É um bom dia para pensar::

Como já disse diversas vezes o redator, os assíduos de causa:: gostam muito de pensar, o que faz esta seção a mais visitada deste blogue-recurso de pesquisa. Portanto, em homenagem a nossos intelectualizados leitores, a coluna publica hoje alguns textos tipo “alta complexidade”. Aliás, complexa é a vida – os textos são até bastante simples. Divirtam-se, pois::

[A agricultura foi] a segunda grande revolução coletiva do Homo Sapiens Sapiens. Os primeiros grupamentos humanos estavam condenados a perambular por toda sua existência coletando e caçando para sobreviver. Vidas curtas e de extrema penúria. A agricultura significou a liberação do estado natural que equiparava os seres humanos a quase bichos. A invenção coletiva da agricultura teve múltiplas vantagens além de libertar o homem da escassez nutricional a que coletores e caçadores estavam condenados: tempo liberado para mais contatos humanos e para desenvolver novas experiências. A agricultura permitiu que se formassem ainda comunidades maiores. Mais gente, mais energia criativa colaborativa, mais comunicação, mais ingredientes para outras inovações foram se acumulando até chegarmos a uma nova criação coletiva revolucionária, que nasceu há dez mil anos: as cidades. Ricardo Neves. O novo mundo digital: Você já está nele, página 17-18.

… a ficção e a imaginação popular muitas vezes agem em conjunto para difundir espontâneamente uma idéia, afim de poder fazê-la passar do domínio da fantasia ao da realidade. A antevisão dos escritores de ficção foi reconhecida após os ataques terroristas às torres gêmeas e ao Pentágono, em 11 de setembro de 2001. Depois desse golpe audacioso, o FBI visitou Hollywood para conhecer os possíveis cenários terroristas que os roteiristas já haviam concebido para a nova era da “guerra assimétrica”. P. D. Smith. Os homens do fim do mundo. O verdadeiro Dr. fantástico e o sonho da arma total, p. 98::

Do ponto de vista do desenvolvimento, o abandono do planejamento centralizado foi um avanço mas o abandono do keynesianismo foi um recuo. A sociedade de mercado, em pleno desenvolvimento, entrou em choque coma a massa dos excluídos prlo desemprego ou pela pobreza, mutias vezwes hereditária. Deste entrechoque vem resultando o renascimento da economia solidária na Europa e nas Américas, e também nos demais continentes em alguma medida. A economia solidária incorpora à produção e ao consumo grnade número de excluídos, dando demonstração concreta que constitui alternativa concreta à sociedade de mercado, na qual os despossuídos não têm lugar:: Paul Singer. Desenvolvimento e estratégia::

Um rapaz (das Forças Especiais)às Terças::Forças Especiais do Exército Brasileiro::

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Integrantes do 1 ° Batalhão de Forças Especiais do Exército Brasileiro. Em primeiro plano, um atirador de escol, vestindo “traje Ghillie“, carrega um Fuzil M964 7,62 dotado de mira telescópica OIP Belgio 3X6 (p´ra lá de obsoleta…).  Em segundo plano, elementos de Forças de infiltração portam o modelo-padrão. O FAL é uma boa arma para atiradores de escol (snipers, em inglês), devido à potência do cartucho e ao peso da arma, que a torna bastante estável durante o disparo. Como disse o leitor “Anônimo”, um dos famosos sete (contadinhos…) os “cabôco”  usam o padrão chamado Ragged Leaf Lizard Pattern, disruptivo de três cores: verde-escuro e castanho sobre fundo verde-claro. Apesar do nome (também aparece como Brazilian Army Lizard Pattern, segundo a terminologia adotada pelo International Camouflage Pattern Index), esse padrão foi desenvolvido por aqui mesmo, nos anos 1980, baseado no padrão M63 usado na Africa pelo exército colonial português. É considerado excelente para combate em ambiente tropical. Esses uniformes deixam no leigo incauto (como boa parte dos jornalistas da imprensa diária…) a impressão de desbotados, o que indicaria a indigência em que vivem as FA nacionais. É apenas parcialmente correto, e vale esclarecer que a aparência é proposital. O padrão busca inclusive simular o brilho provocado pelo excesso de luz característico das regiões equatoriais::

Cultura Material militar::A linhagem FAL::Parte 3::O FAL no Brasil

Faz alguns meses, publicamos uma série de posts denominada “A linhagem FAL“. Como tantas outras séries aqui no blogue das boas causas, essa também acabou atropelada por outros assuntos que então pareceram, ao redator um tanto atabalhoado, mais momentosos. Como a próxima semana será pesada, e o redator não terá tanto tempo disponível para divertir seus sete leitores (contadinhos…) quanto gostaria, segue a 3a parte, revista e ampliada. Por sinal, causa:: declara, com satisfação, que contou com a preciosa ajuda do historiador militar Adler Homero Castro e do coronel (QEMA-R1) José Paulo Lopes Lima. A maior parte das informações me foram repassadas por esses dois cientistas, porque faltam, em nosso país, fontes públicas confiáveis sobre a história e dinâmica de nossas Forças Armadas.  Podem agradecer, então, aos dois…::

PARTE3Em 1960, o Exército Brasileiro era uma força relativamente grande. Sua ordem de batalha podia colocar em campo uns 140.000 efetivos, dos quais talvez uns 40.000 pudessem ser considerados – por padrões algo lenientes… – tropas de primeira linha. No final dos anos 1950,  a força terrestre brasileira podia alinhar algo como um corpo blindado – uma divisão blindada e duas de infantaria motorizada, uma divisão convencional de cavalaria (com cavalos, acreditem ou não…) e cinco divisões de infantaria.

Desde a 2a GM, a intensa relação com o exército dos EUA tinha moldado o Exército Brasileiro à imagem do norte-americano.  As doutrinas francesas foram definitivamente abandonadas, e  a instrução era feita, em grande parte, por militares dos EUA, que ensinavam a seus colegas brasileiros as novas práticas desenvolvidas durante a 2a GM e, logo depois, na Guerra da Coréia. Entretanto, certas práticas norte-americanas eram de difícil assimilação em um país pobre e pouco industrializado.  

O armamento com que o Exército Brasileiro contava em seu inventário passou, em conseqüência da 2a GM, por um notável salto tecnológico. Entretanto, em termos de armamento individual o principal item do EB em 1945 era o fuzil de carregamento manual Mauser DWM calibre 7X57 mm, o “Mauser brasileiro“. A aquisição dessa arma se deu em 1908, em números que, segundo alguns especialistas, alcançavam 600.000 unidades  – o que é muito curioso, pois seria quantidade suficiente para dotar cada oficial, graduado e soldado com quatro ou cinco armas, e ainda sobrar um montão… Claro que, em tal volume, essas armas, mesmo depois de obsoletas, equiparam as tropas durante muito tempo. Assim, o jeito era tentar, vez por outra, modernizar o tal “mauser brasileiro” com pequenas modificações físicas. Por exemplo, em 1934, a arma foi encurtada para se equiparar à uma “carabina”, ou seja, uma arma geralmente disponível para as tropas de cavalaria. No jargão do Exército Brasileiro, esse item é denominada “mosquetão”, e tem o comprimento de cerca de 100 centímetros, enquanto o fuzil teria cerca de 120 centímetros.

Mas modernizações cosméticas não fazem milagres, e problema era que o calibre 7X57 mm se tornou obsoleto para uso militar antes da 2a GM. Assim, em diversos momentos, essas armas passaram por adaptações em arsenais nacionais para utilizar cartuchos mais modernos. Quando a FEB chegou à Itália, o armamento que seus efetivos receberam era padronizado com o dos norte-americanos, de modo que a arma distribuída aos pracinhas foi o US Rifle M903, calibre .30-06 (7,62X63 mm) Springfield. Isso teve conseqüências duradouras: depois da guerra, boa parte do armamento de infantaria disponível para o Exército Brasileiro usava calibres norte-americanos. O BAR (Browning Automatic Rifle, uma espécie de metralhadora ligeira usada como apoio da esquadra de infantaria), alguns rifles Springfield e *Garand e a metralhadora ligeira Browning M919, a pistola Colt M911, as submetralhadoras M3 e INA usavam, os primeiros, o calibres 7,62X63 mm e os três últimos, o .45 ACP. Essa munição passou a ser fabricada no país nos anos 1950.

Em função dessa disponibilidade de armamento norte-americano, no final dos anos 1940 houve uma tentativa de tornar o calibre .30-06 padrão das forças militares brasileiras. O resultado foi um mosquetão, baseado no “mauser brasileiro”, distribuído em pequenas quantidades a partir de 1949. Em 1951, nova tentativa geraria uma arma não muito diferente – ambas as experiências foram feitas no Arsenal de Itajubá, Minas Gerais. Mas ainda não era o que o Exército pretendia. Nessa época, já era evidente a tendência mundial para a adoção de armas automáticas e semi-automáticas. O acaso então entrou no jogo – só não se pode dizer se contra ou a favor do Brasil.

Por sinal, o acaso começou a conspirar no segundo semestre de 1945, quando a FEB voltou ao Brasil. Embora a tropa brasileira tenha deixado para trás todo seu equipamento, pôde conservar certa quantidade de canhões alemães e italianos de diversos tipos, várias peças de equipamento de campanha de nossos adversários, os arquivos da FEB e alguns documentos alemães e italianos. O item mais numeroso trazido para o Brasil eram armas portáteis capturadas aos alemães e seus aliados. Não se sabe exatamente quantas vieram, mas calcula-se um número de alguns milhares. Muitos desses itens eram exemplares do que os alemães tinham de mais moderno, inclusive os fuzis automáticos MP42 e StuG44 (que seriam a origem dos fuzis de assalto) e metralhadoras de uso geral MG42 (a “Lurdinha”). Também haviam alguns exemplares das duas versões do Gewehr 43 (Mauser e Walther), uma tentativa frustrada dos alemães em criar um fuzil semelhante ao Garand norte-americano.

As armas alemães foram examinadas pelas áreas técnicas do Exército e, em 1952, o arsenal de Itajubá recebeu ordens de fazer uma cópia do G43(M), o exemplar que, durante a guerra, tinha sido apresentado pelo escritório Mauser, de Berlim. O produto resultante, considerado por todos que o examinaram como extremamente tosco, foi denominado “Mosquetão M954”. Era um G43(M) adaptado para usar o cartucho Springfield.

Não se sabe exatamente porque as autoridades locais resolveram que copiar o G43(M) era uma boa idéia. Alguns pesquisadores especializados (que, no Brasil, são poucos, muito poucos) acreditam que dois fatores tenham se combinado para gerar o equívoco: a existência, em Itajubá, de máquinas-ferramentas de origem alemã, adquiridas em 1934, um, e dois, o fato de que a patente do G43(M) tinha perdido a validade, por ser este uma arma militar – as de armas civis e de polícia continuaram valendo. Outro fato relevante é que, embora faltasse Garand, em função da Guerra da Coréia, outras armas “calibre pontotrinta” foram generosamente distribuídas: o BAR, a metralhadora M1919 e boa quantidade de fuzis M903. Assim, era natural que a tentativa de uma arma indígena visasse o cartucho .30-06 (cuja patente fora cedida ao Exército a preço de banana), e que essa arma tentasse adaptar um Mauser, com o qual os militares brasileiros tinham intimidade de mais de 40 anos.

O terceiro e mais relevante ponto do equívoco: nessa época, as principais autoridades, aqui, acompanhavam o debate sobre o novo calibre de armas de infantaria, que se travava na Europa e nos EUA. A doutrina norte-americana, amplamente repassada aqui, privilegiava a concentração de fogo, de modo que, era esperado, os EUA acabariam mantendo a tradição de um cartucho mais potente. O que os militares brasileiros não sabiam é que o M1 era considerado excelente, mas, por volta de meados dos anos 1950 o insucesso das tentativas em torná-lo totalmente automático apontavam para sua substituição. Na Europa, a tendência era pela adoção do cartucho 7.62X51 NATO, e os europeus insistiam que toda a munição usada em armas de infantaria fosse padronizada. O resultado do debate – que foi uma disputa política – foi a adoção de uma versão do FN-FAL pela Inglaterra e Canadá e do Heckler-Koch G3 pela nova Bundeswehr. Os norte-americanos concordaram, afinal, em adotar o 7.62 NATO, desde que numa arma de desenho local – que foi o M14. Este era um produto excelente, mas que teve vida curta, atropelado pelo encontro, no Vietnam, com os fuzis de assalto AK47.  

Segundo Adler Homero Castro, talvez o maior pesquisador brasileiro no tema “cultura material militar”, o Exército Brasileiro sempre teve o azar de tomar decisões cruciais quando no contrapé. O caso  do calibre Springfield foi uma dessas decisões, e o Exército acabou ultrapassado pelo debate sobre as novas armas de infantaria. Ao que parece, as questões de política interna também contribuíram para engrossar o caldo. No final dos anos 1950, a Marinha, já envolvida na disputa pelo controle da aviação naval, adquiriu, sem consulta prévia às autoridades superiores (se é que havia alguma…), dois lotes de M14 e certa quantidade de munição. As armas deveriam equipar o Corpo de Fuzileiros Navais – que já contava com o Garand em seu inventário. É possível que o Exército, não querendo ter sua própria “disputa fraterna” com a Marinha, tenha sido compelido a decidir, de uma hora para outra, pela aquisição de um “pacote completo” de armamanto individual. A tendência mundial era, então, o 7.62X51 NATO – então esse acabou prevalecendo. A empresa belga FN Herstal, dona da patente, antecipou-se à concorrência e ofereceu a licença para a fabricação local de seu desenho. A contrapartida era o fornecimento do ferramental e o respeito ao projeto do fuzil. À primeira vista, parecia “mamão com açúcar”: uma arma moderna, de graça e sem necessidade de investimento em pesquisa; na prática, a longo prazo as forças armadas brasileiras se viram atreladas às decisões de um fornecedor externo.

Embora não existam ainda provas conclusivas, parece que a decisão belga foi motivada pelo exame, pelos militares brasileiros, do Heckler-Koch G3, fabricado na Alemanha com base no desenho espanhol CETME – era outro 7.62 NATO. Pouco depois (no início dos anos 1970) o HK acabou adquirido pela Aeronáutica, para sua infantaria de guarda. O fato de que, num espaço de uma década, três modelos de armamento tenham sido adquiridos no mínimo indica certa falta de planejamento no que diz respeito à questões de defesa, em nosso país.

Em 1967, a chegada dos novos fuzis automáticos, em números que alcançavam 30.000 exemplares, entre os primeiro (diretamente importado) e segundo (fabricado em Itajubá) lotes já tinha se completado. Foi então tomada uma decisão surpreendente: o Exército resolveu converter uns 10.000 Mauser 7X57 miliímetros em uma arma aparentada com o FAL, só que numa versão de carregamento manual. Essa nova arma, destinada ao treinamento de recrutas, foi denominada “Mosquetão M968 7.62“. O cano foi substitúído por uma versão idêntica à do FAL e a câmara, adaptada para o novo calibre. O conjunto era um pouco mais leve, tinha o cano mais curto e a alavanca de manejo, recurvada. O modelo foi fábricado em Itajubá e distribuído entre as unidades consideradas “de segunda linha”. O “Mosquefal”  empregava munição(inclusive granadas de bocal e munição especial para atiradores de escol), baioneta e material de manutenção de primeiro escalão iguais às do M964 (notação do FAL brasileiro). A arma era destinada ao adestramento básico de fuzileiros da infantaria, e também foi distribuída pelas polícias militares em todo o país.

No Brasil, o FAL gerou toda uma linhagem industrial. A atual IMBEL – empresa de economia mista pertencente ao Ministério da Defesa – fabricou três modelos da arma: o Fuzil Automático Leve (FAL), o Fuzil Automático Pesado (FAP – uma versão dotada de bipé, que só dispara em modo automático) – e a versão “Para-FAL”, com coronha rebatível, e cano encurtado, para emprego de unidades aerotransportadas, de selva e de forças especiais. A produção local começou no início de 1965 e continuou até 1983, subindo a mais de 200.000 unidades deste fuzil. Em 1997 foi apresentada uma versão local, denominada “MD97“, adaptada ao calibre 5.45 NATO. Hoje em dia, calcula-se que, entre todas as versões, as forças armadas e forças policiais brasileiras tenham por volta de 400.000 FAL em seus estoques – o que é uma quantidade surpreendentemente pequena, considerando que essas forças sobem – se computada a reserva de emprego imediato (reservistas com menos de cinco anos de baixa, sexo masculino e idade até 34 anos) – a mais de um milhão de efetivos::

Cultura material militar::”pontotrinta”: o debate no final da aula::

Um dos sete leitores (agora são sete, contadinhos, vejam só…) aqui do blogue, o Luiz Candido resolveu abrir o debate, no final da “aula para redatores da imprensa carioca”. As observações são pertinentes, visto que os sete leitores valem por setecentos, quando o assunto é estratégia. Tomo a liberdade de reproduzir os pontos centrais, embora quem quiser possa ler o texto, na íntegra (que também contém um merecido puxão de orelha no redator) na caixa de comentários.

“O fato é que este crime desorganizado que não possui nenhuma “pontotrinta” que funcione, nem armeiros para torná-las operacionais, nem acesso à munição apropriada etc, vem mantendo o domínio sobre grande parte da cidade e aterrorizando o restante, que, de fato, é uma forma de domínio. Nada mal para gente desqualificada em todos os sentidos.

Quanto ao “banho de política”, este existe há muito. A manutenção deste absurdo status quo não ocorre à revelia dos poderes públicos, mas com sua anuência: é uma forma de exercício de poder que se provou extremamente lucrativa para políticos (executivo e legislativo), juízes, polícias (militar e civil), os grandes traficantes, os distribuidores locais (os traficantes nas favelas), a população das “comunidades” que trabalha diretamente com estes (gerentes das “bocas”, malhadores/embaladores, fogueteiros, vapores, motociclistas/kombistas que levam e trazem fregueses e bagulho, olheiros, a “guarda armada” etc.), a população em geral, que se beneficia com o fluxo de dinheiro oriundo do tráfico e com a proteção para sua expansão territorial, ONGeiros de todo tipo, que alegam levar a “cidadania” para os menos favorecidos etc. etc. etc. A Favela é um excelente negócio para muita gente, não pode acabar.”

O comentário do LC faz todo sentido. Os pontos principais são: (primeiro) o “crime desorganizado”, mesmo desorganizado, consegue manter o controle de vastas áreas e grandes parcelas da população da cidade do Rio de Janeiro (e, diria o redator constrangido, de outras cidades brasileiras); (segundo) o “banho de política” já foi dado, e por isso que a situação chegou onde chegou.

Por concordar é que o redator gostaria de fazer algumas ressalvas. A primeira é que o banho foi de má política, e não de política. O problema de fundo é que os cidadãos há muito deixaram de acreditar nas instituições de Estado – inclusive na polícia e na Justiça – e também nas instituições civis – como a imprensa. Diria que altíssima porcentagem dos cidadãos acredita que TODAS as instituições são corruptas, e quando não são corruptas, são ineficientes; diria que altíssima porcentagem dos cidadãos acredita que soluções de exceção deveriam ser aplicadas, por permitirem o recurso direto de justiça imediata, como a execução sumária de marginais e corruptos. Bem, cabe aqui perguntar se a descrença geral nas instituições não contribuí, se é que não é a origem, da situação de descalabro que vive a cidade do Rio de Janeiro. E, acrescentaria: as situações que são REALMENTE as de descalabro NÃO SÃO aquelas que todos identificamos. Por exemplo: o fôro privilegiado para certas categorias de cidadãos, como juízes, membros do legislativo, portadores de diplomas de nível superior e militares, este sim é um descalabro de fundo (se a categoria não existe, devia ser criada). Esse “descalabro de fundo” permite que determinados cidadãos manipulem as instituições de modo a conseguir vantagens pessoais e – principalmente – se manterem impunes pelo maior tempo possível. São muitos, e muito bem conhecidos, os casos de membros dos legislativos municipal, estadual e federal, que se escondem por trás do “fôro privilegiado” para cometerem crimes (o caso da “família Jerominho”, no Rio de Janeiro, é exemplar).

Poderíamos passar muito tempo defiando esses “descalabros de fundo”, mas não é o caso aqui, e um exemplo é suficiente. O que é evidente é que esses descalabros se incorporam tanto à mentalidade política quanto (o que é pior) à tradição política nacional. Todos concordamos que o Legislativo, em nosso país, deixou de ser “produtor de soluções para os problemas nacionais” para ser O PROBLEMA. Mas não é o Poder Legislativo o problema. O Poder Legislativo brasileiro é filho legítimo de uma formação social altamente hierarquizada e historicamente discriminatória. Por outro lado, essa formação social tem outros filhos legítimos: um deles, menos conhecidos, são as instituições corporativas. É fácil falar mal do Legislativo, mas quem se dipõe a meter o dedo nos privilégios de classes profisisonais, por exemplo? Qual a razão de a OAB exigir privilégios que, no fim são discricionários, para seus filiados? Garantir a ampla defesa, responderia, e com razão, qualquer advogado. Mas garantir “ampla defesa” a criminosos notórios? Lembram o cavalo de batalha feito com a revista a advogados? São muitos os casos em que classes profissionais exigem privilégios discricionários (no limite, chegaríamos ao debate sobre a restrição ao exercício profissional, mas também não é o caso), sob as mais diversas alegações. Isso é política ou má política? E as leis absurdas, inaplicáveis ou feitas para “não pegar” (como, costuma-se a dizer, é de nossa tradição histórica)? E o fato de que encontramos, com freqüência, pessoas de boa formação e boa cultura, que acreditam sinceramente que leis devem fazer exceções (geralmente à elas mesmo)?

Essa última questão é séria, e esta já fica mais próxima do objeto aqui do blogue – questões militares. Afinal de contas, de onde mesmo vem o poder do tráfico de corroer as instituições? Bem ou mal, as boas instituições e as instituições perversas de nossa sociedade são desdobramentos de sua característica de “sociedade de direito”. E “sociedade de direito” corresponde, planamente, ao “estado de direito”, que, por sua vez, baseia-se na ampla abrangência da lei – ou seja, a lei é para todos. Uma pergunta interessante que se resulta daí é: porque certas pessoas acham que tem direito de COMPRAR drogas ilícitas, mas que os traficantes não tem direito de VENDER drogas ilícitas? Existe o mercado de drogas ilícitas porque existe o consumo de drogas ilícitas. Bingo! Onde existem compradores, logo surgem os vendedores. Não é o caso de se dizer que a culpa é do mercado ou do sistema capitalista (sugiro a quem não concordar com essa proposição, que examine a estrutura do mercado de drogas). A culpa é de uma assimetria de direitos. Isso sim, se resolve com política. Começando com um amplo debate em torno da questão da liberação da produção, circulação e consumo de pelo menos parte das chamadas “drogas ilícitas”. E que o debate não comece com as posições moralistas dos formadores de opinião, de que as drogas “fazem mal à saúde” e “destroem a família”. Se esses motivos forem realmente aceitáveis, então as empresas produtoras de bebidas alcoólicas as deveriam ser todas declaradas produtoras de drogas ilícitas e os donos de bares e botequins, traficantes de drogas. Essa seria uma das formas de desarmar o tráfico – cortando-lhe as fontes de poder, ou seja, o dinheiro. Sem dinheiro, sem armas. Sem dinheiro, os grupos armados que conseguem desafiar o poder público e “derrubar helicópteros” seriam reduzidos à sua real dimensão de criminosos pés-rapados.

Uma outra pergunta é – porque as autoridades insistem no confronto? As cenas de histeria das próprias autoridades públicas falam por si mesmas. Como a do secretário de segurança do Rio de Janeiro, em sua incansável busca pelo confronto. Ontem, numa espantosa declaração dada ao “vibrante” (que adora essas coisas), disse que ficaria feliz se a sociedade brasileira considerasse o episódio do helicóptero como “nosso 11 de setembro” (!!!). Realmente assim não dá. Ao invés de reclamar da “desigualdade de armamentos”, ou querer aumentar o contingente policial do estado para 60.000 efetivos, o bom secretário e seu chefe, o governador, deviam lutar por políticas públicas realmente inclusivas. Quem sabe um “PAC das favelas”, ou coisa do gênero. Talvez o chefe do secretário devesse parar de falar nas escolas e unidades de saúde públicas como se fossem problemas a resolver através de sugestões de privatização disfarçada. Por sinal, não seria esse um dos problemas? O Estado tentando, de tudo quanto é jeito, encontrar “no mercado”, formas de se livrar de suas obrigações? Claro, o redator sabe que o mundo mudou, mas sserá que mudou tanto assim a ponto de nós, pagadores de impostos, termos de pagar duas ou três vezes por serviços que deveriam ser cobertos por nossos impostos?

Gostaria de fechar esse debate (ou pelo menos, esta rodada…) lembrando um texto do historiador Tony Judt, que reproduzi meses atrás. Judt compôs uma magnífica “história da Europa desde 1945.” A história é sempre uma “mestra da vida”, como se dizia antigamente, ou, pelo menos, nos ensinava a não repetir burradas. Na respeitosa opinião do redator, o governador Sérgio Cabral deveria ler o curto trecho de Judt que foi veiculado por causa:: Apenas para lembrar… Se, conforme Mrs. [Margaret] Tatcher – “não existe essa coisa de sociedade”, então, com o passar do tempo, as pessoas haveriam de perder o respeito por bens definidos socialmente. E essim ocorreu, pois a Grã-Bretanha no final da Era Tatcher começou a assumir algumas das piores características do modelo norte-americano que a Dama de Ferro tanto admirava. Os serviços que permaneciam ligados ao setor público ficavam à míngua, enquanto a riqueza se acumulava nos setores “emancipados” da economia … Os espaços públicos ficavam ao deus-dará. O índice de delitos e deliqüência cresceu na proporção do aumento da fatia da população relegada à pobreza permanente.

Lembra alguma coisa? Pois é. Pensar tudo isso é pensar politicamente. É o tal “banho de política”, e não de má política. Os pés-rapados dominam os morros porque perdemos todos a capacidade de pensar politicamente. E quando perdemos tal capacidade, no tornamos incapazes de pensar estrategicamente. Nesse sentido, a única opinião razoável foi a do general que afirmou não ser um helicóptero de assalto arma para uso em teatro urbano. “A idéia de combater de helicóptero uma área superpovoada com gente inocente é loucura.“, diz o general. Totalmente correto. O descontrole do secretário e de tal monta que, em certo momento, ela afirma: “Nestas áreas, 99% das pessoas são boas, bons cidadãos. Nós temos que tirar o controle da mão dos bandidos e começar nosso trabalho novo…” E pretende fazer isso usando um helicóptero Bell 202 blindado e equipado com metralhadoras… Lamento dizer, mas enquanto prevalecerem políticas assim “inclusivas”, o tráfico e suas “pontotrinta” sem munição continuarão no comando das favelas do Rio de Janeiro. E o redator, perdendo tempo para explicar que urubu não é galinha preta::

Cultura material militar::”pontotrinta”: uma aula para redatores da imprensa carioca

SINCERAMENTE? O redator preferia voltar a falar de submarinos alemães e brasileiros. Mas como o “vibrante matutino” O Globo continua se dando ao direito de publicar asneiras como se fossem verdades absolutas e incontestáveis sobre o “crime organizado” carioca e seu “armamento que a polícia não tem”, causa::, querendo ou não, se sente na obrigação de contribuir para a cultura metralhadorística dos redatores especializados da imprensa nacional. Que perdoem este insignificante amador os insignes Roberto Godoy e Ricardo Bonalume Neto, jornalistas especializados (mesmo): vocês deviam pedir espaço nos manuais de redação dos jornalões em que trabalham…

E já que dez entre dez redatores especializados da imprensa diária parecem ter certa fixação obsessiva por “metralhadoras capazes de derrubar um helicóptero” e por “armas pontotrinta” (seja lá o que isto for…), vamos então introduzir o assunto::

Façamos de conta que estamos dando uma aula para um monte de entusiasmados pós-adolescentes diplomados em comunicação social. Todos estagiários nas editorias de cidade e polícia do “vibrante matutino”. Os meninos (e – melhor ainda – meninas) fazem perguntas que expressam suas angústias e aspirações e o redator de causa::, que nunca trabalhou em jornal algum (imaginem o conflito que isso produzirá na cabeça dos jovenzitos – existe vida inteligente fora da redação…), tenta responder. Bem, já surge (na imaginação delirante do redator) um bracinho levantado…

– Seu causa::, (certo, certo – o redator está plagiando descaradamente vocês sabem quem…) metralhadora “pontotrinta” derruba helicóptero?

– Meu filho, não existe uma coisa chamada “metralhadora pontotrinta”. Existe uma arma chamada “metralhadora”, inventada aos poucos, ao longo do século 19. Trata-se,a grosso modo, de uma arma capaz de disparar salvas em seqüência, uma vez que o atirador acione o sistema, ou seja, aperte o gatilho.

– Mas toda metralhadora não é “ponto trinta”? Não tem a “ponto trinta” 7.92, a “ponto trinta” 7.62, a “ponto trinta” 5.56? Eu escrevi isso e meu editor não disse nada…

– Bem, meu filho, seu editor deve ser ainda mais imbecil que você (cara de choro). “Pontotrinta” é a notação norte-americana, pois eles não usam o sistema métrico, como nós. Se você fizer uma conta simples, verá que 0.3 polegadas dá exatos 7,62 dos nossos milímetros. Isso corresponde à largura da base do projétil, onde ele se encaixa no estojo. No caso, “ponto trinta” equivale à notação .30-06, também chamada “munição Springfield”, sendo que o “zero-seis” equivale a 1906, ano em que essa munição foi distribuída. Ela se tornou base para diversas armas usadas ao longo dos 50 anos seguintes, pelas forças armadas dos EUA. Por sinal, “Springfield” não é a cidade onde mora Homer Simpson, mas um enorme arsenal (fábrica de armas) pertencente ao governo dos EUA, que ficava na cidade de Springfield, Massachusetts, até ser fechado em 1968.

Outro bracinho se levanta.

– Mas seu causa::, então todas as armas dos traficantes são “ponto trinta”? Tem AR-15 “pontotrinta” e SIG-Sauer “pontotrinta”?

– Não, filhinha (digamos que a pergunta tenha sido feita por uma linda aluna da PUC-RJ – o redator já está para bode-velho…). AR-15 e Sig-Sauer são fuzis de assalto, armas de infantaria modernas, fabricadas nos EUA e na Suiça, respectivamente, ambas (como a maioria das armas de infantaria, hoje em dia), usando munição 5,56X45 milímetros.

– Ihhhh… Quanto número…

– É o seguinte, filhinha. Toda munição, de modo geral, se divide em projétil, estojo, carga (que algumas pessoas chamam de “propelente”) e espoleta. Quando falamos em 5.56X45 milímetros, estamos falando sobre o diâmetro do projétil e o comprimento do estojo. Quer dizer, o estojo tem 45 milímetros de comprimento.

– Tão pequeininho assim? (ahhh, essas meninas criadas com kit-kat e ursinhos carinhosos…)

– Pois é, criança, mas o problema é que um projétil – que a maioria das pessoas chama de “bala” – é disparado em alta velocidade pela explosão de uma carga de pólvora, que gera certa quantidade de gás. Quando se expande em altíssima velocidade, o gás gera grande pressão e esta imprime velocidade ao projétil. É mais-ou-menos o mesmo que atirar uma pedra com um estilingue, só que a “pedra” tem um formato aerodinâmico, alcançando velocidade muitas vezes maior que a do som (uma bala de fuzil geralmente deixa o cano da arma percorrendo 800 metros por segundo, ou seja, quase três vezes a velocidade do som). No momento em que encontra um obstáculo, se este for muito duro, pode interromper a trajetória; se não for assim tão duro (como um peito humano ou um barraco de favela…), entra nele.

– Então os traficantes não usam “pontotrinta”?

– Eu acho muito difícil. Não é que não possam arrumar armas e munição desse calibre, pois a munição .30-06 ainda é amplamente usada nos EUA, em algumas unidades da Guarda Nacional, e principalmente para caça e tiro esportivo. Mas seria muito difícil conseguir em grande quantidade, pois não é mais usada como munição de guerra desde a época do Vietnam. Seria preciso arrumar munição de países subdesenvolvidos que ainda usam essas armas, mas mesmo assim é complicado. Estoques existiram em grande quantidade, no mercado norte-americano, até os anos 1960. Podia-se, então, encontrar facilmente até mesmo munição especializada, como traçantes e perfurantes de blindagem. Hoje em dia, lojas especializadas ainda têm estoques, mas grande parte dela estará inutilizada, caso tiver permanecido guardada durante muito tempo. A graxa de proteção é muito corrosiva e deve ser muito bem limpa dos cartuchos. Agora, vem cá – você acredita mesmo que favelados semi-analfabetos tomariam todo esse cuidado?

Um rostinho brilhante de indignação interrompe o redator para pedir a palavra.

-Isso é preconceito! Você está dizendo que favelados não poderiam aprender a usar armas?

(O redator, sentindo grande simpatia pelos professores universitários cariocas, suspira profundamente…) – Não, meu filho, não estou. O que estou querendo dizer é que alguém sem treinamento não sabe o que fazer, nesses casos. Ainda que o sujeito tenha passado por algumas das formações de elite de nosso Exército, ele teria de ser armeiro para tomar certas providências de manutenção, além de acesso à uma oficina especializada, o que não é muito fácil. A gente lê que a polícia, de vez em quando, prende armeiros trabalhando para o “crime organizado”. É o que vocês dizem. Mas quando alguém que conheça o assunto examina a notícia, nota que de fato, são pára-quedistas ou fuzileiros que sabem desmontar, limpar e remontar uma arma. Por exemplo, segundo essa notícia aqui (com certo prazer, o redator agita um recorte de O Dia), um ex-fuzileiro foi preso com 235 cargas de 7 milímetros e 15 cargas de 7.62 NATO, além de três revólveres… Se isso é um arsenal, então galinha preta é urubu…

– E não é??? (a expressão de espanto da bela estagiária da ECO-UFRJ é comovente)

– Não, criança, não é. Munição 7X57 milímetros foi usada pelas forças armadas brasileiras e por algumas polícias militares até os anos 1960, se tanto. A última vez que se fabricou, aqui no Brasil, esse tipo, foi em 1964, e ainda assim em pequena quantidade. O que nos faz voltar à tal ZB, uma venerável peça histórica da qual o coleguinha de vocês, de nome Sérgio Ramalho, tem feito um cavalo de batalha. A Lehky Kulomet existiu em dois calibres: o 7.92X57, munição Mauser tipo IS, que também era usada pela Tchecoslováquia antes da 2a GM. Que eu (e qualquer um) saiba, essa arma foi importada em 1927, em pequenas quantidades, na versão 7X57, “Mauser espanhol”. Bem, existe uma loja em Portugal onde o sujeito poderá comprar munição 7 milímetros de caça. Vocês até podem fazer uma vaquinha e comprar algumas cargas, pela Internet. De outro modo, o sujeito, para derrubar um helicóptero com uma coisa dessas terá que jogar tudo na cabeça do piloto. Até as pedras sabem que essa arma nunca existiu na versão “pontotrinta” de que vocês tanto gostam…

– Mas o tráfico está cheio de metralhadoras que podem derrubar qualquer helicóptero da polícia. O Serginho pesquisou…

– Mas claro que ele pesquisou – e não se deu ao trabalho de verificar a pesquisa, provavelmente por achar que policiais das delegacias especializadas, por usarem uma arma na cintura entendem do assunto. E uma coisa não tem nada com a outra. Como foi dito, o surgimento da munição Springfield (causa:: já abordou o assunto) deu origem a diversas armas. Uma delas foi a metralhadora Browning M1917, uma arma alimentada a cinta (a munição é arrumada para uso em fitas de tecido) e refrigerada à água, cujo conceito tinha sido estabelecido no final do século 19 por John Moses Browning, um dos maiores inventores dos EUA em todos os tempos. A M1917 foi adotada, como diz a notação, em 1917, como metralhadora pesada padrão do exército dos EUA. O maior problema da M1917 era o peso: a coisa toda (arma completa, tripé, carda de água refrigerante e um cofre de munição preparada com 250 salvas) pesava cerca de 50 quilos. Sua instalação em veículos e particularmente em aeronaves mostrou-se muito problemática e, por esse motivo, o exército resolveu buscar um outro modelo, mais leve e compacto. Assim surgiu a M1919, refrigerada a ar. Essa arma passou a ser produzida em série a partir de 1934, em diversas versões, para uso em tanques, aeronaves e como arma de apoio de fogo, apoiada em um pequeno tripé. O conjunto, sem munição, pesa pouco mais de 14 quilos. Na 2a GM, essa arma foi produzida em quantidades enormes.

– Mas como essas armas vieram parar aqui no Brasil? Foram contrabandeadas pelo Fernandinho Beira-Mar, como meu editor explicou? (outro suspiro desalentado do redator)

– Parte dessas quantidades acabou vindo parar no Brasil como armamento distribuído para a FEB, que era organizada e equipada como um divisão de infantaria regular do exército dos EUA. A partir dos acordos de defesa mútua, do final dos anos 1940, quando os EUA assumiram o treinamento do exército nacional, mais armas do tipo vieram para cá. Talvez o Exército tivesse em estoque, no fim dos anos 1970, quando foi retirada de serviço, umas 20.000 delas. Mas nessa época, já era muito ultrapassada. A munição ainda é fabricada, mediante encomenda, para exportação, pela Companhia Brasileira de Cartuchos. Mas não existe em estoque, no Exército Brasileiro.

– Então, seu causa:: o senhor está dizendo que o helicóptero caiu sozinho?

– Não. Estou dizendo que essa hipótese é a menos plausível de todas, porque não bastaria ter a arma, mas diversas providências teriam de ser tomadas, e duvido que o “crime organizado carioca” tenha organização suficiente para tomá-las. Não sei se vocês entenderam o fato de que, numa arma dessas, a munição tem de ser preparada, ou seja, arrumada em cintas especiais de algodão, isso se o sujeito dispuser de cargas suficientes. Ainda que dispusesse dessa munição, as forças armadas não as manteriam preparadas. Outro ponto curioso é que uma arma dessas, para disparar, precisa de um reparo especial, pois ela não pode ser operada diretamente das mãos do atirador. Poderiam gastar algumas horas desfiando detalhes técnicos, mas é perda de tempo: vocês não querem entender essas coisas (um falatório desencontrado surge das jovens boquinhas, em protesto).

– Nós queremos informar o público! Queremos a verdade!

– Acredito, mas então, tratem de pôr as coisas nos lugares certos. A questão da violência no Rio de Janeiro não será resolvida simplesmente equipando-se a polícia com armamento pesado, como metralhadoras de esquadra. Isso só provocará mais mortes. Vocês querem ver uma coisa? O jornal em que trabalham – e todos os outros – tentam passar a idéia de que existe uma guerra em curso. Não existe. Existe uma forma de abordar o problema totalmente equivocada, para começar, que é a militarização da questão. Aí o debate fica reduzido a quem tem mais armas. E nem dar as informações corretas vocês dão. (o redator levanta a mão, autoritariamente, quando começa, de novo, o falatório) E não adianta reclamar. Adianta pesquisar melhor; adianta não colocar o tráfico, um grupo totalmente desorganizado, como capaz de confrontar as autoridades. Não é. Querem ver um detalhe sobre o qual se deveria chamar atenção? O “escore de mortos”. O helicóptero chama atenção, mas no chão, as forças especiais da polícia mataram dez criminosos. Considerando que fossem todos, de fato, criminosos (no caso, é possível que fossem mesmo), isso significa que os caras não tiveram capacidade de se defender. Para um leigo, a impressão é que os policiais sobem o morro de forma atabalhoada, mas quem sabe olhar o material que vocês publicam vê que são forças muito bem treinadas para combate urbano. É preciso derrotar quem pega uma arma e desafia o Estado? É – com toda certeza. É preciso usar tropas de combate? É. Mas também é preciso ocupar o território, pois não estamos falando de território estrangeiro, mas de território nacional. Existe uma política de combate à violência? Parece que não, e aí reside o verdadeiro problema. Foi uma maluquice enviar um helicoptero de salvamento marítimo para uma missão voando em baixo nível (iam resgatar um policial que tinha ficado isolado), mas isso já foi feito diversas outras vezes. No chão, um cara com um fuzil de assalto provavelmente deu alguns tiros para cima e conseguiu aquilo que os norte-americanos chamam “the golden BB shot“. Nesse caso, foi azar dos PMs, mesmo. Adquirir uma aeronave blindada não vai resolver nada. Querem ver a questão por outro ângulo? Então leiam o que o colega de vocês, jornalista Elio Gaspari, escreveu ontem. Ou leiam o que o juiz Maierovith publicou ante-ontem; ou esse simplíssimo texto de Michel Misse, que já circula na rede tem tempo. Querem saber? A solução é, na verdade, muito simples. É como dizia aquela música: “polícia para quem precisa de polícia”. É preciso dar uma lavada nas favelas. Um banho. Um banho, mas não de polícia – de política::

É um bom dia para pensar::

É, talvez seja um bom dia para pensar sobre os incidentes da semana passada::

O medo faz parte da profissão. Se eu não tiver, posso morrer. Mas tem de ser controlado. O medo descontrolado faz você morrer também.

Cabo PM Daniel da Cruz, ao jornal O Globo, em 19 de outubro de 2009

Um menino novo, que entrou par a polícia almejando uma carreira bonita e que acaba assim, por descaso do governo. Existe verba para Olimpíadas, Copa. Agora, para equipar a polícia, dar vida digna aos que estão trabalhando para a segurança do povo, não. Eles dão helicóptero sem ser blindado e mandam o policial dar a cara para morrer. Até quando? A marginalidade está se sobrepondo.

Rosa Maria Barbosa, tia do soldado PM Edney Canazaro de Oliveira, morto na queda do helicóptero Fênix 3, do GAM/PMRJ 19 de outubro de 2009

Porque a polícia vem aqui? Não sei. Tem vez que a gente tá ali no larguinho, e eles aparecem. Tem vez que eles só dão uma volta e olham feio, mas tem vez que começam a atirar. E ainda dizem pra gente não correr, porque se correr é pior, porque só corre quem deve.

Evaldo M. S., morador do Morro do Juramento, no Rio de Janeiro, 2 de fevereiro de 2008

 

A população do Terceiro Mundo está se tornando a maior população urbana da história: no ano 2000 a população total dos países em desenvolvimento será quase o dobro da dos países industrializados, uma estimativa que será quatro vezes maior pelo ano 2025. Um grande número de pessoas migra da zona rural para os centros urbanos  em busca de uma melhor qualidade de vida  para encontrar piores condições. Incapazes financeiramente de sustentarem moradias urbanas, esses migrantes habitam favelas ou cidades de palha erguidas nos arredores  dos grandes centros, criando solo fértil para crises, conflitos, terrorismo, revolta e outras formas de violência política. Contribuindo também para a violência está a proliferação irrestrita de armas leves nos países em desenvolvimento. De acordo com os analistas Jennifer Taw e Bruce Hoffman, os futuros campos de morte dos países em desenvolvimento não serão as florestas impenetráveis em áreas montanhosas remotas, onde tradicionalmente as guerras de guerrilha têm ocorrido, mas em áreas edificadas super-povoadas, no interior ou em torno de centros urbanos, cujos moradores se tornam um inextrincável emaranhado no conflito rebeldes-governo.

Henry H. Shelton, general do Exército dos EUA – Forças de Operações Especiais – visão futura.

O redator insiste: só parece guerra, mas não é – é incúria geral, mesmo::

PARA gáudio da imprensa diária carioca e brasileira, o “crime organizado” dos morros da Cidade Maravilhosa conseguiu, afinal “derrubar um helicópetero”. Um AS350B2 do Grupo Aéreo e Marítmo da Polícia Militar do Rio de Janeiro foi abatido no sábado com um tiro, provavelmente de arma automática. De lamentável, principalmente a morte de dois policiais militares. A comemorar, o sangue-frio, espírito de sacrifício e (last but not least – ou sera o contrário?..) treinamento de primeira, demonstrados pelo piloto, que conseguiu evitar uma tragédia ainda maior, que seria a queda da aeronave sobre as pobres moradias dos trabalhadores, estudantes e donas-de-casa que nada tem com a história.

Até o momento, nenhum resultado pericial indicou o que realmente aconteceu. A aposta aqui do redator é que um projetil 7.62X51 mm NATO perfurou o tanque de combustível ou algum ponto sensível da turbina (o modelo 350B2 tem apenas uma). A primeira hipótese é a mais provável, em função do rápido incêndio que que tomou a aeronave logo após o pouso. De qualquer maneira, perícia de acidentes aéreos é coisa para peritos, e, sobre isso o redator não irá palpitar.

Mas de tiro, causa:: entende. Foi um tiro ao acaso? Quase com certeza – nisso o redator não apenas palpita, como aposta. Dificilmente o “crime organizado” teria em seu poder armas anti-aéreas (os motivos já foram explicados aqui no blogue mesmo). As armas do tráfico têm de ser relativamente fáceis de transportar e esconder. Esse é apenas um dos motivos. Querem outro? Todos quanto tiverem prestado serviço militar ou, pelo menos, estado perto de um fuzil-metralhador, sabem que usar um negócio desses é uma pedreira. Uma arma assim não é feita para disparar salvas singelas, mas apenas rajadas, o que a torna difícil de manter estável. Tomemos como exemplo uma das armas citadas pela reportagem do “vibrante matutino” carioca “O Globo”, a FN Herstal “MINIMI” 5.56X45 mm (arma do padrão NATO , usada também pelos EUA): pesa 7,5 quilos sem a munição, tem quase 80 centímetros de comprimento é feita, principalmente, para disparo parado, com o atirador deitado e o conjunto apoiado num bipé. Não é sem razão: sua função, como a de todo fuzil-metralhador, é dar apoio de fogo à esquadra de infantaria, nas mãos de um atirador especializado, geralmente mais “parrudo” que o resto da tropa (no Exército dos EUA, por algum motivo, esses caras são chamados de “Pig“). Só que a “MINIMI” não é uma arma contra aeronaves. O cartucho 5.56 NATO é muito pouco potente para lidar contra coisas minimamente protegidas – aeronaves ou veículos militares de blindagem leve (como, por exemplo, um Urutu ou um MOWAG). As armas anti-aéreas leves continuam operando munição 7,62 NATO.

O Exército Brasileiro não opera, até o momento, qualquer versão da “MINIMI“. Os Fuzileiros Navais adotaram, já fazem pelo menos dez anos, o calibre 5.56X45 NATO, e tem o M16A2 mod. 705 como arma-padrão e  a *M249 como fuzil de apoio de fogo do Grupo de Combate FN. Mais acessível a “usuários” do tipo que temos em mente seria a *MAG M1971. Trata-se de uma metralhadora leve de uso geral, calibre 7,62X51 mm. Num tripé, ou dotada de um bipé e operada por um atirador relativamente treinado (e muito forte…), essa arma, de mais de 11 quilos e aproximadamente 125 centímetros de comprimento, com cadência de fogo de até 1000 salvas por minuto. Essa é extremamente letal, num ambiente restrito. Aí sim, é perfeitamente possível derrubar uma aeronave. Só que o redator continua apostando que os “irregulares” que as forças especiais da PMERJ costuma a enfrentar, nessas ocasiões, não teriam cacife para organizar a estrutura necessária para defesa de ponto contra aeronaves. Se tivessem uma tal infra, poderiam perfeitamente botar o BOPE para correr. E não põem – pelo contrário, a lista de baixas foi de 10X0. Placar que, por sí, dá a quem entenda um pouco do assunto, diversas informações.

Mas, como em agosto (e sempre…), novamente os redatores “especializados” continuam entendendo profundamente do assunto. Além da “MINIMI”, outra arma citada, por exemplo, é uma metralhadora “.30” “calibre 7.92X57” “fabricada na antigo República da Tchecoslováquia”, “com capacidade de tiro capaz de derrubar um helicóptero”. Pela madrugada! Certamente entre os seis leitores (contadinhos…) de causa:: não consta nenhum redator do “vibrante”. Vejamos:  a Lehky Kulomet ZB (de zbrojovka, “empresa“) vz 26 (modelo 1926) é uma metralhadora leve que se tornou um dos desenhos mais bem sucedidos do período entreguerras. Só que o calibre 7.92X57 nada tem com o “ponto trinta”: um é o antigo Mauser da Wehrmacht, o “IS” (Infanterie, Spitz), que, até onde se saiba, poderá ser conseguido em museus ou em fábricas de material bélico para colecionadores e re-enacters (que não deve ser a diversão preferida dos traficantes cariocas). Já o “ponto trinta”, o “.30-06” Springfield, no jargão do exército dos EUA, ou 7.62X63 mm, foi o calibre utilizado em armas de infantaria dos EUA a partir de 1906 até os anos 1950. Ainda existe e é fácil de conseguir, pois grande quantidade de armas militares usa essa munição, inclusive as mal-fadadas “metralhadoras .30”, de que tanto falam os redatores do “vibrante”. O curioso é que essas armas poderiam estar mesmo nas mãos do tráfico carioca. O redator chato encontrou na Grande Rede uma lista de armamentos desativados e preparados para destruição, pelo Exército. Lá estão relacionadas pelo menos 100 CZs convertidas para o calibre 7 mm (o calibre do Exército até  a conversão para o padrão norte-americano, no início dos anos 1940). Também estão relacionadas nessa lista mais de mil (é isso aí – um milhar) *metralhadoras Browning dos modelos 1919A4 e M1919A6 (este último, uma preciosidade). Seria perfeitamente possível disparar uma arma dessas contra um helicóptero ou pequeno avião,  e destruí-lo. Ainda assim, o redator continua duvidando dessa possibilidade, pelos mesmíssimos motivos.

Pois então, a posição de causa:: continua a mesma de agosto – o problema não será resolvido pela pura e simples militarização da questão, e nem com o sacrifício disfarçado do estado de direito tão duramente conquistado, de modo a criar dois países – o nosso e o deles. O “vibrante”, hoje (19 de outubro), faz uma cobertura que procura analisar apenas o confronto – como se uma briga de bandidos pés-rapados fosse a invasão israelense contra a Faixa de Gaza (e certamente ninguém será, no caso, levado ao Tribunal Penal Internacional): quem dispõe de que tipo de armamento.Questões mais sérias, citadas apenas tangencialmente pela reportagem, não são sequer propostas para debate por quem as levantou. A mais séria dessas é a que coloca a possibilidade da ação de invasão de uma comunidade favelada bem no coração da cidade do Rio de Janeiro ter sido planejada dentro de várias penitenciárias federais de segurança máxima. Neste ponto, é bom citar o comentário de um dos seis leitores (contadinhos…) do blogue, o Luiz Candido.  Diz o LC: Não há como evitar a conclusão: não se trata mais de criminosos comuns, assim como o seu tipo de associação não é mais devidamente classificado em nosso código penal. Os conceitos usuais e o aparato jurídico disponível simplesmente não são suficientes para tratar de uma situação deste tipo. Devo dizer que continuo discordando. O fato de nosso código penal não dar mais conta das demandas da atual sociedade brasileira é um problema político, e assim tem de ser resolvido. Não será enquanto reús dos mais diversos artigos puderem ser eleitos para todos os níveis do poder legislativo; não será enquanto a venerável Ordem dos Advogados do Brasil continuar exigindo privilégios para seus membros, privilégios que acabam por beneficiar justamente os “organizadores” do crime organizado; não será enquanto os policiais, agentes penitenciários, defensores e promotores públicos não tiverem melhoradas ao máximo possível suas condições de trabalho; não será enquanto os trabalhadores, as mães, os estudantes – enfim, o povo das comunidades faveladas – não passarem a ser tratados como cidadãos, ao invés de um problema a ser resolvido com “… a arma Metralhadora Leve de dotação do Exército Israelense até que este desenvolvesse a IMI NEGEV…” (nem cortar direito um texto besta da Internet essa gente sabe – ô raça…) e com o “… caveirão do ar, o ‘helicóptero Huey’ II…” E, claro, com acusações de negligência e descaso para com o Rio, insinuadas contra o Exército Brasileiro. Este que, muito sabiamente, não quer colocar sobre a parte mais frágil do Rio de Janeiro um helicóptero de assalto tripulado por homens que vivem em constante estado de estresse. 

Analisar armamento e pegar as bobagens alarmistas de nossa imprensa é fácil. Difícil é oferecer respostas que nos façam a todos acordar do pesadelo de sábado passado::

Cultura material militar::O afundamento do U869

O TEXTO que os seis leitores (contadinhos..) de causa:: poderão ler em seguida é de autoria do pesquisador naval e mergulhador norte-americano Harold Moyers. Ao que parece, foi escrito por encomenda da Guarda Costeira dos EUA. Essa corporação, normalmente  subordinada ao Departamento de Segurança Interna dos EUA  é, de fato, uma espécie de reserva de contingência da Marinha. Em tempos de paz, tem por função policiar as águas costeiras e adjacentes ao território nacional. Em tempo de guerra é colocada, no todo ou em parte, sob o comando da Marinha, não sem algum estresse. Na 2a GM, tal subordinação aconteceu a partir de 1 de novembro de 1941. A Guarda Costeira chegou a reunir 175.000 efetivos, dos quais quais mais de 80.000 compunham tripulações de  802 navios, dos quais 288 eram da Marinha, inclusive 30 CTEs (contratorpedeiro de escolta, navios de baixo custo, cerca de 1400 tons de deslocamento e velocidade máxima de uns 21 nós) e 75 fragatas de patrulha, principalmente na escolta de comboios atlânticos. Durante um desses ocorreu a história que é contada a seguir pelo pesquisador Moyers. Encontrei o texto no site da corporação, enquanto levantava material para os posts sobre submarinos alemães. A tradução procura respeitar ao máximo as idéias do autor, embora o redator tenha convertido alguns termos técnicos, como os postos das marinhas alemã e dos EUA, para seus equivalentes na Marinha Brasileira. Antes que esqueça: o trecho grifado ao final do texto está no original em inglês::

Na noite de 11 de fevereito de 1945, o CTE U.S. *Howard D. Crow, operado por uma tripulação da  Guarda Costeira dos EUA , dirigia-se no rumo de 143°S, a sudeste do canal Ambrose para o porto de Nova Iorque. O navio estava no mar havia 8 horas, e tinha se juntado à escolta do comboio CU 58. Os nazistas acabavam de fracassar em sua ofensiva terrestre na Europa Ocidental (a contra-ofensiva das Ardenas, mais conhecida como batalha do Bulge”), e as forças aliadas estavam então assegurando a vitória. Os Estados Unidos da América, intocado pelas bombas e emergindo como a maior potência industrial do mundo, era saudado como o “arsenal da democracia”; esse arsenal era transportado através do Atlântico por navios como aqueles que compunham o comboio CU 58.

Naquele estágio da Guerra, era quase suicídio atacar um comboio com escolta. A expectativa de  vida de um U-Boat era de duas patrulhas. Por volta  volta de1945, um submarino atacante poderia esperar afundar um navio apenas, antes de ser detectado. Poucos anos antes, a situação era completamente diferente. Os submarinistas alemães estavam estavam desfrutando do que eles chamavam “o tempo feliz”. Os comboios aliados estavam sendo maltratados por matilhas de submarinos. Esses ataques coordenados, geralmente à noite, eram eram conduzidos com sucesso ao longo de dias, nos vastos espaços abertos do oceano. Um marinheiro tinha razões para temer a aproximação do poente, e as perspectivas de sobreviver eram ralas, nas águas frias e escuras do Atlântico Norte. Tripulantes de navios de munição ou navios-tanques cheios de gasolina de aviação dificilmente sabiam o que os havia atingido. Para esses homens, a espera era pior do que o desfecho.

A virada da guerra era pouco reconfortante para os homens no CU 58. Navios ainda estavam sendo perdidos, embora numa taxa bem mais baixa que antes, e os tripulantes desses navios ainda congelavam até a morte entre os destroços. Os homens homens liam nos jornais que a guerra logo estaria acabada; eles vinham desafiando os atacantes, em alguns casos, por mais de cinco anos. Os marinheiros mercantes sofriam mais baixas que seus adversários dos U-Boats. Muitos sentiam o estresse de ter de repetir o desafio outras vezes, agora que o fim da guerra estava à vista. Já os homens do Howard D. Crow não sentiam que o fim estivesse assim tão próximo para eles. A invasão de Iwo Jima e Okinawa ainda os assombrava e a estratégia aliada da “Europe first” tinha deixado o inimigo japonês para os EUA enfrentarem, e esse inimigo parecia muito vivo. Para os homens do Crow e de outros navios de escolta, a recompense pelo duro trabalho no Atlântico seria mais trabalho duro no Pacífico.

A tripulação do submarino alemão U-869 se fez ao mar, dois meses antes, numa realidade diferente.  Eles se sentiam como como condenados. Aquela era sua sua primeira patrulha e não havia nenhuma expectativa de que retornassem à base como heróis, ao som de  fanfarras e com belas garotas  admirando os pendões de vitória que flutuariam sobre a vela. Os U-Boats tinham tinham “>abandonado as agradáveis bases francesas e  recuado para as novas e áridas bases da costa norueguesa, onde onde ficavam constantemente sob ataque. As vitória eram raras e os pendões comemorativos, mais mais raros ainda. Eles tinham partido de Kristanstand, na Noruega, em 5 de dezembro de 1944, buscando um ponto no oceano algumas centenas de milhas several ao sul da Islândia, a partir do qual seriam direcionados, por mensagens codificadas de rádio, para sua estação de patrulha. Em 29 de dezembro de 1944, o Comando de Submarinos enviou uma mensagem para que se posicionassem ao largo da costa de Nova Jersey. A ordem foi retirada quando o U-869 respondeu que estava com pouco combustível. O jovem comandante do navio, capitão-tenente Hellmut Neuerburg, tinha sido particularmente cauteloso em sua viagem até o ponto destacado. Neuerburg, de 28 anos, estava em sua primeira patrulha de combate e, sem dúvida os numerosos retratos de comandantes de barcos perdidos, nas paredes do rancho dos oficiais, o tinham alarmado. Ao invés de tomar a rota entre a Irlanda e a Islândia, Neuerburg decidiu cruzar pela trilha mais longa, porém menos patrulhada, ao sul da Groenlândia. Daí seu baixo suprimento de combustível. O Comando de Submarinos o redirecionou para as proximidades do Estreito de Gibraltar, onde ele teria mais tempo para operar em patrulha. Ele era esperado de volta em 1 de fevereiro de 1945.

Ao entardecer do dia 11 de fevereiro de 1945, o tempo estava encoberto e fazia um calor inesperado. Sobre o mar calmo, uma brisa de leste se fazia sentir. O capitão-tenente John Nixon comandava o Crow, e o segundo-tenente I. G. “George” King era seu oficial de guerra anti-submarina (ASW – Anti-Submarine Warfare – Officer, em inglês). As 16:39 o operador de sonar, Howard Denson, avisou, aos berros, sobre um forte  contato de sonar. Este era uma máquina que produzia um ruído agudo sob a água, e então analisava o eco de retorno. Um bom operador operador aprendia a distinguir um objeto de metal do fundo do oceano ou de um cardume. Denson era um bom operador, membro da guarnição original do Crow. Como a maioria dos operadores, ele conhecia bem seu equipamento de sonar, conforme testemunhava a cada vez mais desigual Batalha do Atlântico. O contato tinha sido tão forte que o oficial ASW King, mesmo antes das ordens do comandante, determinou preparativos imediatos para um ataque com o lançador “hedge hog”. Um “hedge hog” era uma arma  anti-submarina especial, instalada na coberta de proa do CTE. Disparava 24 foguetes adiante do navio. No lançador, os foguetes pareciam um porco-espinho, um “hedge hog”, como diziam os ingleses. Cada foguete  entregava uma cabeça de combate de 17,2 quilos que detonava por espoleta de contato. Os foguetes caíram na água e rapidamente afundaram até explodir, ao atingir o fundo de areia.

O CTE aproximou-se do alvo submerso  às 16:53, quatorze minutes após o primeiro contato. O marinheiro de primeira classe-carpinteiro Robert Quigiy estava na coberta inferior à ré do Crow. Ele não sabia do ataque até que os foguetes foram disparados. Pelo menos um deve ter detonado e a violência da explosão foi tamanha que que o marinheiro Quigiy pensou que tinham tomado um torpedo. Ele correu para a coberta superior a tempo de testemunhar o surgimento de uma língua de óleo sobre a superfície do mar. “O que está acontecendo?” perguntou ao artilheiro Ted Sieviec. Sieviec era seu companheiro de beliche e tinha participado da ação com o hedge hog. “Estamos atacando um submarino”, foi a resposta.

O Crow imediatamente pediu ajuda. O CTE USS *Koiner respondeu ao chamado e dirigiu-se  para noroeste, alcançando o Crow depois de 27 quilômetros em velocidade máxima. Também foi  dirigido ao CINCLANT (Comandante-em-Chefe do Atlântico) um requerimento para o envio de um Grupo de Caça e Destruição. Esses grupos grupos eram formados por navios mais pesados, normalmente um *NAE (navio-aeródromo de escolta) e contratorpedeiros de esquadra. Uma vez alcançado o teatro, esses grupos caçavam o alvo pelo tempo que fosse necessário, até destrui-lo. O Crow e o Koiner  solicitaram a intervenção do GCD pois  precisavam retornar às suas posições na escolta do comboio o mais depressa possível. A ausência deixava os mercantes vulneráveis ao ataque de algum outro submarino que estivesse à espreita.

O Crow continuou  ataque enquanto esperava pela substituição. Às 17:17 quatro cargas de profundidade foram lançadas sobre um contato que se movia vagarosamente. Esse ataque resultou em bolhas de ar e mais óleo aparecendo na superfície. Vinte e cinco minutos depois outras três cargas foram lançadas, e mais bolhas e óleo surgiram no mar. Às 18:00 o Koiner chegou e juntou-se ao ataque, que agora era feito contra um alvo estacionado sobre o fundo do mar. Com a retirada do Crow, o capitão-de-corveta Judson, do Koiner atacou o alvo imóvel três vezes, cada ataque ataque resultando em mais óleo sobre na superfície, embora o contato continuasse imóvel. Judson ordenou que uma lancha fosse lançada e que um oficial investigasse as águas escuras sobre o local do ataque. A lancha recolheu óleo  e retornou ao Koiner. O comandante Judson ordenou que ambos os navios retornassem às suas posições junto ao comboio CU 58. Às 17:26 os dois CTEs colocaram-se à caminho, e Judson classificou o contacto como não sendo um submarino, e CINCLANT foi notificado que o GCD não era mais necessário. A tripulação do Howard D. Crow, decepcionada, não conseguia  acreditar no julgamento do comandante, pois cargas de profundidade lançadas a esmo não produzem bolhas de ar e trazem óleo à superfície. Eles sentiam nas tripas que tinham pegado um submarino. No relatório da escolta do CU 58, o evento evento “ataque a um destroço submarino ou coisa do gênero”. O evento deu-se em um ponto inexato do oceano, mais-ou-menos nas coordenadas 39.30 N, 72.58 W. Sessenta anos anos depois do ataque, Charles Judson, então com 92 anos, ainda recorda aquela noite. “Eu acho que atropelamos um destroço, que não se moveu durante todo o tempo do ataque”. O comboio CU 58 cruzou o Atlântico sem outros incidentes.

 Depois da guerra, uma pesquisa exaustiva foi feita, para determinar o destino de cada um dos U-Boats alemães. A iniciativa visava, em parte, estabelecer a quem seria creditado cada afundamento. Cada pesquisa levava em conta informações de variadas fontes, mas principalmente o Diário de Atividades da Costa Oriental (os registros de atividades navais do comando da Marinha dos EUA), bem como fontes alemãs. Especialistas envolvidos nas pesquisas anotaram o ataque realizado pelos CTEs Howard D. Crow e Koiner , mas se  mostraram inclinados a levar em conta o relatório do comandante Judson.O Comando de Submarinos da Kriegsmarine mantinha  cuidadosos registros, e  nenhum U-Boat era dado como  operando ao largo de Nova Jersey em fevereiro de 1945. O navio de Hellmut Neuerburg, o U-869, figurava como tendo naufragado ao largo de Gibraltar. Essa era sua área de patrulha e a Marinha alemã registra que diversas tentativas de contato falharam. Depois da guerra foram encontrados três registros de ataques após contatos na região de Gibraltar, nos quais o alvo foi dado como afundado. Esses registros estrabelecem um ataque em 28 de fevereiro de 1945 pelo *USS Fowler, junto com o CS (caça-submarinos) francês L’Indiscret. Esse ataque f oi dado como classe “B” (provável).

Quarenta e seis anos depois, um grupo de mergulhadores de profundidade especializados em explorar destroços no Atlântico fez uma descoberta inacreditável: umsubmarino alemão Tipo IX. Os mergulhadores liderados por John Chatterton, fizeram um cuidadoso trabalho para identificar o navio. A história foi contada no livro Shadow Divers. Os mergulhadores, a começar por Chatterton, e também Richie Kohler e John Yurga, tinham um problema inversamente diferente daquele que os pesquisadores navais tinham tido, depois do fim da guerra: os primeiros tinham um U-Boat afundado sem ataque; os últimos, um ataque sem U-Boat. Os dois conjuntos de informação não se ligavam, ainda que o registro do ataque e o destroço encontrado estivessem bem perto um do outro. Os registros oficiais da Marinha não falavam em ataques no período de fevereiro de 1945. Os alemães diziam que não havia submarines no local, naquela época. O barco tornou-se um mistério e, em seu característico bom humor, Chatterton passou a chamar seu achado de “U-Who”.

Em 1997, Chatterton conseguiu tirar dos destroços uma etiqueta que solucionou o mistério do destroço: era mesmo o U-869. Uma cuidadosa análise de registros de Inteligência naval  indicou que talvez o submarino não tenha  recebido a mensagem que ordenava seu deslocamento para Gibraltar e, obviamente, continuou em curso para a costa de Nova Jersey. Mas por que ele afundou? O trio de mergulhadores levantou a teoria de um possível torpedo desgovernado: o submarino teria disparado um torpedo que se desgovernou e acertou o próprio barco.  Aquela altura da guerra, os U-Boats levavam torpedos acústicos que buscavam ruídos de hélices em alta rotação. Esse tipo de armamento era primariamente defensivo, e, em teoria, uma escolta em alta velocidade, atacando um submarino poderia ser destruída pelo disparo desse tipo de torpedo. O problema é que esse armament mostrou-se pouco confiável, e a principal razão para que essa teoria tenha sido aceita é o fato de que especialista da Marinha Britânica, depois de ver filmes feitos nos destroços chamaram atenção para o grande buraco na sala de controle do submarino, que seria muito maior do que os provocados por cargas de profundidade. Outra razão era, simplesmente – o que mais poderia ter afundado o navio? Os registros não apontavam um ataque nessa área. A teoria do “torpedo desgovernado” decolou. O mais notável é que o submarino não tinha um, mas dois danos: havia também um grande buraco na coberta superior, à altura da sala de torpedos. Esse dano, a teoria do “torpedo desgovernado” não explicava.

É uma falácia dizer que somente um torpedo poderia ter causado os danos observáveis no U-869. Um impacto de torpedo não poderia ter feito dois grandes buracos separados por uma distância de mais de 17 metros. A cabeça de combate de um torpedo alemão tipo T-5 levava 274 quilos de alto explosivo. Uma carga de profundidade norte-americana Mark 7 “lata de lixo” levava quase a mesma coisa (240 quilos). A razão pela qual os torpedos quase sempre produzem mais danos é a proximidade da detonação. As cargas de profundidade lançadas pelo Crow estavam reguladas para explodir a mais-ou-menos 60 metros de profundidade. Muitos membros da tripulação lembram que, durante o treinamento, acontecido ao largo de Corpus Christi, Texas, eles regulavam  as cargas de profundidade para explodir a menos de 20 metros de profundidade. O resultado era, com freqüência, danos sérios em navios navios em folha, que tinham de voltar para o dique, para reparos. A partir de então, as cargas cargas passaram a ser reguladas para explodir o mais fundo possível, e a regulagem de 60 metros, dada a profundidade do lugar, fazia sentido. O U-869 encontra-se pousado sob 70 metros de água, e o diâmetro do casco é de pouco menos de 7 metros, o que significa que uma carga de profundidade pode ter detonado junto do casco de pressão. Isso pode esplicar a distância entre os dois buracos no casco do U-869. Junte a esses danos, 40 anos sendo espancado por pesos de 10 toneladas usados nas redes de pesca oceânica e veremos que não é tão absurdo que os buracos tenham resultado de cargas de profundidade. Aqueles que conhecem destroços subaquáticos freqüentemente encontram navios reduzidos a um monte de metal retorcido.

O U-869 está assentado a 8,3 quilômetros do lugar onde o Crow e o Koiner atacaram. Naquele tempo, a navegação não era uma ciência exatamente exata, e, no mar, oito quilômetros é uma distância bem pequena. Se, após a guerra, os pesquisadores navais tivessem sabido da presença de um submarino na área, em fevereiro de 1945, certamente teriam examinado os relatórios dos CTEs mais cuidadosamente. O fato mais interessante sobre o ataque do Crow/Koiner é exatamente a data, 11 de 1945. O U-Boat tinha relatado sua chegada à posição de 56.21 N, 26.45 W, em 6 de janeiro. Nesse ponto, a jornada tinha sido de 3834 quilômetros, desde a Noruega, ou quase 128 quilômetros por dia. O Comando de Submarinos da Kriegsmarine esperava que a  unidade se posicionasse próximo a Gibraltar em 1 de fevereiro de 1945. Isso dá a distância de 3278 quilômetros, o que resulta nos mesmos 128 quilômetros por dia. O U-Boat, entretanto, nunca alcançou Gibraltar, mas um ponto ao largo de Nova Jersey, cuja distância era de 4500 quilômetros, desde a Noruega. Registrando 128 quilômetros por diateria levado 35 dias para alcançar o lugar onde afundou. Essa data poderia ter sido o dia 11 de fevereiro, ou seja, o dia exato do ataque dos CTEs norte-americanos.

À luz dessas novas informações, um outro fim pode ser estabelecido para o U-869. Chegando à sua área de patrulha, nas movimentadas águas da costa de Nova Jersey, o navio logo detectou o som de um comboio. Navegando abaixo da superfície, seus motores diesel aspirando ar através de um tubo schnorkel, o U-869 tentou se posicionar na rota de aproximação do comboio CU 58. Repentinamente, o operador dos hidrofone captou o som da aproximação de navios de guerra movendo-se rapidamente. O jovem comandante buscou águas profundas. A detonação de um “hedge hog”  levou o pânico à tripulação, conforme o U-Boat deslizava pelo fundo. Embora gravemente danificado, o submarino continuou ativo, tentado livrar-se; foguetes “hedge hog” não são suficientes para destruir um U-boat de 1.120 toneladas de deslocamento. O submarino move-se lentamente pelo fundo quando o Crow lança suas cargas de profundidade. É impossível saber qual dano ocorreu primeiro, o da sala de torpedos de vante ou o da sala de controle. Ambos podem ter sido instantânea e catastroficamente fatais. O comandante Judson estava provavelmente correto em dizer que os CTEs tinham atacado um destroço – só que era um destroço com pouco mais de uma hora e meia de existência.

É muito provável que o ataque de 11 de fevereiro de 1945 tenha sido responsável pelo afundamento do U-869. O ataque provavelmente frustou a interceptação do comboio CU-58.  Já é tempo de dar a esses idosos heróis o reconhecimento que eles merecem::

Cultura material militar::Elektroboote e seus sucessores::Parte2

DENTRO DAS POSSIBILIDADES cada vez mais restritas do redator-fanático por tecnologia militar, causa:: continua contribuindo para a extensão da cultura submarinística dos seis leitores (contadinhos…). Continuaremos tentando fazer um resumo útil da história dos submarinos modernos, que, como muito do que existe hoje em dia, começou na 2a GM. POR SINAL, os seis leitores ainda não se manifestaram em torno da proposta de um blogue específico sobre as leituras::de::causa:: Já sei até mesmo a primeira série de livros e sites a serem resenhados – e são todos muito bons, porque o redator não perde seu precioso tempo com porcaria::

parte2Durante boa parte da guerra, os submarinos, tanto alemães quanto das outras potências, eram cópias melhoradas dos que tinham atuado na 1ª GM. De fato, eram, em todos os sentidos, “torpedeiros submersíveis”, herdeiros de um tipo de *vaso de guerra de superfície, o “torpedeiro”, concebido este em torno de uma grande inovação surgida no último quartel do século 19 – o torpedo automóvel, uma arma naval que,  por meio de um motor movido a ar comprimido, levava uma carga de explosivos de uns 100 quilos até um alvo, acontecendo o deslocamento abaixo da superfície da água. A novidade era que a carga de combate atingia o alvo em uma área abaixo da linha d´água, onde os vasos de guerra não eram protegidos por blindagem. Um problema adicional era que os canhões dos vasos de guerra da época não atiravam em elevação negativa – ou seja, não havia,  em 1876, quando os primeiros torpedos funcionais entraram em serviço, defesa contra a nova arma.

A questão da entrega do torpedo era outra historia. Os “barcos topedeiros” eram vasos rápidos, manobráveis e que deviam operar baseados nessas capacidades. Funcionaram até que surgiram os canhões de tiro rápido, e depois, por volta do final do século 19, os contratorpedeiros. Mas, a essa altura, o submarino já aparecia como a melhor solução para colocar torpedos no alvo. A furtividade do novo tipo de navio de guerra poderia compensar a baixíssima velocidade e capacidade de manobra. Em resumo: o submarino (cujo primeiro modelo efetivo, o USS Holland, foi adquirido pela Marinha dos EUA em 1900) poderia aproximar-se do alvo sem ser visto.

Durante a navegação de superfície, um submarino tinha (e ainda tem) sua flutuação garantida pela relação entre a flutuabilidade do casco de pressão (que é fixa) e do casco externo (que varia), prevalecendo esta última. Assim, já fica claro: um submarino tem dois cascos. O “casco de pressão” (ou “casco interno”) é uma peça de formato cilídrico feita de aço especial e outros metais de alta resistência, onde ficam a tripulação e os sistemas do barco. O interior dessa peça é totalmente estanque. O “casco externo” é o conjunto de superfícies fixas que envolvem o casco de pressão. Sua flutuabilidade varia por causa de espaços abertos entre os dois, chamados “tanques de lastro”. Esses tanques são abertos na parte inferior e, para manter o conjunto na superfície da água, comportam grande quantidade de ar. A imersão se dá através da abertura de válvulas (chamadas “suspiros”) que permitem a saída do ar desses espaços e a entrada controlada de certa quantidade de água do mar. Essa manobra torna a flutuabilidade negativa e o submarino afunda. A manobra submersa acontece pela impulsão fornecida pelos motores/hélices, pela movimentação de superfícies de controle (hidroplanos e lemes) e pela inundação controlada de tanques de balanço (pequenos tanques de lastro situados adiante e atrás dos tanques de lastro principais).

A geração de submarinos que surgiu em 1907 permanecia a maior parte do tempo na superfície, navegando como um navio comum. Imergia por curtos períodos, em geral para aproximar-se, furtivamente, do adversário.

A aproximação final, ou “engajamento”, era lenta e tinha limites determinados pela reduzida autonomia subaquática. Isso se dava pelo fato de que, quando submerso, o submarino dependia, para funcionar, da quantidade de energia elétrica acumulada em baterias. A  baixa capacidade de acumulação das baterias da época não permitia muito tempo sob a água. Na superfície, o uso de motor diesel para o deslocamento, além de acionar o eixo “do hélice” (no jargão naval, “hélice” é um substantivo masculino) aciona um dínamo que gera corrente contínua, acumulada em células acumuladoras, feitas de chumbo (chamadas “eletrodos”), ácido sulfúrico e água destilada encapsulados. Um número que podia variar entre 55 e 120 células formava baterias, que alimentavam um motor elétrico de potência. Um submarino da 2a GM levava a bordo duas ou três baterias, distribuídas for duas “salas de baterias”. Cada bateria podia pesar de 370 a 600 quilos e o conjunto constituía entre 8 e 16 por cento do deslocamento total do barco. Esses dados são importantes porque o número de baterias determina não só o tempo de submersão como também a velocidade máxima que poderá der alcançada. Na 2ª GM um submarino tipo VII C ficava mergulhado por até três dias, desenvolvendo uma velocidade de uns 4 nós (uns 7 km/h). Em condições extremas, podia desenvolver 17 nós (31 km/h) por uma hora (a mesma velocidade que desenvolvia na superfície). Normalmente, submerso, manobrava a até 10/11 nós (18,5/20 km/h) por cerca de 4 a 5 horas.

O número de unidades de acumuladoras era assim, fundamental para o desempenho do barco. Havia, entretanto, outros entraves. O principal era o fato de que, sendo um “torpedeiro submarino”, a maior parte do deslocamento era feita na superfície, o que exigia que o desenho do casco externo seguisse os parâmetros obedecidos para um navio de superfície – que é um sistema híbrido. Em barcos de superfície, parte do casco fica o tempo todo em contato com a água e outra parte, com o ar da atmosfera. A resistência contra a água é conseguida não apenas pela potência do motor, mas também pelo desenho das “obras vivas”, as partes do casco que negociam com o fluído (também chamadas de “carena”). As “obras mortas” são todas aquelas que estão acima da linha d´água, ou seja, criam atrito com o ar. Num “torpedeiro submarino”, os torpedos são apenas parte do armamento; na superfície, o barco terá de levar canhões e  metralhadoras instalados em posições sobre o casco externo, sendo que os franceses tentaram, no período entreguerras, instalar canhões  de 203 milímetros em torres blindadas. Assim, um submarino do período pareceria uma lancha torpedeira de costados muito baixos e relação desproporcional entre boca (largura de qualquer seção transversal do casco de uma embarcação) e comprimento. 

Os submarinos alemães eram geralmente dotados de um canhão de 88 ou 105 milímetros, anti-navio, um bateria AAe de 30 milímetros e reparos para metralhadoras 7.92 mm. Como todos os outros submarinos, combatiam a maior parte do tempo na superfície. Até mesmo o lançamento de torpedos acontecia, freqüentemente, com o navio emerso, e os canhões eram usados sempre que possível. Era frequente que um submarino, impossibilitado de fugir sob a água, subisse a superfície para lutar, o que era um problema, devido à sua baixa reserva de flutuabilidade. Dificilmente um submarino conseguia ganhar de um vaso de superfície, mesmo dos pequenos (um contratorpedeiro de escolta, por exemplo).

Essa fraqueza condicionou as táticas adotadas pelos U-boats (corruptela em inglês de Unterseeboote, ou “barco submarino”, em alemão) na 2a GM.  O grande confronto entre submarinos e navios de superfície foi a “batalha do Atlântico”, cujo objetivo era interromper o fornecimento de provisões e material bélico para a Inglaterra. No início, os submarinos pareceram ter grande chance de êxito. O problema é que o Grande Almirante Raeder, chefe da Marinha de Guerra e que, na 1a GM, tinha sido oficial de cruzadores, insistiu longo tempo na doutrina de que os grandes navios de superfície eram decisivos na guerra naval. A força de submarinos, durante certo tempo, disputou material e pessoal com os navios de superfície, resultando daí que o número de unidades não era suficiente para conseguir uma vitória completa. O auge da luta deu-se entre meados de 1942 e meados de 1943. No mesmo período, os navios de superfície não corresponderam às expectativas e os submarinos, em pequeno número, tiveram a relativa vantagem de pegar os aliados (ingleses e canadenses, principalmente) de surpresa. A guerra submarina foi lançada de modo irrestrito, o que contrariava as “leis da guerra”. A experiência já tinha sido feita no período final da Grande Guerra, com resultados impressionantes e grande polêmica. Na Segunda Guerra, a Marinha Alemã declarou que não respeitaria as “leis do corso”, que implicavam na abordagem, revista e desembarque da tripulação do navio mercante suspeito, o que anulava totalmente a vantagem do submarino. O ataque a navios mercantes no mar, sem aviso prévio rendeu bem, mesmo depois que comboios passaram a ser organizados. O número de vasos de escoltas disponíveis era desesperadamente baixo e, mesmo depois de 1940, quando pequenos navios fabricados no Canadá diminuíram o deficit, a queda da França colocou os submarinos em posição de vantagem. O estabelecimento de bases em Brest, Lorient e outros portos da costa atlântica francesa permitiu às unidades alemãs ganhar o Atlântico sem passar pelos campos minados no estreito da Dinamarca. Submarinos “de esquadra” (oceânicos) passaram a operar nas águas profundas do Atlântico, o que lhes dava a vantagem da “surpresa tática” – as escoltas de cruzadores, contratorpedeiros e vasos menores sabiam que eles estavam lá, mas não sabiam a hora e a direção do ataque, o que impedia os “comodoros” (oficiais comandantes do comboio) de posicionar adequadamente seus navios. Os alemães não demoraram a aperfeiçoar formas de explorar esse ponto fraco no sistema de comboio. Novas táticas recolhiam informações de vários submarinos e de aviões de reconhecimento e coordenavam grupos de até 15 unidades, que atacavam articuladamente – essa tática foi denominada wolfpack (“matilha“) e passou a ser usada em 1941.  As “matilhas” atacavam à noite, na superfície. Como os submarinos, emersos, eram mais manobráveis do que as escoltas, e, quando a “matilha” era bem coordenada superava o adversaário em número, os efeitos dessa tática foram devastadores. O problema é que o novo comandante da Marinha de Guerra, Grande Almirante Dönitz não contava com número adequado de unidades – ainda que, entre o final de 1941 e meados de 1942 o tráfego entre Inglaterra e Canadá tivesse quase sido interrompido.

Não vamos nos estender mais sobre o assunto, já que existem muitas ótimas descrições da 2a GM na Internet. O que nos importa é que, no que diz respeito à guerra submarina, qualquer possibilidade de vitória alemã estava diretametne condicionada por (1) sua capacidade de colocar barcos no mar e (2) sua capacidade de formar tripulações. Uma patrulha durava, em média, de dois a três meses, após os quais o barco retornava à sua base para reparos. O ideal seria que a patrulha seguinte fosse realizada por outra tripulação, mas os alemães não tinham capacidade de treinar recrutas em número suficiente e em prazo adequado. Ao contrário de combatentes de terra, o combatente naval é um profissional especializado e sua formação demanda tempo. No início da guerra, construir um submarino levava de seis a oito meses, mas um submarinista só ficava “pronto” em cerca de dois anos – quatro, se fosse oficial; com necessidade de colocar mais unidades no mar, depois de 1940, e a elevação drástica das baixas, depois de 1942, o prazo foi sendo paulatinamente diminuído até chegar a seis meses para praças e um ano para oficiais. Conforme os “ases” iam desaparecendo em combate, a Marinha ficava sem instrutores com experiência para passar e inspiradores com sucessos a relatar.

A questão principal, entretanto, foi mesmo a superioridade industrial dos norte-americanos. Já na primeira metade de1941, a Lend-Lease Bill garantia à Inglaterra suprimentos de armas e materiais. Isso aconteceu  junto decisão dos EUA de ampliar a “Zona de Segurança” ao largo da costa atlântica do país e a decisão, concomitante, de coordenar a  segurança da navegação aliada no Atlântico Norte (essa decisão constituiu, de fato, a entrada do país na guerra). Essas medidas, embora não tivessem consequências imediatas, melhoraram a posição da Grã-Bretanha, até então, desesperada.

A partir de então, a corrida foi entre o lançamento de navios mercantes (em 1941 e 1943 foram perdidos mais de 2000 barcos no Atlântico Norte), navios de escolta, por um lado, e submarinos, pelo outro. No auge da campanha submarina, a Marinha de Guerra mantinha em torno de 60 submarinos em patrulha, sendo que 40 estavam no Atlântico Norte.  Outros teatros (o Báltico, o Caribe, a costas africana e, depois de 1942, a costa brasileira) eram considerados secundários e geralmente usados como campo para treinamento de novas tripulações.  Mas o que realmente venceu os U-boats foi a guerra tecnológica.  

No caso dos alemães, o período 1940-1943 viu surgir certas inovações de construção, que tornaram os submarinos mais eficientes. Os cascos passaram a ser produzidos em novos materiais, que diminuiam o peso do conjunto sem perder em resistência, e soldados eletricamente, a pressão, substituindo as unidades que os tinham blindados e rebitados. Esses métodos tornaram a construção mais rápida. O surgimento de baterias pressurizadas também diminuiu o peso desses componentes, aumentando-lhes a eficiência; torpedos mais eficientes, impusionados a ar e com espoletas de proximidade (explodiam debaixo do alvo, aumentando a possibilidade de afundamento) tornaram os ataques mais letais. 

Ainda assim, as escoltas, lentamente, começaram a levar vantagem. Navios menores, concebidos exclusivamente para combater submarinos; patrulhamento aéreo de longa distância, sistemas de deteção aperfeiçoados (radares, sonares, hidrofones direcionais e até mesmo binóculos noturnos) e a enorme vantagem tática obtida com a quebra dos códigos navais alemães elevaram as baixas de submarinos e de tripulações experientes – essas impossíveis de se substituir. Em 1942, a Alemanha afundou 1100 navios mercantes (cerca de 6 milhões de toneladas) e 92 de guerrra, contra 87 perdas; em 1943, as baixas somaram 237 submarinos e mais de 10.000 tripulantes.

O principal submarino oceânico ainda era o Tipo VII, que embora obsoleto, era mantido em produção na falta de algo melhor. A principal questão, segundo constatou um estudo feito pelo Alto-Comando da Marinha de Guerra (OKK, em alemão), era o  fato de que os submarinos tinham de operar na superfície. Enquanto tinham a vantagem da superioridade numérica e da surpresa tática, essa desvantagem era plenamente compensada. A partir do momento em que o adensamento dos comboios passou a juntar 200 navios mercantes e  até 50 escoltas, dotadas inclusive de pequenos porta-aviões (chamados de “navios-aeródromos de escolta”) capazes de lançar até 15 aeronaves de reconhecimentos centenas de quilômetros à frente dos comboios, a situação mudou. Os submarinos passaram a ter de operar a maior parte do tempo submersos, realizando os ataques com base na aproximação e lançamento de torpedos por periscópio, ou com apenas a vela acima d´água. Isso diminuiu de forma dramática a possibilidade de sucesso. Mesmo assim, o surgimento de radares de ondas ultra-curtas, instalados em aeronaves de longo alcance (sistema chamado de H2S) podia frustrar mesmo um ataque conduzido dessa forma, visto que, dependendo da situação do mar, a escolta voadora conseguia “ver” a vela e até mesmo o periscópio ou os tubos “snorkel”. Assim, quando, em maio de 1943, a perda de 43 submarinos obrigou o alto-comando a chamar todas as unidades de volta às bases – o que na prática significava o fim da “batalha do Atlântico”, essa situação não era tão surpreendente.

A resposta? Os alemães tentaram – e conseguiram – reinventar o “torpedeiro submarino” e transforma-lo num tipo de navio de guerra totalmente novo. O “mês negro” da campanha submarina foi também aquele em que o futuro foi apresentado::