O mês da Coréia::Uma análise estratégica ampliada::


parte 1Em três partes, este texto é voltado principalmente para fornecer ao interessado uma visão de conjunto da situação atual da península coreana. No início, eu não estava muito preocupado em aprofundar o texto – pretendia, meramente, fazer algumas observações sobre o suposto “poderio militar” da Coréia do Norte. Mas quando o Weblog do Pedro Doria divulgou um texto, supostamente especializado, de um suposto especialista, e as figurinhas carimbadas de sempre dispararam a comentar o tema, achei que valeria à pena gastar algumas horas de meu tempo livre pesquisando o tema. O professor Zhang Lianggui, pesquisador do Partido Comunista Chinês, em Pequim, faz uma única observação sensata em todo o texto: que o poderio nuclear da Coréia do Norte é uma ameaça para a China. Por outro lado, outras observações são, no mínimo, curiosas. Dentre essas, minha favorita é a seguinte: “A Coréia do Norte acredita que ter armamentos nucleares a torna mais forte. Os norte-coreanos acreditam que sua enorme superioridade militar sobre o sul os fariam vencer a guerra.” Isso contraria as opiniões de meia-dúzia de sites especializados  – este aqui, por exemplo, é bastante incisivo: Pyongyang tem a capacidade de começar uma nova guerra da Coréia, mas não de sobreviver à ela.” Certamente ninguém quer um conflito generalizado na região. Nem a Coréia de Norte: “É a lógica de afastar a guerra tornando-a o mais aterradora possível, o que constitui a essência da teoria da ´dissuasão limitada´, materializada pela capacidade de infligir um dano inaceitável através de um ataque a um centro vital.”, diz Alexandre Reis Rodrigues, no meu favorito Jornal de Defesa e Relações Internacionais. Mesmo com bombas nucleares e *Taepodong-2, a Coréia do Norte pode ser qualificada apenas como uma potência militar média. O fato do país estar a beira do abismo econômico, e sem aliados a lança, talvez, num patamar mais baixo ainda.

Bem, análise doutrinária e estratégica implica em certa paciência para lidar com tecnicalidades. Tentei tornar o texto não muito chato, e dividi-lo em três pedaços é parte dessa tentativa.

A coisa é dedicada ao Antônio M, um dos assíduos lá do PD, para que ele aprenda a distinguir “estratégia” de “tática” e não coloque na boca do coitado do MacArthur palavras que ele não poderia ter dito, em 1950…:: 

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O plano de contingência dos EUA para a eventualidade de um ataque norte-coreano contra a República da Coréia passou a prever, a partir de 2003, que o grosso das tropas empenhadas no início de uma invasão estarão posicionadas bem longe da ZDC, possivelmente ao sul de Seul. Trata-se de uma mudança radical no planejamento estratégico do Pentágono, vista não sem certo alarme por funcionários tanto do governo dos EUA quanto da Coréia do Sul. O curioso é que essa mudança, que começou a ser implementada em 2004-2005, também provocou certo alarme no governo norte-coreano. Ainda hoje não existe consenso sobre a validade da medida, embora já se admita que, diante do atual balanço de forças na região, e da conjunção de fatores observável, ela foi necessária.

Desde o final da Guerra da Coréia, em 1953, as tropas americanas – atualmente uns 37.000 efetivos (quarto brigadas e diversas unidades especializadas) – estiveram posicionadas em guarnições permanentes ao longo da zona desmilitarizada. Sua presença era mais uma garantia tangível do compromisso dos EUA com a defesa da Coréia do Sul do que propriamente uma efetiva dissuasão. Até os anos 1980, a grande estratégia dos EUA para a região era que, no caso de um ataque do Exército Popular da República Democrática do Povo da Coréia, com efetivos que, em 1979 chegavam a 1, 2 milhões de homens e mulheres, a resposta dos EUA seria um contra-ataque nuclear tático (por incrível que pareça, isso existe…). Aqueles era os tempos da “resposta flexível” (coisa que os leitores de causa:: sabem do que se trata), e se imaginava que uma resposta nuclear poderia ser mantida sob controle, principalmente depois do esfriamento das tensões entre as potências.

Atualmente, os sul-coreanos já não vêem tanta determinação dos EUA em defender a nação aliada. A remoção das tropas da área de um possível engajamento inicial tem sido vista como a retirada do “gatilho” que implicava no envolvimento automático dos americanos. O problema é que Seul, uma cidade de 17 milhões de habitants, fica a meros 75 quilômetros ao sul da ZDC. Se o  grosso das forças norte-americanas  for retirado da região, ou seja, do caminho do rolo compressor norte-coreano de 3200 tanques e 1500 peças de artilharia, nada indica que o “gatilho” será disparado depois de consolidadas as posições invasoras. Segundo analistas nos EUA e na Coréia do Sul, a nova postura norte-americana pode ter encorajado o líder norte-coreano, Kim Jong-il a se sentir mais confiante para desafiar a comunidade internacional e embarcar em aventuras expansionistas.

A nova estratégia norte-americana faz algum sentido. Na hipótese de uma invasão por tropas da República Democrática do Povo da Coréia, as tropas norte-americanas teriam de recuar, de qualquer maneira, até que reforços vindos do Japão e do Havaí permitissem um contra-ataque. Até que isso seja possível, o poder aéreo é a única garantia de certo equilíbrio da situação estratégica e tática. Sob a nova política, as tropas já estarão em posições seguras; certamente terão de sobreviver às barragens de artilharia que irão varrer a região, dada a superioridade inicial dos norte-coreanos.

Tecnicamente, os argumentos são válidos, mas existem outros possíveis. É certo que o ditador norte-coreano não é tão louco quanto pode parecer. A decisão de invadir a Coréia do Sul esbarra, por certo, em outras questões. Em números absolutos, o exército da Coréia do Norte é enorme, mas seu equipamento deixa muito a desejar. Para começar, a Coréia do Norte não possui propriamente uma indústria de armamentos. Produz, certamente, toda a munição e suprimentos de que precisa, e o país de Jong-il mantém-se funcionando mais-ou menos como se já estivesse em guerra, ou seja, estocando armas, munições e suprimentos militares. Além do mais, armas e munições são praticamente o único produto que a Coréia do Norte dispõe para comerciar, embora sejam poucos os países dispostos ao comércio com os norte-coreanos::

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