O mês da Guerra da Coréia::Em causa, a Coréia::


Tivemos, ao longo de maio, uma comemoração especial sobre o fim da Segunda Guerra Mundial, enfatizando a participação do Brasil na luta contra o fascismo. É certo que as atribulações do redator fanático por história e tecnologia militar deixaram, infelizmente, pouco tempo para a festa. Por outro lado, enquanto falávamos sobre a Segunda Guerra Mundial, deu às caras um de seus mais acabados produtos: a Coréia. O ditador Kim Jong Il, da Coréia do Norte, último regime verdadeiramente estalinista no mundo, resolveu chamar atenção do dito reativando seu programa de armas estratégicas, ao mesmo tempo que lançava ameaças contra a Coréia do Sul, o Japão e contra o “Grande Satã” – os EUA.

E, curiosamente, o mês de junho marca a passagem do 57º aniversário da eclosão da Guerra da Coréia. Porque não comemorar, pois? Não que guerras sejam fatos a comemorar, mas essa, em particular, tem uma característica interessante e pouco observada. Entre junho de 1950 e julho de 1953, a península foi palco de uma guerra localizada que contrapôs as duas grandes potências, e na qual morreram aproximadamente 900.000 pessoas. Em teoria, essa guerra ainda não terminou, pois não foi assinado um tratado de paz, mas um armistício. Do ponto de vista da mecânica das relações internacionais e das formalidades diplomáticas, as duas Coréias ainda estão, tecnicamente, em guerra. 

 A Coréia do Norte e a Coréia do Sul surgiram do desenlace da Segunda Guerra Mundial e da configuração do mundo que resultou dela, a tal “Guerra Fria” sobre a qual tanto se fala (e, diga-se de passagem, fala-se muita besteira…). A *Península da Coréia, situada no Sudeste da Ásia, é ocupada por dois estados, divididos pelo Paralelo 38N. A maioria das pessoas tende a acreditar que a divisão atual da península resultou da guerra de 1950. Na realidade, é anterior: em 1945, imediatamente após a derrota do Japão, duas zonas de influência foram estabelecidas. O norte, ocupado pela União Soviética, e a partir de 1949, denominada “República Democrática do Povo da Coréia”. Abaixo do paralelo, na zona ocupada por tropas norte-americanas, a “República da Coréia”, estabelecida em 1948. A origem mais remota dessa divisão encontra-se na Conferência do Cairo, de 1943, na qual os aliados tinham resolvido tirar do Japão suas áreas coloniais. Os EUA, a China e a Grã-Bretanha concordaram que à Coréia deveria ser dada a independência, após as vitória das nações aliadas. A URSS aderiu a esse princípio quando, em maio de 1945, declarou guerra ao Japão. O presidente dos EUA e o chefe do governo soviético concordaram, na Conferência de Ialta,  em estabelecer um mandato internacional para a península, mas o que resultaria desse mandato não foi claramente formulado. O desembarque de forças soviéticas no norte da península, em julho de 1945, levou o governo dos EUA a ter de improvisar uma solução, visto que os norte-americanos não tinham tropas combatentes na região e os soviéticos estavam em posição de ocupar toda a península. Assim, em 15 de agosto, o presidente Harry Truman propôs a Stalin a divisão da Coréia, simplesmente traçando uma linha de coordenada, mais ou menos no meio da região. Stalin aceitou sem discutir. Naquele momento, o líder soviético parecia esperar que os EUA concordassem com a ocupação soviética de parte do território japonês. Ao contrário do que esperava Stalin, Truman convocou uma conferência de ministros aliados, que aconteceu em Moscou, em dezembro de 1945. Os aliados concordaram com um mandato de cinco anos, durante o qual um governo provisório prepararia a independência, sob supervisão das potências vencedoras. Os únicos que não gostaram do acordo foram os coreanos, de todo o espectro político. A direita, sob a liderança do extremista pró-americano Syngman Rhee, aproveitou-se da “ameaça comunista” para consolidar sua base política, em um momento em que, na China, os nacionalistas se viam sob forte pressão dos comunistas locais.  A comissão inter-aliada reuniu-se em Seul até adiar indefinidamente seus trabalhos, no início de 1947. Os soviéticos insistiam que apenas partidos e organizações sem ligação com o período de ocupação japonesa pudessem participar do processo. Isso significava a exclusão automática de amplos setores da política local – burocratas e empresários envolvidos, em diversos graus, com o esforço de guerra japonês. Os EUA recusaram essa fórmula, pois era a garantia que apenas os comunistas participariam do governo, já que constituiam a maioria dos movimentos que tinham se oposto aos japoneses.

O problema é que os EUA não tinham nenhum plano alternativo. A Coréia era, então, muito pouco conhecida pelo governo norte-americano e um problema adicional, observado pelos comandantes das forças de ocupação dos EUA era o fato de que os oficiais militares encarregados de governar a parte sul da península não sabiam nem a língua, nem os costumes e muito menos a história local. Os soviéticos não tiveram tal problema já que passaram o governo da porção norte do Paralelo 38 N ao Partido Operário da Coréia. No sul, o Partido tinha grande influência entre operários e estudantes. Diante da expansão comunista no sul, os EUA passaram a apoiar políticos exilados que retornavam à Coréia, de perfil conservador, e antigos membros da administração no período japonês. Em setembro de 1947, diante do agravamento da situação, o governo norte-americano submeteu o problema coreano às Nações Unidas. Em novembro, a Assembléia Geral reconheceu o direito da Coréia à independência e determinou a realização de eleições para uma assemblèia nacional unificada, no mês de maio do ano seguinte. Os soviéticos se recusaram a submeter o norte da península ao mandato da ONU, o que praticamente determinou a divisão do país, uma vez que os setores políticos comunistas e alguns nacionalistas de esquerda passaram a boicotar a eleição. A política de confronto entre os movimentos políticos locais acabou por diminuir a influência comunista e resultou no isolamento dos progressistas, diante da política de intimidação dos direitistas e da recusa do Partido em fazer alianças.

A Assembléia Nacional eleita em maio de 1948 adotou uma constituição que previa a forma republicana de governo. Syngman Rhee tornou-se o líder da assembléia e preparou, de forma apressada, o estabelecimento da República da Coréia, em agosto de 1948, da qual se tornou presidente. Um mês depois, as autoridades comunistas da área soviética cortaram laços com o governo do sul e proclamaram o estabelecimento da República Democrática do Povo da Coréia – que desde então passou a ser conhecida pela imprensa internacional como “Coréia do Norte”. O governante era o secretário do Partido dos trabalhadores da Coréia, Kim Il Sung. Kim alegava ser o líder legítimo de todos os coreanos, em função de eleições realizadas no norte e de alegadas eleições subterrâneas que teriam acontecido no sul.

Em setembro de 1948 foi criado o Exército da República da Coréia , que logo se viu diante de um motim de unidades formadas por simpatizantes dos comunistas. A revolta foi controlada mas revelou a fragilidade da estrutura militar do novo governo. Em 1949, os EUA não pareciam dispostos a apoiar  a república, que viam como fadada ao fracasso. No final de junho, as forças norte-americanas tinham sido retiradas e apenas duas brigadas (uns 8000 efetivos) permaneceram. Os estrategistas dos EUA pareciam conformados em perder a região e colocaram o país como “área externa ao perímetro de defesa norte-americano na Ásia”. Apenas garantiram, de forma vaga, que, no caso de uma agressão do norte, apoiariam o governo local com tropas.

A guerra veio, com a invasão da Coréia do Sul em junho de 1950. Mas deixemos esse tema para depois…::

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