Recordar é viver::Anos 70:Deténte, SALT e outros quetais::


Parte 2/2:: Não parece fazer sentido, mas fazia, na conjuntura da época. Significava admitir, por via transversa, a afirmação feita, muitos anos antes, por Winston Churchill, de que “uma nação não tem amigos, tem interesses”, e que a busca desses acaba por criar tensão. Pragmaticamente, as nações poderiam viver em tensão permanente, desde que fossem criados e aperfeiçoados mecanismos para que esse estado de coisas fosse mantido sob controle.

Para definir essa visão política, a tal pessoa de 1968 poderia usar uma expressão criada algum tempo depois pela diplomacia brasileira: “pragmatismo responsável”. A comparação faz todo o sentido. O projeto brasileiro, na época, de “potência emergente”, recusava mecanismos que implicassem na aceitação a priori das estruturas do

poder em nível internacional – embora visasse sua reprodução, tanto quanto possível, no interior do país. Defendia a diplomacia brasileira que o Brasil tivesse reconhecidos seus interesses. Nesse sentido, uma das linhas prioritárias da política exterior foi a “correção de rumos” nas relações com os EUA, visando a colocá-las em bases vistas como “mais realistas”. Os conflitos que fatalmente surgiriam deveriam ser encarados como decorrência do relacionamento entre estados soberanos na defesa de seus interesses nacionais. De fato, esse “pragmatismo” era o mesmo que os arquitetos do sistema de poder internacional admitiam como inerente às relações entre as grandes potências. A política internacional não deveria ser excessivamente pragmática a ponto de deixar-se dirigir pelo cinismo, mas também não deveria ser ditada pelo moralismo, sob pena de tornar-se ineficaz ou mesmo temerária. Por outro lado, reações como a do Brasil, na época sob regime autoritário de extrema direita, freqüentemente aplaudido pelos EUA, indicavam as tensões que poderiam resultar dessa linha pragmática de relações internacionais.

Havia, claro, motivos que podem ser considerados, mais do que pragmáticos, práticos, para que fosse adotada uma política de busca da estabilização. No início dos anos 1970, o panorama econômico já não era tão favorável, para os EUA. O longo ciclo de prosperidade apontava o próprio fim. O horizonte internacional não é feito apenas de silhuetas de tanques, aeronaves e mísseis balísticos. É feito também de fábricas, minas, entrepostos de comércio e casas bancárias. A fase excepcional pós 2ª GM, a “Era do Ouro” da visão anglo-americana começava a perder o brilho. Os 25 anos anteriores a 1970 tinham sido estupendos, até mesmo para a URSS e seus parceiros.

O surto de crescimento econômico parecia mundial – embora não fosse. Durante algum tempo, pareceu até mesmo que, economicamente, os regimes socialistas estariam levando vantagem. Nos anos 1950, a URSS e a Europa Oriental cresciam mais rapidamente do que o Ocidente. Até mesmo o Terceiro Mundo colheu rebarbas desse surto: nos 20 anos entre 1950 e 1970, a fome continuou endêmica na África e em certas partes da Ásia, mas diminuiu; a população do Terceiro Mundo dobrou, e na América Latina, mais do que isso; a expectativa de vida aumentou, em média, 7 anos – em certas regiões, 10 anos ou mais. Entretanto, a “Era do Ouro” foi, sobretudo, enganosa, até mesmo para os observadores mais argutos. Aquela pessoa de que falo, se pertencesse à emergente classe média brasileira, teria chances que seus pais jamais teriam sonhado: acesso amplo è educação, um sistema de saúde pública relativamente estruturado, pleno emprego e subsídios à mancheias. Cidades como São Paulo ou Rio de Janeiro eram, de certa forma, miniaturas em crescimento da economia mundial. Essa pessoa certamente não saberia que os EUA estavam crescendo menos do que seus parceiros europeus e japoneses, e que URSS e seus clientes industrializavam-se rapidamente sem que a industrialização significasse melhorias visíveis de padrão de vida. No mundo socialista, cidadãos bem formados e saudáveis olhavam com inveja para a liberdade e afluência de suas contrapartes ocidentais. Já no Ocidente, os cidadãos dirigiam-se para suas residências subsidiadas, cheias de bens de consumo financiados, em automóveis movidos a combustível excepcionalmente barato. Ouviam rock no rádio e, em casa, se revoltavam diante das notícias sobre as ditaduras latino-americanas e asiáticas, fossem de direita ou de esquerda. Entretanto, nenhum deles duvidava que, dentro de dez anos, a vida seria a mesma. E que, dentro de dez anos, ainda estariam debaixo do guarda-chuva nuclear norte-americano, desfrutando da vantagem adicional de orçamentos de defesa ridiculamente reduzidos em relação ao tamanho que tinham alcançado as economias de seus países.

O fato é que, durante a Guerra Fria, as superpotências assumiram o ônus da defesa de suas esferas de influência. Em ambos os lados, a expansão do chamado “complexo industrial-militar” foi exponencial, mesmo diante do notável crescimento econômico geral. Ainda que os estados ocidentais tenham desviado mais recursos para o buraco estéril dos gastos militares, não o fizeram na proporção de EUA e URSS. No longo prazo, essa opção, decorrência da opção pela estabilidade, seria fatal para a URSS e teria conseqüências notáveis para os EUA: estes trocaram força militar superior por enfraquecimento econômico crescente, frente aos aliados que se viam na obrigação de defender.

Mas não foram esses os motivos que levaram os líderes mundiais a uma improvável mesa de negociações, no início dos anos 1970. De um lado, o dos EUA, foi a condução do problema de como continuar a Guerra Fria quando esta “guerra sem barulho” deixasse, na frente interna, de ser popular – e ela era popular exatamente porque não tinha barulho, nem mortos. Passou a ter no final da década, em função de um conflito localizado, do tipo que deveria ser mantido “empacotado” pela busca da estabilidade. Em 1968, esse brasileiro da classe média que estou imaginando saberia exatamente de que guerra se tratava: o Vietnam.  

No lado soviético, foi o problema de como lidar com o fato de que o bloco comunista, desde meados da década de 1960, já não apresentava a unidade que a “justeza da causa proletária no mundo” deveria solidificar. Ao contrário, as duas potências do bloco socialista tinham deixado de se entender muito antes, em função de diferenças ideológicas e da recusa chinesa em alinhar-se aos interesses soviéticos. Comunistas russos e comunistas chineses andaram, em 1969, se estranhando, ao longo da enorme fronteira entre os dois países. Dois exércitos “vermelhos” foram postos frente a frente, o que até então parecia inimaginável. Mais inimaginável ainda foi o perigo de que a briga por uma ilhota fluvial insignificante degenerasse e um confronto nuclear. Certamente a China não era páreo para a URSS, apesar de dispor de certa quantidade de armas estratégicas. Em 1968, em torno de 300 dos 2000 ICBMs disponíveis pela URSS tinham sido programados para voar em direção à China, e um exército soviético de quase um milhão de efetivos, dispondo de capacidade nuclear tática estava posicionado nas fronteiras sino-soviéticas. Segundo análises da época, o Exército da República Popular da China era mal-treinado, mal-equipado e pior comandado; não dispunha de artilharia e blindados suficientes nem de apoio aéreo, e sua logística era baseada em animais de tração, e, por mais incrível que possa parecer, em braços humanos.

É provável que fosse verdade, e talvez a realidade fosse até pior. Anos antes, o próprio Mao Tsé-tung, o “presidente Mao”, “Grande Timoneiro” da revolução socialista, tinha deslanchado a “grande revolução cultural proletária”, golpe político destinado a compensar a perda de poder observada em função do fracasso do “grande salto para a frente” (eufemismo para a coletivização da agricultura) de 1958-1961. A Revolução Cultural revelou-se uma maluquice tenebrosa, e desorganizou a sociedade chinesa e suas instituições, inclusive o exército. Em 1951, as disciplinadas forças chineses, armadas e treinadas pelos soviéticos desequilibraram a guerra da Coréia, obrigando o Exército e o Corpo de Fuzileiros Navais dos EUA a uma humilhante retirada que quase degenerou em confronto nuclear; em 1968, jovens soldados agitando um livrinho vermelho e disparando para cima suas armas, o “Exército do Povo”, não admitiam a supremacia dos oficiais e impunham “decisões democráticas”. A hierarquia militar, “desvio burguês inaceitável”, foi quase abolida, e os comandantes até o nível de regimento eram escolhidos pela tropa; as grandes unidades e corpos de exército continuavam tendo seus comandantes designados, o que na prática não significava nada, visto que as decisões eram tomadas em “conselhos populares”.

O problema soviético não era, pois, a China, mas o partido que os adversários norte-americanos tomariam, no caso de um confronto entre as duas potências comunistas. Os EUA seriam um aliado desejável, embora a situação da “frente interna” também não era nada fácil. Estavam atolados até o pescoço em uma guerra que deveria ter sido resolvida “em alguns meses, no máximo em um ano”, segundo o general comandante – e, em 1969, isso já fazia mais de 4 anos. Todos os dias a televisão colocava dentro dos lares americanos um vasto cardápio de revolta e contestação, das universidades ao guetos urbanos, dos festivais de rock às Olimpíadas. A juventude ocidental, inclusive – por incrível que pareça, até mesmo a norte-americana – mostrava-se seduzida por líderes como Mao Tsé-tung e Ernesto “Che” Guevara.

Se o problema da URSS não era a China, mas a perspectiva de problemas com os EUA, o da China era estar cercada por dois inimigos poderosos e agressivos – a URSS e a Índia – e um imprevisível – o Japão (nos quais os chineses nunca confiaram).

E, naquela altura, China e EUA tinham alguns pontos em comum. O primeiro deles era a preocupação com a União Soviética, aos olhos de ambos cada vez mais ameaçadora. Em 1968, a rápida mobilização e deslocamento de tropas motorizadas e aerotransportadas contra a Tchecoslováquia lançara uma sombra de preocupação sobre a Europa Ocidental. A invasão fora o primeiro movimento da “doutrina de Brejnev: os países socialistas da Europa (leia-se URSS) teriam direito de intervir em qualquer país que se julgasse no direito de romper o compromisso “democrático” e “político” com o marxismo-leninismo. Em 1967, a União Soviética tinha alcançado a paridade com os EUA, em termos de armas estratégicas. Embora os EUA ainda tivessem alguma vantagem em ogivas múltiplas e mísseis lançados se submarinos, os soviéticos dispunham de mais mísseis, com ogivas de maior poder destrutivo (por exemplo, ogivas termonucleares de 40 megatons, enquanto as dos EUA eram, na maioria, de 2 a 5 megatons).

O Vietnam era outro interesse comum. Aos governantes e ao establishmenth militar norte-americanos aquela se tornaram uma guerra infeliz, na qual aproximadamente 800.000 militares das três corporações lutavam contra fantasmas, ao custo de 40 bilhões de dólares e 12.000 mortos somente em 1968. Nixon queria sair dela, mas não de maneira humilhante. Para os chineses, a “guerra de libertação” do Vietnam e das guerrilhas comunistas já não parecia um ganho político, diante da ameaça soviética. Além do mais, os Guardas Vermelhos tinham, apenas uns dois anos antes, desorganizado o país e obrigado Mao a intervir para deter o caos que se espalhava pelo país.

Assim, EUA e China tinham pontos que os aproximavam, e restaurar a ordem interna era o primeiro deles. Sair do Vietnam, para os norte-americanos significa apaziguar a frente interna; para a China, garantir uma posição favorável diante da URSS.

O caminho estava aberto. Em 1971, Henry Kissinger realizou uma visita secreta a Pequim, na qual ouviu de Chu En-lai que a China faria o que fosse possível para ter Nixon numa visita ao país.

E teria. Cerca de um ano depois. E o mundo não seria mais o mesmo…::

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