Submarinos brasileiros: a eleição de 2010 desde às profundezas da Amazônia Azul::Parte 4


Finalmente, mais um capítulo da “novela dos submarinos”, uma trama cheia de emoção, intriga, suspense, e que certamente baterá o record de duração de ” O direito de nascer” (o redator é um grande fã de novelas…). De qualquer maneira, o último lance foi a assinatura, em 7 de setembro (ou seja, ante-ontem) de um contrato gigantesco com os franceses, que também incluí outra peça polêmica: o caça multifuncional de quinta geração *Rafale. De qualquer forma, trata-se de uma monumental “banana” para nosso eterno caso de amor-ódio, os EUA, que estavam oferecendo um pacote completo de uma aeronave plenamente operacional, o *FA-18 Superhornet com (pelo menos é o que eles diziam…)  tranferência parcial de tecnologia. Mas essa é outra história – o assunto aqui são as profundezas da Amazônia Azul, e não o azul do céu

Antes que o redator esqueça – ao longo da semana, o texto irá sendo enriquecido com novas informações, até que – digamos – encha o saco. O do redator e o de vocês…:: 

parte4Ao longo das últimas três décadas, o submarino convencional parece ter tido um renascimento. Isso se deve à três fatores: desenhos de casco mais eficientes aumentaram o desempenho dessas belonaves sob a água; desenvolvimento de sistemas de armas tais como torpedos extremamente eficazes e mísseis superfície-superfície que podem ser lançados com o navio submerso; os sistemas AIP. A combinação desses três fatores fez surgir unidades de alta performance, que tem conseguido estender as capacidades operacionais da arma submarina.

O desenvolvimento mais espetacular é o sistema AIP. Vários países do mundo investem fortemente nessa tecnologia, que torna um SSK capaz de ficar mergulhado durante vários dias e em condição de operar ofensivamente. Entretanto, parece ser ainda um tanto cedo para avaliar com certeza as reais potencialidades das unidades convencionais dotadas de AIP. O maior problema é, sem dúvida, o alto custo do sistema e a complexidade de sua manutenção e operação. Ainda assim, não é pequeno o número de países que aposta neles: Suécia, Alemanha, França, Coréia, Itália, Paquistão, Austrália, Japão e Rússia já operam com submarinos dotados de AIP.

Os EUA, que desistiram de unidades convencionais durante a Guerra Fria, estão avaliando o sistema. Em maio de 2005 a Suécia concordou em arrendar o KMS Gotland para a Marinha dos EUA pelo período de um ano. O interessante desse acordo é que a Suécia exigiu (e teve a demanda atendida) que a nave, ao longo desse tempo, permanecesse com uma tripulação sueca. Ao que parece, as capacidades da classe *Gotland surpreenderam os norte-americanos. Depois de inúmeros exercícios ao largo da Califórnia, a surpresa culminou com um “acerto” realizado pelo submarino contra o porta-aviões de ataque USS Ronald Reagan. Segundo fontes oficiosas, os norte-americanos admitiram não ter nem equipamento nem doutrina para lidar com essa nova classe de submarinos convencionais (mais informações, em inglês, podem ser encontradas aqui).

Até o momento, Suécia, Alemanha, França e Rússia apresentam-se como potenciais fornecedores desse tipo de unidade. O modelo alemão já está em atividade – de fato, o IKL 214 é uma adaptação do tipo 212, dos quais quatro unidades já se encontram em serviço na Marinha de Guerra da Alemanha (Kriegsmarine). A principal característica dessas belonaves é justamente o sistema AIP desenvolvido pelos alemães, baseado em células de hidrogênio/oxigênio chamadas PEM (Polymer Electrolyte Membrane, “Membrana de Polímero Eletrolítico”), que convertem o hidrogênio e o oxigênio em energia elétrica. Esse tipo propulsão permite que o tipo *IKL 212A alcance, submerso, velocidades de até 20 nós (aproximadamente 36 km/h), permanecendo submerso sem necessidade de utilizar snorkel por até 30 dias (embora esse patamar não tenha sido atingido ainda). O desenho e os materiais usados permitem mergulhos a mais de 300 metros.  O tipo 212A, que começou a ser projetado em meados dos anos 1980, tornou-se, nas marinhas alemã e italiana, uma espécie de vitrine para tal tipo de inovação.

Mas existe questões não muito esclarecidas em torno da eficácia real dessas unidades. O caso não parece ser com o sistema AIP, mas com aparentes problemas de projeto. Em testes, a primeira unidade encomendada pela Grécia, o Papanikolis, se mostrou bastante instável em diversas condições de mar; além do mais, a assinatura térmica do submarino também foi muito maior do que a esperada. Sem que os alemães conseguissem determinar exatamente quais seriam os problemas com o Papanikolis, a Grécia acabou se recusando a receber a unidade (um comentário sobre o destino do navio, em inglês, aqui). Também circularam informações,de que as unidades fabricadas na Coréia do Sul, apresentaram diversos problemas de ruído provocado por cavitação. Dizem os coreanos que os resolveram totalmente, inclusive repassando a tecnologia desenvolvida para os alemães.

Esse não é um debate terminado, e nem pode ser. O desenvolvimento de qualquer produto não termina com seu lançamento. Pelo contrário, ao ser lançado, surgem problemas, provocados exatamente pela utilização em condições não-controladas. Com armamento é exatamente assim – leva muito tempo até que atinja plenas condições operacionais. O problema é que, atualmente, o custo de desenvolvimento de um sistema de armas é simplesmente astronômico, dada a quantidade de tecnologia embarcada. Com exceção dos EUA (e atualmente, bem menos do que antes…) nenhum país tem condições de desenvolver tais sistemas exclusivamente por conta própria. De preferência, essas empreitadas devem incluir parceiros que assumam partes do projeto, ou realizar vendas por antecipação. Em 2006, os suecos, num consórcio com Dinamarca e Noruega, estavam desenvolvendo um novo tipo de submarino AIP, o Viking. Pressionados por problemas econômicos, os parceiros se retiraram do projeto, que acabou inviabilizado. Em 2007, a empresa Kockums, pioneira no desenvolvimento do motor Stirling, ainda estava procurando parceiros para o desenvolvimento de um novo tipo de submarino, denominado A26. Saber-se que essa empresa foi adquirida pela HDW que, por sua vez foi adquirida pela megafabricante de armamento Thyssen-Krupp.

Essa problemática certamente explica a necessidade que tiveram os alemães em colocar em ação os IKL 214, mesmo com problemas mal-resolvidos. E talvez esses mesmos problemas expliquem a insistência alemã em vender seus submarinos pelo mundo afora, inclusive para o Brasil. Só que, como já vimos, os problemas da Marinha com os alemães não são de hoje, e também são um tanto mal-explicados. A questão é se esses submarinos vão realmente funcionar direito num futuro a médio prazo: o preço de manutenção ao longo da vida de um submarino é muito maior que o seu custo de aquisição. Além das questões envolvidas na transferência de tecnologia – segundo a Marinha, não havia disposição para formar engenheiros-, correm boatos de que os alemães tem, nos últimos anos, utilizado subterfúgios para vender sobressalentes por preços superdimensionados.

Dentro de pouco mais de 1 ano, o Brasil terá gasto uns 100 milhões de dólares modernizando a classe “Tupi”, que terá chegado ao auge de sua capacidade operacional, e poderá permanecer em atividade durante pelo menos toda a próxima década sem se tornar obsoleta. Nenhum país do mundo descarta vasos de guerra com menos de 30 anos. Um exame superficial, por exemplo, da Marinha dos EUA mostra que os vasos de guerra de seu inventário permanecem em atividade durante pelo menos 25 anos. Os *destróieres porta-mísseis (missile destroyers ou DDG no jargão naval) da classe Farragut ficaram em serviço por quase trinta anos – lançados em 1957, foram totalmente modernizados em 1975. Já as fragatas tipo 21 (da qual as nossas “Niterói” são uma variação) entraram em serviço na Marinha Real em 1974 e continuam em serviço (as inglesas foram vendidas em bloco ao Paquistão), depois de modernizadas. Atualmente, em função da rapidez com que surgem novos sistemas de controle e detecção e sistemas de armas, tornou-se comum o processo conhecido como MLU (em inglês Mid Life Update). No caso brasileiro, esse processo não é incomum: foi planejado para os submarinos da classe “Humaitá” e, no caso das “Niterói”, foi realizado (ainda que de forma insuficiente) a partir de 1989 sob o nome Projeto MODFRAG.

A modernização dos “classe Tupi”, planejada em 2005, acabou ficando por conta dos norte-americanos e não dos alemães. O motivo, nesse caso, é apenas econômico: a instalação de sistemas eletrônicos Lockheed-Martin/Raytheon e de um novo tipo de torpedo pesado, o MK48 mod 6 AT (de Advanced Technology), que equipa os submarinos nucleares de ataque dos EUA ficou bem em conta, financiada pelo programa Foreign Military Sales. Os “Tupis também irão receber uma versão do sistema MAGE (Medidas de Apoio à Guerra Eletrônica) desenvolvido pelo IPqM, já operacional.

É portanto provável que, se o contrato de transferência de tecnologia da França para o Brasil for cumprido, os submarinos franceses comprados pelo Brasil possam ser desenvolvidos operacionalmente aqui. Isso implicaria até numa possível futura incorporação de módulos AIP nas unidades. No caso das duas unidades compradas pela Armada Chilena e já totalmente operacionais, a transferência de tecnologia é suficiente… para hacer la mantención integral del buque en el país y no enviarlo a España y/o Francia; esto incluye las futuras recorridas integrales, refits, sistemas electrónicos, etc. Ignoro si la transferencia alcanza para realizar en Chile la eventual adición de un sistema AIP, pero eso es algo que no sabremos antes de 2015-2020. Sobre el montaje del sistema AIP, la opción está garantizada por el consorcio fabricante, justamente mediante un proceso de corte de casco y esamblaje del módulo completo. De hecho, el modelo en cuestión estaba en el stand de DCN en la Exponaval 2008 en Valparaíso (un modelo similar también estuvo en la versión previa de 2006).

O caso chileno é bastante interessante, e merece alguma atenção – até pelo fato do Chile ser, reconhecidamente, a maior potência militar da América do Sul, com a marinha de guerra mais bem organizada dentre as latino-americanas (a outra é a brasileira). Ao longo das últimos 30 anos, em termos de submarinos, a história chilena foi muito parecida com a brasileira: foram operadores da classe Oberon e, quando esta foi descontinuada, lançaram mão do tipo 209. Quando resolveram adquirir novas unidades, numa concorrência entre alemães da HDW e franceses da DNS, a oferta  francesa foi melhor. “A Marinha do Chile concluiu finalmente que o modelo ‘Scorpène’  era melhor que o 209-1400 MOD nas seguintes áreas: nível de ruído, quantidade de torpedos, velocidade de recarregamento dos tubos lança-torpedo, profundidade de operação (superior a 350m), além de um custo de aquisição ligeiramente menor.” (Leia a íntegra aqui, rolando até encontar o texto.) Os Scorpènes chilenos já estão em operação, e novamente as informações são totalmente desencontradas: algumas fontes afirmam que as unidades chilenas são excelentes, inclusive no que diz respeito aos sistemas eletrônicos; outras fontes afirmam que os Scorpènes franceses sequer conseguem sair do porto.

Não poderia ser de outra maneira. O jogo é pesado, nesse ramo, e ainda temos, à esta altura, o fator agravante da disputa eleitoral que se avizinha. O modo como a imprensa tem tratado o assunto é revelador do fato de que não estão sendo considerados aspectos estratégicos ou técnicos. De concreto, temos o fato de que o Brasil fechou um contrato enorme com a França, que prevê não apenas a aquisição de submarinos (que serão construídos no Brasil, provavelmente no Arsenal de Marinha), mas também a construção de uma base naval (o que, provavelmente, implica em aquisição de equipamentos de suporte e peças de reposição). Trata-se de um acordo para pelo menos dez anos.  

O ponto mais interessante desse acordo é, sem dúvida, o casco que deverá converter-se no SNAB. Os franceses dispõe dessa tecnologia – encontram-se entre as cinco marinhas que operam esse tipo de belonave. Certamente teremos de esperar algum tempo, mas o futuro dirá no que esse acordo irá resultar. Ainda tem muito chão (no caso, água) pela frente::

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6 pensamentos sobre “Submarinos brasileiros: a eleição de 2010 desde às profundezas da Amazônia Azul::Parte 4

  1. Das críticas que li aos scorpenes chilenos estavam problemas com o equipamento eletrônico e o espaço de beliches, mas não me pareceu nada muito sério.

  2. Bem, se vc clicar em um dos recursos complementares (não lembro qual, no momento…) verá q as críticas são bem mais complicadas. Mas também tem um com opiniões a favor (cortei um trecho) e outro q fala maravilhas. Não é possível saber se é verdade o q dizem. O jogo é pesado, e as empresas pagam profissionais para entrar nos blogs com posições contra e a favor. Por isso q eu acho q precisamos explorar todas as perspectivas, o q torna um texto desses muito complicado.

    • De fato eu fui um tanto simplista, inclusive fiquei de cara em ver a E. Catanhede comentar que a HDW fez um lobby forte na imprensa brasileira contra o acordo francês. Talvez a imprensa anda num momento pouco corporativista.

  3. Bitt,

    Li as quatro partes do texto sobre a aquisição dos submarinos mediante acordo com a França.

    Sua escrita é bastante generosa em detalhes técnicos e percuciente na análise do intrincado jogo de contra-informações que envolve um contrato dessa envergadura.

    Diria mais, meu caro Bitt: o jogo é pesado não somente em decorrência dos valores envolvidos, mas também porque após, terão que lidar com um novo player global e com um muito provável concorrente no fornecimento de materiais para defesa. Fosse uma venda pura e simples de quatro bilhões de euros para um país como Arábia Saudita, por exemplo (quintal dos americanos. pelo menos enquanto os Saud se sustentarem no poder), a grita não seria tão grande. Todos sabem que o Brasil tem um parque industrial e tecnológico capaz de assimilar as tecnologias que serão adquiridas, melhorá-las e oferecê-las mais tarde ao mercado. Precisamos ainda investir muito em qualificação de mão de obra especializada, mas podemos fazer isso.

    Havia sugerido há algum tempo uma análise do decreto que instituiu a END, pois entendo que o mesmo estabelece um divisor de águas na forma como o Estado brasileiro trata da defesa do território.

    Muito bom os textos. Estou lendo tudo que se publica sobre o reaparelhamento da nossa marinha e esses acordos com a França. Até adquiri o livro SUBMARINE, do Thomas (Tom) Clancy, ainda sem versão em português.

  4. Tom Clancy, ótimo em tecnotrillers mas americano demais para confiar. Sempre fiquei pensando como seriam os combates do Red Storm Risign se ele colocasse os Flankers e Fulcrums com as miras no capacete e mísseis devidos.

  5. Nos anos de 2006 e 2077 fiz algumas páginas no Jornal Diário Regional deJuiz de Fora- MG anbordando o sucatemaneto e a falta de vontade governamental em reaparelhar e mesmo levar a frente os `Planos ” pára a modenização das FFAA . O lelo-lero para compra dos novos caças da FAB estão ai para provar esse descaso com os militares brasileiros, a Marinha brasieira infelismente está caindo pelas tabelas o exército não tem munição para uma hora de combate isso sem falar na aleimtação para os efetivos. O pior disso tudo é que um “grupo de notaveis intelectualoides” ficam manifestando a falsa preocupação com as FFAA numna dissimulação sem fim enquanto nossas forças de defesa agonizam pela falta de atenção e respeito de quem deveria dar;
    Tudo isso é muito lamentavel até porque dinheiro tem mujito e só querer fazer, o que realmente falta e vontade politica de colocar em prática aquilo que se propos a fazer

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