Submarinos brasileiros::a eleição de 2010 desde às profundezas da Amazônia Azul::Parte 3


Está dando pra começar a ver a diferença entre urubu e galinha preta? Ou, dizendo de outra maneira: o jogo eleitoral de 2010 está lançado. Seja qual for a atitude que o governo federal tomar, a imprensa, atenta aos interesses do eleitor e preocupada com a “alternância de poder”, vai cair em cima. O que o redator aqui espera que fique pelo menos um pouco mais perceptível é que existe uma questão técnica e uma questão estratégica, esta mais ampla e que contém a primeira; o redator também espera que fique pelo menos perceptível que não dá pra avaliar esse tipo de coisa simplesmente pelo preço::Por sinal, as parte 1 e parte2 estão com uma “segunda postagem”, com mais informações (os redatores do “vibrante” precisam ter onde pesquisar…), sugiro que os leitores especializados de causa:: também dêem uma espiada::

Parte3De fato, as duas questões – o plano de construir um SBN e a nova Estratégia de Defesa Nacional – estão relacionadas. A idéia de um “submarino nuclear brasileiro” (SNB, no jargão militar) remonta, segundo alguns especialistas, ao governo Geisel, quando, em decorrência do acordo nuclear Brasil-Alemanha, de 1975, autoridades dos dois países falaram em utilizar a propulsão nuclear em navios mercantes, ou para um navio de pesquisas da Marinha de Guerra. Os especialistas em relações internacionais parecem não saber exatamente quando surge a idéia de um submarino de propulsão nuclear, mas concordam que a discussão do tema começou nessa época. Vale lembrar que essa preocupação está articulada à mesma matriz que levou o Brasil a relutar, durante anos, em assinar o Tratado Sobre a Não-Proliferação de Armas Nucleares, que era visto, durante os governos militares, como ingerência inaceitável nos assuntos internos brasileiros.

Essa questão passava tanto pelo nacionalismo dos militares brasileiros, sempre latente, quanto pela desconfiança com relação aos norte-americanos e pelas idéias um tanto delirantes do “Brasil potência”, dos anos 1970. No fim da década de 1960, o governo militar resolveu uma questão que se arrastava desde a década anterior: o estabelecimento de um programa para desenvolvimento de tecnologia nuclear. O governo Médici, totalmente alinhado com os EUA, assinou, em 1971, a compra de um reator da Westinghouse Electric, a ser instalado na localidade praiana de Angra dos Reis, no Rio de Janeiro. Essa decisão era pautada num tipo de contrato chamado, pelos cientistas, de “pocote-fechado”, e representou a vitória do grupo favorável à associação com os EUA. Entretanto, a crise do petróleo e a subida ao governo dos EUA de Jimmy Carter, somados à expansão do mercado internacional de reatores nucleares, levaram à decisão dos EUA de condicionarem a cooperação à certas exigências que enfureceram o governo brasileiro. Esse conjunto de fatores acabou desembocando no “Acordo Nuclear Brasil-Alemanha”, e no início de pesquisas até hoje não bem esclarecidas para a produção de explosivo nuclear. Essa operação, revelada em 1986, era denominada “Programa Nuclear Paralelo”, e tinha sede no interior da Comissão Nacional de Energia Nuclear.  Em 1990, o então presidente Collor de Mello ordenou a interrupção desse programa e a desmontagem das instalações secretas situadas na Serra do Cachimbo, oeste do Pará.

O programa de pesquisas da Marinha é, pelo menos, mais transparente. Pelo menos desde 1979, em ritmos marcados pela disponibilidade maior ou menor de verbas, diversas agências de pesquisa, sob coordenação do Centro Tecnológico da Marinha/São Paulo, trabalham com o objetivo de desenvolver capacidade técnica para projetar, construir, comissionar, operar e manter reatores do tipo Reator de Água Pressurizada, assim como produzir seu combustível, tecnologias empregadas na propulsão de submarinos. Em português mais claro, visa criar um sistema de propulsão nuclear, um reator miniaturizado que possa ser instalado no ambiente restrito de um casco de submarino.

Até o início da década de 1990, o Programa Nuclear da Marinha recebeu recursos adicionais provenientes de fontes federais, como o CNPq e a FINEP, o que tornou o domínio do ciclo do combustível possível. A partir de então, os recursos extras (que chegaram a alguns bilhões de reais) desapareceram, e o programa passou a ser custeado com recursos apenas do orçamento da Marinha.

Com o fim dos governos militares, e diante dos problemas do governo Sarney, a atitude das autoridades federais em relação ao tema mudou radicalmente.

O programa da Marinha, cuja sede localiza-se em Aramar, localidade próxima de Iperó, interior de São Paulo, está dividido em dois grandes projetos: o “Projeto do Ciclo do Combustível” e o “Projeto do Laboratório de Geração Nucleo-Elétrica” (LAB-GENE). O primeiro projeto foi iniciado no final da década de 1970. Seu objetivo é desenvolver no país tecnologia de enriquecimento de urânio para a fabricação de combustível nuclear. Os primeiros resultados foram obtidos em 1982, quando foi construída uma ultracentrífuga (equipamento que viabiliza o processo) eficaz. Seis anos depois foi instalada a “cascata de ultracentrífugas” para a produção contínua de urânio enriquecido. Essa tecnologia foi desenvolvida pelo programa, e se revelou bem mais eficiente que a oferecida pelos alemães. No momento, a Marinha está construindo ultracentrífugas para que a INB, empresa estatal que abastece Angra I e II de combustível, comece a produzir comercialmente o hexafluoreto de urânio, antes importado da Alemanha. Todas as etapas do ciclo do combustível – reconversão, fabricação de pastilhas, fabricação de elementos combustíveis e a capacidade para projetar o próprio combustível estão dominadas e em operação, faltando apenas a conversão, que depende da inauguração da Usina de Hexafluoreto, esta em fase final de construção.
O Projeto do LAB-GENE, começou bem depois, com o objetivo de desenvolver e construir uma usina nuclear de geração de energia elétrica. Essa instalação servirá de base e de laboratório para qualquer outro projeto de reator nuclear no Brasil. Embora bem mais atrasadas, as obras de montagem dessa instalação estão em andamento.
O desenvolvimento de uma tecnologia desse porte depende de altos investimentos de recursos financeiros e de um fluxo contínuo de formação de especialistas. Em mais de duas décadas, o PNM custou acima de um bilhão de dólares, o que o torna um dos mais baratos do mundo, em termos absolutos e relativos, quando considerados os ganhos não apenas para a Marinha, mas para universidades, institutos de pesquisa e e empresas estatais e privadas. Isso em termos relativos. Em termos absolutos, basta dizer que estudos internacionais calculam que o Paquistão, que possuí um programa um pouco anterior ao nosso, tenha gasto, em cerca de 35 anos, mais de 10 bilhões de dólares, dinheiro em sua maior parte fornecido pelos EUA. Completado o processo, o Brasil estará dentro de um círculo muito fechado: o dos países que dominam todo o processo nuclear, e ainda por cima com uma tecnologia totalmente original.
Como vimos acima, o problema do submarino nuclear de ataque brasileiro (SNB) não é o reator, visto que a infra estrutura montada pela Marinha pode, dependendo do fluxo de recursos financeiros, fabricá-lo em período de tempo muito curto. Resta então considerar a construção de um casco capaz de receber esse sistema. Alguns anos atrás, notícias veiculadas pela imprensa afirmavam que, com a tecnologia adquirida ao longo dos anos 1980 e 1990, junto aos alemães, seria perfeitamente possível adaptar um casco IKL, aumentando o número de seções, de modo a receber um reator nuclear. Ora, não é preciso ser engenheiro naval (alguém que monte miniaturas de plástico sabe disso…) para saber que tal operação até é possível, mas equivale quase a fazer um novo projeto. E o problema brasileiro, agora, é exatamente o tempo::

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9 pensamentos sobre “Submarinos brasileiros::a eleição de 2010 desde às profundezas da Amazônia Azul::Parte 3

  1. Bitt, excelentes textos!

    Uma coisa que sempre chamou minha atenção quando criança, submarinos (além de aviões de caça).
    Creio que a coisa não para por aí, desenhar um belo projeto é relativamente fácil, as ligas utilizadas nos cascos e retentores, a eletrônica, e tudo mais que você falou estou contigo.
    Tenho comigo que, se a coisa tivesse sido feita “numa tacada” de duas décadas sem interrupção, já teríamos submarinos nacionais.

    Uma coisa que você não falou: todo esse pessoal capacitado que se aposentou ou largou os projetos ao longo do tempo, toda essa experiência e material humano perdido é que deixa o Brasil vulnerável.

    É uma pena né?

    • Meus caros 3 leitores (com o Renato, são quatro…), obrigado pelos elogios. Gostaria de saber uma coisa – vcs comprariam – ou baixariam, de graça, um livro sobre o assunto?

  2. Bitt, seus textos são ótimos, como de hábito, mas eu não consegui perceber o “fechamento” do assunto mencionado no início da primeira parte, a validade da aquisição da classe Scorpène, além da base-estaleiro (?) que tem que ser construída por uma determinada empresa brasileira habituée de escândalos de corrupção envolvendo o governo. No finalzinho da terceira parte é mencionado que adaptar o casco IKL para a propulsão nuclear levaria muito tempo. É esse o motivo? Os franceses já teriam um casco apropriado? Bem, não é preciso ser um especialista em desenvolvimento de projetos para concluir que este fator – tempo – deve levar em conta a expectativa de conclusão do projeto do reator da Marinha: se o casco estará disponível em X anos e o reator Y anos (testado e aprovado) e se Y > X, então a presteza na disponibilidade do casco é irrelevante.

    Note bem, eu não estou defendendo os alemães (infelizmente eu não estou levando nada nisso…), dizendo que seu barco é muito melhor do que o francês (eu sou um francófilo descarado!), mas o custo declarado é tão absurdamente maior do que a proposta antiga, mesmo envolvendo transferência de tecnologia (O quanto? Qual?), que a relação custo/benefício deve ser lembrada. Em resumo: vale mesmo a pena? Lamento, mas os seus excelentes artigos não responderam esta questão. De qualquer forma, um abração!

    P.S. Aproveitando o embalo, que tal falar nos aviões da FX2? Pelo visto, o Rafale já levou, apesar do preço – no Brasil, dinheiro não é problema. Você poderia abordar também o que eu modestamente considerava o mais apropriado, mas que saiu antes do final da peleja – o SU-35. Sem querer abusar, é claro…

    • Luiz, o assunto é longo pra caramba. Aí está, como dizíamos na Marinha, o “bizuléu”: o assunto é complexo pra caramba, e esses posts não podem ser mto longos. Semana q vem teremos pelo menos mais dois posts. Por sinal, vc compraria um livro sobre o tema? Ou baixaria da Rede?

  3. Mais uma vez, obrigado por essa verdadeira aula.

    O texto realmente me fez pensar e ter as mesmas dúvidas que o Luiz Candido, não que isso seja um defeito, pelo contrário. O quão imprescindível é o fator tempo nessa questão, por exemplo?

  4. Bitt, esta série sobre submarinos está fantástica, sem contar o quão oportuna em relação ao noticiário.
    Tenho um amigo de infância que passou alguns anos na marinha francesa, vários deles embarcado em submarinos. Tenho uma curiosidade danada sobre suas histórias, já que me contou que passava em torno de 3 meses ininterruptos embaixo do ártico, num submarino nuclear. Pros meus neurônios isso é uma grande maluquice, mas sei por palavras dele que é uma experiência incrível, entendendo por incrível tudo de bom e de ruim que a convivência num recinto fechado, com luz artificial e tudo o que corresponde a estar num submarino significa. Quando conseguir um relato mais detalhado de sua experiência eu conto por aqui.

    Abs,

    Ricardo

    P.S. Suas visitas ao blog muito me honram, viu?

  5. Bitt, eu baixaria e leria de cabo a rabo livro sobre o assunto.

    Notícia de hoje (domingo, 06/setembro/2009:

    “Lula e Sarkozy assinam acordo para construir submarino nuclear brasileiro.

    Parceria prevê transferência de tecnologia e deve ser concluída em 2021.
    Projeto de € 6,6 bilhões faz parte da Estratégia Nacional de Defesa.”

    🙂

    *gostei dessa sacada do Luiz Candido: “no Brasil, dinheiro não é problema”

    🙂

  6. Bitt, se o livro for mesmo bom – e sua recomendação é argumento definitivo – no mínimo, eu o baixaria pela rede. Quanto à complexidade do assunto, eu sempre me lembro que a verdade é cristalina, embora às vezes possa não ser trivial. Mas Inês é morta: segundo a manchete da Folha de ontem, vamos morrer em 22,5 bi só para começar. Mas, pensando bem, se apenas o senado nos custa 2,5 bi por ano, os Scorpène, que alguma utilidade deverão ter, até que não estão caros para este nosso riquíssimo país.

  7. Gostei muito da reportagem, embora acho antes tarde do que nunca. Faz muito tempo esta aquisiçao e esperada pela Marinha do Brasil. O poblema e que somente em 202l que determinada aquisiçao estara concluida. Ai eu pergunto, e ate lá, como ficamos? Sera que somente em 202l é que esperamos haver um algum tipo de poblema com outras naçoes? Espero que Deus olhe por nós …. Marcelo, Laranjal, Mg ,Brasil.

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