Colombia e EUA: uma relação longa e problemática::


Parte 1 Para bem ou para mal, a ligação entre Colômbia e EUA não é recente. Desde o século 19, as relações entre os dois países foram fonte frequente de tensão. Na segunda metade do século 19, até o início do século 20, o principal problema foi o istmo do Panamá (detalhes sobre o assunto neste ótimo recurso de pesquisa, o melhor que conheço sobre a história recente da Colômbia).  Essa região, após a retirada dos espanhóis, ficou ligada à  Colômbia, como departamiento. No último quartel do século 19, as comunicações entre Atlântico e Pacífico, intensificadas pela ocupação da região central e a costa oeste dos EUA, despertaram, no governo e no grande capital norte-americanos, interesse na construção de uma *ligação hidroviária entre os dois oceanos. O resultado é que, entre 1860 e 1902 aconteceram 13 intervenções militares dos EUA na região, e, em diversas oportunidades, acordos políticos foram sacramentados dentro de belonaves na Marinha norte-americana.

Em 1902, após a Guerra Hispano-Americana, o presidente Theodore Rooselvelt foi convencido por seus consultores militares da necessidade de construir a tal ligação inter-oceanos. Com o governo colombiano relutante em aceitar um tratado que colocava uma faixa de 10 quilômetros de largura sob mandato direto dos EUA, projetos separatistas começaram a ter livre curso na região, a partir das grandes famílias que lideravam a política local. Em 1903, um levante fomentado pelos EUA e garantido pela presença de forças navais norte-americanas acabou levando ao estabelecimento de uma junta de governo, rapidamente reconhecida por Washington como “governo nacional”. A “Declaração de Independência do Panamá” foi escrita, conforme se soube depois, por um panamenho de ascendência francesa que se encontrava-se, então, hospedado no hotel Waldorf-Astoria, em Nova Iorque, como convidado do governo dos EUA. Este “patriota” também escreveu a constituição panamenha e, de quebra, desenhou a nova bandeira nacional. Chamava-se Philippe Bunau Varilla. Assinou, em nome da junta de governo, um tratado que dava aos EUA “direitos perpétuos” de “uso, ocupação e controle” da obra cuja *construção começou imediatamente.

Apesar desse longo problema e de suas consequências, as relações econômicas com os EUA eram as principais da Colômbia, mesmo naquela época. Os EUA eram o maior mercado para o principal produto colombiano: o café. A ligação era de tal forma estreita que, entre 1918 e 1921, o presidente colombiano Marco Fidel Suárez inaugurou uma doutrina denominada Respice Polum (“Siga a Estrela do Norte”, em latim). Esse estadista considerava que não havia como negar a ligação estreita entre o destino da Colômbia e o da “Estrela do Norte” – os EUA -, em função de serem ambos os países co-habitantes da América, tendo na democracia o maior valor e ligados por laços econômicos. Embora pudesse parecer uma proposta estapafúrdia, as classes dominantes locais, dependentes da produção para exportação e da ligação com os EUA, a apoiaram entusiasticamente. Na década seguinte, embora essa doutrina tivesse sido reafirmada diversas vezes, o país só pareceu te-la abraçado definitivamente a partir do momento em que a “Política de Boa Vizinhança” do governo dos EUA soou como uma espécie de contrapartida ao entusiasmo colombiano. Acordos para a modernização das forças armadas e de fomento às relações econômicas fortaleceram a ligação entre os países durante a 2ª GM. As duas nações continuaram em bons termos mesmo durante o período conhecido por La violencia (1948-1953). A Colombia foi o único país a participar da Força Multinacional das Nações Unidas na Guerra da Coréia e o primeiro a oferecer tropas para a Força de Emergência entabelecida após o incidente do Canal de Suez, em 1956.

O país tornou-se, durante a década de 1960, destino da maior parte da assistência dos EUA à América Latina. A maior porção dessa ajuda destinava-se a possibilitar a manutenção do equilíbrio da balança de pagamentos, ao mesmo tempo que implementava a economia, incentivando a industrialização e promovia reformas sociais tímidas. Ainda assim, politicos e intelectuais colombianos viam a presença dos EUA com desconfiança, e não consideravam que os laços politicos e econômicos trouxessem vantagens reais. De fato, viam esses laços como forma dos EUA manterem a Colômbia em permanente dependência.

Em questões de política internacional, embora a Colômbia se mantivesse alinhada aos EUA , a simpatia pela posição norte-americana no sistema inter-americano começou a declinar fortemente nos anos 1970. A tensão mostrou a cara em 1975, quando o governo López-Michelsen reatou relações com Cuba sem consultar Washington.  Esse líder colombiano também começou a recusar as ofertas de ajuda à Colômbia, sob a alegação de que tal ajuda apenas estreitava a dependência econômica e política dos EUA. À nova postura correspondeu uma política internacional independente que alinhou a Colômbia ao Panamá quando esse último país passou a clamar por um novo tratado sobre o Canal.

A política de não-alinhamento começou a dar sinais de recuo quando o governo sandinista da Nicarágua, em princípio apoiado pela Colômbia, começou a fazer reclamações em torno da manutenção, pelos colombianos, do controle de ilhas caribenhas diante da costa da Nicarágua. O namoro com Cuba sofreu forte estremecimento quando, em 1981, foram descobertas as relações do país comunista com o movimento de oposição armada M-19.  A partir de então, as relações com os EUA voltaram a estreitar-se, com o governo de Julio Turbay Ayalla (1978-1982) que adotou teses de forte viés anticomunista. A Colômbia passou a promover o discurso do presidente dos EUA na época, Ronald Reagan, de que Cuba e a Nicarágua eram a principal fonte de intranquilidade na América Latina. Bogotá voltou a romper relações diplomáticas com Havana depois que o presidente Fidel Castro admitiu o apoio ao M-19. Durante a Guerra das Malvinas, em 1982, o governo Turbay seguiu os EUA no abstenção pela convocação do Tratado Inter-Americano de Assistência Recíproca, o Tratado do Rio de Janeiro, invocado pela Argentina na Organização dos Estados Americanos. Terminada a guerra, a Colômbia tornou-se um dos poucos países latino-americanos que continuou a participar das manobras navais conjuntas com a Marinha dos EUA, realizadas a cada dois anos, no Caribe. A Colômbia também ofereceu tropas para serem mandadas ao Sinai, depois do tratado de paz entre Egito e Israel, de 1979.

As boas relações de Turbay com Washington contribuiram para resolver pendências territoriais colombianas com os EUA, em torno de algumas ilhas desabitadas no Caribe. Na mesma época, o governo colombiano ameaçou a Nicarágua de represálias, em torno da disputa por pelos arquipélagos de Providência e San Andrés, reivindicados pelo governo Sandinista.

O governo seguinte, de Romolo Betancur, embora mantivesse uma retórica conservadora, começou a afastar a Colômbia da política de Reagan para a América Latina. Betancur decidiu rever a posição anti-Argentina e lançou um movimento de solidariedade entre a América Latina e o Terceiro Mundo. Em 1983, Colômbia, com o patrocínio de Cuba e do Panamá, junta-se ao Movimento das Nações Não-Alinhadas.

Os movimentos de Betancur apontavam a preocupação de bloquear a intervenção estrangeira na região do Caribe, que, graças à retórica agressiva dos EUA, podia acabar se tornando teatro do conflito Leste-Oeste. Além disso, o governo Betancur começou a expressar críticas crescentes às políticas econômicas dos EUA e, principalmente, a incapacidade que a superpotência demonstrava em reduzir a demanda interna por drogas. Entre os anos 1970 e 1980, a Colômbia tornou-se o maior fornecedor de cocaína e maconha para os EUA, em função do recuo dos fornecedores asiáticos de ópio.

Esse problema vinha se mostrando o principal da Colômbia, em relação aos EUA. As políticas norte-americanas para o combate de drogas enfatizavam a repressão no interior do país, e vinham acumulando fracasso sobre fracasso. O governo norte-americano começou a projetar ações que levavam o combate às drogas até as fontes de produção – o que implicava na plena cooperação do governo colombiano. A retórica nacionalista de Betancur pareceu, a princípio um entrave, não fosse um fator: a profunda crise econômica com que se defronta a Colômbia. Por volta de 1985, os norte-americanos apelaram exatamente a esse ponto: trocar o apoio colombiano às ações anti-drogas por apoio à renegociação colombiana com o Banco Mundial. O presidente seguinte, Virgilio Barco (1986-1990), tratou de afastar a Colômbia do Movimento Não-Alinhado e a se posicionar com as demandas dos EUA. Essa nova postura reestruturou as relações entre os dois países, que desde então são consideradas excelentes. Barco, um liberal, elaborou programas de combate à pobreza, com o apoio do Banco Mundial, estabeleceu diálogo com a guerrilha de esquerda e, progressivamente alinhou seu país à luta dos EUA contra o tráfico de drogas. Foi exatamente esse ponto que o tornou cada vez mais impopular: os acordos com Washington eram vistos como atentatórios à soberania colombiana e aumentavam a violência do crime organizado.

É dessa época o início da colaboração militar entre Colômbia e EUA. Voltaremos ao assunto, que é prá lá de comprido::

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5 pensamentos sobre “Colombia e EUA: uma relação longa e problemática::

  1. Maravilhoso, bitt!

    Embora você aparentemente, vá escrever mais sobre o assunto, achei bem interessante notar que, mesmo com a forte ingerência americana na Colômbia, desde os tempos de “big stick”, e o país também exibir elites conservadoras, para dizer o mínimo, os níveis de desigualdade social ainda são bem menores que no Brasil, ou estou enganada?

    Beijo

  2. Excelente cara, bem que o pedro podia postar uns textos seus lá hein.
    Esperando a continuação hehe
    Seria interessante falar também sobre os cartéis de drogas, Pablo Esbar e cia. Um abraço.

  3. Alba,
    acabei de ler um pouco sobre o assunto (esses postos passam sendo “reeditados” durante algum tempo – sugiro que releia), e me parece q o grau de desigualdade é semelhante. Pablo Escobar, ao q parece, pôde se tornar uma espécie de poder de fato em Medellin devido a isso. A diferença é q as elites de lá se viram com a faca no pescoço e resolveram tomar algumas providências objetivas, que resultaram numa diminuição sensível da violência.

  4. Logan,

    Acho que podemos sugerir lá no PD, não é?

    bitt,

    Não estou bem certa, vou procurar os dados, mas a questão da desigualdade é tão gritante no Brasil em comparação, mesmo com os vizinhos mais pobres, embora este índice venha diminuindo nos últimos anos, que fica difícil evitar a violência nas áreas abandonadas pelo Estado. Claro que estou pensando no post anterior, sobre a questão do Bope e as favelas.
    Agora, no caso da Colômbia, são 40 anos de guerra civil, salvo engano. E elites, mesmo com a faca no pescoço, conseguem diminuir estes índices. É bem interessante.

  5. Cada vez que leio os comentários no pd, fico mais desanimado, de uns tempos pra cá tenho preferido só ler o post e sair mesmo, os comments tão chegando ao nivel da baixaria, salvo em alguns posts.

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