Cultura material militar::O mês da Coréia::PPSh


A esta altura, todo mundo já sabe que o mês de junho marca o 59° aniversário da eclosão da Guerra da Coréia. Como já vimos em outro lugar, em 1945, pelo menos em aparência era concordância entre os aliados uma solução de consenso para a situação política da península. Na prática, as áreas de ocupação soviética e norte-americana passaram a se organizar por conta própria a partir de 1946. No norte, sob controle de tropas soviéticas, uma administração nos moldes da URSS foi montada, a partir de 1946, contando inclusive com um dispositivo militar, baseado nas unidades guerrilheiras sob controle centralizado. O futuro líder da Coréia do Norte, Kim Il-sung, depois de conduzir guerrilhas na fronteira entre a Manchúria e a Coréia do Norte, refugiou-se na União Soviética e acabou a 2ª GM como capitão do Exército Vermelho.  Durante a guerra, a guerrilhas coreanas eram armadas principalmente com equipamento fornecido pela China. Isto significava que o principal armamento disponível era de origem norte-americana, pois os soviéticos não queriam provocar os japoneses, mantendo-se neutros durante toda a guerra no Extremo Oriente.

Encerrada a 2ª GM, a situação mudou radicalmente. Com a ocupação da porção norte da península, os soviéticos passaram a fornecer apoio técnico e logístico ao governo estabelecido em sua zona de ocupação, logo após a Conferência de Moscou, realizada em dezembro de 1945. Nessa época, os coreanos incorporados ao Exército Vermelho retornaram à Coréia,  e os soviéticos passaram a fornecer grandes quantidades de material bélico estocado da 2ª GM, e que estava, naquele momento, sendo substituído. O novo exército norte-coreano recebeu tanques T-34/85 (que, na URSS, começou a ser substituído, em 1947, pelo *modelo T-54), canhões de emprego geral de *ZIS-3/76 mm e submetralhadoras PPSh. Esta última se tornou a principal arma da infantaria norte-coreana durante a guerra que se seguiu::

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A origem das submetralhadoras remonta ao final da 1ª GM. A tentativa de superar o impasse da guerra de trincheiras mostrou que um dos problemas (não o único) era a incapacidade das pequenas unidades de infantaria (esquadras e pelotões) em concentrar fogo de modo suficiente para superar posições de metralhadoras. A criação, pelos alemães, de forças especiais de infantaria conhecidas como “Tropas de choque” (Stösstruppen), altamente móveis e destinadas a procurar oportunidades de infiltração na linha de defesa adversária apontou a necessidade de uma nova arma de infantaria. Essa arma deveria ser leve e capaz de prover fogo em peso suficiente para confrontar posições teoricamente mais fortes. A resposta foi a adoção de uma arma com a conformação de uma pistola semi-automática, utilizando o mesmo tipo de munição (cartuchos curtos com projetis arredondados), mas capaz de disparar em rajadas.

Essa arma era a submetralhadora, ou como a chamaram os alemães, “pistola-metralhadora”. A primeira arma a incorporar totalmente o conceito de submetralha surgiu em 1918, desenhada por Louis Schmeiser e fabricada por Bergman Waffenfabrik. A *Maschinenpistole Model 1918, ou MP18 usava o cartucho Parabellum 9X19 do exército alemão. No período pós-guerra, o exame dessa arma por ingleses e norte-americanos, e seu uso durante a guerra civil na União Soviética levaram ao surgimento de diversos modelos similares, distribuídos principalmente entre forças policiais. A Guerras do Chaco foi o primeiro conflito no qual o uso militar de submetralhadoras mostrou-se viável e fez a balança pender para um dos lados. Nas guerras Civil Espanhola e Russo-Finlandesa, a submetralhadora consolidou-se como arma de infantaria, e alguns especialistas chegaram a afirmar que a era dos fuzis de ferrolho teria chegado ao fim. Essa previsão não se realizou devido a certos limitações que os engenheiros não conseguiram superar: baixa potência do projetil de pistola e sua baixa precisão. Entretanto, os teóricos da Wehrmacht consideraram, a partir de 1936, que a sub-metralhadora poderia ser complemento ao poder de fogo dos fuzis de ferrolho, principalmente no combate à curta distância. Unidades de infantaria chegaram a distribuir uma submetralhadora para cada dez fuzis; nas unidades motorizadas essa proposção chegava até 4X10, sendo que em unidades de choque (infantaria das divisões blindadas e pára-quedistas) a proporção era de 5X10.

Versão original da Pistolet Pulemjot Shapagina 41, com alça de mira graduada para até 500 metros

Versão original da Pistolet Pulemjot Shapagina 41, com alça de mira graduada para até 500 metros

Entretanto, foi no Exército Vermelho que essas experiências alcançaram seu grau mais extremo. Seu instrumento foi a Pistolet-pulemjot Shpagina 41 (“pistola-metralhadora de Shpagin”) ou PPSh-41. Concebida pelo armeiro Georgii Shpagin, em 1940 e distribuída a partir da primeira metade de 1941.

Infantaria soviética. Em primeiro plano, um soldado aponta uma PP Sh 41

Infantaria soviética. Em primeiro plano, um soldado aponta sua PP Sh 41 versão 1943

No início de 1940, Shpagin, desenhista do ateliê Krokov (localidade nas cercanias de Moscou) começou a projetar uma nova submetralhadora. Até então, o Exército Vermelho estava equipado com o modelo PPD (Pistolet-pulemjot Degtyarova), concebido a partir de 1934 com base na alemã Bergman MP-28. Na Guerra de Inverno na Finlândia, tropas finlandesas equipadas com submetralhadoras mostraram superioridade arrasadora em situações de combate aproximado. A *PPD, modelos 34 e 38, foi modificada e distribuída com com base nessa experiência. Entretanto, era cara e difícil de fabricar, e sua manutenção, fora de condições de quartel, bastante complicada. Um ano depois, a invasão alemã e a retirada desorganizada do Exército Vermelho fez com que enormes quantidades de armas fossem abandonadas, e as fábricas não se mostravam capazes de substitui-las na mesma proporção.

A PPSh-41 foi concebida para ser uma alternativa barata e simples às PPD. Todas as partes, com excessão do cano, eram em metal estampado (o que diminuía o tempo de fabricação pela metade) e a maior parte da montagem era feita através de solda elétrica. A parte mais complexa do conjunto era o carregador tipo tambor, de 71 cargas, copiado exatamente do modelo usado pela filandesa *Suomi KP-31.

Tratava-se de uma arma acionada por ação de recuo simples, operando a partir da câmara aberta (quando armada, o extrator permanecia aberto). Sua cadência de fogo chegava a 900 salvas por minuto, o que era considerado demasiado alto para condições de combate de infantaria. Essa cadência era permitida em função do uso do cartucho “TT” 7.62X25 (Tokarev) modelo 1930 (cópia adaptada do cartucho alemão Mauser 7,63 mm), que possibilitava ao projétil uma velocidade de boca de até 450 metros por segundo. A PPSh 41 podia disparar em regime automático e semi-automático, embora os modelos posteriores a 1943 permitissem o disparo apenas em automático. A alta cadência de fogo a tornava uma arma instável, com forte tendência a elevar o cano, que um compensador/freio de boca rudimentar tentava corrigir. Essa característica tornava o tiro pouco preciso, e a efetividade do disparo dificilmente ultrapassava 100 metros. A alça de mira das primeiras versões podia ser regulada para até 500 metros; as versões posteriores passaram a ser dotadas de uma alça com apenas duas marcações: 100 e 200 metros. Em combate, a arma era geralmente apontada por alinhamento do cano com o alvo. O carregador tipo tambor (na imagem, o da Suomi, idêntico aos soviéticos) era considerado um dos pontos altos da arma. Entretanto, era difícil de municiar, seu transporte era incômido e a fabricação rústica o tornava frágil. Modelos posteriores da arma incorporaram um carregador convencional, tipo caixa, de 35 cargas.

As grandes qualidades da “pá-pá-txá” (como era chamada pelos usuários) eram a resistência e durabilidade. Capaz de suportar grande quantidade de sujeira e variações extremas de temperatura, necessitava de pouca manutenção. A *desmontagem era muito simples e o número de peças, relativamente pequeno. Um pino na parte posterior do receptor era solto, deixando que a metade superior fosse movida para cima, num movimento basculante. O interior do receptor se abria, expondo o bloco de culatra e a mola.

Quase 5,5 milhões de exemplares desta arma foram produzidos até ao fim da 2ª GM. Para termo de comparação, a Alemanha produziu, entre 1938 e 1945, aproximadamente 2,5 milhões de submetralhadoras, das quais mais de 1 milhão eram MP38/40

Depois de 1941, * unidades alemãs em combate permitiam que seus integrantesusassem a PPSh, chegando algumas a estocar munição “TT”. As dimensões entre os dois cartuchos eram próximas, o que levou a Wehrmacht a considerar a adaptação da enorme quantidade de PPSh capturadas em 1941 para disparar munição 9X19 mm. A adaptação obrigava a mudança do cano e do uso de um adaptador no receptor, de modo a permitir o uso do carregador de 32 cargas da ERMA MP38. A adaptação recebeu a notação MP717(r).

A produção continuou até pelo menos 1950, quando foi descontinuada em função da padronização do fuzil de assalto AK47. Entretanto, as grandes quantidades estocadas foram distribuídas entre os países da Europa Oriental e aos *aliados asiáticos. Quantidades consideráveis também foram fabricadas por alguns desses países. A República Popular da Coréia foi um dos países a receber enormes quantidades de armas soviéticas. Nesta *imagem, armas soviéticas da 2a GM, com uma PPSh versão 43. Essas armas foram capturadas no perímetro de Pusan. Curiosamente, o rifle no centro é um Arisaka 7,7 japonês.

As táticas desenvolvidas pelo Exército Vermelho durante a guerra baseavam-se no uso de submetralhadoras por infantes cuja atuação seguia o princípio da massa e da velocidade. Transportados até o campo de batalha em caminhões não protegidos ou montados no dorso de tanques, os infantes eram lançados diretamente contra as linhas inimigas, disparando suas armas logo após saltarem dos veículos, ou após percorrerem distâncias não muito grandes, depois de desmontarem dos caminhões. O peso de fogo era a única garantia de sucesso dessa tática, e tinha de ser conseguido a qualquer custo, daí a adoção quase universal de submetralhadoras. Entretanto, essa tática costumava a provocar grandes baixas, sem contar a dependência da disponibilidade de veículos e de quantidades consideráveis de combustível. Como forma de compensar a superioridade dos defensores alemães, em geral ocupando posições preparadas, os soviéticos faziam preceder os assaltos de infantaria móvel por pesadas barragens de artilharia. O uso massivo de foguetes não guiados articulava-se a esse contexto. Esse tipo de tática exigia grandes concentrações de tropas, o que explica a opção soviética pelo esforço ao longo da região dos rios Don-Dnieper, mobilizando forças moderadas nas outras frentes.

O Exército Popular da República Democrática da Coréia foi treinado para adotar essas mesmas táticas. A superioridade numérica e em volume de armamentos – notadamente o número de tanques e peças de artilharia) destinava-se a reproduzir, tanto quanto possível, a forma soviética de fazer a guerra. Até mesmo a proporção relativamente pequena de aviação espelhava o fato de que, no teatro europeu, as forças soviéticas acostumaram-se a lutar com pouco apoio aéreo. A vitória pareceu fácil, no início, em função da desproporção numérica. As forças armadas da República da Coréia, além de menores em efetivos, praticamente não dispunham de tanques e artilharia. Conforme os EUA, sob a bandeira da ONU, começaram não apenas a empenhar efetivos consideráveis no teatro coreano, como treinar e armar tropas sul-coreanas, a incapacidade da Coréia do Norte em substituir as pesadas baixas que sofreu entre setembro e novembro de 1950 quase significaram a derrota.

A PPSh teve, tanto nas mãos dos norte-coreanos quanto, a partir de novembro de 1950, dos 300.000 “voluntários” chineses enviados para a Coréia, notável participação na Guerra da Coréia. Pode-se dizer que foi o último conflito no qual submetralhadoras tiveram papel de destaque. A partir de então, essa praticamente desapareceu como arma de infantaria, ficando restrita às Forças Especiais e corporações de polícia.::

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