Minha comemoração particular do fim da 2a GM:: FEB


A Segunda Guerra Mundial atingiu o Brasil aos poucos. Em setembro de 1939 as notícias publicadas nos principais órgãos de imprensa brasileiros eram pouco elucidativas. O país mantinha intenso relacionamento comercial com a Alemanha, e, de início, essas relações foram afetadas apenas pelo bloqueio naval que a Grã-Bretanha tentou montar contra a navegação oceânica da Alemanha. Alguns navios mercantes alemães, surtos em portos brasileiros foram, segundo as normas internacionais, internados, o que frisou a intenção do governo nacional em se manter neutro. A partir de 1940, conforme os EUA começaram a manifestar apoio irrestrito à Grã-Bretanha, se tornou mais forte a pressão para permitir a utilização, por parte das forças armadas daquele país, de instalações militares, portos, aeroportos e facilidades de infra-estrutura no Norte e do Nordeste brasileiros: estradas de ferro e de rodagem, usinas elétricas e armazéns, por exemplo. As pressões norte-americanas encontraram resistência entre boa parte dos setores militares brasileiros, cuja formação sempre se caracterizou por forte sentimento nacionalista. Esses militares viam a presença de tropas estrangeiras em território brasileiro como violação inaceitável da soberania nacional. Além disso, parte da oficialidade, representada principalmente pelo comandante do Exército, general Góis Monteiro, nutria certa simpatia pelo regime nazista, e preferia que o país permanecesse neutro. A recusa norte-americana em colaborar com o re-aparelhamento das forças armadas brasileiras, na segunda metade dos anos 1930, contribuiu para piorar a antipatia.

As vitórias iniciais da Alemanha na Europa, a instalação do governo fantoche de Vichy, após a derrocada da França em 1940 e o desembarque de uma força expedicionária alemã na Líbia na primeira metade de 1941 despertaram, no Departamento de Estado dos EUA, o temor que os alemães pudessem estar planejando uma invasão ao Nordeste brasileiro a partir de Dakar (Senegal, colônia que se mantinha alinhada a Vichy) ou do arquipélago dos Açores. O desembarque aeroterrestre em Creta, em maio de 1941 só contribuiu para aumentar a desconfiança: caso acontecesse essa operação (que, de fato, não passava de fantasia), os nazistas poderiam ameaçar o canal do Panamá e o Caribe. Entretanto, os diversos planos preventivos elaborados pelo Estado-maior das forças armadas dos EUA não tinham nada de delírio persecutório: o principal deles previa a ocupação do Nordeste brasileiro — com ou sem o consentimento do governo Vargas — por uma força com efetivo de três divisões. Vargas estava ciente dessa possibilidade, e acabou, em 24 de julho de 1941, por autorizar a utilização das facilidades aéreas e navais existentes por unidades militares dos EUA, e a instalação de bases militares a ser construídas pelos norte-americanos no Amapá, em Belém, em São Luís, em Fortaleza, em Natal, no Recife e em Salvador.

De fato, a participação brasileira na guerra começou cedo, embora de modo tímido. Desde 1939, ações de submarinos se registraram na costa brasileira, apesar da neutralidade declarada pelo governo nacional. As forças armadas pouco podiam fazer, naquele momento: a Marinha de Guerra dispunha de meios precários, tanto em equipamento quanto em pessoal. A esquadra contava com navios de mais de 30 anos de existência e com eram poucas as unidades mais modernas, adequadas à guerra anti-submarina: algumas corvetas, adaptadas a partir de navios-mineiros, e três contratorpedeiros. Esse material flutuante deveria cobrir uma extensão de quase 5000 quilômetros, entre a foz do Rio Pará e Santa Catarina, incluindo as ilhas de Fernando de Noronha e Trindade, em pleno oceano. Meios aéreos modernos, então, nem pensar: o melhor que havia era uma dúzia de aviões Focke-Wulf Weihe, bombardeiros de pouca autonomia e com armamento inadequado. Ainda assim, entre os anos de 1940 e 1941, a Marinha elaborou um programa de exercícios que, de fato, destinava-se a manter atividades de patrulha regulares no litoral entre o Nordeste e Santa Catarina – na prática, a esquadra ficava se movendo de um lado para outro, ora para o norte, ora para o sul.

Com o ataque japonês a base naval de Pearl Harbor, no Havaí, a aproximação como os EUA tornou-se inevitável, em função do princípio de defesa mútua pan-americana. Entretanto, a resistência de Vargas à colaboração com os EUA no “esforço de defesa pan-americano” tinha por objetivo tirar partido da situação, de modo a implementar certos projetos nacionais de construção de uma usina siderúrgica de grande porte. Embora tivessem ocorrido, na segunda metade da década anterior, negociações iniciais com a Alemanha, o início da guerra fez com que as conversações com representantes da Krupp, de Essen, fossem interrompidas. Além do mais, a “defesa comum” apresentava a oportunidade que os militares brasileiros buscavam de acelerar a modernização das forças armadas. As negociações entre Brasil e EUA seguiriam ao longo de quase dois anos, e envolveriam diversos programas abrangendo todas as forças armadas e diversos serviços civis, como, por exemplo, infra-estrutura portuária e de aeronáutica civil.

Logo no início de 1942, a 28 de janeiro, deu-se o rompimento de relações diplomáticas com os países do Eixo e adesão brasileira à Declaração das Nações Unidas e à Carta do Atlântico. Esses eventos serviram como justificativa para que a Alemanha, agora definitivamente fora do continente americano, lançasse uma ofensiva submarina contra o litoral brasileiro. Entre fevereiro e agosto de 1942 uma série de ataques contra navios mercantes brasileiros que navegavam nas costas do país provocou o afundamento de 21 unidades, com perdas de centenas de vidas. A indignação da população foi marcante. Para diversas associações civis, a maioria delas simpáticas ao regime (o que tornava as manifestações insuspeitas) o “estado de beligerância” deixou de ser suficiente até mesmo antes de ser declarado, em agosto: demonstrações de rua exigiam a declaração de guerra.

Em 31 de dezembro de 1942, Vargas, em discurso diante de centenas de oficiais militares, sublinhou o que vinha dizendo desde meados do ano: o Brasil não se limitaria ao fornecimento de matérias-primas aos países aliados. Segundo o ditador, “o dever de zelar pela vida dos brasileiros obrigados a medir as responsabilidades de uma possível ação fora do continente. De qualquer modo, não deveremos cingir-nos à simples expedição de contingentes simbólicos”. Alguns dias após a declaração, o ministro da Guerra Eurico Gaspar Dutra apresentou um plano ao presidente no qual afirmava que o Exército estava preparado para enviar para o exterior cinco divisões e as formações auxiliares necessárias, totalizando cem mil homens. Mas tanto Dutra quanto Vargas sabiam que tal pretensão era delirante. Tratava-se, de fato, de um jogo político: o principal apoio da ditadura brasileira era as forças armadas. Vargas tinha, dessa forma, de sustentar o prestígio político dos militares, o que significava, dentre outras ações, implementar as reivindicações dos comandantes pela ampliação e modernização das corporações. Declarando-se disposto a combater ativamente o nazifascismo, a ditadura brasileira acalmava a oposição e ganhava tempo com as reivindicações de liberalização. Assim, fazia sentido que a participação brasileira no conflito não se restringisse à defesa do país e à colaboração com o esforço de guerra norte-americano, como teria sido a preferência dos EUA. O envio de forças brasileiras ao teatro europeu passou a ponto inegociável, visto que a presença das forças armadas nacionais em combate aumentaria o prestígio e a influência do país – e dos militares – no cenário latino-americano. Em 3 de março de 1943, com a assinatura dos Acordos de Washington, a cooperação econômica e militar entre o Brasil e os EUA ficou estabelecida, tendo como contrapartida o envolvimento direto do país no conflito, não apenas com a participação ativa na defesa do litoral, mas também com a formação de uma força militar para intervir no teatro europeu.

No encontro que manteve com Vargas em Natal, em fevereiro de 1943, o presidente norte-americano Franklin Roosevelt mencionou a possibilidade de o Brasil enviar tropas aos Açores e à ilha da Madeira. Vargas respondeu positivamente, mas lembrou que qualquer participação dependeria do re-equipamento e treinamento do Exército, Marinha e Força Aérea brasileiros, prometido pelos EUA. Os militares norte-americanos e setores do Departamento de Estado não viam com simpatia o envolvimento militar do Brasil, e consideravam problemático o transporte das tropas brasileiras para a África. Não que a participação direta na guerra fosse ponto pacífico no Brasil: as opiniões eram divergentes. Ainda assim, em 5 de março de 1943, Vargas aprovou o memorando de Dutra sobre a força expedicionária, reforçando que o envio das tropas dependia do recebimento do equipamento necessário à modernização do exército brasileiro. A questão era extremamente complexa, visto que as forças armadas, treinadas por missões de assessores militares (franceses para o exército, em 1921, e norte-americanos para a marinha, em 1922), eram totalmente obsoletas, tanto em meios quanto em doutrina. Basta dizer que o exército, em 1940 tinha algo em torno de 70000 efetivos, praticava a doutrina de “defesa ativa” dos franceses – a guerra de trincheiras -, era carente de artilharia, não tinha meios motorizados e desconhecia a guerra blindada. A marinha estava um pouco melhor, pois, desde 1942 estava sob supervisão direta do vice-almirante norte-americano que comandava as forças navais dos EUA no Brasil. Desnecessário dizer que não existia uma força aérea digna desse nome.

Em 9 de agosto de 1943, finalmente, a Portaria Ministerial nº. 4744, estabeleceu a  estrutura da Força Expedicionária Brasileira. A FEB deveria ser constituída, por um corpo de exército formado por três divisões de infantaria: 1ª, 2ª e 3ª, e por órgãos não-divisionários necessários. A primeira unidade a ser constituída seria 1ª. Divisão de Infantaria Expedicionária (1ª DIE), a ser comandada por um general-de-divisão. Ainda no mês de agosto, o general João Batista Mascarenhas de Morais, então comandante da 2ª Região Militar, foi convidado pelo Ministro da Guerra a comandar a 1ª DIE. Antes deles, vários generais, entre os quais Valentim Benício, Amaro Bittencourt e Francisco Gil Castelo Branco, teriam sido consultados para exercer o cargo, mas não aceitaram. Mascarenhas não discutiu a indicação, que encarou como uma ordem. Era conhecido por ser apolítico e pela postura profissional (isso nos termos do exército brasileiro). Naquela época, não era pouca coisa.

Na próxima semana falaremos sobre como formar uma tropa de combate a partir de muita bravata e conversa-fiada, e como fazer essa tropa dar certo, contra tudo e contra todos::

Anúncios

4 pensamentos sobre “Minha comemoração particular do fim da 2a GM:: FEB

  1. Muito bom. O panorama político por trás de uma declaração de guerra é interessantíssimo.
    Consta que, não só Gois nutria simpatia pelo nazismo, mas inclusive Getúlio, o qual mandou confeccionar campanha publicitária enaltecendo o valor da “raça” brasileira, inclusive plagiando descaradamente cartazes do NSDPA.
    Mas parece que nossos mal-nutridos operários e camponeses não sairam tão bem na foto quanto os germanos de Goering.
    Enfim, creio que o lado nacionalista do nazismo tinha adeptos em muitos gabinetes políticos há época predecessora da Guerra.

  2. Agora, pensar que a Alemanha poderia invadir o Nordeste brasileiro é forçado. A operação Merkur em Creta exigiu um preço muito alto dos paraquedistas alemães, em número de baixas, e o próprio Hitler desautorizou seu uso em grandes operações novamente.

  3. Bem, há um livro de um diplomata brasileiro que fala sobre as influências germânicas na américa. Pelo que li os brasileiros iam se dar mal se os nazistas tivessem ganhos. Essa história de miscigenação devia dar engulhos nos eugenistas.

  4. Pois é, mas penso que o Getulio relevava a questão eugênica, o que ele queria mesmo era, sei lá, quem sabe promover o patriotismo nacionalista, da mesma forma que a campanha contemporânea “Sou brasileiro, não desisto nunca”.
    Talvez eu deveria trocar a palavra raça – apesar de estar entre parênteses – por povo.

    Relendo agora, vi que o fato de escrever ” não sairam tão bem na foto, etc” pode soar um pouco preconceituoso, mas é a pura verdade: os modelos brasileiros usados poderiam ter sido melhor escolhidos.[citei Goebbels, propositadamente, por isso]. Mas também não seria nenhum espanto imaginar como era a nutrição geral do camponês médio daquela época.

    Enfim, fico aqui a imaginar o quanto da exaltação nazista do povo alemão era discriminatória, e o quanto era, pragmaticamente, uma campanha para elevar a moral da população afim de enfrentar os anos de guerra.

    Pensando bem, é até uma pergunta descabível por toda atrocidade que foi cometida por meio disso, mas que acabou de me ocorrer, de fato.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s