EUA não tinham nada de delírio persecutório: o principal deles previa a ocupação do Nordeste brasileiro — com ou sem o consentimento do governo Vargas — por uma força com efetivo de três divisões. Vargas estava ciente dessa possibilidade, e acabou, em 24 de julho de 1941, por autorizar a utilização das facilidades aéreas e navais existentes por unidades militares dos EUA, e a instalação de bases militares a ser construídas pelos norte-americanos no Amapá, em Belém, em São Luís, em Fortaleza, em Natal, no Recife e em Salvador.

De fato, a participação brasileira na guerra começou cedo, embora de modo tímido. Desde 1939, ações de submarinos se registraram na costa brasileira, apesar da neutralidade declarada pelo governo nacional. As forças armadas pouco podiam fazer, naquele momento: a Marinha de Guerra dispunha de meios precários, tanto em equipamento quanto em pessoal. A esquadra contava com navios de mais de 30 anos de existência e com eram poucas as unidades mais modernas, adequadas à guerra anti-submarina: algumas corvetas, adaptadas a partir de navios-mineiros, e três contratorpedeiros. Esse material flutuante deveria cobrir uma extensão de quase 5000 quilômetros, entre a foz do Rio Pará e Santa Catarina, incluindo as ilhas de Fernando de Noronha e Trindade, em pleno oceano. Meios aéreos modernos, então, nem pensar: o melhor que havia era uma dúzia de aviões Focke-Wulf Weihe, bombardeiros de pouca autonomia e com armamento inadequado. Ainda assim, entre os anos de 1940 e 1941, a Marinha elaborou um programa de exercícios que, de fato, destinava-se a manter atividades de patrulha regulares no litoral entre o Nordeste e Santa Catarina – na prática, a esquadra ficava se movendo de um lado para outro, ora para o norte, ora para o sul.

Com o ataque japonês a base naval de Pearl Harbor, no Havaí, a aproximação como os EUA tornou-se inevitável, em função do princípio de defesa mútua pan-americana. Entretanto, a resistência de Vargas à colaboração com os EUA no “esforço de defesa pan-americano” tinha por objetivo tirar partido da situação, de modo a implementar certos projetos nacionais de construção de uma usina siderúrgica de grande porte. Embora tivessem ocorrido, na segunda metade da década anterior, negociações iniciais com a Alemanha, o início da guerra fez com que as conversações com representantes da Krupp, de Essen, fossem interrompidas. Além do mais, a “defesa comum” apresentava a oportunidade que os militares brasileiros buscavam de acelerar a modernização das forças armadas. As negociações entre Brasil e EUA seguiriam ao longo de quase dois anos, e envolveriam diversos programas abrangendo todas as forças armadas e diversos serviços civis, como, por exemplo, infra-estrutura portuária e de aeronáutica civil.

Logo no início de 1942, a 28 de janeiro, deu-se o rompimento de relações diplomáticas com os países do Eixo e adesão brasileira à Declaração das Nações Unidas e à Carta do Atlântico. Esses eventos serviram como justificativa para que a Alemanha, agora definitivamente fora do continente americano, lançasse uma ofensiva submarina contra o litoral brasileiro. Entre fevereiro e agosto de 1942 uma série de ataques contra navios mercantes brasileiros que navegavam nas costas do país provocou o afundamento de 21 unidades, com perdas de centenas de vidas. A indignação da população foi marcante. Para diversas associações civis, a maioria delas simpáticas ao regime (o que tornava as manifestações insuspeitas) o “estado de beligerância” deixou de ser suficiente até mesmo antes de ser declarado, em agosto: demonstrações de rua exigiam a declaração de guerra.

Em 31 de dezembro de 1942, Vargas, em discurso diante de centenas de oficiais militares, sublinhou o que vinha dizendo desde meados do ano: o Brasil não se limitaria ao fornecimento de matérias-primas aos países aliados. Segundo o ditador, “o dever de zelar pela vida dos brasileiros obrigados a medir as responsabilidades de uma possível ação fora do continente. De qualquer modo, não deveremos cingir-nos à simples expedição de contingentes simbólicos”. Alguns dias após a declaração, o ministro da Guerra Eurico Gaspar Dutra apresentou um plano ao presidente no qual afirmava que o Exército estava preparado para enviar para o exterior cinco divisões e as formações auxiliares necessárias, totalizando cem mil homens. Mas tanto Dutra quanto Vargas sabiam que tal pretensão era delirante. Tratava-se, de fato, de um jogo político: o principal apoio da ditadura brasileira era as forças armadas. Vargas tinha, dessa forma, de sustentar o prestígio político dos militares, o que significava, dentre outras ações, implementar as reivindicações dos comandantes pela ampliação e modernização das corporações. Declarando-se disposto a combater ativamente o nazifascismo, a ditadura brasileira acalmava a oposição e ganhava tempo com as reivindicações de liberalização. Assim, fazia sentido que a participação brasileira no conflito não se restringisse à defesa do país e à colaboração com o esforço de guerra norte-americano, como teria sido a preferência dos EUA. O envio de forças brasileiras ao teatro europeu passou a ponto inegociável, visto que a presença das forças armadas nacionais em combate aumentaria o prestígio e a influência do país – e dos militares – no cenário latino-americano. Em 3 de março de 1943, com a assinatura dos Acordos de Washington, a cooperação econômica e militar entre o Brasil e os EUA ficou estabelecida, tendo como contrapartida o envolvimento direto do país no conflito, não apenas com a participação ativa na defesa do litoral, mas também com a formação de uma força militar para intervir no teatro europeu.

No encontro que manteve com Vargas em Natal, em fevereiro de 1943, o presidente norte-americano Franklin Roosevelt mencionou a possibilidade de o Brasil enviar tropas aos Açores e à ilha da Madeira. Vargas respondeu positivamente, mas lembrou que qualquer participação dependeria do re-equipamento e treinamento do Exército, Marinha e Força Aérea brasileiros, prometido pelos EUA. Os militares norte-americanos e setores do Departamento de Estado não viam com simpatia o envolvimento militar do Brasil, e consideravam problemático o transporte das tropas brasileiras para a África. Não que a participação direta na guerra fosse ponto pacífico no Brasil: as opiniões eram divergentes. Ainda assim, em 5 de março de 1943, Vargas aprovou o memorando de Dutra sobre a força expedicionária, reforçando que o envio das tropas dependia do recebimento do equipamento necessário à modernização do exército brasileiro. A questão era extremamente complexa, visto que as forças armadas, treinadas por missões de assessores militares (franceses para o exército, em 1921, e norte-americanos para a marinha, em 1922), eram totalmente obsoletas, tanto em meios quanto em doutrina. Basta dizer que o exército, em 1940 tinha algo em torno de 70000 efetivos, praticava a doutrina de “defesa ativa” dos franceses – a guerra de trincheiras -, era carente de artilharia, não tinha meios motorizados e desconhecia a guerra blindada. A marinha estava um pouco melhor, pois, desde 1942 estava sob supervisão direta do vice-almirante norte-americano que comandava as forças navais dos EUA no Brasil. Desnecessário dizer que não existia uma força aérea digna desse nome.

Em 9 de agosto de 1943, finalmente, a Portaria Ministerial nº. 4744, estabeleceu a  estrutura da Força Expedicionária Brasileira. A FEB deveria ser constituída, por um corpo de exército formado por três divisões de infantaria: 1ª, 2ª e 3ª, e por órgãos não-divisionários necessários. A primeira unidade a ser constituída seria 1ª. Divisão de Infantaria Expedicionária (1ª DIE), a ser comandada por um general-de-divisão. Ainda no mês de agosto, o general João Batista Mascarenhas de Morais, então comandante da 2ª Região Militar, foi convidado pelo Ministro da Guerra a comandar a 1ª DIE. Antes deles, vários generais, entre os quais Valentim Benício, Amaro Bittencourt e Francisco Gil Castelo Branco, teriam sido consultados para exercer o cargo, mas não aceitaram. Mascarenhas não discutiu a indicação, que encarou como uma ordem. Era conhecido por ser apolítico e pela postura profissional (isso nos termos do exército brasileiro). Naquela época, não era pouca coisa.

Na próxima semana falaremos sobre como formar uma tropa de combate a partir de muita bravata e conversa-fiada, e como fazer essa tropa dar certo, contra tudo e contra todos::

Cultura Material Militar::SpringfieldM1903::

Infante da FEB, portando um Springfield M1903 escolta prisioneiros alemães, 1945.

Infante da FEB, portando um Springfield M1903 escolta prisioneiros alemães, 1945.

A 1a Divisão de Infantaria Expedicionária era a principal unidade combatente da FEB, com exatos 15069 efetivos, distribuídos por três regimentos de infantaria. Entretanto, a 1ª DIE não chegou ao TO italiano completa. De fato, o 1°Escalão, desembarcado em setembro de 1944, era formado pelo 6º Regimento de Infantaria, de Caçapava (SP) e por algumas unidades complementares. Quando da formação da FEB, em maio de 1943, ficou acertado que a tropa brasileira seria organizada segundo o modelo norte-americano.

O 1º Escalão embarcou sem nenhum equipamento de combate. Uma vez na Itália, a tropa foi distribuída por diversas unidades de treinamento, a principal das quais foi a Escola de Treinamento e Liderança de Combate (Leadership and Battle Training School, instalada em Caserta),onde permaneceria durante algumas semanas; outros integrantes freqüentaram escolas de motoristas, de sinaleiros (como os norte-americanos chamam o pessoal de comunicações) e de saúde. Oficiais e sargentos estagiaram em unidades de combate dos EUA. O equipamento individual (uniformes e pertences pessoais) era, na maior parte, fabricado no Brasil mesmo. O único item recusado foi o capacete de aço, que no Brasil, não era padronizado, de modo que foi distribuído o capacete padrão norte-americano, o modelo M1. Posteriormente, certas peças de uniforme norte-americano foram distribuídas por não existirem similares brasileiros: o equipamento de inverno, por exemplo.

Com o armamento, a questão era bem outra. No Brasil, a principal arma da infantaria era o fuzil *Mauser modelo 1908 cal. 7X57 mm. O Mauser era uma arma excelente, mas não havia como distribuí-lo aos expedicionários brasileiros, em função da organização da logística: não era possível levar o armamento existente no Brasil para Itália e, principalmente, prover a munição necessária na quantidade exigida, visto que no Brasil não havia capacidade industrial instalada suficiente para produzi-la. Assim, desde o início ficou decidido que a FEB seria provida de equipamento norte-americano. O problema é que, uma vez desembarcada e integrada a tropa aos quadros do V Exército dos EUA, parecia não haver armamento para equipar os cinco mil e tantos combatentes do 6º RI e das unidades auxiliares. Segundo diversos testemunhos, a começar o do próprio comandante, o então general-de-divisão, futuro marechal, Mascarenhas de Moraes, diversos depósitos foram percorridos, e os administradores americanos somente concordavam em entregar equipamento em pequenas quantidades. De fato, a tropa brasileira estava diante de uma situação nova. A doutrina introduzida pelo exército norte-americano previa que as grandes-unidades dispusessem de enorme quantidade de armamento: uma divisão regular do US Army dispunha de cerca de 17.000 armas de todos os tipos, coisa inimaginável no Brasil. Apenas para começar a conversa, para um regimento seria necessário algo em torno de 5000 armas de infantaria: fuzis, sub-metralhadoras (item quase desconhecido no exército brasileiro, até então), *fuzis-metralhadores (arma que existia no exército brasileiro, mas empregado de forma diversa daquela do exército dos EUA), metralhadoras pesadas, além de certa quantidade de armas curtas. Basicamente, a FEB recebeu, embora a conta-gotas, o equipamento utilizado pelos norte-americanos. Com uma exceção: o fuzil-padrão. A infantaria dos EUA usava o excelente Garand M1, cartucho .30-06 (7.62X63 mm) semi-automático. A tropa brasileira recebeu o “US Rifle M1903″.

O US Rifle M1903A3, cal. 7.62X63 mm, fabricado em 1944 pela Remington Machine Works. Essa foi a arma dos infantes brasileiros na Itália. Apenas um soldado de cada esquadra recebia o Garand M1.

O US Rifle M1903A3, cal. 7.62X63 mm, fabricado em 1944 pela Remington Machine Works. Essa foi a arma dos infantes brasileiros na Itália. Apenas um soldado de cada esquadra recebia o Garand M1.

Essa arma era conhecida como “Springfield” M03, e seu desenvolvimento começou no final do século XIX, quando tropas dos EUA engajadas na Guerra contra a Espanha avaliaram que seu armamento, basicamente o fuzil de ferrolho *Krag-Jorgensen e o fuzil de tiro único calibre .45 Springfield (conhecido como “trap-door” em função do sistema de carregamento) tinha desempenho muito inferior ao dos Mauser alemães que equipavam unidades mexicanas. O grande problema era que o Krag, produzido nos EUA com base em um desenho dinamarquês, era muito frágil para a munição norte-americana, além de não incorporar certos refinamentos, como o carregamento por clipe pré-preparado. Em 1900, o arsenal de Springfield recebeu a incumbência de desenhar um novo fuzil, e a exigência era que fosse baseado no Mauser, cuja licença de produção foi adquirida por preço notavelmente vantajoso. Um novo cartucho foi desenhado para a nova arma, incorporando um estojo sem cinta (em inglês, rimless) e um projetil “rombo” (de ponta semi-esférica) jaquetado, calibre 7.62 (.30 de polegada, na medida norte-americana), projetado para atingir a velocidade de 670 m/s. Tanto o novo cartucho quanto o novo fuzil foram adotados em 1903, recebendo ambos a notação M1903. A arma foi desenhada para incorporar certo tipo de baioneta que era considerado obsoleto, de modo que o resultado final foi recusado pelo exército e voltou à fábrica. O aspecto mais importante do fuzil M1903 foi a incorporação da filosofia de “fuzil encurtado”, inventada pouco anos antes pelos britânicos, e que implicava em uma arma que poderia ser distribuída tanto para a infantaria quanto para tropas especializadas, como as de montanha. Entretanto, no decorrer do desenvolvimento do novo “US Rifle”, os alemães introduziram o projetil “ponteado”, mais leve, mas de melhor desempenho aerodinâmico. O novo desenho tornou-se uma tendência, e os norte-americanos reprojetaram o cartucho de forma a incorporar a inovação. Em testes, a nova versão saiu-se muito melhor que a anterior. Adotado em 1906, a munição “Springfield .30-06″ tinha velocidade de boca de 880 m/s. O aparelho de pontaria do novo fuzil teve de ser refeito, pois o alcance do novo projetil era cerca de 20 por cento maior do que o anterior. Foi com essa arma que as tropas dos EUA foram lutar a 1ª GM. Em combate, a arma mostrou certos problemas, ocasionados por falhas de projeto – particularmente uma tendência a “rebentar” depois de relativamente pouco uso. Esse problema foi resolvido através de mudanças no processo de usinagem das peças do receptor.

Durante o periodo entre-guerras o M1903 continuou sendo produzido, sem maiores alterações. Um novo desenho da coronha, adotado em 1929 tornou a arma mais cômoda de manusear. Essa versão recebeu a notação M1903A1, mas poucos foram fabricados. Em 1932 foram iniciados estudos para uma nova arma padrão, o que criou um vazio, visto que a produção do Springfield foi muito diminuída. Em 1936 o Garand M1 já estava pronto, mas as dificuldades de adaptação da indústria tornaram a distribuição lenta. Além do mais, as primeiras amostras apresentaram desempenho pífio, sem que as providências adotadas para sanar os problemas mostrassem resultados. Todas as armas em já mãos do exército foram recolhidas e o sistema de ação a gás, totalmente refeito. Embora a versão resultante funcionasse perfeitamente bem, a distribuição da nova arma foi inicialmente lenta, e o governo resolveu que o M1903, mais simples e mais barato, deveria continuar existindo. Em 1940, com a decisão da ampliação do exército, foi resolvido que uma versão simplificada deveria ser produzida, adotando métodos simplificados de fabricação – basicamente a adoção de peças estampadas onde fosse possível, um novo aparelho de pontaria (com orifício de mirada central – “grão de pimenta”) e a adoção da coronha “A1”, que foi apelidada de “coronha C” ( em inglês, C-stock). A maioria dos “US Rifle M1903A3”, como passaram a ser denominados continuou a ter raiamento de 4 sulcos, embora uns poucos tenham recebido raiamento de 2 sulcos, novidade que diminuia o desempenho da arma sem facilitar a produção. Uma versão denominada “M1903A4” foi distribuída para atiradores de escol (snipers), adaptada para uso de miras telescópicas.

O fuzil M1903 é, basicamente, uma arma longa de operação manual, alimentada por clipe pré-preparado de 5 cargas, *bloco de culatra semi-rotativo acionado pelo atirador a cada disparo. O mecanismo de culatra é uma cópia do sistema Mauser, com algumas modificações no trancamento. A diferença mais notável entre o M1903 e o Mauser 1898 é a alavanca de acionamento do ferrolho, que, nesse último, é reta e no primeiro, curvada para baixo. O sistema de segurança é igual ao do fuzil alemão, com uma trava localizada na parte posterior do bloco de culatra.

O Springfield era uma arma confiável – talvez não tão boa quanto o Mauser, mas resistente e precisa. No início da guerra, enquanto os EUA se adaptavam para suportar o peso de ser o “arsenal da democracia”, o M1903 foi amplamente distribuído para as forças armadas. No teatro do Pacífico, chegou a superar o Garand M1, que no início era muito sensível à umidade. Mas no final de 1944, calcula-se que uns sete milhões de M1 tivessem sido fabricados. O motivo pelo qual a FEB não os recebeu é simples: o número astronômico não era suficiente para atender a todos os combatentes nem mesmo nas forças armadas dos EUA (nas quais serviram cerca de 13 mihões de pessoas, mais de 8 milhões das quais no exército). Ainda assim, os “pracinhas” se saíram bem, pois eram considerados bons atiradores até mesmo para os padrões norte-americanos.::

Uma fortificação, posto que é Segunda::Linha Gótica, 1944

Linha Gótica em agosto de 1944, imediatamente antes da chegada da FEB. O posto a ser ocupado pela tropa brasileira corresponde aproximadamente ao espaço entre a 1a Div. Blindada dos EUA e a Força-Tarefa 45.

Linha Gótica em agosto de 1944, imediatamente antes da chegada da FEB. O posto a ser ocupado pela tropa brasileira corresponde aproximadamente ao espaço entre a 1a Div. Blindada dos EUA e a Força-Tarefa 45.

Bem, não era propriamente uma fortificação, mas o teatro de operações em que a FEB esteve empenhada::

Depois da queda de Roma, em junho de 1944, os alemães retiraram-se de maneira organizada para estabelecer uma nova posição defensiva nos Montes Apeninos – essa posição recebeu o nome de “Linea Gotica” (em italiano).  Os Apeninos são uma cadeia de montanhas que atravessa a península italiana desde La Spezia, à oeste, até Pesaro, na costa italiana no Mar Adriático. O sistema defensivo alemão se estendia ao longo de quase 320 quilômetros. Constava de uma zona limitada, adiante, pelos rios Arno e Metauro, com um campo de defesa em profundidade que se alongava sobre a linha Viareggio-Chiesa-Lucca-Pescia-Pistóia-Dicomano-Consumma, até o Passo de Viamaggio; depois, pela esquerda do Foglia, até Pesaro. O limite posterior seguia a linha Massa, Altissimo, Pania della Choce, Borgo Mozzano, Abetone, Piastre, Collina, Vernio, La Futa, Giogo, Casaglia, San Godenzo, Monte Falterana, Passó Maridrioli, Verghereto e, por fim, atingia o Adriático em Rimini. A linha era constituída por fortificações de caráter semipermanente: trincheiras e obras de terra socada e madeira, com pouco uso de cimento e ferro. Foram construídas posições de artilharia, postos de fogo de infantaria, refúgios, depósitos de munição, abastecimentos e vias de comunicação. Campos minados e fossas antitanques reforçavam as posições. Nos extremos do sistema defensivo, na costa, existiam obras de concreto e aço. De fato, a extensão a defender era enorme e o tempo e os recursos, escassos. Assim, no início de agosto, quando a manobra foi considerada completada, muitas das obras defensivas não tinham sido concluídas. Os alemães dividiram a frente em duas zonas, com limite interno a leste da linha Florença-Bolonha. Dispunham, para a defesa, de dois exércitos, o 10o e 14o, que totalizavam 19 divisões: 14 na primeira linha, 2 empenhadas no litoral e nos flancos, e 3 em reserva, atrás da frente. Entretanto, esse número é enganoso, pois nessa época, os efetivos das divisões alemãs estavam reduzidos a dois terços da força original, o que significava que os alemães dispunham, na realidade, de cerca de aproximadamente 12 divisões, em efetivo.

Se você quiser examinar o excelente mapa acima em detalhes, clique aqui, e, em seguida, em “Map 1”. É possível ampliar as diversas áreas::

Duas frases para pensar::Afinal, é Sexta-feira::

Para pensar sobre o que representou o Brasil na Segunda Guerra Mundial. Pensando bem, duas é pouco. Que sejam quatro::

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A FEB era um bom resumo do povo do Brasil, não só porque tinha soldados de todos os seus Estados e de todas as classes sociais e de cultura, como porque levava todos os seus defeitos e improvisações, todas as suas  incoerências e mitos, todas as falhas e virtudes desse povo.

Rubem Braga, cronista, escritor, e correspondente de guerra, julho de 1969.

Eu sentia que meus olhos estavam virando verde de ver tanta água.

José Carlos de Miranda Corrêa, 2º tenente-aviador, Força Aérea Brasileira, falando em 1993, sobre as longas patrulhas em aeronaves Catalina.

Confio que compartilhe da minha convicção de que acordos assinados em 3 de março constituem a base de um novo e proveitoso desenvolvimento entre os dois países. Graças à dilatação do acordo de empréstimos e arrendamentos  e às listas de entregas que foram combinadas, as Forças Armadas Brasileiras num prazo muito menor do que tínhamos preveamente julgado possível, estarão equipadas … [e] capazes de desempenhar sua parte na defesa do seu país e do continente.

Carta de Franklin Roosevelt a Getúlio Vargas, abril de 1942.

Quando você voltar para casa/ fale a todos sobre nós e diga:/ por seu amanhã, / lhes demos nosso hoje.

Inscrição no memorial aos soldados bitânicos mortos na batalha de Kohima (Índia Oriental), 1944::