Submarinos brasileiros: a eleição de 2010 desce às profundezas da Amazônia Azul::Parte 2


Os leitores que conseguiram chegar até aqui – e leram não só o texto principal, mas também os recursos adicionais – já devem estar um pouco mais familiarizados com o tema. Mais familiarizados do que os “especialistas” da imprensa diária, certamente estão. Agora vamos entrar no ponto, propriamente dito. Divirtam-se!:: 

Parte2Por volta do início dos anos 1980, a Marinha começou a procurar novos submarinos. A retirada prematura dos Oberon ingleses de serviço, e o envelhecimento das unidades de origem norte-americanas tornaram a aquisição de peças de reposição um verdadeiro pesadelo. Foram examinadas propostas da Itália, Suécia, França e Alemanha. Na época, a indústria naval italiana deixara de projetar submarinos; a Suécia colocava grandes dificuldades para exportação de armas (situação que, na atualidade, mudou radicalmente). Restaram a França e a Alemanha. A França tinha a oferecer a classe Agosta, logo descartada em função do preço. A escolha só poderia ser a do modelo alemão IKL209-1400. Só para esclarecer, “IKL” significa Ingenieurkontor Lübeck Prof Gabler Nachf GmbH, escritório de projetos da empresa de construções navais Howaldtswerke Deutsche Werft (HDW), da cidade de Kiel, Alemanha.   Este era praticamente o único disponível para exportação num mercado naturalmente restrito. Em 1984 foi decidido que seriam adquiridas, inicialmente, duas unidades, uma a ser construída nos estaleiros HDW, em Kiel, Alemanha e outra no Rio de Janeiro. Isso porque as negociações com o governo alemão envolviam um fato novo: a exigência da transferência de tecnologia de construção. Não foram muito simples, mas o momento ajudava: a economia européia, e particularmente a alemã, estava mergulhada numa crise sem precedentes, com alto nível de desemprego industrial, o que facilitou as tratativas, tanto técnicas quanto de financiamento. Apesar das dificuldades, em 1985 o governo brasileiro decidiu adquirir mais duas unidades, a serem construídas no Brasil. Engenheiros e operários especializados foram enviados à Alemanha para estágio em empresas envolvidas no processo, enquanto no Brasil eram realizadas obras no AMRJ. A estatal NUCLEP foi considerada capaz de executar o casco interno (ou “casco de pressão”). Essa empresa já havia adquirido tecnologia metalúrgica avançada, em função do Acordo de Cooperação Nuclear Brasil-Alemanha (de 1975), naquele momento em banho-maria devido à situação econômica calamitosa do Brasil (que acabaria influenciando fortemente o cronograma da parte brasileira do projeto). No AMRJ foram fabricados o casco externo, vela, lemes, sistemas de imersão/emersão e outros equipamentos. O processo envolveu a construção de quatro seções separadas, com peças vindas de diversos lugares, e montadas no Rio de Janeiro.

Denominada no Brasil “classe Tupi“, essas *unidades foram comissionados entre 1989 e 1999. Em 1997 foi decidida a construção de uma quinta unidade, um pouco modificada com base na experiência adquirida pela Marinha na operação dos quatro IKLs brasileiros. A parte brasileira do programa foi profundamente afetada por problemas orçamentários, e a última unidade, em particular, teve sua construção totalmente paralisada em pelo menos duas ocasiões.

Ainda hoje se discute o alcance da transferência de tecnologia realizada ao longo do processo. Construir um navio de guerra não é coisa fácil: implica o domínio de diversas tecnologias e diversos campos científicos; por excelência, é o que se chama de “pesquisa aplicada”. Mas é possível começar a partir da construção de navios mercantes – estes, sistemas bem menos complexos. Construir um submarino já é outra coisa: os conhecimentos de engenharia aplicados a um sistema desses são outro mundo. Foi nesse mundo que o Brasil tentou entrar, no acordo com a Alemanha. Entrou? Boa pergunta…

Uma embarcação comum encontra-se entre dois meios: ar e água. Assim, um navio de superfície possuí duas partes, chamadas, respectivamente, “obras mortas” (as que estão sobre a água) e “obras vivas” (as que interagem dinamicamente com o meio líquido). O desempenho geral tem de ser pensado a partir da combinação das duas partes, mas essa hibridez acaba influindo num aspecto crucial para o desempenho geral de qualquer embarcação: a flutuabilidade. Isso não se aplica ao submarino, cuja ação se dará embaixo d`água – bem, pelo menos depois da 2a GM. Até esse conflito, os submarinos eram,de fato, “barcos submersíveis”, ou seja, barcos de superfície que mergulhavam por curtos períodos para atacar (basta olhar uma fotografia para perceber isso). Na teoria, é uma aplicação técnica determinada pelo uso tático do princípio da surpresa (decorem essa parte…). Com o surgimento do snorkel e o aperfeiçoamento, pelos alemães, do “Tipo XXI“, o “barco  submersível” tornou-se um “submarino”, ou seja, uma belonave planejada para combater debaixo d´água por longo período. Em 1945, a travessia feita por um submarino alemão dotado de snorkel, que apareceu de repente na Argentina depois de fazer dois terços do percurso sem subir à superfície surpreendeu as marinhas aliadas de tal maneira que as fez passar a olhar os submarinos com outros olhos.

O “Tipo XXI” levava em consideração o fato de que o desempenho do submarino quando sob a água dependia de fatores que interferiam com as qualidades hidrodinâmicas do conjunto. Isso quer dizer que o desenho do casco externo e a distribuição do lastro (água admitida em espaços existentes entre o casco de pressão e o casco externo, que faz o barco imergir ou emergir) tinham de ser pensados para funcionar debaixo d´água, e não na superfície, como um navio normal. Esse conceito levou à uma total mudança no desenho do casco (que ficou parecendo com um charuto), a eliminação dos elementos de superestrutura (que se reduziu à vela, que não pode ser eliminada, pois é um tipo de carenagem hidrodinâmica para os mastros: periscópios, antenas e suportes de sensores) e o deslocamento da posição dos hélices e dos lemes de direção e de profundidade. Desse modo, a água deslocada pelo movimento do casco se distribuía por igual, provocando menor turbulência e permitindo maior velocidade. Outro fator que tornou os “Tipo XXI” totalmente diferentes dos “barcos submersíveis” foi o aumento exponencial de sua capacidade de acumular energia elétrica para uso sob a água – quer dizer, os elementos de bateria dentro do casco foram multiplicados por três, o que significava que o uso do motor diesel como acionador do dínamo reduziu-se na mesma proporção. Isso quer dizer: reduziu o tempo de uso do snorkel, e assim, a possibilidade de detecção do atacante.

O pós-guerra levou ao aperfeiçoamento da linha Guppy (acrônimo para Greater Underwater Propulsion Power, no qual o y não significa nada…), dos britânicos classe Porpoise (da qual o Oberon é descendente) e dos soviéticos do programa de construção naval de 1950. Todos eram cópias mais-ou-menos descaradas do avô alemãoAinda hoje, o projeto de submarinos tem de levar em consideração todos os fatores descritos acima. 

Desde então esse tipo de navio só tem “obras vivas”. Sua dinâmica é totalmente diversa, sua estabilidade e capacidade de manobra também tem de ser (os tripulantes de uma fragata não tem de se preocupar com “ir para baixo” – ou tem, pois seria o momento de salvar a pele…). Começa pela engenharia metalúrgica, que permitirá a fabricação dos tiversos tipos de metal resistentes à pressão e à corrosão; também o desenho das superfícies de controle (hidroplanos e lemes) e hélices é um problema, pois geram ruído ao funcionar. E um submarino, antes de mais nada, tem de ser silencioso.

Embora a Marinha tenha adquirido capacidade técnica de fazer toda a manutenção (PGM, de “Programa Geral de Manutenção” – alguns especialistas dizem que era a principal demanda dos militares brasileiros), restam dúvidas se domina completamente o processo de projeto. Esse ponto, só eles mesmos podem esclarecer. Mas o fato é que a seção de vante do submarino, onde se localizam importantes equipamentos (inclusive do sistema de armas) veio pronta da Alemanha; certas partes do sistema de imersão/emersão também são “caixas pretas”, assim como todos os equipamentos eletrônicos. Por outro lado, é duvidoso que os alemães tenham aberto certos aspectos do desenho do casco e dos hélices, estes peças cruciais na fabricação dessas belonaves. É sabido que o IPqM (Instituto de Pesquisas da Marinha) desenvolve programas de pesquisa para o desenho de hélices, bem como de diversos equipamentos eletrônicos e sistemas de armas. Os alemães com certeza não iriam ceder toda a tecnologia, pois, no fim do processo, estariam diante de um possível concorrente. 

Oficiais da Marinha, a começar pelo comandante da corporação, se dizem insatisfeitos com o fato de que os equipamentos eletrônicos são revisados apenas por técnicos alemães. Ainda assim, em 2005, a Marinha parecia satisfeita com seus IKL, cujo desempenho era o melhor de toda a história da Força de Submarinos – possivelmente porque, na nova situação, a Marinha dominava totalmente a capacidade de fazer manutenção – inclusive de adquirir peças e fazer modificações. Nessa época, o governo começou a falar em adquirir duas unidades de um modelo mais novo, o IKL 214, versão do IKL 212, adotado pelas marinhas alemã e italiana, e em modernizar as outras cinco. Na época, foi ventilado nos meios especializados que o contrato, no total, mais de 1,3 bilhões de euros.

Entretanto, na época, duas questões já tinham de ser consideradas: a decisão brasileira de construir um submarino nuclear de ataque (SNB, no jargão militar) e a Estratégia de Nacional de Defesa (sacramentada pela Presidência da República em 18 de dezembro de 2008)::

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2 pensamentos sobre “Submarinos brasileiros: a eleição de 2010 desce às profundezas da Amazônia Azul::Parte 2

  1. A coisa vai indo bem, não fosse você o Bitt… Não sei se já está previsto, mas creio que um assunto obrigatório desta série é o “submarino nuclear” que está em construção há décadas! Um amigo meu, engenheiro naval que mora na Alemanha, quase foi parar neste projeto, já fazem bem uns 20 anos! Em que pé está? Há algo construído ou só “blue prints”? E o mini-reator nuclear, um projeto secreto da Marinha, revelado ou descoberto, nem me lembro mais, também nesta época, que fim levou? Um abração!

  2. bitt,

    Uma beleza sua série sobre a questão dos submarinos, mas lembrando que sou leitora amadora e não “especializada” do seu blog, vou tomar a liberdade de transcrever uma reportagem de hoje, na FSP, uma entrevista com um estudioso de questões militares, que você talvez conheça, apenas porque é conteúdo de acesso apenas a assinantes. Ele discute várias questões, algumas colocadas pelo Luiz, acima. O que você teria a dizer sobre isso?

    “Acordo marca expectativa de ser “potência”, diz estudioso
    Acerto para a compra de submarinos é o mais importante desde o fim da Guerra Fria

    João Roberto Martins Filho diz que pacote militar faz parte “do interesse do Brasil de afirmar uma política sem hegemonia americana”

    CLAUDIA ANTUNES
    DA SUCURSAL DO RIO

    O acordo que será assinado amanhã com a França é o mais importante na área militar desde o fim da Guerra Fria e o primeiro entre governos desde o negociado com a Alemanha, há 34 anos, lembra João Roberto Martins Filho, especialista em história e estratégia militares que coordena o Arquivo de Política Militar Ana Lagôa, da UFSCar (Universidade Federal de São Carlos).
    “O acordo marca a retomada da expectativa do Brasil de ser uma potência mundial nas próximas décadas”, diz Martins Filho, que é vice-presidente do Comitê de Pesquisa sobre Forças Armadas e Sociedade da Associação Internacional de Ciência Política. Autor de três livros sobre a ditadura militar, ele prepara o lançamento de “A Marinha Brasileira na Era dos Encouraçados”.

    FOLHA – Historicamente, qual a importância do acordo com a França?
    JOÃO ROBERTO MARTINS FILHO – Só há dois precedentes, o acordo nuclear com a Alemanha, em 1975, e o acordo com os Estados Unidos, de 1952 [e que foi denunciado no governo do general Ernesto Geisel, quando já estava inoperante]. É o primeiro acordo militar entre o governo brasileiro e outro governo no período pós-Guerra Fria.

    FOLHA – No que ele difere do acordo com os EUA dos anos 50?
    MARTINS FILHO – O nível de capacidade tecnológica que o Brasil tinha na época levou o país a aceitar receber material militar já obsoleto. No final dos anos 50, foram entregues navios fabricados na Segunda Guerra.
    O acordo marca a retomada da expectativa do Brasil de ser uma potência mundial nas próximas décadas, o que implica conseguir certa autonomia tecnológica. Isso está sintetizado na possibilidade de construção do submarino nuclear.

    FOLHA – Há implicações para as relações com os EUA, na área militar?
    MARTINS FILHO – Esse acordo é resultado tanto de um interesse da França em ter esse tipo de relação privilegiada com o Brasil, quanto do interesse do Brasil de afirmar uma política sem hegemonia americana. Ele vai contrariar não só interesses estratégicos americanos como interesses das indústrias naval e aeronáutica americanas.

    FOLHA – O acordo corresponde a intenções políticas do atual governo, ou seus fins são compartilhados pelos militares?
    MARTINS FILHO – Vejo uma convergência das visões das Forças e do Ministério da Defesa.

    FOLHA – Segundo seus estudos, a Marinha foi a primeira Força a expressar intenção de maior independência em relação aos EUA. Como?
    MARTINS FILHO – Antes do final da Guerra Fria, nos anos 70, dois almirantes publicaram um texto, confidencial, em que diziam que o Brasil deveria procurar se afastar das amarras da visão hegemônica americana.
    Nessa visão, que previa uma guerra entre as superpotências da época [EUA e União Soviética], sobrava muito pouco papel para o Brasil, que queria começar a pensar em termos de ameaças regionais.

    FOLHA – Do ponto de vista da França, o interesse é realmente estratégico e comercial?
    MARTINS FILHO – A França tem interesse estratégico político e industrial. Há um conjunto de benefícios que ela poderia tirar de uma aliança com o Brasil, que tem economia considerável, para conseguir a boa vontade do país em outras áreas.
    Mas o acordo também lhe causa problemas na União Europeia. Provocou tensões com a Alemanha, que forneceu ao Brasil os submarinos da classe Tikuna e está por trás dos questionamentos feitos agora.

    FOLHA – Por que o senhor diz que seria impossível um acordo igual com os EUA?
    MARTINS FILHO – Nos EUA existem restrições maiores à transferência tecnológica e não haveria a possibilidade de um acordo em nível de governos.

    FOLHA – Por quê?
    MARTINS FILHO – Porque os EUA não têm interesse em fazer um acordo que destaque o Brasil na América do Sul, onde vêm privilegiando a Colômbia, e porque o foco de sua política está no Iraque e no Afeganistão.
    O acordo com a França é tão significativo que [o presidente colombiano Álvaro] Uribe cobrou [explicações de Lula, para se contrapor às críticas ao acordo que permitirá aos EUA o uso de sete bases na Colômbia]. A diferença é que os franceses não disporão de bases aqui.”

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