Colombia e EUA: uma relação longa e problemática::


Parte 2 Os EUA mantêm uma rede de postos e instalações militares na América Latina e no Caribe, em torno do chamado Comando Sul (SouthComm, no jargão do Departamento de Defesa). Algumas dessas instalações militares remontam à expansão imperialista dos EUA, no final do século 19; outras, à 2ª GM; outras à Guerra Fria, mas a maioria, atualmente, expressa o esforço empenhado pelo país numa até agora fracassada “guerra contra as drogas”. Por trás dessa fachada, entretanto, persistem os interesses estratégicos norte-americanos: garantir, caso necessário, um possível acesso aos recursos econômicos da região e manter sob vigilância regimes políticos recalcitrantes.

A maior parte dessas rede de instalações foi constituída em articulação com o “Plano Colômbia”, programa militar de grande porte destinado a dar apoio ao combate ao plantio de coca produção e tráfico de drogas no interior da Colômbia e na região do Caribe. Esse plano, embora não declaradamente, também busca apoiar as autoridades colombianas no combate às Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC). O “Plano Colômbia” tem levado ao estabelecimento de instalações militares dos EUA em diversos países da América Latina, em geral de pequeno porte e cumprindo funções de apoio às forças armadas e policiais locais. Esta foi uma forma encontrada pelos EUA de manter a presença militar na região, depois da retirada final, em 1999, das bases instaladas na chamada “Zona do Canal” – até então sede do “Comando Sul”. Desde então, os governos latino-americanos, independente da coloração ideológica, não mostram simpatia pela idéia de ter grandes contingentes norte-americanos em seus territórios. As bases de pequeno porte são uma forma de evitar uma retirada total.

Depois da retirada dos EUA da Zona do Canal, parte da estrutura lá existente foi deslocada para a Flórida (atual sede do Comando Sul) e parte das unidades operacionais foi realocada em Porto Rico. Desde então, cortes orçamentários e mudanças de doutrina, além da sempre delicada situação política local, têm resultado no fechamento de instalações militares situadas naquele protetorado norte-americano – em 2003 a importante estação de treinamento de Vieques e, em 2004, a base naval de Roosevelt Roads, em atividade desde 1943. Embora parte dessas instalações continuem ativas, existem planos para desativá-las definitivamente nos próximos anos.

Fora de Porto Rico, as principais bases norte-americanas na região situam-se em Manta (Equador), Aruba, Curaçao e Comalapa (El Salvador). Essas são estações de pequeno porte, resultado de tratados com os governos locais (no caso de Aruba e Curaçao, com o governo holandês), com a finalidade estabelcida de monitorar atividades ligadas ao narcotráfico e contrabando de armas e coordenar ações de interdição com as forças de segurança locais. Por motivos de propaganda, essas bases são chamadas de “estações de segurança cooperativa” (CSL, em inglês), não alocam equipamento de combate além do armamento individual da guarnição e os militares em serviço lá não tem permissão para interferir nas operações internas, nem mesmo se convidados. Essas bases geralmente possuem pequenos aeroportos, mas não tem provisão para estoque e tratamento de combustíveis. O Comando Sul também instalou, ao longo dos últimos dez anos, duas dezenas de estações de radar, principalmente no Equador, Peru e Colômbia. Essas estações geralmente não tem capacidade de combate e suas guarnições também só dispõem de armamento individual.

As CSLs e estações de radar, segundo o Comando Sul, tem como principal função fornecer subsídios para implementar ações de inteligência na “guerra contra as drogas”. Suas guarnições dificilmente ultrapassam 150 homens, sendo que a maior delas é a de Manta, Equador, ativada em 1999, e que tem, atualmente, quase quinhentos efetivos, comandados por um tenente-coronel. Algumas bases, situadas, respectivamente, na Ilha Ascensão e em Honduras, monitoram testes de mísseis balísticos e alojam unidades SAR (busca e salvamento), além, claro de monitorar atividades ilícitas (inclusive de contrabando de pessoas). A Estação Naval da Baía de Guantânamo, em Cuba, tem uma guarnição de mais de 500 efetivos, entre pessoal da Marinha e Fuzileiros Navais. Seu valor militar é considerado discutível, visto que as atividades de monitoramento eletrônico ficam situadas na Flórida. Com a “guerra contra o terrorismo”, foi estabelecida lá uma prisão militar que tem sido fonte constante de dores-de-cabeça para os EUA.  

O reduzido tamanho das guarnições das CSLs latino-americanas dos EUA explica-se pelo fato de que a administração e manutenção das estações tem sido repassada, nos últimos cinco anos, para empresas civis atuantes no mercado de defesa. Até mesmo a segurança de algumas dessas instalações é fornecida por empresas privadas, como a notória Blackwater. Na Colômbia e no Equador, cláusulas dos acordos de instalação exigem que pessoal local acompanhe os vôos militares sobre o território nacional. Acordos menores, bastante setorizados, permitem aos EUA manter vôos de transporte militar em aeronaves desarmadas na região do Canal do Panamá.

É interessante observar que a famigerada “escola de ditadores”, a “Escola das Américas”, instalação destinada a treinar militares latino-americanos em técnicas de informações e contra-insurgência foi inicialmente realocada em Fort Benning, no estado da Georgia. A péssima fama da unidade e a reação de setores da própria sociedade norte-americana à sua presença nos EUA levou o Pentágono a redenominá-la “Instituto Hemisfério Ocidental para Cooperação em Segurança”. Um outro projeto é a criação, na Costa Rica, de uma “Academia de Defesa da Lei”. Esse projeto está suspenso, devido aos protestos que levantou entre a população do país.

Não é possível determinar exatamente o número de militares norte-americanos estacionados nas bases instaladas na América Latina. Cálculos conservadores falam em 10.000 efetivos, entre militares e funcionários civis. É certo que a maior parte desse pessoal não é combatente, o que, de fato, não significa grande coisa. Em diversas situações, o pessoal norte-americano atuou como fator de subversão e desestabilização para regimes mal-vistos pelos EUA – casos notório foram o da Guatemala, em 1954, República Dominicana, em 1965 e Chile, em 1973. Em todas essas situações, a CIA atuou como um espécie de “agência de coodenação”; no caso dominicano, a incapacidade dos militares locais acabou por levar à uma intervenção militar, sob a alegação de “garantir a ordem”.

Não se pode comparar o “Plano Colômbia” com as intervenções norte-americanas da época da Guerra Fria. Trata-se de um projeto muito mais complexo, inclusive por envolver fatores internos dos EUA. Falaremos um pouco do assunto na Parte 3. Como eu disse antes, é conversa longa – afinal, as maquinações dos EUA sempre dão prosa pra mais de metro::

Anúncios

2 pensamentos sobre “Colombia e EUA: uma relação longa e problemática::

  1. No aguarado da Parte 3 hein!
    Queria saber se esse pessoal civil, não se refere justamente aos “operativos” da inteligência americana? Acho muito interessante esse assunto, fala-se muito da atuação da CIA em outras regiões mas vejo muita interferência deles na AL principalmente durante a guerra fria e quem sabe se até hoje.

  2. Também estou no aguardo…

    Se não me falha a memória havia um contingente no Paraguai perto da tríplice fronteira….

    Ah, há ainda Ascenção (que já ouvi alguém falar na época da Guerra das Malvinas “…é um enorme porta-aviões no meio do Atlântico….”

    🙂

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s