O mês da Coréia::A América Latina e a Guerra da Coréia::


Em 27 de junho de 1950, apenas dois dias depois da invasão da Republica da Coréia pelas tropas da República Democrática da Coréia, os EUA levaram o caso ao Conselho de Segurança da ONU. O Secretário Geral, rapidamente, considerou o evento uma agressão contra a liberdade e solicitou aos países-membros que disponibilizassem tropas para emprego imediato sob a bandeira das Nações Unidas.

Com relação a América Latina, o Departamento de Estado dos EUA via uma oportunidade para atuar colaborativamente com a Organização dos Estados Americanos.  Diplomatas norte-americanos concentraram esforços na Bolívia, Chile, Uruguai, México, Peru e Brasil. Os resultados foram decepcionantes: Bolívia e Uruguai chegaram a oferecer tropas, mas logo voltaram atrás, diante da má reação da população; Chile e México, temendo reações adversas, despediram os enviados dos EUA sem nenhuma promessa de comprometimento de qualquer espécie. Peru e Brasil mostraram certo interesse em contribuir com a ONU, desde que os EUA se comprometessem em aumentar substancialmente a assistência econômica e militar.

O Pentágono, por sua vez, não via nenhuma vantagem em mobilizar nações não-comunistas cuja contribuição militar  dependeria totalmente dos EUA, num momento em que o país não tinha nem pessoal nem equipamento nem munição em números suficientes para as próprias necessidades. De início, os EUA estabeleceram que as nações dispostas a lutar “pela liberdade e contra a agressão comunista” teriam de financiar parte da própria contribuição, e residia aí parte do problema, já que os países da região encararam a imposição como sinal de descaso. Posteriormente, os departamentos de Estado e de Defesa concordaram em providenciar o equipamento e transporte das tropas através de um empréstimo especial, pelo qual as nações participantes pagariam. A divulgação dessa proposta foi o suficiente para que 29 nações oferecessem assistência militar, médica ou econômica, embora nenhuma fosse da América Latina.

O relacionamento político-diplomático do Brasil com a Coréia do Sul teve início em junho de 1949. O Brasil foi o oitavo país do mundo e o segundo latino-americano (o primeiro foi o Chile) a reconhecer oficialmente a república coreana. Os motivos que levaram ao estabelecimento de relações diplomáticas com a República da Coréia se articulam ao contexto da Guerra Fria. Nos anos que se seguiram a formação da ONU o Brasil se integrava ao bloco ocidental, liderado pelos EUA. Em 1950, a representação brasileira votou favoravelmente às decisões da ONU que condenavam o conflito entre o norte e o sul da Coréia. Os EUA, entretanto, demandavam do Brasil atuação mais incisiva, solicitando o envio de tropas. Em prinípio, o governo Dutra viu na situação uma oportunidade para arrancar dos EUA tanto ajuda econômica quanto militar, mas, diante da retiscência dos enviados norte-americanos, retraiu-se, limitando o auxílio à abertura de uma linha de crédito para a aquisição de matérias primas e ao envio de alimentos e medicamentos para a Coréia do Sul.

Não é que não tenham acontecidos reações à situação na Ásia. O Exército brasileiro, cuja oficialidade tinha postura conservadora, tendia a considerar a guerra como manifestação da luta entre “bloco democrático” e “bloco comunista”. Poucos dias após a abertura do conflito, todas as guarnições militares foram colocadas de prontidão e em seguida, os comandantes militares consultaram o governo sobre a possibilidade do país se juntar ao esforço da ONU contra os comunistas. É possível que tenha havido alguma pressão dos oficiais norte-americanos que serviam no Brasil junto à Missão Militar dos EUA, treinando os militares locais.

Fora o nervosismo militar, a única manifestação observada aconteceu na cidade de Recife. A Rádio Jornal do Comércio organizou, junto com as autoridades eclesiásticas da região, uma missa pelo fim da Guerra da Coréia, que reuniu aproximadamente 40 mil pessoas no estádio do Retiro.

O fato é que não havia concordância interna sobre que atitude tomar, e a questão acabou posta em segundo plano. Militares, políticos conservadores e até setores da Igreja alegavam que os acordos militares de assistência múua entre Brasil e EUA deviam ser cumpridos. Mas nem no interior do Exército havia concordância: as alas nacionalistas discordavam fortemente de qualquer envolvimento brasileiro e chegavam a criticar o governo sul-coreano. Em artigo publicado na imprensa, o capitão Humberto Freire de Andrade teceu duras críticas contra o governo de Singman Rhee, que afirmava responsável pela guerra, e chegava a elogiar o norte comunista pelas políticas sociais e a realização de uma reforma agrária. Esse Freire de Andrade, pouco mais de dez anos depois acabou transferido para a reserva pelo Ato Institucional n° 3, de 9 de abril de 1964…

O único governo latino-americano a se manifestar foi o da Colômbia, chefiado pelo conservador Mariano Ospina Perez, então em fim de mandato. De imediato, a fragata  “Almirante Padilla” foi posta à disposição do Comando Unificado das Nações Unidas. Em 14 de julho, nova solicitação da ONU postulou ajuda militar efetiva, e levou o governo colombiano a disponibilizar tropas, mas sem indicar o efetivo, e quando estariam prontas.

Os problemas começaram imediatamente. Deslocando 2290 toneladas e tripulada por 190 oficiais e marinheiros, a “Almirante Padilla”, ex-PF (patrol frigate, em inglês) USS “Groton”, fazia parte de uma classe “Tacoma“, navios construídos às centenas durante a 2ª GM, para escolta de comboios. Terminada a guerra, esses navios, em variados estados de conservação, foram postos em reserva, e, posteriormente, repassados aos governos de aliados menores, dentro dos programas de ajuda militar. Em 1947 os EUA cederam a “Groton” para a Colômbia. O estado de conservação do navio, que já não era bom, deteriorou-se rapidamente, e a Colômbia não dispunha de instalações especializadas para repará-lo. O governo norte-americano, interessado em tornar a defesa da Coréia do Sul um “caso mundial”, dispôs-se a realizar reparos de urgência no navio, o que obrigou a Marinha da Colômbia a deslocá-lo para San Diego, Califórnia, onde chegou em setembro. Em novembro de 1950 foi considerado em condições de operar, e navegou para o Japão, onde chegou em abril de  1951. Foi incorporado, em 1 de maio, à uma força naval multinacional, a “Força Tarefa 95”, comandada pelo contra-almirante Alan Smith, na base naval de Sasebo. O navio colombiano foi designado para o GT 95.5, com funções de vigilância, escolta e bloqueio de uma área do litoral norte-coreano. Posteriormente, a fragata “Capitán Tono” (ex-USS “Bisbee”) substituiu a “Almirante Padilla”, que retornou à Colômbia. A “Capitán Tono”, curiosamente, era um navio da classe da “Almirante Padilla”, adquirido na própria Coréia para possibilitar a continuação da atuação colombiana lá. A Marinha da Colômbia permaneceu em operação na região até 11 de outubro de 1955, ou seja, mais de dois anos depois de firmado o armistício. A “Almirante Padilha” teve, em 1964, o inglório fim de naufragar depois de encalhar em rochedos no Caribe.

Quanto às forças de terra, a situação foi mais complicada ainda. A Colômbia, estava, na época, mergulhada em uma crise política, com o Congresso nacional fechado e vivendo uma virtual ditadura civil-militar. Ospina se preparava para entregar o governo a seu sucessor, Laureano Gómez. Anticomunista convicto e líder de uma ala radical dos conservadores, Gómez via o envio de tropas para combater ao lado da ONU como forma de diminuir a antipatia dos norte-americanos pelos conservadores colombianos, que não escondiam o fascínio pelo fascismo. Assumindo o novo governo em 1 de agosto, no dia 7 o ministro da guerra formalizou a vaga oferta de tropas. Em 1951, depois de uma confusa chamada de voluntários, e em meio a rumores de golpe de estado, a unidade, com aproximadamente 1100 efetivos, dirigiu-se para 12 semanas de treinamento nas proximidades de Bogotá. Em 21 de maio de 1951, embarcada em um transporte da Marinha dos EUA, partiu para o Oriente. Seu comandante era o tenente-coronel de infantaria Jaime Polanía Puyo, que se queixava amargamente da falta de equipamento e do baixo nível das tropas. A tropa colombiana desembarcou em Pusan, na Coréia do Sul, em 16 de junho, sendo saudada pelo presidente da República da Coréia em pessoa. Agregado ao 8º Exército dos EUA, imediatamente foi colocada em instrução de 6 semanas, e recebeu parte de seu equipamento de combate. Ao fim do treinamento a unidade foi incorporada ao 21º Regimento da 24ª Divisão de Infantaria do Exército dos EUA.

 Batalhão_Colombia

O comandante da 24ª Divisão, general-de-brigada Blackshear Bryan colocou o Batalhão Colômbia no 21º RI devido a este ser comandado por um hispano-americano fluente em espanhol, coronel Ginés Pérez. A base da unidade era a localidade de Chunchon. O “Batalhão Colômbia” foi considerado reserva do 21º RI, e a avaliação dos norte-americanos foi que a unidade dificilmente teria condições de entrar em combate. Ainda assim, um arranjo político fez com que uma companhia colombiana fosse enviada, em 7 de agosto, data nacional, realizando patrulhas de reconhecimento ofensivo.  

O “Batalhão Colômbia” permaneceu em ação até o fim das hostilidades. A tropa colombiana ainda permaneceria na península até o final de outubro de 1954. O número de baixas subiu a 131 mortos em combate, 69 desaparecidos e 448 feridos em ação, totalizando 648 baixas, sobre um toal de 3.089 combatentes que passaram pelo teatro coreano ao longo desse tempo, integrados a três batalhões que se sucederam. Proporcionalmente, o número de ccasualidades foi 21 por cento, o que é extremamente alto – os norte-americanos, por exemplo, sofreram, proporcionalmente em torno de 11 por cento de casualidades.

A alta proporção de baixas sofridas pelo “Batalhão Colômbia” tem sido atribuídas a diversos motivos, que vão desde o baixo nível de treinamento, passando por equipamento inadequado, operações mal-planejadas, emprego em condições adversas, até a implicância do novo comandante norte-americano do 31º Regimento de Infantaria dos EUA, coronel William Kern. Esse oficial substituiu o hispano-americano coronel Pérez, e foi acusado de enviar os colombianos para situações de combate para os quais os colombianos não estariam preparados. De qualquer forma, os colombianos ainda hoje se orgulham da atuação de sua pequena unidade no contexto daquele grande conflito::

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2 pensamentos sobre “O mês da Coréia::A América Latina e a Guerra da Coréia::

  1. Pingback: Colombia e EUA: uma relação longa e problemática:: « Causa::

  2. Os colombianos se orgulham de terem sido e serem até hoje capachos do imperialismo norte-americano e de serem usados como bucha de canhão? Isso é o que chamo de masoquismo. O Exército Colombiano deu uma de mulher de malandro. Colombiano que tenha alguma dignidade deveria era se envergonhar de seu país ter feito um papel tão desonroso.
    Viva Hugo Chávez!

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