Um rapaz (das Forças Especiais) às Terças::Intervenção em Honduras::


AF-1-Skyhawks

Piloto no cockpit de um McDonnell Douglas A4M "Skyhawk" do esquadrão VF1, da Aviação Naval da Marinha Brasileira

O assunto foi sugerido pelo Luís Cândido, um dos seis leitores (contadinhos…) de causa:: A hipótese: a crise em Honduras se agrava; os distúrbios de rua se tornam cada vez mais sérios e o “governo de fato” considera a presença de Manuel Zelaya na embaixada brasileira uma ameaça à seguridad nacional. O “presidente de fato” fala, publicamente, em invadir o prédio da legação brasileira, para prender o albergado, caso nosso governo brasileiro não tome uma posição quanto ao status de Zelaya. Nessa situação, até que ponto as FA brasileiras estariam capacitadas para uma intervenção em Honduras, para garantir a integridade dos membros da legação e dos cidadãos brasileiros?

Embora a hipótese seja um tanto absurda (o Brasil tem tradição de, historicamente, buscar soluções negociadas em contendas com outros países), a pergunta é fácil de responder: uma operação dessas é de realização impossível. Em primeiro lugar porque,  provavelmente, no dia em que os EUA permitirem uma intervenção militar estrangeira em seu perímetro metropolitano de defesa, fará uma manhã fria no inferno. Mas, já que estamos especulando, digamos que o inferno tenha refrescado e eles permitissem… Ainda restaria perguntar o que Hugo Chavéz e seus aliados bolivarianos na América Central pensariam do assunto. Chavéz teria de ser consultado, o que, possivelmente acabaria, de vez, com o sossego de Lula, diante da oposição interna. Além das dificuldades diplomáticas, uma potência militar de terceira classe, como é o caso do Brasil, não tem recursos materiais para montar operação de tal complexidade. Uma intervenção assim ou seria uma operação de Forças Especiais ou uma convencional. Considerados ambos os casos, faltam ao país e às FA os meios necessários. Mas vamos deixar a coisa mais divertida e considerar a loucura maior: uma intervenção convencional. A Marinha de Guerra não tem meios para transportar, de uma vez, uma mini-força expedicionária, (“mini” mesmo…): um batalhão de infantaria mecanizado (cerca de 750 efetivos) do Exército, uma unidade de desembarque dos fuzileiros navais com duas companhias reforçadas (uns 500 efetivos) e as unidades de apoio necessárias (engenharia, manutenção, saúde, etc.). Como comparação, o deslocamento de forças do tipo da Minustah (“Missão das Nações Unidas para a estabilização no Haiti”), com pouco mais de 1200  efetivos (um batalhão do Exército reforçado por uma companhia de Fuzileiros e unidades de engenharia e saúde) foi feito em etapas. No caso de uma operação de guerra (coisa que a Minustah não é concebida para realizar), todo o efetivo teria de ser transportado de uma vez. Seriam pelo menos 2500 homens (isso para uma operação de pequeno porte). Os problemas começariam antes mesmo de que a mini-força de invasão se colocasse a caminho. Honduras é um pequeno país da América Central, mas, ainda assim, é banhado por dois oceanos: o Golfo de Honduras e Mar das Caraíbas (por onde possui fronteira marítima com a Colômbia), ficam no Atlântico, e a costa lá é aberta e pouco recortada; no Pacífico, o golfo de Fonseca implicaria em passar pelas cercanias de El Salvador e Nicarágua (um exame detalhado do mapa de Honduras é possível aqui).  Embora Tegucigalpa seja relativamente próxima da região do golfo de Fonseca (uns 250 quilômetros, por estrada pavimentada), por essa via, a FT brasileira teria de cruzar o Canal do Panamá. A opção mais viável seria o Atlântico. Caso conseguisse chegar até a costa de Honduras sem maiores percalços (o que é duvidoso), a força principal, uma vez em terra, teria de se deslocar até Tegucigalpa, pois, nessa opção, a capital hondurenha fica bem para o interior. Imaginando que seja possível desembarcar em algum ponto entre as cidades de Trujillo (576 quilômetros de Tegucigalpa) e La Ceiba (403 quilômetros), essa força, sendo mecanizada, teria um monte de caminhões  – uns 70, pelo menos, levando em conta que, em combate, um caminhão médio transporta 16 infantes e seu equipamento. Os caminhões seriam para a infantaria de campanha; a força de choque, com efetivo de companhia (120 combatentes) deve ser equipada com veículos blindados “Cascavel” e “Urutu”  em númedo de 30 ou mais unidades.  Também estariam no inventário canhões de campanha rebocados, defesa anti-aéreos e veículos especializados (postos de comando, suprimentos, apoio e manutenção e ambulâncias). Isso daria, por baixo, uns 150 veículos. Deixando de lado as questões “de onde sairia o combustível?” e “os hondurenhos não vão tentar se defender?’ (dados sobre o exército de Honduras aqui, em inglês…), uma força dessas constitui uma coluna com acima de mil metros de extensão, e tem de ser desdobrada (ou seja – 1. nem todo mundo entra em combate; 2. os que entram, não entram todos ao mesmo tempo; 3. os que estão em combate não se deslocam todos ao mesmo tempo nem na mesma direção). Além disso, um contingente teria de ficar na cabeça-de-praia, garantindo a permanência da FT – o que implicaria montar uma pequena base temporária. De mais a mais, Tegucigalpa é uma cidade de um e meio milhão de habitantes, que se espalha por uma área de 100 quilômetros quadrados. Um batalhão reforçado de infantaria motorizado não ocupa uma cidade assim, por menores que sejam as possibilidades que o país tenha de se defender… Agora, vamos ao problema mesmo: Honduras tem a maior força aérea da região, que possui 12 F5E fornecidos pelos EUA no final dos anos 1980 e A37 Dragonfly, aeronaves de contra-insurgência obtidas dos EUA (algumas informações e fotos sobre as FA de Honduras, aqui ou aqui, se você lê inglês). O armamento inclui certa quantidade de mísseis Sidewinder. Não se sabe a disponibilidade do equipamento – que não deve ser grande coisa – mas a principal base fica exatamente na cidade de La Ceiba – a poucos minutos de vôo da hipotética cabeça-de-praia. Mesmo que a FAH tenha seu equipamento em regime de disponbilidade média, e apenas três dúzias de pilotos de combate razoavelmente treinados, constituiria uma dor-de-cabeça para a força agressora, principalmente durante o deslocamento. Os A4 da Marinha (que, por aqui, são chamados AF1 – um ótimo ensaio sobre essa aeronave, aqui) dificilmente poderiam enfrentar os F5E de Honduras – ainda que os pilotos brasileiros sejam reputados como excelentes – visto que não dispõem de outro armamento que não sejam os dois canhões internos de 20 milímetros. Ainda assim, é certo que não conseguiriam se manter em ação a partir de um NAe (“navio-aeródromo”, no jargão da Marinha, ou seja, “porta-aviões”) durante mais de 10 dias. E isso se a FT incluísse um número de navios de apoio que a Marinha Brasileira não dispõe. E, principalmente: uma força militar não opera a partir de navios durante tempo prolongado – precisa de bases em terra. O exemplo citado pelo Luís, da força expedicionária inglesa no Atlântico Sul, constitui uma situação totalmente especial num contexto bastante específico. E essa força foi montada por uma potência (ainda que, como disse ele, secundária), capaz de colocar no mar mais de 40 navios de uma vez. Mesmo assim, não fosse o apoio dos EUA, nem teriam chegado à metade do caminho::

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2 pensamentos sobre “Um rapaz (das Forças Especiais) às Terças::Intervenção em Honduras::

  1. Excelente, Bitt. Confesse: você estava se coçando para escrever algo a respeito, não é? Me parece que o melhor que o Brasil tem a fazer é parar de intervir nos negócios dos outros países – a “luta pela Democracia” só vale a pena quando se ganha mais do que isso – e propor a Honduras a substituição dos seus Dragonflies por um punhado de Super-Tucanos…

    Abusando, mais uma perguntinha: você acha que vale a pena para o Brasil manter um “navio-aeródromo”, principalmente se comprado quando o seu proprietário anterior estava a ponto de sucateá-lo? Me parece que este é um recurso de atuação a longa distância, não de mera defesa, e que para isso uma coleção de bases aeronavais seria mais efetivo e mais barato.

    Abração,

    • Olha, Luís, achei a hipótese tão maluca que resolvi dar atenção ao assunto. Fiz até uma “segunda edição”, com maiores detalhes, ontem de noite. Dê uma espiada… Não sei qto a “intervenção nos negócios alheios” – não concordo com isso, acho q é conversa pra boi dormir, pq todos os países intervêm nos negócios uns dos outros… E o Super-Tucano é mto melhor do q o A37, em todos os sentidos…

      Qto ao São Paulo… Bem… Essa discussão é antiga. Meu pai era oficial da Marinha. Lembro dele, como capitão-de-corveta (em meados dos anos 1970) falando que o Minas não servia para nada. Os oficiais de agora, principalmente os novos (tenentes, capitães-tenentes, capitães de corveta e de fragata, que querem “ser operativos”, dizem que ã Marinha não tem tem doutrina para o uso de um NAe. Acho q concordo. Seria mais adequado investir em umas 40 unidades de patrulha oceânica de médio e grande porte (navios de 500 a 1000 t de deslocamanto e dotados de armamento médio) e em uma força de intervenção formada de umas dez ou doze fragatas, dotadas de sensores e mísseis, e submarinos – uns dez, dos quais um par de submarinos nucleares de ataque. Também dizem q mais interessante seria a MB ser dotada de aviões de patrulha com certa capacidade de laçar mísseis. Acho q os caras devem ter razão, mas sabe-se lá…

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