Submarinos brasileiros: a eleição de 2010 desde às profundezas da Amazônia Azul::


O vibrante matutino carioca, “O Globo”  – aquele cujos redatores têm dificuldades em distinguir urubu de galinha preta, tanto em armas portáteis quanto na língua portuguesa (“apressar” = ”suspender”) anda agora destilando a sapiência de seus jornalistas “especializados” em torno da aquisição de submarinos franceses classe Scorpène, decisão tomada recentemente pelo governo Lula (em dezembro de 2008). O “vibrante” insinua que o acordo é lesivo aos interesses brasileiros, e que dentro dessa tuba tem gato. Como todo mundo sabe, causa:: não tem posição política (o redator tem, mas essa é outra história), e seu objetivo é esclarecer os (poucos) interessados com paciência para tecnicalidades, e que não acham que uma sardinha é um bacalhau muito mais barato, portanto, poderia perfeitamente ser chamada de bacalhau e comprada como tal. E como a gente não publica uma pesquisa dessas em uma única postagem, para o prazer de vocês todos, seus militaristas-belicistas- expansionistas, a coisa irá na já conhecida metodologia do redator: três partes, em duas semanas::  

Parte1Em dezembro de 2008, o governo brasileiro assinou com o governo da França, acordo militar que prevê a compra de quatro submarinos convencionais de propulsão diesel-elétrica (SSK, na estranha linguagem dos militares), além de uma série de complementos, dentre os quais a transferência de tecnologia, construção de uma base naval (que inclui um estaleiro) e certos aspectos nebulosos, em torno da aquisição da plataforma (casco, sistemas de armas e sensores) para a montagem de um futuro “submarino nuclear de ataque brasileiro” (SSNB).

O submarino a ser adquirido será da classe Scorpène (em português, “escorpena”, ou “peixe-escorpião”), projeto desenvolvido pelo estaleiro estatal francês DCN (Diretion dês Construtions Navales) e pela empresa espanhola Navantia (que posteriormente abandonou o processo). O tipo começou a ser projetado no início dos anos 1990, e já completou o período de desenvolvimento operacional, estando em serviço nas marinhas do Chile e da Malásia. Uma grande encomenda também foi feita pela Índia, em termos muito semelhantes aqueles do acordo brasileiro. Não interessa, no momento, apresentar os diversos aperfeiçoamentos incorporados a essa classe de submarinos (o redator não está recebendo nadica da DCN). Mas para um detalhe vale à pena chamar atenção: a classe Scorpène é, de fato, uma classe de SSK de porte médio (1660 toneladas de deslocamento), cujo projeto correu paralelamente a nova geração de submarinos nucleares que está sendo incorporada pela marinha francesa. Essa classe de belonaves é projetada tanto para a guerra contra unidades de superfície quanto para operações contra submarinos. Incorporam um desenho de características furtivas (stealth), com grande autonomia, grande capacidade de mergulho e notável capacidade ofensiva. O desenho hidrodinâmico do casco, somado à construção modular em metais de liga especial, tem por objetivo a maior redução possível de ruídos.

Entretanto, a grande novidade da classe Scorpène é um sistema denominado “MESMA” (Module d’Energie Sous-Marine Autonome), um tipo de propulsão subaquática cuja denominação geral é AIP (air-independent propulsion). Esse sistema permite, através da geração de oxigênio a partir de oxigênio pressurizado e etanol, que o submarino permaneça debaixo d´água usando os motores elétricos sem apelar para o snorkel.

É mais-ou-menos os seguinte: quando submerso, um submarino utiliza motores elétricos alimentados por baterias que descarregam relativamente rápido. Para continuar se movendo, e recarregar os motores, precisa usar motores a diesel (daí a expressão “submarino diesel-elétrico”) que dependem de ar para queimar combustível. Um submarino convencional, nessa situação, ou sobe à superfície ou lança o snorkel, um par de tubos que o ligam à superfície, puxando ar e eliminando gases de escapamento. Só que o snorkel é detectado com relativa facilidade por radar. Desde o final da 2ª GM, os pesquisadores navais procuram algo melhor do que o snorkel – o AIP é um sistema destinado a suprir essa deficiência. Esse sistema foi testado pelos alemães, no final da 2ª GM, e visava permitir ao submarino, submerso, usar o motor à combustão interna. Depois da guerra, ingleses e russos tentaram aperfeiçoar sistemas de propulsão desse tipo, que não chegaram a passar do estágio experimental. Nos anos 1970 e 1980, grandes avanços levaram suecos, alemães, russos e franceses a modelos de motores de ciclo fechado eficientes (motores nos quais o fluído de trabalho nunca deixa o interior do sistema). Mas também não estamos aqui para contar a história do desenvolvimento desses sistemas (quem quiser maiores detalhes, pode encontrá-los aqui).

O conjunto propulsor do Scorpène tipo AM2000 é composto por 2 motores a diesel e um elétrico, com potência, respectivamente, de 1250 e 2900 kW, que permitem uma velocidade de 30 milhas náuticas (uns 50 quilômetos por hora) quando submerso. O conjunto AIP pode ser do tipo Stirling (motor de ciclo fechado) ou o sistema MESMA. Este último permite permite um maior tempo de submersão: em desempenho otimizado (o que, nessa língua, significa baixa velocidade), um submarino dessa classe pode ficar até duas semanas sem vir à superfície. Segundo especialistas, outra vantagem do sistema é o baixo nível de ruído, se comparado à elevada potência que gera. A profundidade operacional alcançada é de cercade 350 metros, podendo, em condições extremas, descer até 500 metros. O Scorpène com propulsão convencional, denominado CM2000 (o tipo em operação na Marinha chilena) usa um sistema diferente, de baterias ion-lítio de alto desempenho. Entretanto, essa versão pode permanecer submersa por tempo aproximadamente três vezes menor do que a versão “MESMA”, e, ainda assim, em baixa velocidade, o que diminui o desempenho geral do sistema.

O submarino dotado de AIP, colocado ao lado dos convencionais, constitui um enorme ganho tático (aqui, uma interessante análise técnica desses novos tipos). Mas vamos deixar bem claro: ainda são submarinos convencionais, muito diferentes dos submarinos nucleares de ataque. É interessante observar que os Scorpènes pretendidos pela Marinha Brasileira não contarão com o sistema “MESMA”, considerado pelos militares brasileiros muito caro e difícil de manter (aqui uma interessante avaliação técnica dos sistemas). Essa decisão é interessante por apontar de modo bastante direto, a linha de trabalho que está sendo desenvolvida pela Marinha do Brasil com relação a submarinos: criar, a longo prazo, condições que diminuam, e se possível eliminem, a dependência nacional por armamento de origem externa.

A implementação das forças armadas brasileiras sempre foi bastante problemática. Em primeiro lugar, interferem fortemente as constantes dificuldades financeiras do país. Mas interfere também e de modo igualmente determinante, o baixo nível tecnológico da indústria local, que torna o país dependente de material fornecido pelos parceiros estratégicos, os EUA o principal dentre esses. Mas as atitudes norte-americanas com relação à América Latina, ao longo dos últimos 200 anos, acabaram solidificando um comportamento ciclotímico nos militares e em certas categorias políticas locais – são entusiastas do “sistema político liberal-capitalista” mas desconfiam dos EUA. Após a 2ª GM, mesmo se posicionando o Brasil no “bloco ocidental”, isso não significou que pudéssemos contar com o apoio da superpotência no sentido de manter atualizadas as FA nacionais. Essa desconfiança explica as repetidas tentativas de buscar outros parceiros, dispostos a nos fornecer armamento moderno, mas, principalmente, tecnologia de como mantê-los, projetá-los e fabricá-los.

Esse esforço vem desde os anos 1950, freqüentemente  reforçado pela negativa dos EUA em fornecer armamento atualizado. A aquisição, em meados dos cinqüenta, de aeronaves e um porta-aviões na Inglaterra iniciou uma espécie de “movimento pendular” em que o Brasil buscava parcerias na Europa mesmo tempo que tentava desenvolver uma indústria autóctone de armamento.

No final dos anos 1960, um grande programa de reaparelhamento naval procurou liberar o país da dependência do fornecimento, pelos EUA, de navios de segunda mão fabricados na época da 2ª GM ou pouco depois. As encomendas, que totalizaram 24 unidades novas, incluíam fragatas e submarinos ingleses, varredores de minas alemães, e pequenos navios de patrulha construídos no Arsenal de Marinha do Rio de Janeiro (AMRJ), principal base da MB. Esse movimento também incluiu a aquisição de navios usados da marinha norte-americana, inclusive vários submarinos. O plano de renovação incluiu pesquisas para fabricação de equipamentos eletrônicos e armamento, além do desenvolvimento de métodos e técnicas de manutenção.

O programa foi bastante bem sucedido: introduziu a Marinha Brasileira na era do míssil anti-navio, dos controles automatizados e dos submarinos de grande autonomia.

Mas também havia problemas: um deles era o fato de que as unidades navais modernas tinham custo de operação e manutenção exponencialmente mais alto do que os cruzadores e contratorpedeiros da 2ª GM cedidos pelos EUA. No âmbito dos acordos de defesa continental iniciados em 1942, um programa chamado “Acordo Militar Brasil-EUA”, assinado em 1954, garantia o suprimento de material norte-americano a preços subsidiados, mediante contrapartidas brasileiras. Com os novos navios, a coisa mudou radicalmente de figura, a começar pelo preço: eram unidades novas, “zero-bala”. Os submarinos, três unidades da classe Oberon, inglesa, além o preço de compra tinham custo de operação e manutenção bastante alto. E haviam as dificuldades de operação dessas belonaves: a Marinha Brasileira foi colocada diante da operação de snorkel, de *sistemas de direção de tiro computadorizados e *comandos de direção/submersão integrados. Outro problema não menos notável (e que tem sido muito citado pela imprensa) deveu-se à necessidade de convivência de dois tipos muito diferentes de equipamento, que criou problemas com o ciclo logístico. Quando o governo brasileiro se decidiu, em 1968, pela aquisição do modelo inglês, os norte-americanos, que havia pelo menos cinco anos, vinham relutando em fornecer modelos mais atualizadas, resolveram ceder ao Brasil algumas unidades tipo *Guppy II. Adaptados nos anos 1950 a partir de vasos construídos no final da 2ª GM, esses submarinos eram dotados de snorkel, motorização aperfeiçoada e meios eletrônicos mais modernos. Apesar do preço altamente vantajoso, a chegadas dessas unidades criou uma duplicidade de linhas logísticas que nunca chegou a ser solucionada. Em função disso, a disponibilidade da Força de Submarinos da Marinha, que sempre foi baixa (apesar do reconhecido grau de adestramento e prontidão das tripulações), piorou::

Anúncios

3 pensamentos sobre “Submarinos brasileiros: a eleição de 2010 desde às profundezas da Amazônia Azul::

  1. Vai ser um mês interessante, legal levantar o assunto desde os primórdios, mostrando como a doutrina evoluiu e o que deve definir as escolhas futuras.

  2. Vamos tentar esclarecer as dúvidas e as distorções que esse assunto pode ter. De toda forma, me parece que a questão central é mesmo a eleição do ano q vem. Os jornais estão meio doidos com o fato de q a candidatura Serra parece estar, prematuramente, danco com os burros n’água.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s