Um rapaz (das Forças Especiais) às terças::

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Efetivos do 662a Equipe de Controle de Movimentação, 25° Batalhão, 501a Brigada de Apoio do Exército dos EUA supervisionam o desembarque de canhões autopropulsados M109A6 Paladin na base militar de Camp Casey, República da Coréia, em 2007, para participar de exercícios de rotina das Forças dos EUA na Coréia (USFK).

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O mês da Coréia::Daewoo: carros feios, armas… Diga você::

Estávamos na “análise estratégica ampliada”. Acabou me ocorrendo que, em momento algum, cheguei a explicar o que, exatamente, significa “estratégia”. Não posso acusar ninguém de não distinguir “estratégia” de “tática”, se eu mesmo esqueço de explicar a diferença.

Suponho que muitas pessoas saibam. Esse conceito, ultimamente, deixou de ser de interesse exclusivamente do planejamento militar. Fala-se de estratégia em esportes, negócios, e até mesmo nas “estratégias de vida”. A palavra vem do termo grego stratègós (stratos, “exército”, e ago, “liderança”). Designava o líder, em época de guerra, na Grécia clássica. Strategicós, por sua vez, era um termo que designava “os assuntos do general”; já stratiá designava a expedição militar. O sentido atual da palavra na área militar, começou a ser estabelecido no século 17, com a difusão dos Estados nacionais centralizados, da arma de fogo e a ascensão da manobra como forma de evitar o tiro ou minimizar seus efeitos. Trata-se então, como Antoine Henry, barão de Jomini, militar suiço do século 19 (mais sobre Jomini nesse excelente blog, que considero primo do causa::) definiu: a ciência do movimento aplicado ao campo de batalha. Nessa visão, expressa em um livro chamado “Sumário da arte da guerra”, Jomini colocava a estratégia como a principal dentre as cinco divisões da “arte da guerra”. Pois de lá para cá, a noção ampliou-se, passando a envolver o planejamento da guerra como parte das atividades do Estado. O planejamento visa, em última análise, estabelecer objetivos políticos, que envolvem a sobrevivência do Estado a longo prazo e a expansão de suas possibilidades – inclusive de fazer a guerra.

Alguns especialistas chamam essa visão de “grande estratégia”, ou seja a mobilização de recursos nacionais. Caso tenham prestado atenção nas postagens anteriores, devem ter reparado que as duas Coréias não tem feito outra coisa nos últimos 50 anos que não seja planejar a sobrevivência de ambos os Estados, mobilizaondo seus recursos nacionais de modo a expandir suas possibilidades. Essa questão começou a ser discutida por Claus von Clausewitz, que considerava a guerra como ferramenta política. O objetivo em uma guerra seria desarmar o oponente, ou seja, destruir efetivamente a capacidade do oponente de guerrear. Aí é que entra o comprometimento em uma guerra. Quanto mais determinado o inimigo, mais difícil é de removê-lo do conflito. Para tanto, a estratégia aplica-se ao campo militar, mas a “grande estratégia” significa mobilizar tudo de quanto o Estado pode dispor – recursos materiais, humanos e espirituais. Alguns especialistas chamam isso de “política”.

Daí nos interessa falar um pouco do chaebol Daewoo, sobre o qual fiz uma piadinha na postagem anterior. Chaebol  (a palavra, que se pronuncia “tchêe:bêl”, significa “negócio familiar”) indica uma espécie de reunião de empresas, um conglomerado apoiado pelo governo. O termo é ambíguo, porque os principais chaeboi´l são mesmo empresas familiares, que, por motivos políticos mantinham boas relações com o governo. O termo também pode significar “monopólio”, o que significa uma concessão política que elimina a concorrência e  implica em vantagens econômicas. Já vimos, na postagem anterior, a origem dessa forma de organização industrial. Os  chaeboi´l foram capazes de crescer nas taxas astronômicas que observaram devido à essa proximidade com o governo. Deveriam ser capazes de aproveitar os influxos governamentais, de modo a cumprir quotas de expansão e de exportações; por seu lado, o governo garantia um fluxo de investimentos, negociados no exterior, e facilidades bancárias, na Coréia do Sul. A política de universalização da educação, em todos os níveis, o acesso à tecnologia de ponta e altos investimento em pesquisa, nas universidades e nos próprios chaeboi´l completaram o quadro, ao longo das décadas de 1960 e 1970. Mas o fator decisivo foi a relativa estabilidade interna que permitiu uma taxa de lucro maior do que seria possível em um regime de livre negociação. Esse crescimento só era possível graças a intervenção do governo no processo.

Dizendo de outra forma: o regime de organização econômica da Coréia do Sul teve uma ligação simbiótica com os governos ditatoriais iniciados em 1961. Nada tão estranho assim para nós brasileiros: o tipo de capitalismo intervencionista observado aqui se parecia muito com o modelo adotado na República da Coréia. A diferença é que o Estado tinha uma participação direta infinitamente menor do que aqui, e investiu pesadamente em um modelo de educação que privilegiava a formação técnica de mão-de-obra e a pesquisa aplicada. A falência veio exatamente porque o acordo social implicava em taxas de emprego e crescimento artificiais. Quando vieram os problemas, o regime rapidamente entrou em crise.

O que não significa que o modelo não fosse eficaz para os objetivos buscados pelo país, e os chaeboi´l continuaram sendo a forma de organização prevalecente na indústria de ponta, defesa, comércio internacional e, bem menos, no setor financeiro. No final da década de 1980, o modelo, depois de diversos ajustes, a partir do retorno do regime democrático, em 1987, continuou existindo e até ampliou-se. A retração do estado revelou aos próprios estrategistas dos “conglomerados” oportunidades de expansão e competição que a conivência com uma ditadura anticomunista não deixava antever.

O novo panorama criou uma nova especialização: as grandes empresas de produção para exportação migraram para países emergentes como a China, Malásia e Filipinas. Na Coréia foram mantidas as sedes, a estrutura de Pesquisa&Desenvolvimento e o setor de defesa. Neste panorama, a Daewoo Motor Industries pode não ser o maior chaebol coreano, (de fato, não aparece nem mesmo entre os 12 primeiros) mas certamente é um dos primeiros quando se fala no setor de defesa. Uma de suas filiais, a Daewoo Precision Industrial Co. foi estabelecida como empresa de equipamento de defesa em 1981, e em 1986 tornou-se fabricantes de peças de veículos para a matriz. O chaebol Daewoo, um dos maiores da Coréia do Sul, na época, acabou dividido, depois que o fundador e principal executivo Kim Woo-chung, se viu acusado de mentor de uma fraude bilionária. Desde 1999, a empresa foi dividida, e a área de defesa, uma das menores (em 1998 envolvia  4% da companhia) passou para o controle direto do governo.

Kim começou sua empresa em 1967, como uma pequena firma de exportação, batizada de Dae´Woo, (“grande universo”, em coreano).  Durante a Guerra da Coréia, acima da idade de convocação, Kim vendia jornais enquanto freqüentava a universidade, graduando-se em economia. A Daewoo, fundada em meados dos anos 1950, revendia produtos da indústria têxtil, que exportava para o Japão. Na segunda metade dos anos 1960, tinha estabelecido bons contatos em Nova Iorque com compradores de produtos têxteis, o que chamou a atenção do governo sul-coreano. O ditador Park Chung Hee, que mantinha laços de amizade com a família de Kim (espécie de relação muito significativa, no contexto cultural coreano), patrocinou a transformação da Daewoo em uma empresa de mecânica pesada, subsidiando a produção através de empréstimos governamentais a fundo perdido e compras por preços acima do mercado. Kim tornou a empresa lucrativa em cerca de dois anos, e, sempre com apoio do governo, incorporou a seu chaebol um estaleiro, uma fábrica de automóveis e uma fábrica de ferramentas de precisão que, posteriormente, deu origem à fábrica de armas. Nessa época, o favorecimento descarado do governo tornou a empresa o terceiro chaebol, em tamanho e rendimentos.

A experiência de Kim no comércio internacional e nas ante-salas dos governos o fez presença constante nos gabinetes dos EUA, França, Paquistão e em diversos países do Terceiro Mundo, notadamente os produtores de petróleo. A agressividade da empresa a levou a ter aproximadamente 320.000 funcionários, o que era um efetivo quase tão grande quanto o do exército da República.

Os problemas que acabaram com o chaebol, em meados dos anos 1990, relacionam-se com um projeto de expansão que visava tornar a empresa um dos grandes players do mercado mundial de automóveis. A resistência das empresas norte-americanas e européias jogou significativa quantidade de areia na máquina de Kim, numa época em que o apoio governamental já não era nem tão imediato nem tão incondicional quanto fora 20 anos antes.

De qualquer maneira, as encrencas de Kim Woo-chung não são importantes para nós. A questão que quero deixar clara é como, a partir de 1981, com o estabelecimento da estratégia de defesa da Coréia do Sul, a Daewoo viu aí um nicho para incorporar mais uma área a seu inventário empresarial. No final dos anos 1960, os EUA haviam fornecido ao exército coreano certa quantidade de rifles M16A1 (calcula-se que uns cem mil), do tipo empregado pela infantaria dos EUA no Vietnam. Em 1972 a Coréia do Sul retirou-se da Indochina, mas manteve o tipo como arma-padrão de seu exército. Por volta de 1976, o governo sul-coreano resolveu implementar uma indústria local de defesa, e acenou com a possibilidade de distribuir uma arma longa de fabricação local, embora sem a intenção inicial de substituir o M16, existente em grandes quantidades. Ficou estabelecido que uma arma de calibre 5.56X45 NATO seria projetada para substituir a submetralhadora M3 Grease Gun, arma da 2ª GM ainda padrão nas forças armadas da República. A empresa Daewoo Precision Industries Ltd foi formada para atender à demanda governamental. A *carabina de assalto K1 foi seu primeiro produto, cujo desenvolvimento concluiu-se por volta de 1982. O protótipo foi apresentado em 1980 e entrou em serviço em 1981. Os testes e o ciclo de serviço mostraram problemas sérios. A arma destinava-se às forças especiais, e portanto deveria ser silenciosa e discreta, O desenho do supressor de chama, entretanto, além de não resolver aqueles problemas, acabava por gerar forte recuo, que, por sua vez, tornava inadequada a coronha rebatível. Os problemas foram resolvidos através do redesenho da câmara e do supressor de chama. Essa nova versão foi denominada K1A. Essa arma conviveu com o M16A1, sendo distribuída para forças especiais, marinha e polícia, enquanto o rifle norte-americano foi mantido na infantaria.

Ainda em 1982, entretanto, o governo começou a considerar a padronização de todo o armamento. Uma *versão longa da carabina K1A começou a ser testada, com um cano de 46,5 cms e uma coronha convencional, em plástico de alto impacto. Os protótipos surgiram em 1983 e eram, de fato, um redesenho, com relação ao K1A. Este último era uma tentativa de fazer uma submetralhadora usando cartucho de fuzil: a chamada “ação direta de recuo”. Essa opção tornava o conjunto mais leve, mais barato, mas menos resistente. O sistema adotado para o K2 era o de operação por recuperação de gás (leia sobre o assunto no posto “A linhagem FAL”). O tiro é seletivo, alimentado por carregadores de plástico, de 20 ou 30 cargas, utilizando munição 5.56X45 NATO. Em 1987, o K2 começou a ser distribuído regularmente às forças armadas sul-coreanas, e pelo fim dos anos 1980, o M16A1 tinha sido totalmente recolhido.

Com aproximadamente 800.000 efetivos no total, as forças armadas e a policiais sul-coreanas eram uma reserva de mercado bastante promissora. Em função da adaptação das corporações à nova estratégia, lançada em 1979, a Coréia do Sul pretendia assumir parte considerável das responsabilidades de sua defesa nacional. Isso implicava numa completa reestruturação do exército, inclusive em seu rearmamento. Essa corporação tinha, em 1981, aproximadamente 400.000 efetivos. Dois terços eram conscritos convocados para dois anos de serviço ativo, aos 17 anos. Uma vez desmobilizados, esses homens permaneciam como “reserva de primeira linha” até os 34 anos, e podiam ser convocados periodicamente para curtos períodos de serviço ativo – em geral, por volta de duas a três semanas. A reserva somava, segundo estimativas dos EUA, em torno de 1200.000 efetivos potencialmente mobilizáveis. Não se sabe quanto tempo levaria a mobilização completa.  Esse sistema ainda persiste.

Atualmente, o exército mobiliza por volta de 550.000 efetivos, 10.000 dos quais são oficiais. O inventário soma 2.500 tanques, 3.000 veículos blindados de combate e 7.000 sistemas de artilharia de campanha auto-propelidos e auto-rebocados. Esses sistemas incluem grande quantidade de lançadores de foguetes.

Os blindados são, em grande parte, os já obsoletos M48A5K, de fabricação norte-americana, do final dos anos 1950, mas modernizados localmente, no final dos anos 1970. Uma quantidade estimada entre 30 e 50 T80U, de fabricação russa, foi incorporada em 2004/2005, em função de acordos de refinanciamento de dívidas da Rússia. Durante algum tempo, esses blindados foram os mais avançados existentes na península. Tentativas de produzir sob licença o alemão Kraus-Maffei Leopard 1 deram em nada, porque os sul-coreanos concluíram, acertadamente, que se tratava de um modelo prestes a se tornar obsoleto.

Nessa época, o governo militar sul-coreano concluiu que a melhor solução seria produzir um tanque autóctone, levando em consideração os aspectos da nova geração de projetos que surgia nos EUA, Rússia, Alemanha Ocidental e Inglaterra. A indústria local já tinha condições de suportar um projeto desses, mas não tinha experiência. Um projeto local levaria pelo menos dez anos para surgir, assim, os militares e planejadores civis consideraram que a solução seria comprar a licença de um produto estrangeiro. A escolha recaiu no XM1, protótipo do norte-americano M1 Abrahms, que começava a ser distribuído pelo ramo de defesa da Chrysler Motors Company. As negociações quase deram com os burros n´água, quando, no meio do processo a empresa foi vendida para a General Dynamics. Entretanto, os novos donos mantiveram o interesse, em função do incentivo do governo dos EUA. Técnicos sul-coreanos foram despachados para os EUA para conhecimento do projeto e treinamento na General Dynamics Land Systems.

Os dois blindados são similares, mas os projetos são bastante diferentes. O K1 pronto, deslocava 4 toneladas menos que as 55 do M1; a altura entretanto, é ligeiramente maior no K1: 237 cm contra 225 cm (o que, num tanque, faz a maior diferença). A planta de potência do K1 é a mesma do israelense Merkava 3, a Teledyne Continental AVCR-1790, de 1200 hps. A blindagem é do tipo composto metal-cerâmica, Cobham. Posteriormente, a relação peso-potência da alemã MTU MB Ka-501, versão compacta da MB-873 Ka-503 que equipa os tanques Leopard 2, revelou-se melhor, e essa planta de potência foi adotada. Isso levou a que uma transmissão e diversos outros componentes de origem alemã fossem adotados no K1, em sua versão A1. O canhão raiado de 105 mm norte-americano, depois produzido na Coréia do Sul sob a notação KM68, bem como o sistema de controle de fogo Hughes, foram mantidos.

Mas tecnologicamente, o K1A1 acabou se tornando até mais avançado do que o Abrahms, quando recebeu um sistema independente de visão panoramica, do qual o Abrahms não está dotado, por cortes de orçamento. Esse sistema comanda o armamento de forma integrada, através de sensores termais e de visão passiva, o que torna o K1A1 um verdadeiro sistema de armas.

O desenvolvimento do K1 completou-se em 1983 com um protótipo apresentado ao governo sul-coreano. O uso de um motor alemão acabarm por tornar o K1 mais parecido com o Leopard 2 do que com o Abrahms. A empresa escolhida para desenvolver o tanque para produção de série foi a Hyundai Precision, ligado ao chaebol Hyundai. Esse é um dos maiores grupos da Coréia do Sul, fundado em 1947 e, na atualidade, um dos 5 maiores produtores de veículos automores do mundo, bem como de aço, navios e produtos eletrônicos de alta tecnologia. Uma quantidade de 450 K1 foi adquirida, iniciando-se a distribuição em 1985, em alto segredo, e completando-se em 1987, quando o veículo foi revelado ao mundo.

No momento, a empresa está desenvolvendo o K2  Heukpyo (Pantera Negra) equipado com um canhão de 120 mm e 55 calibres, autocarregado. Não existem maiores informações sobre o sistema, mas tem circulado que será equipado com blindagem reativa (capaz de diminuir os danos de munição de carga oca), radar e sistemas de detecção a laser.

O objetivo deste texto não é, enfim, descrever com detalhes o moderno armamento à disposição das forças armadas sul-coreanas. O que quero mostrar é como o planejamento estratégico, a “grande estratégia” envolve mobilizar todos os recursos nacionais de forma coordenada. No caso sul-coreano, uma longa trajetória levou o país de uma nação subdesenvolvida, nos anos 1950 e 1960, para uma das grandes potências econômicas das últimas décadas do século passado e, nos últimos tempos, a um patamar de potência militar equivalente às maiores potências da Europa Ocidental (França, Alemanha e Grã-Bretanha, nessa ordem).  A escalada do país, nos anos 1960, para o lugar de potência industrial e, em seguida, para o de potência tecnológica pôde ocorrer devido ao lugar ocupado pelo país na Guerra Fria, como “primeira linha de contenção da expansão comunista”. Esse papel (o país provavelmente seria arrasado na eventualidade de uma guerra contra a China) levou a que fizesse por merecer certas concessões, que vieram sob a forma de influxos econômicos. Esses influxos, sob a forma de capitais que, nos anos 1960 estavam disponíveis em grande medida e precisavam ser reinvestidos. Mas esses capitais também estiveram disponíveis para o Brasil. A diferença, além do lugar geopolítico do Brasil (cujo papel estratégico nunca foi determinante), foi o tipo de projeto para a sociedade, projeto que a elite daqui nunca conseguiu fazer. Os sul-coreanos, desde os anos 1950, investiram pesadamente em educação, em todos os níveis, e em uma urbanização ordenada, que permitiu ao país montar uma base industrial altamente eficiente. Esses dois aspectos tornaram possível que a entrada de capitais e tecnologia dessem resultados, embora não de imediato::

Um rapaz (das Forças Especiais) às Terças::707th SOF

SKorSnipers

Certo, certo… Não é terça… Mas compenso com um time completo de atiradores de escol sul-coreanos. Trata-se da Batalhão 707 de Forças de Operações Especiais. A especialidade dessa unidade do Exército da República da Coréia é o contra-terrorismo e atividades de controle de retaguarda. São todos militares profissionais, selecionados em unidades de forças especiais e comandos, com pelo menos 5 anos de carreira e treinamento em armas, táticas e artes marciais. Também devem ser atiradores particularmente habilidosos. Esse grupo exibe o “fuzil de tiro especial” SSG 69 (Scharfschützengewehr 69), 7.62X51 NATO, de ferrolho, produzido pela empresa austríaca Steyr-Manlicher. Sinceramente… Esses caras parecem indefesos?::

O mês da Coréia::Um análise estratégica ampliada::

Parte 3 Então, já sabemos que a República Democrática do Povo da Coréia é uma potência militar média e tem uma quantidade enorme de artilharia de todos os tipos. Entretanto, é curioso como a imprensa trata a República da Coréia como uma pobre Guatemala indefesa diante de Hugo Chavez… Não é exatamente o caso. De fato, temos relativamente pouca informação sobre a Coréia do Sul, tirante, é claro, os carros Hyundai, televisões LG e monitores Samsung, mas isso, convenhamos, é pouco. 

Do fim da Guerra da Coréia até os anos 1990, a República da Coréia evoluiu, de um país totalmente dependente, para a própria defesa, de acordos bilaterais, para uma situação de desenvolvimento auto-sustentado e considerável capacidade militar. Ao contrário da República Democrática do Povo da Coréia, as indústrias civis sul-coreanas mantêm linhas de produtos militares como partes separadas e menos importantes de suas atividades corporativas, mas suficientes para manter suas forças armadas totalmente atualizadas com equipamento local de altíssima qualidade.

A independência econômica e militar da República da Coréia remonta à participação na Guerra do Vietnam. Em 1965, o ditador sul-coreano, general Park Chung-hee, decidiu aceitar o pedido de Washington por tropas para o teatro do SE Asiático. Inicialmente, foram despachadas unidades de combate de pequenas proporções, num total de 5.000 efetivos, em caráter experimental. Em fevereiro de 1966, os norte-americanos se comprometeram, através de um termo de compromisso denominado “Memorando Brown” (em função do embaixador dos EUA em Seul, Winthrop G. Brown), a financiar a modernização do exército da República da Coréia, em troca de um maior envolvimento dessa última na guerra indochinesa. O documento, de 14 pontos, não era muito claro em determinar as obrigações norte-americanas, mas especificava uma força sul-coreana que deveria alcançar, em três anos, aproximadamente 300.000 efetivos. Como resultado, os EUA cederam armamentos pesados e rifles M-16 para as tropas sul-coreanas, que funcionaram como cobertura de retaguarda para o exército dos EUA. Nesse meio tempo, começaram uma série de provocações norte-coreanas, culminando com uma tentativa de  tomar o palácio presidencial, em 21 de janeiro de 1968, e o ataque e aprisionamento do navio-espião Pueblo, da Marinha dos EUA. Uma série de incidentes ao longo da ZDC envolvendo tropas dos EUA em mais de uma oportunidade, atravessou todo o ano de 1969. Em abril, uma aeronave de contramedidas eletrônicas EC-121 acabou sendo derrubada sobre o Mar do Japão. Esse período passou a ser conhecido como “Segunda Guerra da Coréia”. O envolvimento sul-coreano no Vietnam, entretanto, tornou-se uma realidade, e em 1972, quando as unidades começaram a ser retiradas, estavam em operação por volta de 200.000 sul-coreanos. Mais de 5.000 deles morreram em combate.

Temendo o surgimento, na Coréia, de um novo Vietnam, o governo dos EUA resolveu atender os apelos dos parceiros sul-coreanos por maior articulação em termos da segurança local. Foi acordada maior colaboração militar com a República da Coréia, assim como assistência para implementar a economia local. Ainda assim, o ditador sul-coreano, antevendo uma possível futura crise, decidiu adotar uma postura mais ativa em relação à defesa nacional. O surgimento da “Doutrina Nixon”, na qual o governo dos EUA, atolado numa crise econômica, postulava que as nações aliadas assumissem maior participação na própria defesa, foi outro momento decisivo: em 1971 a retirada da península, de uma divisão do exército dos EUA pareceu confirmar a importância da estratégia nacional de Park.

Ainda assim, em setembro de 1971 o governo dos EUA assinou um plano no valor de 1,5 bilhões e dólares, destinado a prover, num período de cinco anos, a reestruturação e modernização das forças de defesa da República da Coréia. Esse plano foi visto como decorrência da diminuição radical do aparato militar norte-americano na região. Foi a primeira grande mudança nas forças armadas sul-coreanas desde a Guerra da Coréia.

A situação sul-coreana, na época, era no mínimo curiosa. Park Chung-hee, um general do exército que havia sido oficial do Exército Imperial Japonês e depois da guerra, militante do Partido dos Trabalhadores da Coréia (chegando a ser condenado à prisão perpétua, por traição, em 1949), tomou o poder em 1961, depois de um curto período de agitação política que se seguiu à tentativa de Singman Rhee em assumir um quarto mandato presidencial resultante de uma eleição claramente fraudada. Exilado Rhee, uma junta militar sob comando de Park assumiu e rapidamente fixou-se no poder, conquistando apoio da classe dirigente e da classe média através de um programa de “moralização da vida nacional”, que removeu da vida pública todos os funcionários civis e militares considerados corruptos. Um “Supremo Conselho para a Reconstrução Nacional, com 32 membros, era o principal órgão dirigente do país. O principal projeto da junta era a construção de uma economia próspera baseada em uma “grande revolução humana”. Uma das primeiras providências foi o fechamento da Assembléia Nacional e a substituição de funcionários civis por militares.

Tendo assumido o poder, Park começou uma série de manobras para manter-se no comando do governo, sob normas de exceção e uma aparência de democracia. Um de seus primeiros atos de governo, em junho de 1961, foi a criação de uma “Agência Central de Informações da Coréia” (KCIA, em inglês), com função de polícia política. A Agência estendeu, em 1962, seus poderes aos campos da economia e das relações internacionais, por inspiração do coronel Kim Chong-p’il. Parente da esposa de Park, o coronel revelou-se um planejador original e criativo conspirador político: acabou sendo um dos principais atores do golpe que, em 1979, acabou custando a vida do ditador.

Os planos da junta militar não deram resultados imediatos, o que começou a desgastar a imagem da junta militar. Para piorar, a KCIA envolveu-se em vários escândalos financeiros e políticos. Os militares respondiam prometendo preparar o retorno à normalidade civil – desde que os políticos ligados ao sistema anterior não participassem do processo. Em março de 1963, Park anunciou um referendo popular para decidir se a junta deveria permanecer no poder por mais quatro anos. A intensa oposição interna era esperada, mas a antipatia dos EUA foi um fator com que Park não contava. O referendo foi cancelado.

 Ao contrário de Rhee, que tentava fazer da Coréia do Sul uma potência regional, com o apoio dos EUA, em detrimento do Japão e da China Comunista, o general tentou adotar uma política pragmática: normalizou as relações com o Japão em 1965 e regularizou, no mesmo ano, a situação das forças norte-americanas na península como “convidadas”.

Park usou a aparente estabilidade e a posição estratégica da Coréia como moeda de troca para trazer investimentos externos para seu país. Interessados em estabelecer medidas de contenção para a expansão comunista na Ásia, os EUA autorizaram o Japão a fazer grandes investimentos na península, enquanto garantiam a segurança da área, investindo no desenvolvimento das forças armadas locais.  O governo de Park, entretanto, proibiu a presença de empresas japonesas em território nacional, estabelecendo a política dos chaebol, conglomerados industriais privados que recebiam empréstimos subsidiados do governo, desde que seguissem as regras econômicas e políticas vigentes. Algumas desses conglomerados tornaram-se empresas gigantes, atuando em toda a cadeia produtiva.

Uma reforma agrária foi promovida e, ao mesmo tempo, a classe média rural era incentivada a estabelecer residência em centros urbanos. Uma mão-de-obra qualificada, formada através de programas de educação universal e valorização da competência e o fluxo de investimentos japoneses, coordenado pelo governo, acabaram criando, na segunda metade dos anos 1970, um parque industrial impressionante, voltado para a exportação de produtos semi-acabados para o Japão e os EUA. Ao mesmo tempo, o governo militar incentivava a expansão de universidades locais e de programas de pós-graduação no exterior. O resultado foi a sofisticação da indústria local, que se tornou produtora de tecnologia de ponta. Nos anos 1980 e 1990, a Coréia do Sul tornou-se um dos maiores economias exportadoras do mundo.

Esse surto explosivo de desenvolvimento econômico e a urbanização acelerada acabaram criando tensões políticas, com forte influência de pequenos movimentos estudantis e sindicais extremamente combativos tentando conquistar espaço à força de reivindicações de democratização, que eram postergadas pelo governo sob a justificativa do “perigo interno e externo”. Em 1971, Park tentou uma grande jogada política: interessado em permanecer no poder, declarou “estado de emergência nacional”, em função de manifestações de estudantes e trabalhadores nas grandes cidades. Em julho do ano seguinte, em meio à crise política, anunciou, num espantoso comunicado conjunto com Kim Il-sung, ditador stalinista da Coréia do Norte, planos para a unificação da península. Foi um magnífico tiro no pé. Manifestações de todas as colorações explodiram por todo o país. O projeto foi abandonado rapidamente, em função da oposição dos EUA, e ao fato de que, aparentemente, Kim Il-sung não conseguiu apoio da URSS e da China para levar a proposta adiante.     

Em 19 de abril de 1973, o general Park, enquanto acompanhava exercícios militares, divulgou o propósito de estabelecer uma estratégia militar independente e desenvolver as forças militares. Os projetos decorrentes dessa diretiva, desenvolvidos pela Junta de Chefes de Estado Maior resultaram em Diretrizes para um Programa de Modernização do Equipamento Militar para cada umas das corporações militares, integrados e, um Plano de Defesa Nacional de Oito Anos (1974-1981), aprovado pelo chefe do governo em fevereiro de 1974.

Nessa época, a situação política do país tornava-se cada vez mais tensa. A situação econômica da Coréia do Sul era delicada, em função da crise mundial do petróleo, que tinha feito retrair os investimentos japoneses no país. A instabilidade criou brechas no sistema de governo, sem que os atores envolvidos chegassem a um consenso sobre o que fazer. Park governava através de sucessivas decretações de estados de emergência, mas a oposição não dava sinais de esmorecer. Em 1979, como a situação econômica só fizesse piorar, conselheiros próximos de Park Chung-hee o instavam a ceder a algumas das reivindicações do movimento de oposição estudantil e reduzir a repressão. A discordância entre as principais figuras do governo acabou resultando, por incrível que pareça em um tiroteio, acontecido durante uma reunião de cúpula no refeitório da sede da KCIA, em 26 de outubro de 1979. Nesse incidente, Park e o diretor da agência de informações perderam a vida. O desaparecimento do ditador e de parte de seu staff abriu um vácuo de poder, e o período posterior foi de competição entre setores dominantes, em meio a levantes estudantis, indisciplina militar e intranqüilidade social. Alguns anos se passariam até que a situação viesse a se estabilizar::

O mês da Coréia::Uma análise estratégica ampliada::

Parte 2 O grosso das forças terrestres da Coréia do Norte está posicionado na região imediatamente adjacente à ZDC, em posição de ameaçar o Comando das Forças Combinadas e a cidade de Seul. Especialistas ocidentais estimam que setenta por cento do efetivo total (700.000 soldados, 2.000 tanques e 8.000 sistemas de artilharia de todos os tipos) encontre-se à distância máxima de 150 quilômetros da linha de demarcação. Mesmo durante as conversações entre os dois países, o número de tropas não parou de crescer. Informes de inteligência dão conta de 4.000 instalações subterrâneas: depósitos, centros de comando e comunicação, alojamentos, hospitais e facilidades de manutenção; no país inteiro calcula-se que sejam mais de onze mil. Essas instalações, totalmente aprovisionadas, permitem um ataque quase de uma hora para outra.

Entretanto, a maioria do inventário à disposição de forças armadas norte-coreanas remonta aos meados dos anos 1950, quando o Exército Popular foi reconstruído. Por outro lado, a força terrestre não tem experiência de combate e não realiza manobras conjuntas nem mesmo com seu principal aliado, a China Comunista. Boa parte do equipamento, em alguns aspectos, se assemelha ao set de um filme de guerra antigo (talvez sobre a Guerra da Coréia…). O Exército Popular, em julho de 1953, era estimado em 263.000 efetivos. Informes de inteligência de 1968 davam conta de 350.000 ou mais, crescimento acompanhado por uma série de mudanças organizacionais. Foram formados cinco grupos de exército. Nessa época, observou-se forte aproximação com os soviéticos, o que resultou no surgimento de unidades de defesa anti-aérea dotadas de mísseis e canhões controlados por radar. Artilharia de campanha moderna começou a ser vista nos desfiles militares da data nacional. Tanques *T-54 e *JS-2/3 também foram reportados em maior número, além do surgimento de canhões autopropelidos *SU-76. Esse aumento no poder de fogo no EPRDPC foi atribuído ao envolvimento crescente dos EUA na região.

O Exército Popular foi reorganizado a partir dos anos 1980, de modo a adaptar-se, estratégica e taticamente, às novas circunstâncias políticas vividas na península e no mundo. Os anos 1970 observaram forte desenvolvimento econômico e tecnológico na Coréia do Sul, empurrado por investimentos maciços feitos principalmente pelo Japão; em termos tecnológicos, o país tornou-se vanguarda asiática, a partir de uma inteligente política de investimento em educação básica e formação de mão-de-obra de altíssima qualificação, combinados com um regime de dirigismo econômico suportado por uma ditadura militar pró-americana.  Nessa época, a Coréia do Sul começou a tornar-se um dos “Tigres Asiáticos”. Esses fatores possibilitaram a instalação de uma forte indústria local de alta tecnologia, e acabaram influenciando as forças armadas locais. Em meados dos anos 1980, a República da Coréia tornou-se capaz de suprir quase todas as suas necessidades de defesa com equipamento de ponta.

Esses fatores provavelmente explicam a enorme expansão das forças armadas norte-coreanas que, até o início dos anos 1970 montavam uns 400.000 efetivos. Do ponto de vista de comando e administração, a força terrestre foi completamente reorganizada. Com auxílio chinês e soviético, uma indústria local de armamento pesado foi organizada. O principal produto é uma versão simplificada do tanque soviético *T62. Os informes de inteligência mostravam também que os norte-coreanos faziam modificações notáveis no equipamento soviético e chinês, adaptando-os para as condições locais. A partir dos anos 1980, grande quantidade de veículos motorizados, artilharia auto-propulsada e transportes blindados de pessoal (APCs) começaram a aparecer. Em 1992 o país foi dividido em “corpos geográficos convencionais” e as grandes unidades blindadas e mecanizadas, compostas por brigadas de armas combinadas, foram posicionadas próximas de vias de deslocamento, de modo a possibilitar exploração e contra-ataques rápidos. Embora a força terrestre ainda continue sendo, em larga medida, uma força de infantaria, uma década de modernização e reorganização mostrou, no início dos anos 1990, seus efeitos: a mobilidade e o poder de fogo, bem como o treinamento e aprestamento do potencial humano são hoje considerados muito superiores aqueles observados durante a “Segunda Guerra da Coréia”, no final dos anos 1970.

Atualmente, a ordem de batalha identificada pela inteligência ocidental consiste em 153 divisões e brigadas, incluindo 60 divisões e brigadas de infantaria, 25 brigadas de infantaria mecanizada, 13 brigadas blindadas, 25 brigadas de operações especiais e 30 brigadas de artilharia. A Coréia do Norte  posiciona 10 corpos, com um efetivo de sessenta divisões e brigadas  numa área em formato de leque, ao sul da linha Pyongyang-Wonsan.

De 1996 em diante, as forças terrestres norte-coreanas são compostas por vinte comandos, que incluem  quarto corpos mecanizados e dois de artilharia, um Departamento de Instrução de Tanques, um comando de artilharia, e um Departamento de Instrução de Infantaria Ligeira, que controla as força de operações especiais. O equipamento inclui 3.800 tanques, dos quais 800 são do modelo indígena do T62. Aproximadamente 2.800 *BTRs (transportes blindados sobre lagartas, introduzido pelos soviéticos em 1973) estão à disposição das forças mecanizadas. A artilharia dispõe de cerca de 8.300 canhões calibres 76.2 mm, 100 mm, 122 mm, 130 mm, 152 mm e 170 mm, autopropelidos e auto-rebocados, complementados por  2.700 lançadores de foguetes de 107, 122, 132 e 240 mm. A artilharia anti-aérea alcança o número de 12.500 canhões, principalmente do tipo *ZSU23. A doutrina adotada é principalmente soviética, o que implica na utilização de movimentos massivos de tropas blindadas precedidos por grandes barragens de artilharia.

A indústria norte-coreana produz uma variedade de canhões auto-propulsados e rebocados (howitzers) embora, desde os anos 1980 a ênfase tenha sido colocada nos primeiros, inclusive com a montagem de tubos originalmente auto-rebocados em chassis sobre lagartas . A estratégia norte-coreana parece ser baseada no principio da ofensiva, refletindo provavelmente as experiências da Guerra da Coréia e o treinamento soviético. O poder de fogo superior e altamente concentrado permitiria uma maior possibilidade de defesa para as tropas terrestres em avanço.

Tudo isso pode parecer muito impressionante, à primeira vista. Entretanto, a Coréia do Norte não tem sido assim tão bem sucedida em seus esforços para se tornar uma potência militar de primeira linha. Manobras observadas por reconhecimento de satélite mostram que, apesar da modernização do armamento, este continua sendo baseado principalmente em tecnologia da época soviética. Os limitados avanços tecnológicos, que parecem ter dotado o exército de corpos de artilharia relativamente bem-equipados, provendo certa superioridade sobre os adversários do sul, não alcançaram outras áreas. Os anos 1990 parecem diminuir ainda mais as chances de que a Coréia do Norte alcance os padrões militares do Ocidente. O nível tecnológico da indústria local aponta para a crescente obsolescência do equipamento, principalmente a partir do momento em que a China não parece mais disposta a ceder tecnologia de ponta a um aliado que tem se mostrado bastante recalcitrante. Um exemplo dessa dificuldade está na área de defesa anti-aérea. Não há indicação de que sistemas móveis de mísseis ar-superfície (SAM) tenham sido introduzidos. Em paradas, *SA7 Strela 2 (Grail, para a OTAN, sistema “de ombro”, buscador de calor, distribuído a partir de 1970) e SA14/16 Strela 3 (Gremlin e Gimlet, aperfeiçoamentos do anterior, distribuídos a partir de 1974) têm sido vistos, o que sem dúvida aumenta a capacidade defensiva contra alvos próximos. Entretanto, os sistemas de defesa de ponto são ainda baseados principalmente em canhões, e as poucas baterias do obsoleto SA2 Guideline estão distribuídas em torno da capital.

A aviação também é totalmente obsoleta. Ao longo dos últimos anos, o país investiu a quase totalidade dos recursos materiais e humanos no aperfeiçoamento de vetores táticos e estratégicos para explosivo nuclear, com sucesso limitado. Não foram observados investimentos em outros ramos da indústria aeronáutica, o que tornou dramática, em relação ao Ocidente, a disparidade de meios aéreos, tanto em número quanto em tecnologia. Em 1992, a Força Aérea Popular da República Democrática da Coréia (FARDC) dispunha de aproximadamente 1,650 aeronaves de todos os tipos e 70.000 efetivos. Nessa época existiam três comandos de combate aéreo subordinados a um Comando Aéreo, sediado na cidade de Chunghwa; uma divisão aérea abrangia o nordeste do país e o Departamento de Aviação Civil, administrado pelo Conselho de Administração Civil, era considerado reserva de contingência da estrutura militar. Em meados dos anos 1980, uma forte reorganização, coincidindo com o recebimento de novas aeronaves e baterias de mísseis terra-ar, buscou integrar e reorganizar as divisões aéreas com o objetivo de descentralizar e dar maior autoridade e flexibilidade tática aos comandos regionais.

O equipamento, de origem soviética e chinesa, compreende tipos obsoletos, não-compatíveis com o moderno campo de batalha aéreo. Em números, o principal tipo é o MiG21 (Fishbed, para a OTAN, aeronave multifuncional ativa desde o final dos anos 1950), do qual existem cerca de 150 unidades, embora o estado de disponibilidade seja um incógnita. Nos anos 1980 a FARDC recebeu da então União Soviética um lote de caças-bombardeiros táticos MiG23P   e aeronaves de suporte aproximado MiG23ML (ambos derivados do MiG23S, Flogger A para a OTAN, caça multifuncional de geometria variável, surgido em 1969-70)  num total de umas 60 unidades. Da China vieram entre 40 e 150 Nanchang Q5 (Fantan para a OTAN, aperfeiçoamento chinês do MiG19) – o número correto nunca foi determinado exatamente. As principais aquisições foram, entretanto, 35 MiG29 e 35 MiG23, que foram estacionados nas proximidades de Pyongyang, em diversas pequenas bases aéreas.

Durante os anos 1980 também houve grande incremento no número de helicópteros disponíveis para a FARDC. Atualmente, calcula-se que existam aproximadamente 300, a maioria dos quais são Mi2 (Hoplite, na denominação da OTAN), Mi4 (Hound) e Mi8 (Hip), procedentes da URSS e da China. Em 1985, a FARDC conseguiu adquirir, por meio de empresas de fachada, 87 Hughes fabricados nos EUA, modelo Cayuse, que foram adaptados para ataque ao solo. Não se sabe o estado atual de disponibilidade dessas aeronaves, mas são as mais avançadas disponíveis na Coréia do Norte. Hoje em dia, a inteligência sul-coreana acredita que tenham sido disponibilizadas para as forças de infiltração norte-coreanas, pois a Coréia do Sul possui centenas desse modelo em seu inventário.

A Força Naval do Exército Popular da República Democrática do Povo da Coréia é a menos significativa dentre as três forças armadas é uma força naval costeira. Seus principais elementos são 3 fragatas, 10 contratorpedeiros, 23 submarinos costeiros e aproximadamente 100 barcos de patrulha, a maioria equipados com torpedos, e por volta de 340 barcos de apoio, inclusive submarinos-miniatura destinados a operar com as forças especiais do exército. O efetivo é calculado em algo em torno de 150.000 homens. Não existe infantaria naval nem aviação. A função da FNEP é, principalmente, a interdição das águas costeiras, num raio não maior do que 75 quilômetros a partir de suas bases. Os submarinos são a principal arma de ataque. Informes da Marinha dos EUA dão conta de 4 unidades da classe Whiskey, soviéticos, 22 da classe Romeo, chineses e talvez 5 de uma versão local da mesma classe. Esses submarinos são complementados por um número desconhecido de submarnos-minaturas, inclusive os da classe *Sang-O (“Tubarão”), de 277 toneladas, destinado a tarefas de infiltração de forças especiais no território da República da Coréia::

Um rapaz (das Forças Especiais) às Terças::O mês da Coréia::

Elemento das forças especiais sul-coreanas. A arma é uma pistola-metralhadora Daewoo K7, 9X19 mm. O chaebol ("conglomerado") Daewoo é um conjunto de empresas sul-coreanas de mecânica pesada e alta tecnologia, criado em 1967 por Kim Woo Chong, capitalista local de porte médio, que recebeu fortes subsidios do governo militar da época. Não fabrica apenas carros feios, mas também armas feias.

Elemento das forças especiais sul-coreanas. A arma é uma pistola-metralhadora Daewoo K7, 9X19 mm. O chaebol ("conglomerado") Daewoo é um conjunto de empresas sul-coreanas de mecânica pesada e alta tecnologia, criado em 1967 por Kim Woo Chong, capitalista local de porte médio, que recebeu fortes subsidios do governo militar da época. Não fabrica apenas carros feios, mas também armas feias.

O mês da Coréia::Uma análise estratégica ampliada::

parte 1Em três partes, este texto é voltado principalmente para fornecer ao interessado uma visão de conjunto da situação atual da península coreana. No início, eu não estava muito preocupado em aprofundar o texto – pretendia, meramente, fazer algumas observações sobre o suposto “poderio militar” da Coréia do Norte. Mas quando o Weblog do Pedro Doria divulgou um texto, supostamente especializado, de um suposto especialista, e as figurinhas carimbadas de sempre dispararam a comentar o tema, achei que valeria à pena gastar algumas horas de meu tempo livre pesquisando o tema. O professor Zhang Lianggui, pesquisador do Partido Comunista Chinês, em Pequim, faz uma única observação sensata em todo o texto: que o poderio nuclear da Coréia do Norte é uma ameaça para a China. Por outro lado, outras observações são, no mínimo, curiosas. Dentre essas, minha favorita é a seguinte: “A Coréia do Norte acredita que ter armamentos nucleares a torna mais forte. Os norte-coreanos acreditam que sua enorme superioridade militar sobre o sul os fariam vencer a guerra.” Isso contraria as opiniões de meia-dúzia de sites especializados  – este aqui, por exemplo, é bastante incisivo: Pyongyang tem a capacidade de começar uma nova guerra da Coréia, mas não de sobreviver à ela.” Certamente ninguém quer um conflito generalizado na região. Nem a Coréia de Norte: “É a lógica de afastar a guerra tornando-a o mais aterradora possível, o que constitui a essência da teoria da ´dissuasão limitada´, materializada pela capacidade de infligir um dano inaceitável através de um ataque a um centro vital.”, diz Alexandre Reis Rodrigues, no meu favorito Jornal de Defesa e Relações Internacionais. Mesmo com bombas nucleares e *Taepodong-2, a Coréia do Norte pode ser qualificada apenas como uma potência militar média. O fato do país estar a beira do abismo econômico, e sem aliados a lança, talvez, num patamar mais baixo ainda.

Bem, análise doutrinária e estratégica implica em certa paciência para lidar com tecnicalidades. Tentei tornar o texto não muito chato, e dividi-lo em três pedaços é parte dessa tentativa.

A coisa é dedicada ao Antônio M, um dos assíduos lá do PD, para que ele aprenda a distinguir “estratégia” de “tática” e não coloque na boca do coitado do MacArthur palavras que ele não poderia ter dito, em 1950…:: 

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O plano de contingência dos EUA para a eventualidade de um ataque norte-coreano contra a República da Coréia passou a prever, a partir de 2003, que o grosso das tropas empenhadas no início de uma invasão estarão posicionadas bem longe da ZDC, possivelmente ao sul de Seul. Trata-se de uma mudança radical no planejamento estratégico do Pentágono, vista não sem certo alarme por funcionários tanto do governo dos EUA quanto da Coréia do Sul. O curioso é que essa mudança, que começou a ser implementada em 2004-2005, também provocou certo alarme no governo norte-coreano. Ainda hoje não existe consenso sobre a validade da medida, embora já se admita que, diante do atual balanço de forças na região, e da conjunção de fatores observável, ela foi necessária.

Desde o final da Guerra da Coréia, em 1953, as tropas americanas – atualmente uns 37.000 efetivos (quarto brigadas e diversas unidades especializadas) – estiveram posicionadas em guarnições permanentes ao longo da zona desmilitarizada. Sua presença era mais uma garantia tangível do compromisso dos EUA com a defesa da Coréia do Sul do que propriamente uma efetiva dissuasão. Até os anos 1980, a grande estratégia dos EUA para a região era que, no caso de um ataque do Exército Popular da República Democrática do Povo da Coréia, com efetivos que, em 1979 chegavam a 1, 2 milhões de homens e mulheres, a resposta dos EUA seria um contra-ataque nuclear tático (por incrível que pareça, isso existe…). Aqueles era os tempos da “resposta flexível” (coisa que os leitores de causa:: sabem do que se trata), e se imaginava que uma resposta nuclear poderia ser mantida sob controle, principalmente depois do esfriamento das tensões entre as potências.

Atualmente, os sul-coreanos já não vêem tanta determinação dos EUA em defender a nação aliada. A remoção das tropas da área de um possível engajamento inicial tem sido vista como a retirada do “gatilho” que implicava no envolvimento automático dos americanos. O problema é que Seul, uma cidade de 17 milhões de habitants, fica a meros 75 quilômetros ao sul da ZDC. Se o  grosso das forças norte-americanas  for retirado da região, ou seja, do caminho do rolo compressor norte-coreano de 3200 tanques e 1500 peças de artilharia, nada indica que o “gatilho” será disparado depois de consolidadas as posições invasoras. Segundo analistas nos EUA e na Coréia do Sul, a nova postura norte-americana pode ter encorajado o líder norte-coreano, Kim Jong-il a se sentir mais confiante para desafiar a comunidade internacional e embarcar em aventuras expansionistas.

A nova estratégia norte-americana faz algum sentido. Na hipótese de uma invasão por tropas da República Democrática do Povo da Coréia, as tropas norte-americanas teriam de recuar, de qualquer maneira, até que reforços vindos do Japão e do Havaí permitissem um contra-ataque. Até que isso seja possível, o poder aéreo é a única garantia de certo equilíbrio da situação estratégica e tática. Sob a nova política, as tropas já estarão em posições seguras; certamente terão de sobreviver às barragens de artilharia que irão varrer a região, dada a superioridade inicial dos norte-coreanos.

Tecnicamente, os argumentos são válidos, mas existem outros possíveis. É certo que o ditador norte-coreano não é tão louco quanto pode parecer. A decisão de invadir a Coréia do Sul esbarra, por certo, em outras questões. Em números absolutos, o exército da Coréia do Norte é enorme, mas seu equipamento deixa muito a desejar. Para começar, a Coréia do Norte não possui propriamente uma indústria de armamentos. Produz, certamente, toda a munição e suprimentos de que precisa, e o país de Jong-il mantém-se funcionando mais-ou menos como se já estivesse em guerra, ou seja, estocando armas, munições e suprimentos militares. Além do mais, armas e munições são praticamente o único produto que a Coréia do Norte dispõe para comerciar, embora sejam poucos os países dispostos ao comércio com os norte-coreanos::