A história da guerra do ponto de vista dos micróbios::


Pensei nesse tema ao ler um texto já meio antigo (neste ambiente, um mês é tempo pra caramba…) no Darwiniano. Falo do comentário sobre um livro que eu já conhecia. Trança daqui, trança dali, acabei lembrando de outro e de outro, que considero também muito interessantes. E trança daqui, trança dali (com uns pulos na Grande Rede), acabou me ocorrendo o óbvio: com freqüência, micro-organismos acabam sendo convocados para a guerra, para serem engajados na modalidade que é chamada “guerra biológica”. Bom, trança daqui, trança dali, acabei fazendo um pequeno (mas pequeno mesmo…) resumo do “estado atual da questão”. Quem quiser saber mais pode ler dois excelentes textos aqui e aqui. Sugiro que o façam – acaba sendo divertido: no fim, a gente concluí que, sem sombra de dúvida, a humanidade é maluca…

O uso de toxinas produzidas por organismos vivos como armas de guerra, de modo a causar toxinfecções capazes de interferir no esforço de guerra do inimigo é mais difundido do que se possa imaginar. Talvez tão velho quanto a própria guerra. Sociedades de nível tecnológico muito rudimentar perceberam a possibilidade de usar toxinas produzidas por animais como forma de potencializar suas próprias armas, tanto na caça quanto na guerra – suponho que todo mundo já tenha ouvido falar do veneno curare, empregado por sociedades indígenas. Na Antiguidade, não era incomum que fontes de água fossem contaminadas com animais mortos – comportamento que os romanos consideravam “digno de bárbaros e escravos”; também não são incomuns os relatos de cidades sob sítio alvejadas com carcaças de animais e até corpos de vítimas de doença.  A partir do século 18 e, marcadamente, no século 19, os mesmos estudos que identificavam e isolavam agentes microbianos e seus produtos tóxicos, buscando curar ou controlar doenças, acabaram por mostrar ao Estado e seus agentes militares as possibilidades para esse tipo de guerra. No final do século 19, a Alemanha já promovia pesquisas visando determinar o potencial de determinados micro-organismos como arma militar. Na 1a GM, gado contaminado com antraz (infecção bacteriana comum no gado que, em certas condições, pode ser letal para humanos) e melioidose (infecção bacteriana de alta taxa de letalidade) chegou a ser contrabandeado para a Bélgica e França. A convenção de Genebra de 1925 tentou banir o uso desse tipo de meio, pela proibição do uso de armas químicas e biológicas (proibição depois confirmada pela Conferência Mundial de Desarmamento, de 1932), mas sem grande sucesso. Os países não-signatários (como o Japão) ignoravam as normas e os signatários, alegando necessidades de defesa, diminuiam mas não interrompiam as pesquisas.

Desde então, os estudos sobre o uso de armas biológicas colocam diante da humanidade um cenário de pesadelo (e também de non-sense). Os japoneses, durante a 2a GM, utilizaram amplamente os resultados de pesquisas nesse campo, inclusive sobre os melhores vetores dessas armas: milhões de pulgas contaminadas com agentes bacterianos letais foram espalhadas pela China, e também foi testada a pulverização de aerosóis (microgotículas) com culturas de Yersinia Pestis, bactéria causadora da peste pneumônica. Findas as hostilidades, embora diversos militares japoneses fossem julgados como criminosos de guerra por promoverem essas experiências e propor sua utilização maciça, os resultados das pesquisas e a possibilidade de seu uso não foram banidos. Os EUA já tinham suas próprias pesquisas desde 1941, num centro instalado em Fort Detrick, situado em Frederick, Maryland. Por ironia (ou não, sabe-se lá…), essa base estava subordinada ao Comando Médico do Exército dos EUA, e sediava o Programa de Armas Biológicas do Exército. Durante muito tempo, uma das principais linhas de trabalho desse programa foi a viabilização da produção, em escala industrial, de botulina, toxina de altíssimo grau de letalidade produzida por uma bactéria anaeróbica. Embora os EUA neguem até hoje, diz-se que certa quantidade desse material foi levada para a Europa em 1944, em um navio que acabou atingido durante um ataque aéreo. Em 1969, os EUA resolveram ratificar a Conferência de Genebra de 1925, e, na prática, o governo norte-americano passou a assegurar que armas biológicas e químicas nunca seriam usadas ofensivamente. As pesquisas para produção dessas armas foram desativadas e uma agência intergovernamental encarregada de pesquisas sobre bio-defesa passou a coordenar os órgãos existentes.  A União Soviética começou a pesquisar armas biológicas antes da 2a GM, e essas pesquisas foram aceleradas durante a Guerra Fria. No final dos anos 1970, eram conhecidos onze laboratórios em atividade. É interessante (bem, digamos que mais parece humor negro) observar que a pesquisa em engenharia genética, na ex-URSS, se desenvolveu a partir das buscas por armas biológicas eficazes – inclusive uma cepa de varíola que pudesse ser colocada em um míssil intercontinetal. Mesmo após a détente dos anos 1970, os laboratórios soviéticos continuaram funcionando. Com o fim da URSS e as dificuldades econômicas da Rússia, acredita-se que as pesquisas tenham sido reduzidas ao mínimo.

Na atualidade, a ameaça dos agentes biológicos não diminuiu. EUA e Rússia conservam, em laboratórios de alta segurança (mas conservam…) coleções de micro-organismos letais, inclusive da varíola. Embora sem fornecer provas convincentes, os serviços secretos dos EUA e da Grã-Bretanha acusaram o regime baathista do Iraque de promover pesquisas com agentes biológicos; atualmente, a mesma acusação é feita pelos EUA e Israel contra o Irã; a Coréia do Norte é frequentemente acusada pelos EUA e Coréia do Sul de promover pesquisas desse tipo; da China também é dito possuir estoques secretos de agentes biológicos letais. E, por fim, o bioterrorismo é posto como uma das principais ameaças. Todos sabemos que já foram ensaiados ataques que tentavam promover a contaminação por antraz, colocado, em pequenas quantidades, dentro de envelopes de correspondência. Mas, o que não sabemos é que, até agora, foi a única ameaça objetiva registrada::

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6 pensamentos sobre “A história da guerra do ponto de vista dos micróbios::

  1. “…no fim, a gente concluí que, sem sombra de dúvida, a humanidade é maluca…”

    Se tivesse parado aí o post já teria ficado excelente.
    Com o restante, então nem se fala.

    Fica só o pedido para um post similar sobre armas químicas.

  2. Acredito que é só uma questão de tempo até que um grupo terrorista faça um ataque utilizando microorganismos ou suas toxinas. Aliás, surpreende que até agora não tenha ocorrido. Quando a URSS começou a esfacelar, as instituições de pesquisa penaram. Não é difícil que o pessoal do Vector, que oficialmente é um dos dois lugares do mundo que armazenam o vírus da varíola (o outro é o CDC, nos EUA) tenham vendido umas amostras…

  3. Alou Bitt, perdão pelo off-topic, mas imagino que você está acompanhando a guerra de informação acerca da escolha do novo submarino da MB. Após a perda do contrato com a Marinha os jornais estão descendo a lenha na escolha do ministério (provavelmente acompanhados pelos alemãoes da HDW no mínimo com um sorriso). As matérias tem sido respondidas pela Marinha de forma rápida e agressiva e acredito que temos um bela guerra de informação, com direito a caneladas por baixo do pano, acontecendo diariamente. Algum comentário sobre o assunto?

    • Renato, sds.
      Estou preparando um post sobre o assunto. Deve subir amanhã, acho, se eu tiver tempo de concluir. Acho que é mais uma batalha na guerra de 2010…

  4. bitt,

    Post curtinho e interessante, ainda mais em tempos de H1N1, porque abrea discussão numa variedade grande de vertentes. Isso, só pra informar que usei seu texto com as minhas alunas da terceira idade e a discussão foi das mais produtivas! Obrigada.

  5. Bitt, muito bom o post.

    🙂

    Olha, mais uma coisinha, não tem muito a ver com o post mas, você já reparou o que está acontecendo com os SU-27?
    A mídia relata um acidente atrás do outro, até parece campanha pra denegrir a máquina, caço na rede e acho quase a mesma proporção de acidentes com caças norte-americanos (que não saem nos jornais).

    Pensa aí com carinho nesse lance.

    Bração aí.

    🙂

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