Minha comemoração particular do fim da 2a GM::


Esta comemoração particular começa um tanto atrasada, visto que o redator andou encalacrado com tarefas bem menos interessantes. Sem problemas – começaremos hoje, 15 de maio, data em que as últimas forças alemãs na Europa Central, Noruega e no mar (em 8 de maio, ainda havia certa de 75 submarinos em patrulha)  depuseram, organizadamente, suas armas diante de forças aliadas e seguiram para campos de internação geralmente situados na própria Alemanha::

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Segundo os termos da rendição incondicional assinada em 8 de maio (e repetida pelo menos dez vezes nos sete dias seguintes), não apenas os militares alemães deveriam depor armas. Também as milícias (como, por exemplo, a organização paramilitar Volksturm), organizações de treinamento da Juventude de Hitler, Guarda Anti-aérea (Luftschutz) e forças policiais foram convocadas a se render. Tratava-se, segundo um oficial inglês, de “um cenário de pesadelo”, com milhões de pessoas a serem abrigadas, alimentadas e vigiadas.

Inicialmente havia intenção por parte dos aliados em fazer uma triagem rigorosa entre os cativos de modo a identificar indivíduos que pudessem ter cometido crimes de guerra. Com o tempo, essa triagem revelou-se impossível, e o problema dos prisioneiros passou a ser tratado de duas formas: norte-americanos e britânicos (e com alguma relutância, os franceses) colocaram a questão no âmbito da “desnazificação”; os soviéticos consideraram todos os membros das forças armadas, das organizações civis militarizadas e do serviço público como criminosos ou cúmplices.

Em 1945 a Alemanha tinha 8 milhões de nazistas declarados (aqueles que eram membros inscritos do NSDAP); a reconstrução urbana, os serviços públicos, a iniciativa privada, no pós-guerra, teriam de ser assumidas por parte dessa gente. No caso dos aliados, esse curso de ação envolvia problemas irresolvíveis. O resultado é que milhares de criminosos notórios acabaram passando pelo processo absolutamente incólumes – como foi o caso do general SS Karl Wolff (que negociou a rendição das tropas alemãs na Itália), Aribert Heim, Adolf Eichmann, Joseph Megele, Oswald Kaduk, dentre outros. No caso soviético, milhares de homens foram mantidos em internamento e trabalhos forçados até 1956, quando os últimos foram libertados por iniciativa de Nikita Kruschev, que, então, tentava se aproximar com a Europa Ocidental.

Os prisioneiros mais notórios foram, sem dúvida, os líderes políticos e militares do regime. Vinte e quatro deles, considerados os mais representativos dentre os capturados com vida, foram levados a julgamento, numa decisão que remonta a 1943, com a “Declaração de Moscou”. Esse documento foi elaborado em conjunto, ao longo de outubro daquele ano, pelo Secretário do Exterior dos EUA, Cordell Hull, o Ministro de Assuntos Estrangeiros da Grã-Bretanha, Anthony Eden e o Comissário do Povo para Assuntos Estrangeiros, Venchieslav Molotov. Segundo o texto  os líderes das nações empenhadas na luta contra o nazismo não apenas estabeleciam o princípio da “rendição incondicional” como reafirmavam a disposição de levar a julgamento todos os líderes nazistas, de forma a chamá-los à responsabilidade pelos atos cometidos até aquela data, e por cometer, por seus agentes. Em novembro, Rooselvelt, Churchill e Stalin assinaram conjuntamente a declaração, que foi divulgada no mesmo dia. O resultado objetivo, cerca de três anos depois, foi o estabelecimento do Tribunal Penal Internacional, que julgou os principais líderes nazistas na cidade alemã de Nuremberg.

O serviço público alemão existente desde 1933 foi dissolvido e colocado sob controle militar aliado. A Wehrmacht (forças armadas alemãs, organização criada em 1935) deixou de existir e – juntamente com o Partido Nacional-Socialista e as SS – foi declarada “organização criminosa”, visto ter sido um dos principais instrumentos da “guerra de agressão”. Seus líderes perderam os postos militares e foram considerados passíveis de imputação. Isso significaria, eventualmente, o julgamento de mais de 6000 oficiais-generais e de dezenas de milhares de oficiais superiores. Isso não foi feito, e nem era o objetivo. O que os aliados pretendiam era manter milhares de generais e oficiais superiores prisioneiros, por tempo mais longo, e que centenas deles pudessem ser interrogados por autoridades civis (policiais, por exemplo) – o que, segundo as normas internacionais de tratamento de prisioneiros, não poderia ser feito. Alguns desses oficiais-generais e oficiais superiores foram, de fato, condenados a sentenças que chegavam à prisão perpétua, mas a maior parte deles foi libertada e alguns, eventualmente, tornaram-se os chefes das novas forças armadas alemãs criadas em 1955.

No início dos anos 1950, não havia mais prisioneiros de guerra no lado aliado, e uma quantidade relativamente pequena de ex-nazistas esperava por julgamento. A necessidade de preparar a Alemanha Ocidental para a desocupação e estabelecimento de um governo autônomo, assim como o  início da Guerra Fria, em 1948, levaram os aliados a lançar mão de muitos dos recursos humanos formados aos longo dos 12 anos de regime nazista. Para além disso, depois da guerra, os EUA, a Grã-Bretanha, França e URSS, cada um ocupando parte da Alemanha, promoveram a desnazificação de forma diversa, o que acabou produzindo resultados diversos. A partir de 1946, os aliados ocidentais concluíram que não poderiam investigar toda a população alemã e passaram a classificar ex-nazistas em cinco categorias, das quais quatro tornavam o classificado  imputável: Grandes ciminosos, Criminosos, Criminosos MenoresCúmplices e Não-imputáveis. Foram distribuídos 25 milhões de  Fragenbogen (questionários), dos quais uns 16 milhões retornaram às autoridades de ocupação (principalmente na zona norte-americana: ingleses e franceses levaram a coisa menos a sério). Esse era um artifíco para que cada alemão classificasse a si mesmo, mas o fato é que os questionários foram tratados com desinteresse e desdém. Muitos daqueles que, em outra situação, teriam sido colocados nas três primeiras categorias, mentiram, e não apenas escaparam de qualquer punição como se qualificaram para funções na administração pública. Uma boa parte das novas forças armadas e forças policiais, bem como do serviço público, tinha algum grau de envolvimento com o governo de Hitler. “Era inevitável” – disse, anos depois, um funcionário norte-americano – “pois, de outra maneira, teríamos levado vinte anos ou mais para recolocar a Alemanha para funcionar.” Em 1949, as investigações que ainda prosseguiam sobre a conduta de funcionários públicos civis e militares foram encerradas na zona ocidental. Os soviéticos agiram de modo ainda mais pragmático: simplesmente trataram a questão dentro de objetivos políticos mais amplos, que poderiam ser resumidos em consolidar, na zona soviética, a dominação comunista.::

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2 pensamentos sobre “Minha comemoração particular do fim da 2a GM::

  1. Muito interessante também foi o pragmatismo com que os EUA trataram do Imperador Japonês, o qual foi poupado de ser julgado como criminoso de guerra, pois representava uma figura muito importante para o povo na tarefa de reconstruir o Japão.

    Seria esse pragmatismo todo, medo da influência comunista sobre os povos derrotados?

  2. Editei o post, fazendo um tipo de “segunda postagem” em função dessa sua observação sobre o Imperador Japonês, mas não ficou mto boa… Acho q farei uma especializada.

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