Um rapaz (das Forças Especiais) às Terças::Intervenção em Honduras::

AF-1-Skyhawks

Piloto no cockpit de um McDonnell Douglas A4M "Skyhawk" do esquadrão VF1, da Aviação Naval da Marinha Brasileira

O assunto foi sugerido pelo Luís Cândido, um dos seis leitores (contadinhos…) de causa:: A hipótese: a crise em Honduras se agrava; os distúrbios de rua se tornam cada vez mais sérios e o “governo de fato” considera a presença de Manuel Zelaya na embaixada brasileira uma ameaça à seguridad nacional. O “presidente de fato” fala, publicamente, em invadir o prédio da legação brasileira, para prender o albergado, caso nosso governo brasileiro não tome uma posição quanto ao status de Zelaya. Nessa situação, até que ponto as FA brasileiras estariam capacitadas para uma intervenção em Honduras, para garantir a integridade dos membros da legação e dos cidadãos brasileiros?

Embora a hipótese seja um tanto absurda (o Brasil tem tradição de, historicamente, buscar soluções negociadas em contendas com outros países), a pergunta é fácil de responder: uma operação dessas é de realização impossível. Em primeiro lugar porque,  provavelmente, no dia em que os EUA permitirem uma intervenção militar estrangeira em seu perímetro metropolitano de defesa, fará uma manhã fria no inferno. Mas, já que estamos especulando, digamos que o inferno tenha refrescado e eles permitissem… Ainda restaria perguntar o que Hugo Chavéz e seus aliados bolivarianos na América Central pensariam do assunto. Chavéz teria de ser consultado, o que, possivelmente acabaria, de vez, com o sossego de Lula, diante da oposição interna. Além das dificuldades diplomáticas, uma potência militar de terceira classe, como é o caso do Brasil, não tem recursos materiais para montar operação de tal complexidade. Uma intervenção assim ou seria uma operação de Forças Especiais ou uma convencional. Considerados ambos os casos, faltam ao país e às FA os meios necessários. Mas vamos deixar a coisa mais divertida e considerar a loucura maior: uma intervenção convencional. A Marinha de Guerra não tem meios para transportar, de uma vez, uma mini-força expedicionária, (“mini” mesmo…): um batalhão de infantaria mecanizado (cerca de 750 efetivos) do Exército, uma unidade de desembarque dos fuzileiros navais com duas companhias reforçadas (uns 500 efetivos) e as unidades de apoio necessárias (engenharia, manutenção, saúde, etc.). Como comparação, o deslocamento de forças do tipo da Minustah (“Missão das Nações Unidas para a estabilização no Haiti”), com pouco mais de 1200  efetivos (um batalhão do Exército reforçado por uma companhia de Fuzileiros e unidades de engenharia e saúde) foi feito em etapas. No caso de uma operação de guerra (coisa que a Minustah não é concebida para realizar), todo o efetivo teria de ser transportado de uma vez. Seriam pelo menos 2500 homens (isso para uma operação de pequeno porte). Os problemas começariam antes mesmo de que a mini-força de invasão se colocasse a caminho. Honduras é um pequeno país da América Central, mas, ainda assim, é banhado por dois oceanos: o Golfo de Honduras e Mar das Caraíbas (por onde possui fronteira marítima com a Colômbia), ficam no Atlântico, e a costa lá é aberta e pouco recortada; no Pacífico, o golfo de Fonseca implicaria em passar pelas cercanias de El Salvador e Nicarágua (um exame detalhado do mapa de Honduras é possível aqui).  Embora Tegucigalpa seja relativamente próxima da região do golfo de Fonseca (uns 250 quilômetros, por estrada pavimentada), por essa via, a FT brasileira teria de cruzar o Canal do Panamá. A opção mais viável seria o Atlântico. Caso conseguisse chegar até a costa de Honduras sem maiores percalços (o que é duvidoso), a força principal, uma vez em terra, teria de se deslocar até Tegucigalpa, pois, nessa opção, a capital hondurenha fica bem para o interior. Imaginando que seja possível desembarcar em algum ponto entre as cidades de Trujillo (576 quilômetros de Tegucigalpa) e La Ceiba (403 quilômetros), essa força, sendo mecanizada, teria um monte de caminhões  – uns 70, pelo menos, levando em conta que, em combate, um caminhão médio transporta 16 infantes e seu equipamento. Os caminhões seriam para a infantaria de campanha; a força de choque, com efetivo de companhia (120 combatentes) deve ser equipada com veículos blindados “Cascavel” e “Urutu”  em númedo de 30 ou mais unidades.  Também estariam no inventário canhões de campanha rebocados, defesa anti-aéreos e veículos especializados (postos de comando, suprimentos, apoio e manutenção e ambulâncias). Isso daria, por baixo, uns 150 veículos. Deixando de lado as questões “de onde sairia o combustível?” e “os hondurenhos não vão tentar se defender?’ (dados sobre o exército de Honduras aqui, em inglês…), uma força dessas constitui uma coluna com acima de mil metros de extensão, e tem de ser desdobrada (ou seja – 1. nem todo mundo entra em combate; 2. os que entram, não entram todos ao mesmo tempo; 3. os que estão em combate não se deslocam todos ao mesmo tempo nem na mesma direção). Além disso, um contingente teria de ficar na cabeça-de-praia, garantindo a permanência da FT – o que implicaria montar uma pequena base temporária. De mais a mais, Tegucigalpa é uma cidade de um e meio milhão de habitantes, que se espalha por uma área de 100 quilômetros quadrados. Um batalhão reforçado de infantaria motorizado não ocupa uma cidade assim, por menores que sejam as possibilidades que o país tenha de se defender… Agora, vamos ao problema mesmo: Honduras tem a maior força aérea da região, que possui 12 F5E fornecidos pelos EUA no final dos anos 1980 e A37 Dragonfly, aeronaves de contra-insurgência obtidas dos EUA (algumas informações e fotos sobre as FA de Honduras, aqui ou aqui, se você lê inglês). O armamento inclui certa quantidade de mísseis Sidewinder. Não se sabe a disponibilidade do equipamento – que não deve ser grande coisa – mas a principal base fica exatamente na cidade de La Ceiba – a poucos minutos de vôo da hipotética cabeça-de-praia. Mesmo que a FAH tenha seu equipamento em regime de disponbilidade média, e apenas três dúzias de pilotos de combate razoavelmente treinados, constituiria uma dor-de-cabeça para a força agressora, principalmente durante o deslocamento. Os A4 da Marinha (que, por aqui, são chamados AF1 – um ótimo ensaio sobre essa aeronave, aqui) dificilmente poderiam enfrentar os F5E de Honduras – ainda que os pilotos brasileiros sejam reputados como excelentes – visto que não dispõem de outro armamento que não sejam os dois canhões internos de 20 milímetros. Ainda assim, é certo que não conseguiriam se manter em ação a partir de um NAe (“navio-aeródromo”, no jargão da Marinha, ou seja, “porta-aviões”) durante mais de 10 dias. E isso se a FT incluísse um número de navios de apoio que a Marinha Brasileira não dispõe. E, principalmente: uma força militar não opera a partir de navios durante tempo prolongado – precisa de bases em terra. O exemplo citado pelo Luís, da força expedicionária inglesa no Atlântico Sul, constitui uma situação totalmente especial num contexto bastante específico. E essa força foi montada por uma potência (ainda que, como disse ele, secundária), capaz de colocar no mar mais de 40 navios de uma vez. Mesmo assim, não fosse o apoio dos EUA, nem teriam chegado à metade do caminho::

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Uma moça (de uniforme) às Segundas::

Confessem... Estavam com saudades da garota, não estavam?..

Confessem... Estavam com saudades das garotas de causa::, não estavam?..

Muito em breve (quando o redator conseguir novamente arrumar tempo para as pesquisas…), vamos iniciar a “Semana do Programa FX-2”. Tema divertido, não? Aparentemente, nossa vibrante “imprensa especializada” não chegou a grudar no assunto, visto que coisas mais interessantes apareceram no horizonte – coisas como Manuel Zelaya num avião venezuelano…

Mas vamos esperar umas duas semanas (ainda falta o fecho do “mês dos submarinos”). Enquanto isso, aproveitem o sorriso da tenente Gudrun Johanssen, da Flyvevåbnet (Real Força Aérea Dinamarquesa – pronuncia-se, mais-ou-menos “vlifêfôznet”).   Desde os meados dos anos 1950, a RFAD admite mulheres em suas fileiras, mas foi apenas nos anos 1960 que elas começaram a assumir o lugar de piloto. Atualmente, a RFAD tem como principal item de seu inventário 60 caças-bombardeiros F16AM e F16BM. O “M” é indicativo de Mid Life Update, modernização que inclui revisão completa da estrutura e motores, atualização dos aviônicos e sensores e capacitação para armamento mais moderno. Essas aeronaves foram adquiridas depois de uma duríssima concorrência internacional vencida pelos EUA e que deixou de fora o consórsio anglo-francês SEPECAT, com o Jaguar, a sueca SAAB, com uma versão de exportação do Viggen, a Dassault-Breguet, como o Mirage F1M e uma versão proposta do YF17 (que nem existia), da empresa Northrop (que tinha perdido a concorrência para fornecer caças leves para a USAF para o próprio F16). O efetivo da RDAF é, na atualidade, de 3400 efetivos. Aproximadamente 100 conscritos, recrutados em universidades, são treinados a cada ano, e ficam em serviço durante dois anos e meio, para constituir uma reserva. O tempo de serviço é, em média, de 24 anos para os efetivos. Os reservistas são convocados de 4 em 4 anos até completarem 46 anos. A tenente gosta de andar na moda, e usa, na foto um modelito anti-G, para antecipar a chegada dos caças F-35 do programa Joint Strike Fighter. É prá logo – a RDAF é uma força aérea fashion… ::

Um rapaz (das Forças Especiais) às Terças::Força de Submarinos

Submarin

Ainda estamos no “mês dos submarinos brasileiros”. Assim, causa:: tem o prazer de apresentar a seus seis leitores (contadinhos, vocês sabem…) o Estágio de Qualificação para Futuros Comandantes de Submarinos. Realizado nas dependências da Centro de Instrução Almirante Átila Monteiro Aché (CIAMA), base da Força de Submarinos (ForSub), ilha de Mocanguê, Niterói, RJ.  O rapaz da foto não é tão rapaz assim: é um oficial da MB sendo instruído num simulador de compartimento de comando de submarino classe “Tupi”. A foto foi tomada durante um estágio de formação de comandante de submarinos, que prepara capitães-de-fragata (oficiais superiores já com curso de estado-maior) para eventualmente ocupar o posto de comandante de submarinos. Por sinal, causa::, no interesse da cultura submarinística de seus seis leitores, recomenda a leitura deste recurso de pesquisa. Divirtam-se!::

Uma moça (de uniforme) às Segundas::

A vida a bordo não deve ser tão desagradável como fazem crer os romances de Tom Clancy...

A vida a bordo não deve ser tão desagradável como fazem crer os romances de Tom Clancy...

Tudo bem, ´tou sabendo… Não é Segunda, mas afinal, precisa dia marcado para aumentar a cultura submarinística de vocês, seus tarados?.. Bem, a moça é uma efetiva da VVF, em atividade provavelmente em funções de administração. Na sociedade soviética, as mulheres foram, desde o início, admitidas em atividades que, no Ocidente, eram consideradas domínio masculino – e as forças armadas estavam entre essas:: 

A Marinha da Rússia, ou, como eles dizem,  VMF  (Voyenno – Morskoy Flot, “Esquadra Marítima Militar”) é parte das forças armadas russas, submetida ao Ministério da Defesa da Federeção Russa. Em todos os aspectos administrativos de caráter militar, sucedeu a Marinha da União Soviética, depois que esta foi dissolvida, em 1991. Atualmente é composta por 5 agrupamentos navais: a Esquadra do Norte, a Esquadra Russa no Pacífico, a Esquadra do Mar Negro, a Esquadra do Báltico e a Flotilha do Mar Cáspio. Subordinados à Marinha também estão a Aviação Naval, a Administração de Portos Militares, a Infantaria Naval e a Artilharia de Defesa da Costa, além de certa quantidade de satelites de reconhecimento. Dados de inteligência do Ocidente dão conta de 500 navios de todas as classes e aproximadamente 600.000 efetivos, embora o grau de disponibilidade seja uma incógnita.
Ao longo dos anos 1990, a profunda crise política, econômica e administrativa que se seguiu a dissolução da URSS reduziu a atividade naval da ex-superpotência a quase zero. A outrora orgulhosa Marinha Soviética passou por situações humilhantes, como ter *navios abandonados pelas equipagens, *bases simplesmente fechadas por falta de recursos e outros retidos em portos estrangeiros na Europa Oriental, África e Ásia, pelo fato de não haver dinheiro para a compra de combustível. Durante a crise de Kosovo, que afetava diretamente de segurança territorial russa, a presença naval se limitou a um navio de inteligência e uma fragata. Os anos finais da década e iniciais da seguinte viram uma disputa entre as repúblicas, tornadas independentes, pelos despojos navais. Em 2000, o desastre com o submarino classe *Oscar II “Kursk”, durante exercícios no Mar de  Barents, chamou atenção para a baixa disponibilidade da esquadra. Ao longo desse tempo, uma grande quantidade de navios considerados obsoletos ou excessivamente dispendiosos foi desativada, inclusive quase 100 submarinos nucleares, programa que se encerrou em 2007 e foi totalmente financiado pelo Ocidente. A partir de 2003, a esquadra, redimensionada e reorganizada, começou a desenvolver atividades que incluíam grandes exercícos navais. Em maio de 2003, um exercício conjunto com a Marinha Indiana, denominado “INDRA” reuniu dez navios e aeronaves estratégicas, incluindo o disparo de dezenas de mísseis de cruzeiro e torpedos de longo alcance. Em agosto do mesmo ano, um exercício denominado “Vostok 2003”, realizado no Pacífico Norte, na área de manobras das esquadras do Norte e do Pacífico, reuniu em torno de 60 navios de guerra, 80 aeronaves e 70.000 militares. O exercício envolveu também atividades coordenadas com todas as regiões navais e agrupamentos da Rússia, envolvendo virtualmente todos os efetivos da Marinha. Além disso, serviu para mostrar ao mundo um novo tipo de contratorpedeiros de esquadra, a classe *Sovremenny, assim como novos navios de assalto anfíbio e e equipamento de desembarque. Em 2004, a Esquadra do Norte retornou em grande estilo ao Mar de Barents, num exercício reunindo 30 navios de guerra e outras tantas unidades auxiliares, aeronaves de combate e helicópteros.  O presidente Putin esteve observando a manobra a bordo do porta-aviões “Almirante Kuznetsov”, e depois se transferiu para o SSBN da classe “Tufão” “Arkhangelsk”, como convidado para um teste de lançamento do novo míssil balístico *RSM-54 (SS-N 23 “Skiff”, no jargão da OTAN). A tentativa falhou. Duas outras, realizadas de submarines da classe “Delta IV” (detalhes gerais aqui) deram em nada. Ou melhor, deram na demissão sumária, alguns dias depois, do comandante-em-chefe da Marinha, almirante Vladimir Kuroyedov…

Direto da Guerra Fria::SSN classe Akula

Ainda estamos no mês dos submarinos brasileiros – e a polêmica não diminuiu em nada, pelo contrário, aumentou, com a colocação política da França como pole-position para fornecer aeronaves de 5a geração apra a FAB. Mas Segunda-feira é dia de “rapaz”, mas o redator encontrou algo que, no momento, parece mais interessante: uma relíquia da Guerra Fria, mas que talvez possa enriquecer um pouco mais a “cultura submarinística” dos agora seis leitores  (contadinhos…) de causa:: Senhores, conheçam o mais espetacular submarino de ataque jamais construído: a classe “Schucka” (“pique”, uma longa lança usada no fim da Idade Média por tropas a pé, que revolucionou a arte da guerra), nome-código para a OTAN, “Akula” (“Tubarão”, em russo). Não se deve confundir essas  naves com a classe “Tufão”, essa composta por submarinos de patrulha:: 

Os “Akula” surgiram em 1986. A classe é dividida em três subtipos (dados gerais para os “Akula II” aqui), e não são submarinos de patrulha, ou seja, plataformas de lançamento de mísseis balísticos (SSBN, no jargão na Marinha dos EUA), mas *submarinos de ataque (SSN, no jargão na Marinha dos EUA). Sua função principal seria caçar submarinos de patrulha dos EUA; secundariamente, teriam por função atacar vasos de guerra de alta velocidade. Somente em condições especiais seriam lançados contra a navegação mercante. Deslocando mais de 7500 toneladas na superfície e 9100 quando em mergulho, a classe incorporou um sistema de casco duplo composto por um casco interno de pressão e um casco externo mais leve. Esse sistema, o mesmo adotado pelos SSBN da classe “Tufão”, tornou possível aos projetistas desenhar o casco exterior (o casco de imersão) como uma carenagem, de maneira a torna-lo mais hidrodinâmico, o que resultou numa nave muito veloz e extremamente manobrável, quando submersa. Já foram reportados submarinos dessa classe deslocando-se a cerca de 36 nós sob a água.

Submarino nuclear de ataque classe "Akula II", fotografado nas proximidades das Ilhas Sakhalina. O desempenho, em termos de manobrabilidade e velocidade, dessa classe de naves, é superior sob a água do que na superfície.

Submarino nuclear de ataque classe "Akula II", fotografado nas proximidades das Ilhas Sakhalina. O desempenho, em termos de manobrabilidade e velocidade, dessa classe de naves, é superior sob a água do que na superfície.

O principal armamento dessa classe de naves são 4 tubos de 533 mm e 4 de 650 mm. O inventário de vetores  varia de torpedos Tipo 53, de 533 mm, torpedos *Tipo 65, de 650 mm, mísseis superfície-superfície Novator RPK2 Viyugo (SS-N-15 “Starfish”, no jargão da OTAN, com alcance de aproximadamente 45 quilômetros) e Novator *RPK-6 Vodopei (SS-N-16 “Stallion”), ambos mísseis de cruzeiro anti-navio com capacidade de transportar ogivas de explosivo nuclear. Os torpedos anti-navio e anti-submarino, com alcance de até 100 quilômetros, são disparado pelos tubos de 650 mm. Já os de 533 mm são de menor alcance. Mísseis superfície-ar podem ser disparados através dos tubos de 533mm.

As classes “Akula Reforçado” e “Akula II” receberam mais 6 tubos de  533 mm montados no casco externo, que não podiam ser recarregados depois de usados. A baixa disponibilidade dos torpedos Tipo 65 fez com que os soviéticos acrescentassem aos tubos de 650 mm um equipamento que capacitava essas plataformas a utilizar armamento fabricado para os tubos menores. Os tubos de 650 mm também podiam ser usados para lançar minas.

Um dos aspectos distintivos dos “Akula” é o enorme bulbo situado à ré do casco, na posição do leme. Essa estrutura contém um sonar que, lançado a reboque, pode aumentar o grau de varredura e fazer diminuir a interferência dos ruídos de deslocamento do próprio barco, quando em alta velocidade.

Outra vista de um "Akula II" na superfície. Note a estrutura do sonar rebocado, tipo de "abertura sintética".

Outra vista de um "Akula II" na superfície. Note a estrutura do sonar rebocado, tipo de "abertura sintética".

O subtipo “Akula Reforçado” era, de fato, uma melhoria dos “Akula I”, que recebeu sistemas eletrônicos mais modernos, notadamente um sonar de abertura sintética. Mas o subtipo “Akula II”, surgido no início dos anos 1990 era, de fato, uma nova classe, cuja principal novidade era um sistema de diminuição de ruídos. Um novo tipo de sonar foi incorporado, totalmente gerenciado por processadores, e considerado como tendo a mesma performance dos equivalentes norte-americanos. Um outro ponto que, na época, deixou muito apreensivos os planejadores navais do Ocidente foi o fato de que os “Akula II”, submersos, eram mais silenciosos do que seus equivalentes norte-americanos da classe “Los Angeles”. Embora uma série de teorias conspiratórias atribuam os avanços soviéticos à uma suposta colaboração involuntária dos japoneses, ao vender à URSS, no início dos anos 1990, sistemas de desenho computadorizado (CAD) de última geração, de fato a Marinha da URSS vinha se desenvolvendo de modo notável desde os anos 1960. Foi a época em que o almirante-de-esquadra SergeyGorshkov revelou-se um dos maiores pensadores navais surgidos no pós-guerra.  Alçado ao comando da força por Nikita Khrushchev, logrou, a paratir de então, convencer as lideranças soviéticos a fazer pesados investimentos em todos os tipos de equipamento e infra-estrutura. Essa política de longo alcance tornou a URSS, no fim dos anos 1960, uma potência naval global. Assim, os avanços soviéticos na técnica de abafamento de sons subaquáticos explica-se no contexto do desenvolvimento geral da tecnologia naval naquele país.

Depois do fim da União Soviética e da crise econômica que se seguiu, um acordo entre EUA e Rússia implicou na desativação dos submarinos de patrulha da classe *“Tufão”. Os “Akula I” também foram desativados, mas os “Akula Reforçados” e “Akula II” não só continuaram em serviço como foram melhorados.

Em 2008, naves da classe “Akula” se tornaram os únicos submarinos nucleares já exportados. A ìndia arrendou um “Akula II” por período de 10 anos, com opção, ao término, para compra de duas unidades. Informes divulgados no Ocidente dão conta de que o submarino deverá ser entregue no final deste ano. Os indianos estão desenvolvendo o próprio submarino nuclear, mas o projeto tem sofrido sucesivos atrasos, de modo que o arrendamento foi considerado uma solução aceitável. A China também estuda a aquisição de duas unidades::

Recordar é viver::Anos 70:Deténte, SALT e outros quetais::

Parte 2/2:: Não parece fazer sentido, mas fazia, na conjuntura da época. Significava admitir, por via transversa, a afirmação feita, muitos anos antes, por Winston Churchill, de que “uma nação não tem amigos, tem interesses”, e que a busca desses acaba por criar tensão. Pragmaticamente, as nações poderiam viver em tensão permanente, desde que fossem criados e aperfeiçoados mecanismos para que esse estado de coisas fosse mantido sob controle.

Para definir essa visão política, a tal pessoa de 1968 poderia usar uma expressão criada algum tempo depois pela diplomacia brasileira: “pragmatismo responsável”. A comparação faz todo o sentido. O projeto brasileiro, na época, de “potência emergente”, recusava mecanismos que implicassem na aceitação a priori das estruturas do

poder em nível internacional – embora visasse sua reprodução, tanto quanto possível, no interior do país. Defendia a diplomacia brasileira que o Brasil tivesse reconhecidos seus interesses. Nesse sentido, uma das linhas prioritárias da política exterior foi a “correção de rumos” nas relações com os EUA, visando a colocá-las em bases vistas como “mais realistas”. Os conflitos que fatalmente surgiriam deveriam ser encarados como decorrência do relacionamento entre estados soberanos na defesa de seus interesses nacionais. De fato, esse “pragmatismo” era o mesmo que os arquitetos do sistema de poder internacional admitiam como inerente às relações entre as grandes potências. A política internacional não deveria ser excessivamente pragmática a ponto de deixar-se dirigir pelo cinismo, mas também não deveria ser ditada pelo moralismo, sob pena de tornar-se ineficaz ou mesmo temerária. Por outro lado, reações como a do Brasil, na época sob regime autoritário de extrema direita, freqüentemente aplaudido pelos EUA, indicavam as tensões que poderiam resultar dessa linha pragmática de relações internacionais.

Havia, claro, motivos que podem ser considerados, mais do que pragmáticos, práticos, para que fosse adotada uma política de busca da estabilização. No início dos anos 1970, o panorama econômico já não era tão favorável, para os EUA. O longo ciclo de prosperidade apontava o próprio fim. O horizonte internacional não é feito apenas de silhuetas de tanques, aeronaves e mísseis balísticos. É feito também de fábricas, minas, entrepostos de comércio e casas bancárias. A fase excepcional pós 2ª GM, a “Era do Ouro” da visão anglo-americana começava a perder o brilho. Os 25 anos anteriores a 1970 tinham sido estupendos, até mesmo para a URSS e seus parceiros.

O surto de crescimento econômico parecia mundial – embora não fosse. Durante algum tempo, pareceu até mesmo que, economicamente, os regimes socialistas estariam levando vantagem. Nos anos 1950, a URSS e a Europa Oriental cresciam mais rapidamente do que o Ocidente. Até mesmo o Terceiro Mundo colheu rebarbas desse surto: nos 20 anos entre 1950 e 1970, a fome continuou endêmica na África e em certas partes da Ásia, mas diminuiu; a população do Terceiro Mundo dobrou, e na América Latina, mais do que isso; a expectativa de vida aumentou, em média, 7 anos – em certas regiões, 10 anos ou mais. Entretanto, a “Era do Ouro” foi, sobretudo, enganosa, até mesmo para os observadores mais argutos. Aquela pessoa de que falo, se pertencesse à emergente classe média brasileira, teria chances que seus pais jamais teriam sonhado: acesso amplo è educação, um sistema de saúde pública relativamente estruturado, pleno emprego e subsídios à mancheias. Cidades como São Paulo ou Rio de Janeiro eram, de certa forma, miniaturas em crescimento da economia mundial. Essa pessoa certamente não saberia que os EUA estavam crescendo menos do que seus parceiros europeus e japoneses, e que URSS e seus clientes industrializavam-se rapidamente sem que a industrialização significasse melhorias visíveis de padrão de vida. No mundo socialista, cidadãos bem formados e saudáveis olhavam com inveja para a liberdade e afluência de suas contrapartes ocidentais. Já no Ocidente, os cidadãos dirigiam-se para suas residências subsidiadas, cheias de bens de consumo financiados, em automóveis movidos a combustível excepcionalmente barato. Ouviam rock no rádio e, em casa, se revoltavam diante das notícias sobre as ditaduras latino-americanas e asiáticas, fossem de direita ou de esquerda. Entretanto, nenhum deles duvidava que, dentro de dez anos, a vida seria a mesma. E que, dentro de dez anos, ainda estariam debaixo do guarda-chuva nuclear norte-americano, desfrutando da vantagem adicional de orçamentos de defesa ridiculamente reduzidos em relação ao tamanho que tinham alcançado as economias de seus países.

O fato é que, durante a Guerra Fria, as superpotências assumiram o ônus da defesa de suas esferas de influência. Em ambos os lados, a expansão do chamado “complexo industrial-militar” foi exponencial, mesmo diante do notável crescimento econômico geral. Ainda que os estados ocidentais tenham desviado mais recursos para o buraco estéril dos gastos militares, não o fizeram na proporção de EUA e URSS. No longo prazo, essa opção, decorrência da opção pela estabilidade, seria fatal para a URSS e teria conseqüências notáveis para os EUA: estes trocaram força militar superior por enfraquecimento econômico crescente, frente aos aliados que se viam na obrigação de defender.

Mas não foram esses os motivos que levaram os líderes mundiais a uma improvável mesa de negociações, no início dos anos 1970. De um lado, o dos EUA, foi a condução do problema de como continuar a Guerra Fria quando esta “guerra sem barulho” deixasse, na frente interna, de ser popular – e ela era popular exatamente porque não tinha barulho, nem mortos. Passou a ter no final da década, em função de um conflito localizado, do tipo que deveria ser mantido “empacotado” pela busca da estabilidade. Em 1968, esse brasileiro da classe média que estou imaginando saberia exatamente de que guerra se tratava: o Vietnam.  

No lado soviético, foi o problema de como lidar com o fato de que o bloco comunista, desde meados da década de 1960, já não apresentava a unidade que a “justeza da causa proletária no mundo” deveria solidificar. Ao contrário, as duas potências do bloco socialista tinham deixado de se entender muito antes, em função de diferenças ideológicas e da recusa chinesa em alinhar-se aos interesses soviéticos. Comunistas russos e comunistas chineses andaram, em 1969, se estranhando, ao longo da enorme fronteira entre os dois países. Dois exércitos “vermelhos” foram postos frente a frente, o que até então parecia inimaginável. Mais inimaginável ainda foi o perigo de que a briga por uma ilhota fluvial insignificante degenerasse e um confronto nuclear. Certamente a China não era páreo para a URSS, apesar de dispor de certa quantidade de armas estratégicas. Em 1968, em torno de 300 dos 2000 ICBMs disponíveis pela URSS tinham sido programados para voar em direção à China, e um exército soviético de quase um milhão de efetivos, dispondo de capacidade nuclear tática estava posicionado nas fronteiras sino-soviéticas. Segundo análises da época, o Exército da República Popular da China era mal-treinado, mal-equipado e pior comandado; não dispunha de artilharia e blindados suficientes nem de apoio aéreo, e sua logística era baseada em animais de tração, e, por mais incrível que possa parecer, em braços humanos.

É provável que fosse verdade, e talvez a realidade fosse até pior. Anos antes, o próprio Mao Tsé-tung, o “presidente Mao”, “Grande Timoneiro” da revolução socialista, tinha deslanchado a “grande revolução cultural proletária”, golpe político destinado a compensar a perda de poder observada em função do fracasso do “grande salto para a frente” (eufemismo para a coletivização da agricultura) de 1958-1961. A Revolução Cultural revelou-se uma maluquice tenebrosa, e desorganizou a sociedade chinesa e suas instituições, inclusive o exército. Em 1951, as disciplinadas forças chineses, armadas e treinadas pelos soviéticos desequilibraram a guerra da Coréia, obrigando o Exército e o Corpo de Fuzileiros Navais dos EUA a uma humilhante retirada que quase degenerou em confronto nuclear; em 1968, jovens soldados agitando um livrinho vermelho e disparando para cima suas armas, o “Exército do Povo”, não admitiam a supremacia dos oficiais e impunham “decisões democráticas”. A hierarquia militar, “desvio burguês inaceitável”, foi quase abolida, e os comandantes até o nível de regimento eram escolhidos pela tropa; as grandes unidades e corpos de exército continuavam tendo seus comandantes designados, o que na prática não significava nada, visto que as decisões eram tomadas em “conselhos populares”.

O problema soviético não era, pois, a China, mas o partido que os adversários norte-americanos tomariam, no caso de um confronto entre as duas potências comunistas. Os EUA seriam um aliado desejável, embora a situação da “frente interna” também não era nada fácil. Estavam atolados até o pescoço em uma guerra que deveria ter sido resolvida “em alguns meses, no máximo em um ano”, segundo o general comandante – e, em 1969, isso já fazia mais de 4 anos. Todos os dias a televisão colocava dentro dos lares americanos um vasto cardápio de revolta e contestação, das universidades ao guetos urbanos, dos festivais de rock às Olimpíadas. A juventude ocidental, inclusive – por incrível que pareça, até mesmo a norte-americana – mostrava-se seduzida por líderes como Mao Tsé-tung e Ernesto “Che” Guevara.

Se o problema da URSS não era a China, mas a perspectiva de problemas com os EUA, o da China era estar cercada por dois inimigos poderosos e agressivos – a URSS e a Índia – e um imprevisível – o Japão (nos quais os chineses nunca confiaram).

E, naquela altura, China e EUA tinham alguns pontos em comum. O primeiro deles era a preocupação com a União Soviética, aos olhos de ambos cada vez mais ameaçadora. Em 1968, a rápida mobilização e deslocamento de tropas motorizadas e aerotransportadas contra a Tchecoslováquia lançara uma sombra de preocupação sobre a Europa Ocidental. A invasão fora o primeiro movimento da “doutrina de Brejnev: os países socialistas da Europa (leia-se URSS) teriam direito de intervir em qualquer país que se julgasse no direito de romper o compromisso “democrático” e “político” com o marxismo-leninismo. Em 1967, a União Soviética tinha alcançado a paridade com os EUA, em termos de armas estratégicas. Embora os EUA ainda tivessem alguma vantagem em ogivas múltiplas e mísseis lançados se submarinos, os soviéticos dispunham de mais mísseis, com ogivas de maior poder destrutivo (por exemplo, ogivas termonucleares de 40 megatons, enquanto as dos EUA eram, na maioria, de 2 a 5 megatons).

O Vietnam era outro interesse comum. Aos governantes e ao establishmenth militar norte-americanos aquela se tornaram uma guerra infeliz, na qual aproximadamente 800.000 militares das três corporações lutavam contra fantasmas, ao custo de 40 bilhões de dólares e 12.000 mortos somente em 1968. Nixon queria sair dela, mas não de maneira humilhante. Para os chineses, a “guerra de libertação” do Vietnam e das guerrilhas comunistas já não parecia um ganho político, diante da ameaça soviética. Além do mais, os Guardas Vermelhos tinham, apenas uns dois anos antes, desorganizado o país e obrigado Mao a intervir para deter o caos que se espalhava pelo país.

Assim, EUA e China tinham pontos que os aproximavam, e restaurar a ordem interna era o primeiro deles. Sair do Vietnam, para os norte-americanos significa apaziguar a frente interna; para a China, garantir uma posição favorável diante da URSS.

O caminho estava aberto. Em 1971, Henry Kissinger realizou uma visita secreta a Pequim, na qual ouviu de Chu En-lai que a China faria o que fosse possível para ter Nixon numa visita ao país.

E teria. Cerca de um ano depois. E o mundo não seria mais o mesmo…::

Submarinos brasileiros: a eleição de 2010 desde às profundezas da Amazônia Azul::Parte 4

Finalmente, mais um capítulo da “novela dos submarinos”, uma trama cheia de emoção, intriga, suspense, e que certamente baterá o record de duração de ” O direito de nascer” (o redator é um grande fã de novelas…). De qualquer maneira, o último lance foi a assinatura, em 7 de setembro (ou seja, ante-ontem) de um contrato gigantesco com os franceses, que também incluí outra peça polêmica: o caça multifuncional de quinta geração *Rafale. De qualquer forma, trata-se de uma monumental “banana” para nosso eterno caso de amor-ódio, os EUA, que estavam oferecendo um pacote completo de uma aeronave plenamente operacional, o *FA-18 Superhornet com (pelo menos é o que eles diziam…)  tranferência parcial de tecnologia. Mas essa é outra história – o assunto aqui são as profundezas da Amazônia Azul, e não o azul do céu

Antes que o redator esqueça – ao longo da semana, o texto irá sendo enriquecido com novas informações, até que – digamos – encha o saco. O do redator e o de vocês…:: 

parte4Ao longo das últimas três décadas, o submarino convencional parece ter tido um renascimento. Isso se deve à três fatores: desenhos de casco mais eficientes aumentaram o desempenho dessas belonaves sob a água; desenvolvimento de sistemas de armas tais como torpedos extremamente eficazes e mísseis superfície-superfície que podem ser lançados com o navio submerso; os sistemas AIP. A combinação desses três fatores fez surgir unidades de alta performance, que tem conseguido estender as capacidades operacionais da arma submarina.

O desenvolvimento mais espetacular é o sistema AIP. Vários países do mundo investem fortemente nessa tecnologia, que torna um SSK capaz de ficar mergulhado durante vários dias e em condição de operar ofensivamente. Entretanto, parece ser ainda um tanto cedo para avaliar com certeza as reais potencialidades das unidades convencionais dotadas de AIP. O maior problema é, sem dúvida, o alto custo do sistema e a complexidade de sua manutenção e operação. Ainda assim, não é pequeno o número de países que aposta neles: Suécia, Alemanha, França, Coréia, Itália, Paquistão, Austrália, Japão e Rússia já operam com submarinos dotados de AIP.

Os EUA, que desistiram de unidades convencionais durante a Guerra Fria, estão avaliando o sistema. Em maio de 2005 a Suécia concordou em arrendar o KMS Gotland para a Marinha dos EUA pelo período de um ano. O interessante desse acordo é que a Suécia exigiu (e teve a demanda atendida) que a nave, ao longo desse tempo, permanecesse com uma tripulação sueca. Ao que parece, as capacidades da classe *Gotland surpreenderam os norte-americanos. Depois de inúmeros exercícios ao largo da Califórnia, a surpresa culminou com um “acerto” realizado pelo submarino contra o porta-aviões de ataque USS Ronald Reagan. Segundo fontes oficiosas, os norte-americanos admitiram não ter nem equipamento nem doutrina para lidar com essa nova classe de submarinos convencionais (mais informações, em inglês, podem ser encontradas aqui).

Até o momento, Suécia, Alemanha, França e Rússia apresentam-se como potenciais fornecedores desse tipo de unidade. O modelo alemão já está em atividade – de fato, o IKL 214 é uma adaptação do tipo 212, dos quais quatro unidades já se encontram em serviço na Marinha de Guerra da Alemanha (Kriegsmarine). A principal característica dessas belonaves é justamente o sistema AIP desenvolvido pelos alemães, baseado em células de hidrogênio/oxigênio chamadas PEM (Polymer Electrolyte Membrane, “Membrana de Polímero Eletrolítico”), que convertem o hidrogênio e o oxigênio em energia elétrica. Esse tipo propulsão permite que o tipo *IKL 212A alcance, submerso, velocidades de até 20 nós (aproximadamente 36 km/h), permanecendo submerso sem necessidade de utilizar snorkel por até 30 dias (embora esse patamar não tenha sido atingido ainda). O desenho e os materiais usados permitem mergulhos a mais de 300 metros.  O tipo 212A, que começou a ser projetado em meados dos anos 1980, tornou-se, nas marinhas alemã e italiana, uma espécie de vitrine para tal tipo de inovação.

Mas existe questões não muito esclarecidas em torno da eficácia real dessas unidades. O caso não parece ser com o sistema AIP, mas com aparentes problemas de projeto. Em testes, a primeira unidade encomendada pela Grécia, o Papanikolis, se mostrou bastante instável em diversas condições de mar; além do mais, a assinatura térmica do submarino também foi muito maior do que a esperada. Sem que os alemães conseguissem determinar exatamente quais seriam os problemas com o Papanikolis, a Grécia acabou se recusando a receber a unidade (um comentário sobre o destino do navio, em inglês, aqui). Também circularam informações,de que as unidades fabricadas na Coréia do Sul, apresentaram diversos problemas de ruído provocado por cavitação. Dizem os coreanos que os resolveram totalmente, inclusive repassando a tecnologia desenvolvida para os alemães.

Esse não é um debate terminado, e nem pode ser. O desenvolvimento de qualquer produto não termina com seu lançamento. Pelo contrário, ao ser lançado, surgem problemas, provocados exatamente pela utilização em condições não-controladas. Com armamento é exatamente assim – leva muito tempo até que atinja plenas condições operacionais. O problema é que, atualmente, o custo de desenvolvimento de um sistema de armas é simplesmente astronômico, dada a quantidade de tecnologia embarcada. Com exceção dos EUA (e atualmente, bem menos do que antes…) nenhum país tem condições de desenvolver tais sistemas exclusivamente por conta própria. De preferência, essas empreitadas devem incluir parceiros que assumam partes do projeto, ou realizar vendas por antecipação. Em 2006, os suecos, num consórcio com Dinamarca e Noruega, estavam desenvolvendo um novo tipo de submarino AIP, o Viking. Pressionados por problemas econômicos, os parceiros se retiraram do projeto, que acabou inviabilizado. Em 2007, a empresa Kockums, pioneira no desenvolvimento do motor Stirling, ainda estava procurando parceiros para o desenvolvimento de um novo tipo de submarino, denominado A26. Saber-se que essa empresa foi adquirida pela HDW que, por sua vez foi adquirida pela megafabricante de armamento Thyssen-Krupp.

Essa problemática certamente explica a necessidade que tiveram os alemães em colocar em ação os IKL 214, mesmo com problemas mal-resolvidos. E talvez esses mesmos problemas expliquem a insistência alemã em vender seus submarinos pelo mundo afora, inclusive para o Brasil. Só que, como já vimos, os problemas da Marinha com os alemães não são de hoje, e também são um tanto mal-explicados. A questão é se esses submarinos vão realmente funcionar direito num futuro a médio prazo: o preço de manutenção ao longo da vida de um submarino é muito maior que o seu custo de aquisição. Além das questões envolvidas na transferência de tecnologia – segundo a Marinha, não havia disposição para formar engenheiros-, correm boatos de que os alemães tem, nos últimos anos, utilizado subterfúgios para vender sobressalentes por preços superdimensionados.

Dentro de pouco mais de 1 ano, o Brasil terá gasto uns 100 milhões de dólares modernizando a classe “Tupi”, que terá chegado ao auge de sua capacidade operacional, e poderá permanecer em atividade durante pelo menos toda a próxima década sem se tornar obsoleta. Nenhum país do mundo descarta vasos de guerra com menos de 30 anos. Um exame superficial, por exemplo, da Marinha dos EUA mostra que os vasos de guerra de seu inventário permanecem em atividade durante pelo menos 25 anos. Os *destróieres porta-mísseis (missile destroyers ou DDG no jargão naval) da classe Farragut ficaram em serviço por quase trinta anos – lançados em 1957, foram totalmente modernizados em 1975. Já as fragatas tipo 21 (da qual as nossas “Niterói” são uma variação) entraram em serviço na Marinha Real em 1974 e continuam em serviço (as inglesas foram vendidas em bloco ao Paquistão), depois de modernizadas. Atualmente, em função da rapidez com que surgem novos sistemas de controle e detecção e sistemas de armas, tornou-se comum o processo conhecido como MLU (em inglês Mid Life Update). No caso brasileiro, esse processo não é incomum: foi planejado para os submarinos da classe “Humaitá” e, no caso das “Niterói”, foi realizado (ainda que de forma insuficiente) a partir de 1989 sob o nome Projeto MODFRAG.

A modernização dos “classe Tupi”, planejada em 2005, acabou ficando por conta dos norte-americanos e não dos alemães. O motivo, nesse caso, é apenas econômico: a instalação de sistemas eletrônicos Lockheed-Martin/Raytheon e de um novo tipo de torpedo pesado, o MK48 mod 6 AT (de Advanced Technology), que equipa os submarinos nucleares de ataque dos EUA ficou bem em conta, financiada pelo programa Foreign Military Sales. Os “Tupis também irão receber uma versão do sistema MAGE (Medidas de Apoio à Guerra Eletrônica) desenvolvido pelo IPqM, já operacional.

É portanto provável que, se o contrato de transferência de tecnologia da França para o Brasil for cumprido, os submarinos franceses comprados pelo Brasil possam ser desenvolvidos operacionalmente aqui. Isso implicaria até numa possível futura incorporação de módulos AIP nas unidades. No caso das duas unidades compradas pela Armada Chilena e já totalmente operacionais, a transferência de tecnologia é suficiente… para hacer la mantención integral del buque en el país y no enviarlo a España y/o Francia; esto incluye las futuras recorridas integrales, refits, sistemas electrónicos, etc. Ignoro si la transferencia alcanza para realizar en Chile la eventual adición de un sistema AIP, pero eso es algo que no sabremos antes de 2015-2020. Sobre el montaje del sistema AIP, la opción está garantizada por el consorcio fabricante, justamente mediante un proceso de corte de casco y esamblaje del módulo completo. De hecho, el modelo en cuestión estaba en el stand de DCN en la Exponaval 2008 en Valparaíso (un modelo similar también estuvo en la versión previa de 2006).

O caso chileno é bastante interessante, e merece alguma atenção – até pelo fato do Chile ser, reconhecidamente, a maior potência militar da América do Sul, com a marinha de guerra mais bem organizada dentre as latino-americanas (a outra é a brasileira). Ao longo das últimos 30 anos, em termos de submarinos, a história chilena foi muito parecida com a brasileira: foram operadores da classe Oberon e, quando esta foi descontinuada, lançaram mão do tipo 209. Quando resolveram adquirir novas unidades, numa concorrência entre alemães da HDW e franceses da DNS, a oferta  francesa foi melhor. “A Marinha do Chile concluiu finalmente que o modelo ‘Scorpène’  era melhor que o 209-1400 MOD nas seguintes áreas: nível de ruído, quantidade de torpedos, velocidade de recarregamento dos tubos lança-torpedo, profundidade de operação (superior a 350m), além de um custo de aquisição ligeiramente menor.” (Leia a íntegra aqui, rolando até encontar o texto.) Os Scorpènes chilenos já estão em operação, e novamente as informações são totalmente desencontradas: algumas fontes afirmam que as unidades chilenas são excelentes, inclusive no que diz respeito aos sistemas eletrônicos; outras fontes afirmam que os Scorpènes franceses sequer conseguem sair do porto.

Não poderia ser de outra maneira. O jogo é pesado, nesse ramo, e ainda temos, à esta altura, o fator agravante da disputa eleitoral que se avizinha. O modo como a imprensa tem tratado o assunto é revelador do fato de que não estão sendo considerados aspectos estratégicos ou técnicos. De concreto, temos o fato de que o Brasil fechou um contrato enorme com a França, que prevê não apenas a aquisição de submarinos (que serão construídos no Brasil, provavelmente no Arsenal de Marinha), mas também a construção de uma base naval (o que, provavelmente, implica em aquisição de equipamentos de suporte e peças de reposição). Trata-se de um acordo para pelo menos dez anos.  

O ponto mais interessante desse acordo é, sem dúvida, o casco que deverá converter-se no SNAB. Os franceses dispõe dessa tecnologia – encontram-se entre as cinco marinhas que operam esse tipo de belonave. Certamente teremos de esperar algum tempo, mas o futuro dirá no que esse acordo irá resultar. Ainda tem muito chão (no caso, água) pela frente::