Cultura Material Militar::SpringfieldM1903::


Infante da FEB, portando um Springfield M1903 escolta prisioneiros alemães, 1945.

Infante da FEB, portando um Springfield M1903 escolta prisioneiros alemães, 1945.

A 1a Divisão de Infantaria Expedicionária era a principal unidade combatente da FEB, com exatos 15069 efetivos, distribuídos por três regimentos de infantaria. Entretanto, a 1ª DIE não chegou ao TO italiano completa. De fato, o 1°Escalão, desembarcado em setembro de 1944, era formado pelo 6º Regimento de Infantaria, de Caçapava (SP) e por algumas unidades complementares. Quando da formação da FEB, em maio de 1943, ficou acertado que a tropa brasileira seria organizada segundo o modelo norte-americano.

O 1º Escalão embarcou sem nenhum equipamento de combate. Uma vez na Itália, a tropa foi distribuída por diversas unidades de treinamento, a principal das quais foi a Escola de Treinamento e Liderança de Combate (Leadership and Battle Training School, instalada em Caserta),onde permaneceria durante algumas semanas; outros integrantes freqüentaram escolas de motoristas, de sinaleiros (como os norte-americanos chamam o pessoal de comunicações) e de saúde. Oficiais e sargentos estagiaram em unidades de combate dos EUA. O equipamento individual (uniformes e pertences pessoais) era, na maior parte, fabricado no Brasil mesmo. O único item recusado foi o capacete de aço, que no Brasil, não era padronizado, de modo que foi distribuído o capacete padrão norte-americano, o modelo M1. Posteriormente, certas peças de uniforme norte-americano foram distribuídas por não existirem similares brasileiros: o equipamento de inverno, por exemplo.

Com o armamento, a questão era bem outra. No Brasil, a principal arma da infantaria era o fuzil *Mauser modelo 1908 cal. 7X57 mm. O Mauser era uma arma excelente, mas não havia como distribuí-lo aos expedicionários brasileiros, em função da organização da logística: não era possível levar o armamento existente no Brasil para Itália e, principalmente, prover a munição necessária na quantidade exigida, visto que no Brasil não havia capacidade industrial instalada suficiente para produzi-la. Assim, desde o início ficou decidido que a FEB seria provida de equipamento norte-americano. O problema é que, uma vez desembarcada e integrada a tropa aos quadros do V Exército dos EUA, parecia não haver armamento para equipar os cinco mil e tantos combatentes do 6º RI e das unidades auxiliares. Segundo diversos testemunhos, a começar o do próprio comandante, o então general-de-divisão, futuro marechal, Mascarenhas de Moraes, diversos depósitos foram percorridos, e os administradores americanos somente concordavam em entregar equipamento em pequenas quantidades. De fato, a tropa brasileira estava diante de uma situação nova. A doutrina introduzida pelo exército norte-americano previa que as grandes-unidades dispusessem de enorme quantidade de armamento: uma divisão regular do US Army dispunha de cerca de 17.000 armas de todos os tipos, coisa inimaginável no Brasil. Apenas para começar a conversa, para um regimento seria necessário algo em torno de 5000 armas de infantaria: fuzis, sub-metralhadoras (item quase desconhecido no exército brasileiro, até então), *fuzis-metralhadores (arma que existia no exército brasileiro, mas empregado de forma diversa daquela do exército dos EUA), metralhadoras pesadas, além de certa quantidade de armas curtas. Basicamente, a FEB recebeu, embora a conta-gotas, o equipamento utilizado pelos norte-americanos. Com uma exceção: o fuzil-padrão. A infantaria dos EUA usava o excelente Garand M1, cartucho .30-06 (7.62X63 mm) semi-automático. A tropa brasileira recebeu o “US Rifle M1903″.

O US Rifle M1903A3, cal. 7.62X63 mm, fabricado em 1944 pela Remington Machine Works. Essa foi a arma dos infantes brasileiros na Itália. Apenas um soldado de cada esquadra recebia o Garand M1.

O US Rifle M1903A3, cal. 7.62X63 mm, fabricado em 1944 pela Remington Machine Works. Essa foi a arma dos infantes brasileiros na Itália. Apenas um soldado de cada esquadra recebia o Garand M1.

Essa arma era conhecida como “Springfield” M03, e seu desenvolvimento começou no final do século XIX, quando tropas dos EUA engajadas na Guerra contra a Espanha avaliaram que seu armamento, basicamente o fuzil de ferrolho *Krag-Jorgensen e o fuzil de tiro único calibre .45 Springfield (conhecido como “trap-door” em função do sistema de carregamento) tinha desempenho muito inferior ao dos Mauser alemães que equipavam unidades mexicanas. O grande problema era que o Krag, produzido nos EUA com base em um desenho dinamarquês, era muito frágil para a munição norte-americana, além de não incorporar certos refinamentos, como o carregamento por clipe pré-preparado. Em 1900, o arsenal de Springfield recebeu a incumbência de desenhar um novo fuzil, e a exigência era que fosse baseado no Mauser, cuja licença de produção foi adquirida por preço notavelmente vantajoso. Um novo cartucho foi desenhado para a nova arma, incorporando um estojo sem cinta (em inglês, rimless) e um projetil “rombo” (de ponta semi-esférica) jaquetado, calibre 7.62 (.30 de polegada, na medida norte-americana), projetado para atingir a velocidade de 670 m/s. Tanto o novo cartucho quanto o novo fuzil foram adotados em 1903, recebendo ambos a notação M1903. A arma foi desenhada para incorporar certo tipo de baioneta que era considerado obsoleto, de modo que o resultado final foi recusado pelo exército e voltou à fábrica. O aspecto mais importante do fuzil M1903 foi a incorporação da filosofia de “fuzil encurtado”, inventada pouco anos antes pelos britânicos, e que implicava em uma arma que poderia ser distribuída tanto para a infantaria quanto para tropas especializadas, como as de montanha. Entretanto, no decorrer do desenvolvimento do novo “US Rifle”, os alemães introduziram o projetil “ponteado”, mais leve, mas de melhor desempenho aerodinâmico. O novo desenho tornou-se uma tendência, e os norte-americanos reprojetaram o cartucho de forma a incorporar a inovação. Em testes, a nova versão saiu-se muito melhor que a anterior. Adotado em 1906, a munição “Springfield .30-06″ tinha velocidade de boca de 880 m/s. O aparelho de pontaria do novo fuzil teve de ser refeito, pois o alcance do novo projetil era cerca de 20 por cento maior do que o anterior. Foi com essa arma que as tropas dos EUA foram lutar a 1ª GM. Em combate, a arma mostrou certos problemas, ocasionados por falhas de projeto – particularmente uma tendência a “rebentar” depois de relativamente pouco uso. Esse problema foi resolvido através de mudanças no processo de usinagem das peças do receptor.

Durante o periodo entre-guerras o M1903 continuou sendo produzido, sem maiores alterações. Um novo desenho da coronha, adotado em 1929 tornou a arma mais cômoda de manusear. Essa versão recebeu a notação M1903A1, mas poucos foram fabricados. Em 1932 foram iniciados estudos para uma nova arma padrão, o que criou um vazio, visto que a produção do Springfield foi muito diminuída. Em 1936 o Garand M1 já estava pronto, mas as dificuldades de adaptação da indústria tornaram a distribuição lenta. Além do mais, as primeiras amostras apresentaram desempenho pífio, sem que as providências adotadas para sanar os problemas mostrassem resultados. Todas as armas em já mãos do exército foram recolhidas e o sistema de ação a gás, totalmente refeito. Embora a versão resultante funcionasse perfeitamente bem, a distribuição da nova arma foi inicialmente lenta, e o governo resolveu que o M1903, mais simples e mais barato, deveria continuar existindo. Em 1940, com a decisão da ampliação do exército, foi resolvido que uma versão simplificada deveria ser produzida, adotando métodos simplificados de fabricação – basicamente a adoção de peças estampadas onde fosse possível, um novo aparelho de pontaria (com orifício de mirada central – “grão de pimenta”) e a adoção da coronha “A1”, que foi apelidada de “coronha C” ( em inglês, C-stock). A maioria dos “US Rifle M1903A3”, como passaram a ser denominados continuou a ter raiamento de 4 sulcos, embora uns poucos tenham recebido raiamento de 2 sulcos, novidade que diminuia o desempenho da arma sem facilitar a produção. Uma versão denominada “M1903A4” foi distribuída para atiradores de escol (snipers), adaptada para uso de miras telescópicas.

O fuzil M1903 é, basicamente, uma arma longa de operação manual, alimentada por clipe pré-preparado de 5 cargas, *bloco de culatra semi-rotativo acionado pelo atirador a cada disparo. O mecanismo de culatra é uma cópia do sistema Mauser, com algumas modificações no trancamento. A diferença mais notável entre o M1903 e o Mauser 1898 é a alavanca de acionamento do ferrolho, que, nesse último, é reta e no primeiro, curvada para baixo. O sistema de segurança é igual ao do fuzil alemão, com uma trava localizada na parte posterior do bloco de culatra.

O Springfield era uma arma confiável – talvez não tão boa quanto o Mauser, mas resistente e precisa. No início da guerra, enquanto os EUA se adaptavam para suportar o peso de ser o “arsenal da democracia”, o M1903 foi amplamente distribuído para as forças armadas. No teatro do Pacífico, chegou a superar o Garand M1, que no início era muito sensível à umidade. Mas no final de 1944, calcula-se que uns sete milhões de M1 tivessem sido fabricados. O motivo pelo qual a FEB não os recebeu é simples: o número astronômico não era suficiente para atender a todos os combatentes nem mesmo nas forças armadas dos EUA (nas quais serviram cerca de 13 mihões de pessoas, mais de 8 milhões das quais no exército). Ainda assim, os “pracinhas” se saíram bem, pois eram considerados bons atiradores até mesmo para os padrões norte-americanos.::

Anúncios

7 pensamentos sobre “Cultura Material Militar::SpringfieldM1903::

  1. Um ex-marine uma vez me disse (em um trem passando por Baltimore) que o fuzil de sniper que ele usou no Vietnã (e que continua sendo usado hoje), o m-14, era essencialmente um M-1 Garand evoluido.

  2. Alias, agora lembrei. Não foi ele que usou o m-14; ele foi na verdade alvejado por um vietcong (ou NVA, sei lá) com um m14 capturado. Ele passou meses se recuperando, e deu baixa nos fuzileiros. Meses depois, entediado, ele se voluntariou para uma unidade caça-minas da marinha. Velhinho simpático… Estava indo visitar DC, acompanhado da esposa, natural de Manila.

    • Tem uma foto por aí pelo causa:: q mostra um atirador de elite americano com um M14 configurado para tiro de precisão. Pretendo, em algum momento no futuro, fazer um texto sobre armas de precisão e seu uso em combate. Conheci um PM q levou um tiro “por engano” de um sniper do BOPE, lá no Rio. A bala atravessou o colete do cara varou o ombro e parou no escudo costal. Segundo uma lenda urbana q corre na “cidade (não-tão) maravilhosa”, mtas das “balas perdidas” são, de fatos, tiros intencionais de atiradores de elite. Aquele capitão q escreveu “Elite da tropa” fala nisso, e em mtos blogs de caras da PM também rola algo a respeito. Sabe-se lá…

  3. Bitt, quer dizer que ovolume de fogo de uma esquadra brasileira era mais ou menos parecido com o de uma esquadra alemã? Afinal significa que a maioria dos soldados e ambos os lados usava fuzis de ferrolho não?

  4. Gostei do artigo. Estou pesquisando o armamento utilizado pela FEB e os dados batem com os que tenho. Saberia dizer se a FEB recebeu o Springfield 1903 ou os 1903 A3?

  5. Parabéns! Muito bom! Que aula de história! Ouvi relatos de pracinhas, que eles não receberam armamentos melhores.
    Pois eram considerados tropas conscritas, de segunda linha.
    A política dos EUA com essas tropas, era a de não fornecerem o melhor, visto que tropas desse nível. Gastavam a munição inteira a longa distância do inimigo, ou em algum barranco. E voltava pra base, dizendo que entrou em combate e a munição terminou. (Por covardia)
    Pelo mesmo motivo, durante a primeira fase do conflito, os praças não recebiam missões de combate. Apenas missões de “reconhecimento”. Que na verdade eram de combate, mas não eram reveladas assim, para que a tropa não fosse covarde a cumprir a missão.
    Com o passar do tempo, muitos americanos se arrependeram. Pois ficou provada a coragem, bravura e a eficácia das tropas do Brasil!

    Sucesso!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s