Cultura Material militar::Relíquias cariocas::


Sexta-feira passada eu voava de volta do Rio de Janeiro para Belo Horizonte. Nada mais chato do que vôo noturno, depois de uma semana de trabalho, em outra cidade – a gente está cansado,  o cansaço traz mau-humor, nada parece ter graça… A não ser quando se abre o jornal – no caso nosso vibrante vespertino “O Globo” – e, a certa altura, lê-se o seguinte:

“Uma metralhadora .30 foi apreendida na manhã desta quinta-feira (30) durante operação da Polícia Civil no Conjunto de Favelas da Maré, no subúrbio do Rio. Segundo a polícia, com a arma é possível derrubar até helicópteros. Dois homens foram presos. Com eles, foram apreendidas uma pistola e drogas. Eles são suspeitos de tentar invadir a Vila Pinheiros em maio deste ano.” (Grifo aqui do redator).

Aí o vôo se torna mais divertido, principalmente porque a arma que aparece na fotografia publicada pelo “vibrante” é um *M1 Garand. Para quem conhece o assunto (e decididamente não é o caso do redator da notícia), trata-se de um dos ícones mais representativos da 2a GM, arma padrão da infantaria do exército dos EUA, um dos melhores produtos da indústria bélica daquele país, contribuição efetiva para a vitória contra o facismo.

Mas é uma arma semi-automática e não tem nada de metralhadora. Não é incomum que o “vibrante” publique notas estapafúrdias sobre armas capturadas nos morros cariocas dominados pelo crime “organizado”. Mais de um ano ano atrás, em 4 de março de 2008, o jornal “Extra” (uma espécie de “filial sem classe” do “vibrante”) veiculou a seguinte notícia:

“A Polícia Civil estourou, nesta terça-feira, um paiol de uma das principais facções criminosas do Rio no Morro da Mineira, uma das cinco favelas que fazem parte do Complexo do São Carlos, no Estácio. Na casa, foram encontrados cinco fuzis – dois deles de uso exclusivo das Forças Armadas -, uma metralhadora ponto 30, que é capaz de destruir helicópteros e caveirões…” (Grifo do redator, entre gargalhadas).

Mais uma vez, qualquer um que entenda um pouco do tema (só um pouco…) reconhecerá um *BAR, ou seja, um *Rifle Automático Browning M1918, arma automática que utiliza o cartucho .30-06, surgida no final da 1a GM. Esse fuzil pesa quase dez quilos, e se destinava a dar apoio de fogo às esquadras de infantaria, funcionando, na prática, como uma metralhadora ligeira que podia ser disparada em movimento. Serviu com distinção durante os seguintes 50 anos, mas hoje em dia é peça de coleção.

Parece que a imprensa carioca tem certa fixação por armamento anti aéreo. Então, seria interessante que os redatores fossem treinados para distinguir essa classe de armas das de infantaria convencionais (como o BAR e o Garand). Os jornais de São Paulo cometem menos esse tipo de erro, já que possuem em seus quadros jornalistas especializados, tais como meu caro amigo Ricardo Bonalume Neto que, além de jornalista de temas científicos da Folha de São Paulo, é especialista em temas militares, colaborador de algumas das melhores publicações especializadas de nosso país, como a Revista Força Aérea. Mas os jornais do Rio parecem não estar tão preocupados com a precisão quanto  com o sensasionalismo – por vezes, editores e redatores parecem torcer para que o “crime organizado” finalmente consiga derrubar uma aeronave. Para felicidade de aeronautas e passageiros, não é assim tão fácil.

Normalmente as “armas capazes de derrubar um helicóptero” são peças de coleção roubadas de particulares, ou itens desviados de quarteis militares. O fato é que um Garand ou um BAR, se operacionais (ou seja, se todas as peças do bloco de culatra estiverem no lugar, e a mola do recuperador e o cano, em bom estado) até poderiam derrubar uma aeronave. São armas de alta qualidade, e a munição que usam, o cartucho Springfield .30-06/7.62X63 mm, é altamente efetiva e continua em produção. O Garand, por sinal, em alguns lugares segue em uso como arma de atirador de escol. Um cara desses até poderia derrubar um helicóptero ou uma pequena aeronave, já que a munição .30-06 é potente o suficiente para isso, e existem diversos tipos, inclusive um perfurante de blindagem. Mas armas assim precisam ser dotadas de aparelhos de pontaria especializados (telescópios) e estar nas mãos de atiradores muito capazes, que saibam onde colocar o tiro.

De fato, até existem metralhadoras anti-aéreas, mas nem toda metralhadora é, efetivamente, uma arma de defesa contra aviões. Uma arma dessas é difícil de produzir, de operar e de manter. Existem versões de defesa anti-aérea aproximada da  metralhadora leve *Browning M1919, arma automática distribuída para as forças armadas dos EUA a partir de 1920, e que participou amplamente de todas as guerras acontecidas no século 20. A Browning .30 é uma arma totalmente automática, alimentada por munição arrumada em fitas de tecido e utiliza o cartucho Springfield. Em condições ideais, pode disparar até 600 salvas por minuto, o que seria suficiente para derrubar uma aeronave, desde que a uma distância não muito grande. Entretanto, usar uma arma dessas não é tão fácil quanto possa parecer, mesmo para um soldado com algum treinamento. A arma precisa estar em um ponto fixo, e dispor de certa quantidade de munição (um calculo conservador pode estimar essa quantidade em 500 cargas). Por outro lado, apontar uma arma anti aérea manualmente é algo extremamente impreciso (armas anti aéreas efetivas são apontadas por radar). Para enquadrar o alvo, o atirador observa um feixe de *projéteis traçantes (projéteis contendo uma pequena carga de fósforo ou magnésio, que se incendeia com o disparo) que permite acompanhar a trajetória da salva. O problema é que o uso de traçantes permite localizar rapidamente a fonte dos disparos (atualmente, traçantes de última geração precisam ser acompanhadas com óculos de visão noturna – que não são tão fáceis de usar quanto um par de óculos escuros…). Além do mais, uma metralhadora leve como a Browning .30 costuma a dar problemas depois de certa quantidade de disparos, devido ao alto grau de stress que uma série de rajadas provoca, em função do superaquecimento do cano.

Resumo da ópera: é muito pouco provável que uma aeronave seja derrubada com tiros de munição das armas de infantaria à disposição do crime organizado, seja no Rio de Janeiro ou em qualquer outro lugar. Acho que já repeti algumas vezes vezes aqui no causa:: que uma coisa é ter uma arma militar, outra, muito diferente, é usar uma arma militar. Já foram encontradas nas favelas do Rio as armas mais estapafúrdias, que os otários com dinheiro do tráfico compram – inclusive *foguetes de bazuca (sem a bazuca) ou um *M72 LAW (Light Anti-Tank Weapon), equipamento descartável (depois de descartado).

Assim, continuo insistindo que a notícia mais comum será sempre como a que se segue, que catei em um portal de notícias.”Treze dias antes, a Polícia Civil enfrentou traficantes no morro do Pavão-Pavãozinho, em Copacabana, zona sul, armados com uma ponto 30 e fuzis. Morreram quatro traficantes e três foram baleados, além de três policiais que ficaram feridos, um deles por estilhaços da ponto 30.” (Grifo aqui do redator de saco cheio…).

É isso aí. A vantagem dos traficantes não é, decididamente, o armamento. Faço uma aposta com quem quiser – dê uma arma de infantaria para um analfabeto, sem dar junto algum treinamento (e não estou falando de apertar o gatilho), e ele só conseguirá acabar se matando, depois de matar dois ou três outros bandidos ou, pior, dois ou três inocentes. Guerrilheiros são analfabetos, mas recebem treinamento bastante sofisticado, elaborado para ser entendido por analfabetos ou por gente com nível primário de instrução (essa foi a grande descoberta de Mao Zedong e dos comunistas chineses, nos anos 1920). Para  as quadrilhas do Rio – e do resto do Brasil – as armas são formas de exibição de poder que servem apenas para impressionar e oprimir a população das comunidades onde vivem e se escondem esses caras. A verdadeira fonte do poder deles está nas décadas de omissão do Estado. Não se pode esperar que as autoridades constituídas (democraticamente ou não, isso não interessa, em princípio) deixem de atuar e que no vácuo aí criado logo não apereça alguém com uma arma para ocupar o lugar. Mas essa é outra história – João Moreira Salles e Kátia Lund sabem falar do assunto muito melhor do este redator::

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4 pensamentos sobre “Cultura Material militar::Relíquias cariocas::

  1. Bitt, em seus posts você dá o serviço de modo tão completo que não não resta nada para os seus leitores dizerem. Acredito que seja por isso que você recebe tão poucos comentários: não é por falta de leitores, mas por falta do que dizer após tanta competência.

    Eu tenho por princípio não escrever para dizer que concordo com tudo, como sói acontecer nuns tantos outros blogs. Mas como você falou de um tema particularmente importante para um carioca, não tenho como não ressaltar a oportunidade e felicidade deste seu post. De fato, além do amadorismo dos bandidos (graças a Deus!), temos a ignorância da nossa imprensa. Será que eles não se dão ao trabalho de perguntar nem aos oficiais de polícia que apreendem as armas? Eles até poderiam exagerar no potencial destrutivo do armamento, mas não chamariam um Garand com uma metralhadora, dentre muitas outras barbaridades que tenho acompanhado.

    Um grande abraço!

    • Luiz, valeu pelo elogio. O q posso dizer é que me esforço por dar um tratamento sério a esses assuntos, o q nem sempre é possível. Ontem mm recebi um telefonema de uma jornalista, aqui em BHz. A polícia apreendeu uma metralhadora ligeira Madsen, cal 7mm, o q mostra q é peça roubada de colecionador, visto q o Exército deu baixa nesse calibre nos anos 1950. Não existe mais esse tipo de munição em lugar algum do mundo. O fato é q a moça queria pq queira q eu dissesse q essa arma dava aos pé-rapados q a compraram o mm poder q uma bomba A daria ao Kim Jong-il. Tentei argumentar, mas a dita nem sequer anotava: o q interesava à ela era ouvir que “uma arma dessas derruba um helicoptero!”

  2. Bitt, não sei se contei pra você ou lá no PD essa história mas, vou resumir.
    Quando servi no 2º BC, logo no primeiro mês houve uma “demonstração” do equipamento que havia por lá.
    Fui escalado pra ajudar na montagem d’uma .50 daquelas de tripé.
    Um “cabo velho” que acompanhava a montagem frisou bem para conferirmos (depois ele mesmo checou) as correntes que limitavam a “subida” do cano (que deveria apontar somente para o estande).
    Fiquei curioso e perguntei a razão.
    O velho cabo com toda paciência explicou que uns anos atrás um inexperiente não havia checado, durante a rajada o cara não “segurou” direito a dita cuja e, a rajada foi parar numa Banca de Jornais no bairro do Gonzaga (uns quatro ou cinco quilômetros em linha reta).
    Ainda bem que era de madrugada e ninguém se feriu…
    Não sei se foi invenção dele mas, que o cara falou sério.. falou…. .

    🙂

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