O mês da Coréia::Trinta dias a mais::


Estamos no assunto “Coréia” já se vão 30 dias. Assim, visto que ainda não cheguei nem à metade dos assuntos que pretendia discutir, resolvi estender o “Mês da Coréia”. Serão, assim, “dois meses da Coréia”.

Acho que vale à pena, na medida em que a península é campo representativo de uma série de questões significantes para aquela região da Ásia. Afinal, se trata de uma relíquia da conjuntura imediatamente posterior ao fim da 2a GM e da Guerra Fria: o regime que vigora lá até hoje é burocraticamente centralizado baseado no modelo de partido único, estruturado em torno da figura do líder. Enfim, um modelo stalinista. Até mesmo o esquedista mais empedernido reconhecerá (se não for empedernido E maluco…) que o anacronismo norte-coreano tornou-se uma pedra no sapato de toda a região, inclusive de seu principal patrocinador, a China.  

Funciona mais-ou-menos assim: o regime da Coréia do Norte é formalmente uma “república popular” na qual o povo governa diretamente, através da Assembléia do Partido dos Trabalhadores da Coréia. A filosofia que estrutura as relações entre o governo e o partido é a mesma desde a independência, em 1947: o governo e seus órgãos e instituições são executores das linhas gerais e políticas estabelecidas pelo partido. Tudo isso gira em torno do chuch´e, aplicação do Marxismo-Leninismo à experiência revolucionária norte-coreana, com base na autonomia e soberania do povo coreano. A aplicação do chuch´, em resumo, colocava a total autonomia coreana como objetivo a alcançar, e sua ferramenta, o desenvolvimento de uma cultura socialista própria, em cujo centro está a figura do Grande Líder e “Presidente Eterno” (esta citada na constituição).  A aplicação do chuch´e deveria guiar a revolução de forma unificada e coordenada , num “movimento de equipe” em direção às revoluções político-ideológica e técnico-científica. Dominando o materialismo científico, fonte dessas revoluções, os “corpos superiores”, organizados no partido, supervisionam “corpos menores” (os funcionários do governo) cuja função é levantar as massas de trabalhadores para a revolução. Isso não passa do velho sistema stalinista de colocar comissários políticos em todos os níveis da sociedade, urbanos e rurais, agrícolas e industriais.

Essa linha de ortodoxia deve ser examinada em função da consolidação no poder de Nikita Krushev como líder da União Soviética. O movimento de desestalinização implementado pelo líder soviético era visto na Coréia do Norte com profunda antipatia. Nessa época Kim comandava um plano de reconstrução do país, lançado em 1954 e que buscava o “aprofundamento do socialismo”, com toda a estrutura econômica centralizada e coletivizada. Seguindo o modelo estalinista dos “planos quinquenais”  dos anos 1930, o planejamento foi centrado na indústria pesada e de armamentos. A partir do cessar-fogo de 1953, que não evoluiu para um tratado de paz, a Coréia do Norte manteve forças armadas desproporcionais à sua economia, optando por assumir a defesa do pais sem tropas estrangeiras, ônus que, na Coréia do Sul foi assumido, ao longo do restante dos anos 1950, pelos EUA.

Entretanto, a opção norte-coreana teve como conseqüência o aprofundamento da ortodoxia de Kim e seu afastamento da União Soviética. Krushvev começou a ser criticado como “revisionista” e “anti-marxista”. Entretanto, mesmo a aplicação estrita da chuch´e não impediu o surgimento, no interior do partido, de uma oposição à sua liderança. O resultado foi um expurgo que atravessou o ano de 1957 e eliminou qualquer oposição. 

O cisma sino-soviético a partir de 1962 levou a Coréia do Norte a posicionar-se ao lado da linha chinesa, mas sem nunca chegar a romper com os soviéticos. Kim via os chineses como pouco confiáveis, tendentes à dominação e economicamente ineficientes. A Revolução Cultural da segunda metade dos anos 1960 pareceu confirmar as desconfianças do “líder supremo”. A remoção de Krushev do poder, em 1964 abriu a possibilidade de um reaproximação com Moscou, já que a nova liderança demonstrava pouca disposição para criticar abertamente o passado. Enquanto a China mergulhava no caos, Kim tratou de reconstruir suas relações com o bloco soviético na Europa, aprofundando relações comerciais e econômicas. Nessa época tentou, com menor sucesso, aproximar-se de países do Terceiro Mundo, notadamente árabes e africanos.

Kim foi eleito, em 1966, secretário do PTC (cargo que exerceu desde o fim dos anos 1940, sendo periodicamente reconduzido). Em 1972, uma reforma política aboliu o cargo de primeiro-ministro, e criou o depresidente da república. Essa reforma unificou, em teoria, as esferas de controle do país, e Kim foi eleito para o novo cargo. Desde então, a tendêndia tem sido estreitar o controle do partido sobre todos os órgãos de admistração e economia. A partir de 1990 a predominância tem sido o absoluto controle do partido sobre todos os aspectos da esfera pública. A razão parece ser a influência que teve sobre a Coréia do Norte o colapso dos regimes socialistas e as mudanças de rumo da China, no que tange à economia.

O colapso do “socialismo real” e particularmente as mudanças de rumo na China parecem também ter alterado fortemente o rumo que, em 1980, Kim Il Sung tinha estabelecido para a Coréia do Norte com relação à Coréia do Sul. No diversas vezes adiado 60° Congresso do Partido, realizado entre 10 e 14 de outubro daquele ano, 3.220 delegados (os trabalhos também foram assistidos por 177 delegados de 118 países) reviram, debateram e endossaram, por solicitação do Comitê Central, relatórios do Comitê de Supervisão e de diversos outros órgãos centrais, cobrindo as atividades de praticamente todos os órgãos de governo ao longo dos anteriores dez anos.

No relatório dirigido à plenária do Congresso (em teoria, o órgão supremo de direção do partido), Kim Il Sung delineou uma série de objetivos e políticas para a década que se abria. Propôs o estabelecimento de uma “República Democrática Confederacional da Coréia”, como modo possível de alcançar uma convivência pacífica e independente entre as duas Coréias, até que se chegasse à uma fórmula mutuamente aceitável  de reunificação da península. Kim Il Sung também apresentou uma “política de dez pontos” para o futuro estado unificado e sublinhou que as Coréias deveriam buscar reconhecer e tolerar-se, em seus diferentes sistemas sociais; que o governo unificado central deveria admitir uma base paritária; que ambos os lados deveriam manter autonomia para governar as respectivas regiões, até que uma fórmula razoável unificasse os governos regionais respeitando o as especificidades locais, políticas e administrativas, incorporando cada partido, cada grupo e cada setor dos povos das duas Coréias.

Kim usou, então, pela primeira vez o termo “Três Revoluções” (ideológica, técnica e cultural), enfatizando objetivos que vinham sendo perseguidos desde o início dos anos 1960, com sucesso irregular. Em meados dos anos 1960, o fracasso dos EUA em conter a insurreição comunista no Vietnam do Sul levou Kim a imaginar se conseguiria fazer o mesmo na Coréia do Sul. O resultado foi uma política cada vez mais agressiva contra a Coréia do Sul, que levou a enfrentamentos que quase resultaram em outra guerra, cujos movimentos culminantes ocorreram em 1968 e 1969.

Ao longo da década, a aplicação da chuch´e tinha resultad em um desastre econômico. O regime, encurralado pelos freqüentes insucessos, chegou ao início dos anos 1990 numa situação de virtual isolamento internacional. Os gastos crescentes com as forças armadas (em1994 a Coréia do Norte tinha a quinto maior conjunto de forças armadas do mundo) sufocavam os outros setores da economia, que não apenas estagnavam como encolhiam. Nessa época Kim tinha decidido iniciar um programa de produção de energia nuclear com fins de produção de eletricidade e procurava alternativas para a crise norte-coreana acenando com uma paz negociada e aproximação com o sul, que, desde a década anterior, vivia um extraordinário surto de prosperidade. Seu filho mais velho, Kim Jong-il tinha sido indicado, na reforma de 1972, como seu sucessor, e aparecia como funcionário disciplinado do aparato do partido, encarregado do programa de energia nuclear e de parte da administração do governo.

Em 8 de julho de 1994 Kim Il-Sung morreu repentinamente, aos 82 anos. Após cerimônias fúnebres monumentais, que tomaram 8 dias, seu corpo, embalsamado, foi depositado em um mausoléu público.::

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2 pensamentos sobre “O mês da Coréia::Trinta dias a mais::

    • Prof, vc me deu uma ótima idéia e – melhor ainda! – o material para desenvolve-la! Me aguarde, companheiro! :c)

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