É um bom dia para pensar::

Como já disse diversas vezes o redator, os assíduos de causa:: gostam muito de pensar, o que faz esta seção a mais visitada deste blogue-recurso de pesquisa. Portanto, em homenagem a nossos intelectualizados leitores, a coluna publica hoje alguns textos tipo “alta complexidade”. Aliás, complexa é a vida – os textos são até bastante simples. Divirtam-se, pois::

[A agricultura foi] a segunda grande revolução coletiva do Homo Sapiens Sapiens. Os primeiros grupamentos humanos estavam condenados a perambular por toda sua existência coletando e caçando para sobreviver. Vidas curtas e de extrema penúria. A agricultura significou a liberação do estado natural que equiparava os seres humanos a quase bichos. A invenção coletiva da agricultura teve múltiplas vantagens além de libertar o homem da escassez nutricional a que coletores e caçadores estavam condenados: tempo liberado para mais contatos humanos e para desenvolver novas experiências. A agricultura permitiu que se formassem ainda comunidades maiores. Mais gente, mais energia criativa colaborativa, mais comunicação, mais ingredientes para outras inovações foram se acumulando até chegarmos a uma nova criação coletiva revolucionária, que nasceu há dez mil anos: as cidades. Ricardo Neves. O novo mundo digital: Você já está nele, página 17-18.

… a ficção e a imaginação popular muitas vezes agem em conjunto para difundir espontâneamente uma idéia, afim de poder fazê-la passar do domínio da fantasia ao da realidade. A antevisão dos escritores de ficção foi reconhecida após os ataques terroristas às torres gêmeas e ao Pentágono, em 11 de setembro de 2001. Depois desse golpe audacioso, o FBI visitou Hollywood para conhecer os possíveis cenários terroristas que os roteiristas já haviam concebido para a nova era da “guerra assimétrica”. P. D. Smith. Os homens do fim do mundo. O verdadeiro Dr. fantástico e o sonho da arma total, p. 98::

Do ponto de vista do desenvolvimento, o abandono do planejamento centralizado foi um avanço mas o abandono do keynesianismo foi um recuo. A sociedade de mercado, em pleno desenvolvimento, entrou em choque coma a massa dos excluídos prlo desemprego ou pela pobreza, mutias vezwes hereditária. Deste entrechoque vem resultando o renascimento da economia solidária na Europa e nas Américas, e também nos demais continentes em alguma medida. A economia solidária incorpora à produção e ao consumo grnade número de excluídos, dando demonstração concreta que constitui alternativa concreta à sociedade de mercado, na qual os despossuídos não têm lugar:: Paul Singer. Desenvolvimento e estratégia::

Um rapaz (das Forças Especiais)às Terças::Forças Especiais do Exército Brasileiro::

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Integrantes do 1 ° Batalhão de Forças Especiais do Exército Brasileiro. Em primeiro plano, um atirador de escol, vestindo “traje Ghillie“, carrega um Fuzil M964 7,62 dotado de mira telescópica OIP Belgio 3X6 (p´ra lá de obsoleta…).  Em segundo plano, elementos de Forças de infiltração portam o modelo-padrão. O FAL é uma boa arma para atiradores de escol (snipers, em inglês), devido à potência do cartucho e ao peso da arma, que a torna bastante estável durante o disparo. Como disse o leitor “Anônimo”, um dos famosos sete (contadinhos…) os “cabôco”  usam o padrão chamado Ragged Leaf Lizard Pattern, disruptivo de três cores: verde-escuro e castanho sobre fundo verde-claro. Apesar do nome (também aparece como Brazilian Army Lizard Pattern, segundo a terminologia adotada pelo International Camouflage Pattern Index), esse padrão foi desenvolvido por aqui mesmo, nos anos 1980, baseado no padrão M63 usado na Africa pelo exército colonial português. É considerado excelente para combate em ambiente tropical. Esses uniformes deixam no leigo incauto (como boa parte dos jornalistas da imprensa diária…) a impressão de desbotados, o que indicaria a indigência em que vivem as FA nacionais. É apenas parcialmente correto, e vale esclarecer que a aparência é proposital. O padrão busca inclusive simular o brilho provocado pelo excesso de luz característico das regiões equatoriais::

Cultura Material militar::A linhagem FAL::Parte 3::O FAL no Brasil

Faz alguns meses, publicamos uma série de posts denominada “A linhagem FAL“. Como tantas outras séries aqui no blogue das boas causas, essa também acabou atropelada por outros assuntos que então pareceram, ao redator um tanto atabalhoado, mais momentosos. Como a próxima semana será pesada, e o redator não terá tanto tempo disponível para divertir seus sete leitores (contadinhos…) quanto gostaria, segue a 3a parte, revista e ampliada. Por sinal, causa:: declara, com satisfação, que contou com a preciosa ajuda do historiador militar Adler Homero Castro e do coronel (QEMA-R1) José Paulo Lopes Lima. A maior parte das informações me foram repassadas por esses dois cientistas, porque faltam, em nosso país, fontes públicas confiáveis sobre a história e dinâmica de nossas Forças Armadas.  Podem agradecer, então, aos dois…::

PARTE3Em 1960, o Exército Brasileiro era uma força relativamente grande. Sua ordem de batalha podia colocar em campo uns 140.000 efetivos, dos quais talvez uns 40.000 pudessem ser considerados – por padrões algo lenientes… – tropas de primeira linha. No final dos anos 1950,  a força terrestre brasileira podia alinhar algo como um corpo blindado – uma divisão blindada e duas de infantaria motorizada, uma divisão convencional de cavalaria (com cavalos, acreditem ou não…) e cinco divisões de infantaria.

Desde a 2a GM, a intensa relação com o exército dos EUA tinha moldado o Exército Brasileiro à imagem do norte-americano.  As doutrinas francesas foram definitivamente abandonadas, e  a instrução era feita, em grande parte, por militares dos EUA, que ensinavam a seus colegas brasileiros as novas práticas desenvolvidas durante a 2a GM e, logo depois, na Guerra da Coréia. Entretanto, certas práticas norte-americanas eram de difícil assimilação em um país pobre e pouco industrializado.  

O armamento com que o Exército Brasileiro contava em seu inventário passou, em conseqüência da 2a GM, por um notável salto tecnológico. Entretanto, em termos de armamento individual o principal item do EB em 1945 era o fuzil de carregamento manual Mauser DWM calibre 7X57 mm, o “Mauser brasileiro“. A aquisição dessa arma se deu em 1908, em números que, segundo alguns especialistas, alcançavam 600.000 unidades  – o que é muito curioso, pois seria quantidade suficiente para dotar cada oficial, graduado e soldado com quatro ou cinco armas, e ainda sobrar um montão… Claro que, em tal volume, essas armas, mesmo depois de obsoletas, equiparam as tropas durante muito tempo. Assim, o jeito era tentar, vez por outra, modernizar o tal “mauser brasileiro” com pequenas modificações físicas. Por exemplo, em 1934, a arma foi encurtada para se equiparar à uma “carabina”, ou seja, uma arma geralmente disponível para as tropas de cavalaria. No jargão do Exército Brasileiro, esse item é denominada “mosquetão”, e tem o comprimento de cerca de 100 centímetros, enquanto o fuzil teria cerca de 120 centímetros.

Mas modernizações cosméticas não fazem milagres, e problema era que o calibre 7X57 mm se tornou obsoleto para uso militar antes da 2a GM. Assim, em diversos momentos, essas armas passaram por adaptações em arsenais nacionais para utilizar cartuchos mais modernos. Quando a FEB chegou à Itália, o armamento que seus efetivos receberam era padronizado com o dos norte-americanos, de modo que a arma distribuída aos pracinhas foi o US Rifle M903, calibre .30-06 (7,62X63 mm) Springfield. Isso teve conseqüências duradouras: depois da guerra, boa parte do armamento de infantaria disponível para o Exército Brasileiro usava calibres norte-americanos. O BAR (Browning Automatic Rifle, uma espécie de metralhadora ligeira usada como apoio da esquadra de infantaria), alguns rifles Springfield e *Garand e a metralhadora ligeira Browning M919, a pistola Colt M911, as submetralhadoras M3 e INA usavam, os primeiros, o calibres 7,62X63 mm e os três últimos, o .45 ACP. Essa munição passou a ser fabricada no país nos anos 1950.

Em função dessa disponibilidade de armamento norte-americano, no final dos anos 1940 houve uma tentativa de tornar o calibre .30-06 padrão das forças militares brasileiras. O resultado foi um mosquetão, baseado no “mauser brasileiro”, distribuído em pequenas quantidades a partir de 1949. Em 1951, nova tentativa geraria uma arma não muito diferente – ambas as experiências foram feitas no Arsenal de Itajubá, Minas Gerais. Mas ainda não era o que o Exército pretendia. Nessa época, já era evidente a tendência mundial para a adoção de armas automáticas e semi-automáticas. O acaso então entrou no jogo – só não se pode dizer se contra ou a favor do Brasil.

Por sinal, o acaso começou a conspirar no segundo semestre de 1945, quando a FEB voltou ao Brasil. Embora a tropa brasileira tenha deixado para trás todo seu equipamento, pôde conservar certa quantidade de canhões alemães e italianos de diversos tipos, várias peças de equipamento de campanha de nossos adversários, os arquivos da FEB e alguns documentos alemães e italianos. O item mais numeroso trazido para o Brasil eram armas portáteis capturadas aos alemães e seus aliados. Não se sabe exatamente quantas vieram, mas calcula-se um número de alguns milhares. Muitos desses itens eram exemplares do que os alemães tinham de mais moderno, inclusive os fuzis automáticos MP42 e StuG44 (que seriam a origem dos fuzis de assalto) e metralhadoras de uso geral MG42 (a “Lurdinha”). Também haviam alguns exemplares das duas versões do Gewehr 43 (Mauser e Walther), uma tentativa frustrada dos alemães em criar um fuzil semelhante ao Garand norte-americano.

As armas alemães foram examinadas pelas áreas técnicas do Exército e, em 1952, o arsenal de Itajubá recebeu ordens de fazer uma cópia do G43(M), o exemplar que, durante a guerra, tinha sido apresentado pelo escritório Mauser, de Berlim. O produto resultante, considerado por todos que o examinaram como extremamente tosco, foi denominado “Mosquetão M954”. Era um G43(M) adaptado para usar o cartucho Springfield.

Não se sabe exatamente porque as autoridades locais resolveram que copiar o G43(M) era uma boa idéia. Alguns pesquisadores especializados (que, no Brasil, são poucos, muito poucos) acreditam que dois fatores tenham se combinado para gerar o equívoco: a existência, em Itajubá, de máquinas-ferramentas de origem alemã, adquiridas em 1934, um, e dois, o fato de que a patente do G43(M) tinha perdido a validade, por ser este uma arma militar – as de armas civis e de polícia continuaram valendo. Outro fato relevante é que, embora faltasse Garand, em função da Guerra da Coréia, outras armas “calibre pontotrinta” foram generosamente distribuídas: o BAR, a metralhadora M1919 e boa quantidade de fuzis M903. Assim, era natural que a tentativa de uma arma indígena visasse o cartucho .30-06 (cuja patente fora cedida ao Exército a preço de banana), e que essa arma tentasse adaptar um Mauser, com o qual os militares brasileiros tinham intimidade de mais de 40 anos.

O terceiro e mais relevante ponto do equívoco: nessa época, as principais autoridades, aqui, acompanhavam o debate sobre o novo calibre de armas de infantaria, que se travava na Europa e nos EUA. A doutrina norte-americana, amplamente repassada aqui, privilegiava a concentração de fogo, de modo que, era esperado, os EUA acabariam mantendo a tradição de um cartucho mais potente. O que os militares brasileiros não sabiam é que o M1 era considerado excelente, mas, por volta de meados dos anos 1950 o insucesso das tentativas em torná-lo totalmente automático apontavam para sua substituição. Na Europa, a tendência era pela adoção do cartucho 7.62X51 NATO, e os europeus insistiam que toda a munição usada em armas de infantaria fosse padronizada. O resultado do debate – que foi uma disputa política – foi a adoção de uma versão do FN-FAL pela Inglaterra e Canadá e do Heckler-Koch G3 pela nova Bundeswehr. Os norte-americanos concordaram, afinal, em adotar o 7.62 NATO, desde que numa arma de desenho local – que foi o M14. Este era um produto excelente, mas que teve vida curta, atropelado pelo encontro, no Vietnam, com os fuzis de assalto AK47.  

Segundo Adler Homero Castro, talvez o maior pesquisador brasileiro no tema “cultura material militar”, o Exército Brasileiro sempre teve o azar de tomar decisões cruciais quando no contrapé. O caso  do calibre Springfield foi uma dessas decisões, e o Exército acabou ultrapassado pelo debate sobre as novas armas de infantaria. Ao que parece, as questões de política interna também contribuíram para engrossar o caldo. No final dos anos 1950, a Marinha, já envolvida na disputa pelo controle da aviação naval, adquiriu, sem consulta prévia às autoridades superiores (se é que havia alguma…), dois lotes de M14 e certa quantidade de munição. As armas deveriam equipar o Corpo de Fuzileiros Navais – que já contava com o Garand em seu inventário. É possível que o Exército, não querendo ter sua própria “disputa fraterna” com a Marinha, tenha sido compelido a decidir, de uma hora para outra, pela aquisição de um “pacote completo” de armamanto individual. A tendência mundial era, então, o 7.62X51 NATO – então esse acabou prevalecendo. A empresa belga FN Herstal, dona da patente, antecipou-se à concorrência e ofereceu a licença para a fabricação local de seu desenho. A contrapartida era o fornecimento do ferramental e o respeito ao projeto do fuzil. À primeira vista, parecia “mamão com açúcar”: uma arma moderna, de graça e sem necessidade de investimento em pesquisa; na prática, a longo prazo as forças armadas brasileiras se viram atreladas às decisões de um fornecedor externo.

Embora não existam ainda provas conclusivas, parece que a decisão belga foi motivada pelo exame, pelos militares brasileiros, do Heckler-Koch G3, fabricado na Alemanha com base no desenho espanhol CETME – era outro 7.62 NATO. Pouco depois (no início dos anos 1970) o HK acabou adquirido pela Aeronáutica, para sua infantaria de guarda. O fato de que, num espaço de uma década, três modelos de armamento tenham sido adquiridos no mínimo indica certa falta de planejamento no que diz respeito à questões de defesa, em nosso país.

Em 1967, a chegada dos novos fuzis automáticos, em números que alcançavam 30.000 exemplares, entre os primeiro (diretamente importado) e segundo (fabricado em Itajubá) lotes já tinha se completado. Foi então tomada uma decisão surpreendente: o Exército resolveu converter uns 10.000 Mauser 7X57 miliímetros em uma arma aparentada com o FAL, só que numa versão de carregamento manual. Essa nova arma, destinada ao treinamento de recrutas, foi denominada “Mosquetão M968 7.62“. O cano foi substitúído por uma versão idêntica à do FAL e a câmara, adaptada para o novo calibre. O conjunto era um pouco mais leve, tinha o cano mais curto e a alavanca de manejo, recurvada. O modelo foi fábricado em Itajubá e distribuído entre as unidades consideradas “de segunda linha”. O “Mosquefal”  empregava munição(inclusive granadas de bocal e munição especial para atiradores de escol), baioneta e material de manutenção de primeiro escalão iguais às do M964 (notação do FAL brasileiro). A arma era destinada ao adestramento básico de fuzileiros da infantaria, e também foi distribuída pelas polícias militares em todo o país.

No Brasil, o FAL gerou toda uma linhagem industrial. A atual IMBEL – empresa de economia mista pertencente ao Ministério da Defesa – fabricou três modelos da arma: o Fuzil Automático Leve (FAL), o Fuzil Automático Pesado (FAP – uma versão dotada de bipé, que só dispara em modo automático) – e a versão “Para-FAL”, com coronha rebatível, e cano encurtado, para emprego de unidades aerotransportadas, de selva e de forças especiais. A produção local começou no início de 1965 e continuou até 1983, subindo a mais de 200.000 unidades deste fuzil. Em 1997 foi apresentada uma versão local, denominada “MD97“, adaptada ao calibre 5.45 NATO. Hoje em dia, calcula-se que, entre todas as versões, as forças armadas e forças policiais brasileiras tenham por volta de 400.000 FAL em seus estoques – o que é uma quantidade surpreendentemente pequena, considerando que essas forças sobem – se computada a reserva de emprego imediato (reservistas com menos de cinco anos de baixa, sexo masculino e idade até 34 anos) – a mais de um milhão de efetivos::

Cultura material militar::”pontotrinta”: o debate no final da aula::

Um dos sete leitores (agora são sete, contadinhos, vejam só…) aqui do blogue, o Luiz Candido resolveu abrir o debate, no final da “aula para redatores da imprensa carioca”. As observações são pertinentes, visto que os sete leitores valem por setecentos, quando o assunto é estratégia. Tomo a liberdade de reproduzir os pontos centrais, embora quem quiser possa ler o texto, na íntegra (que também contém um merecido puxão de orelha no redator) na caixa de comentários.

“O fato é que este crime desorganizado que não possui nenhuma “pontotrinta” que funcione, nem armeiros para torná-las operacionais, nem acesso à munição apropriada etc, vem mantendo o domínio sobre grande parte da cidade e aterrorizando o restante, que, de fato, é uma forma de domínio. Nada mal para gente desqualificada em todos os sentidos.

Quanto ao “banho de política”, este existe há muito. A manutenção deste absurdo status quo não ocorre à revelia dos poderes públicos, mas com sua anuência: é uma forma de exercício de poder que se provou extremamente lucrativa para políticos (executivo e legislativo), juízes, polícias (militar e civil), os grandes traficantes, os distribuidores locais (os traficantes nas favelas), a população das “comunidades” que trabalha diretamente com estes (gerentes das “bocas”, malhadores/embaladores, fogueteiros, vapores, motociclistas/kombistas que levam e trazem fregueses e bagulho, olheiros, a “guarda armada” etc.), a população em geral, que se beneficia com o fluxo de dinheiro oriundo do tráfico e com a proteção para sua expansão territorial, ONGeiros de todo tipo, que alegam levar a “cidadania” para os menos favorecidos etc. etc. etc. A Favela é um excelente negócio para muita gente, não pode acabar.”

O comentário do LC faz todo sentido. Os pontos principais são: (primeiro) o “crime desorganizado”, mesmo desorganizado, consegue manter o controle de vastas áreas e grandes parcelas da população da cidade do Rio de Janeiro (e, diria o redator constrangido, de outras cidades brasileiras); (segundo) o “banho de política” já foi dado, e por isso que a situação chegou onde chegou.

Por concordar é que o redator gostaria de fazer algumas ressalvas. A primeira é que o banho foi de má política, e não de política. O problema de fundo é que os cidadãos há muito deixaram de acreditar nas instituições de Estado – inclusive na polícia e na Justiça – e também nas instituições civis – como a imprensa. Diria que altíssima porcentagem dos cidadãos acredita que TODAS as instituições são corruptas, e quando não são corruptas, são ineficientes; diria que altíssima porcentagem dos cidadãos acredita que soluções de exceção deveriam ser aplicadas, por permitirem o recurso direto de justiça imediata, como a execução sumária de marginais e corruptos. Bem, cabe aqui perguntar se a descrença geral nas instituições não contribuí, se é que não é a origem, da situação de descalabro que vive a cidade do Rio de Janeiro. E, acrescentaria: as situações que são REALMENTE as de descalabro NÃO SÃO aquelas que todos identificamos. Por exemplo: o fôro privilegiado para certas categorias de cidadãos, como juízes, membros do legislativo, portadores de diplomas de nível superior e militares, este sim é um descalabro de fundo (se a categoria não existe, devia ser criada). Esse “descalabro de fundo” permite que determinados cidadãos manipulem as instituições de modo a conseguir vantagens pessoais e – principalmente – se manterem impunes pelo maior tempo possível. São muitos, e muito bem conhecidos, os casos de membros dos legislativos municipal, estadual e federal, que se escondem por trás do “fôro privilegiado” para cometerem crimes (o caso da “família Jerominho”, no Rio de Janeiro, é exemplar).

Poderíamos passar muito tempo defiando esses “descalabros de fundo”, mas não é o caso aqui, e um exemplo é suficiente. O que é evidente é que esses descalabros se incorporam tanto à mentalidade política quanto (o que é pior) à tradição política nacional. Todos concordamos que o Legislativo, em nosso país, deixou de ser “produtor de soluções para os problemas nacionais” para ser O PROBLEMA. Mas não é o Poder Legislativo o problema. O Poder Legislativo brasileiro é filho legítimo de uma formação social altamente hierarquizada e historicamente discriminatória. Por outro lado, essa formação social tem outros filhos legítimos: um deles, menos conhecidos, são as instituições corporativas. É fácil falar mal do Legislativo, mas quem se dipõe a meter o dedo nos privilégios de classes profisisonais, por exemplo? Qual a razão de a OAB exigir privilégios que, no fim são discricionários, para seus filiados? Garantir a ampla defesa, responderia, e com razão, qualquer advogado. Mas garantir “ampla defesa” a criminosos notórios? Lembram o cavalo de batalha feito com a revista a advogados? São muitos os casos em que classes profissionais exigem privilégios discricionários (no limite, chegaríamos ao debate sobre a restrição ao exercício profissional, mas também não é o caso), sob as mais diversas alegações. Isso é política ou má política? E as leis absurdas, inaplicáveis ou feitas para “não pegar” (como, costuma-se a dizer, é de nossa tradição histórica)? E o fato de que encontramos, com freqüência, pessoas de boa formação e boa cultura, que acreditam sinceramente que leis devem fazer exceções (geralmente à elas mesmo)?

Essa última questão é séria, e esta já fica mais próxima do objeto aqui do blogue – questões militares. Afinal de contas, de onde mesmo vem o poder do tráfico de corroer as instituições? Bem ou mal, as boas instituições e as instituições perversas de nossa sociedade são desdobramentos de sua característica de “sociedade de direito”. E “sociedade de direito” corresponde, planamente, ao “estado de direito”, que, por sua vez, baseia-se na ampla abrangência da lei – ou seja, a lei é para todos. Uma pergunta interessante que se resulta daí é: porque certas pessoas acham que tem direito de COMPRAR drogas ilícitas, mas que os traficantes não tem direito de VENDER drogas ilícitas? Existe o mercado de drogas ilícitas porque existe o consumo de drogas ilícitas. Bingo! Onde existem compradores, logo surgem os vendedores. Não é o caso de se dizer que a culpa é do mercado ou do sistema capitalista (sugiro a quem não concordar com essa proposição, que examine a estrutura do mercado de drogas). A culpa é de uma assimetria de direitos. Isso sim, se resolve com política. Começando com um amplo debate em torno da questão da liberação da produção, circulação e consumo de pelo menos parte das chamadas “drogas ilícitas”. E que o debate não comece com as posições moralistas dos formadores de opinião, de que as drogas “fazem mal à saúde” e “destroem a família”. Se esses motivos forem realmente aceitáveis, então as empresas produtoras de bebidas alcoólicas as deveriam ser todas declaradas produtoras de drogas ilícitas e os donos de bares e botequins, traficantes de drogas. Essa seria uma das formas de desarmar o tráfico – cortando-lhe as fontes de poder, ou seja, o dinheiro. Sem dinheiro, sem armas. Sem dinheiro, os grupos armados que conseguem desafiar o poder público e “derrubar helicópteros” seriam reduzidos à sua real dimensão de criminosos pés-rapados.

Uma outra pergunta é – porque as autoridades insistem no confronto? As cenas de histeria das próprias autoridades públicas falam por si mesmas. Como a do secretário de segurança do Rio de Janeiro, em sua incansável busca pelo confronto. Ontem, numa espantosa declaração dada ao “vibrante” (que adora essas coisas), disse que ficaria feliz se a sociedade brasileira considerasse o episódio do helicóptero como “nosso 11 de setembro” (!!!). Realmente assim não dá. Ao invés de reclamar da “desigualdade de armamentos”, ou querer aumentar o contingente policial do estado para 60.000 efetivos, o bom secretário e seu chefe, o governador, deviam lutar por políticas públicas realmente inclusivas. Quem sabe um “PAC das favelas”, ou coisa do gênero. Talvez o chefe do secretário devesse parar de falar nas escolas e unidades de saúde públicas como se fossem problemas a resolver através de sugestões de privatização disfarçada. Por sinal, não seria esse um dos problemas? O Estado tentando, de tudo quanto é jeito, encontrar “no mercado”, formas de se livrar de suas obrigações? Claro, o redator sabe que o mundo mudou, mas sserá que mudou tanto assim a ponto de nós, pagadores de impostos, termos de pagar duas ou três vezes por serviços que deveriam ser cobertos por nossos impostos?

Gostaria de fechar esse debate (ou pelo menos, esta rodada…) lembrando um texto do historiador Tony Judt, que reproduzi meses atrás. Judt compôs uma magnífica “história da Europa desde 1945.” A história é sempre uma “mestra da vida”, como se dizia antigamente, ou, pelo menos, nos ensinava a não repetir burradas. Na respeitosa opinião do redator, o governador Sérgio Cabral deveria ler o curto trecho de Judt que foi veiculado por causa:: Apenas para lembrar… Se, conforme Mrs. [Margaret] Tatcher – “não existe essa coisa de sociedade”, então, com o passar do tempo, as pessoas haveriam de perder o respeito por bens definidos socialmente. E essim ocorreu, pois a Grã-Bretanha no final da Era Tatcher começou a assumir algumas das piores características do modelo norte-americano que a Dama de Ferro tanto admirava. Os serviços que permaneciam ligados ao setor público ficavam à míngua, enquanto a riqueza se acumulava nos setores “emancipados” da economia … Os espaços públicos ficavam ao deus-dará. O índice de delitos e deliqüência cresceu na proporção do aumento da fatia da população relegada à pobreza permanente.

Lembra alguma coisa? Pois é. Pensar tudo isso é pensar politicamente. É o tal “banho de política”, e não de má política. Os pés-rapados dominam os morros porque perdemos todos a capacidade de pensar politicamente. E quando perdemos tal capacidade, no tornamos incapazes de pensar estrategicamente. Nesse sentido, a única opinião razoável foi a do general que afirmou não ser um helicóptero de assalto arma para uso em teatro urbano. “A idéia de combater de helicóptero uma área superpovoada com gente inocente é loucura.“, diz o general. Totalmente correto. O descontrole do secretário e de tal monta que, em certo momento, ela afirma: “Nestas áreas, 99% das pessoas são boas, bons cidadãos. Nós temos que tirar o controle da mão dos bandidos e começar nosso trabalho novo…” E pretende fazer isso usando um helicóptero Bell 202 blindado e equipado com metralhadoras… Lamento dizer, mas enquanto prevalecerem políticas assim “inclusivas”, o tráfico e suas “pontotrinta” sem munição continuarão no comando das favelas do Rio de Janeiro. E o redator, perdendo tempo para explicar que urubu não é galinha preta::

Cultura material militar::”pontotrinta”: uma aula para redatores da imprensa carioca

SINCERAMENTE? O redator preferia voltar a falar de submarinos alemães e brasileiros. Mas como o “vibrante matutino” O Globo continua se dando ao direito de publicar asneiras como se fossem verdades absolutas e incontestáveis sobre o “crime organizado” carioca e seu “armamento que a polícia não tem”, causa::, querendo ou não, se sente na obrigação de contribuir para a cultura metralhadorística dos redatores especializados da imprensa nacional. Que perdoem este insignificante amador os insignes Roberto Godoy e Ricardo Bonalume Neto, jornalistas especializados (mesmo): vocês deviam pedir espaço nos manuais de redação dos jornalões em que trabalham…

E já que dez entre dez redatores especializados da imprensa diária parecem ter certa fixação obsessiva por “metralhadoras capazes de derrubar um helicóptero” e por “armas pontotrinta” (seja lá o que isto for…), vamos então introduzir o assunto::

Façamos de conta que estamos dando uma aula para um monte de entusiasmados pós-adolescentes diplomados em comunicação social. Todos estagiários nas editorias de cidade e polícia do “vibrante matutino”. Os meninos (e – melhor ainda – meninas) fazem perguntas que expressam suas angústias e aspirações e o redator de causa::, que nunca trabalhou em jornal algum (imaginem o conflito que isso produzirá na cabeça dos jovenzitos – existe vida inteligente fora da redação…), tenta responder. Bem, já surge (na imaginação delirante do redator) um bracinho levantado…

– Seu causa::, (certo, certo – o redator está plagiando descaradamente vocês sabem quem…) metralhadora “pontotrinta” derruba helicóptero?

– Meu filho, não existe uma coisa chamada “metralhadora pontotrinta”. Existe uma arma chamada “metralhadora”, inventada aos poucos, ao longo do século 19. Trata-se,a grosso modo, de uma arma capaz de disparar salvas em seqüência, uma vez que o atirador acione o sistema, ou seja, aperte o gatilho.

– Mas toda metralhadora não é “ponto trinta”? Não tem a “ponto trinta” 7.92, a “ponto trinta” 7.62, a “ponto trinta” 5.56? Eu escrevi isso e meu editor não disse nada…

– Bem, meu filho, seu editor deve ser ainda mais imbecil que você (cara de choro). “Pontotrinta” é a notação norte-americana, pois eles não usam o sistema métrico, como nós. Se você fizer uma conta simples, verá que 0.3 polegadas dá exatos 7,62 dos nossos milímetros. Isso corresponde à largura da base do projétil, onde ele se encaixa no estojo. No caso, “ponto trinta” equivale à notação .30-06, também chamada “munição Springfield”, sendo que o “zero-seis” equivale a 1906, ano em que essa munição foi distribuída. Ela se tornou base para diversas armas usadas ao longo dos 50 anos seguintes, pelas forças armadas dos EUA. Por sinal, “Springfield” não é a cidade onde mora Homer Simpson, mas um enorme arsenal (fábrica de armas) pertencente ao governo dos EUA, que ficava na cidade de Springfield, Massachusetts, até ser fechado em 1968.

Outro bracinho se levanta.

– Mas seu causa::, então todas as armas dos traficantes são “ponto trinta”? Tem AR-15 “pontotrinta” e SIG-Sauer “pontotrinta”?

– Não, filhinha (digamos que a pergunta tenha sido feita por uma linda aluna da PUC-RJ – o redator já está para bode-velho…). AR-15 e Sig-Sauer são fuzis de assalto, armas de infantaria modernas, fabricadas nos EUA e na Suiça, respectivamente, ambas (como a maioria das armas de infantaria, hoje em dia), usando munição 5,56X45 milímetros.

– Ihhhh… Quanto número…

– É o seguinte, filhinha. Toda munição, de modo geral, se divide em projétil, estojo, carga (que algumas pessoas chamam de “propelente”) e espoleta. Quando falamos em 5.56X45 milímetros, estamos falando sobre o diâmetro do projétil e o comprimento do estojo. Quer dizer, o estojo tem 45 milímetros de comprimento.

– Tão pequeininho assim? (ahhh, essas meninas criadas com kit-kat e ursinhos carinhosos…)

– Pois é, criança, mas o problema é que um projétil – que a maioria das pessoas chama de “bala” – é disparado em alta velocidade pela explosão de uma carga de pólvora, que gera certa quantidade de gás. Quando se expande em altíssima velocidade, o gás gera grande pressão e esta imprime velocidade ao projétil. É mais-ou-menos o mesmo que atirar uma pedra com um estilingue, só que a “pedra” tem um formato aerodinâmico, alcançando velocidade muitas vezes maior que a do som (uma bala de fuzil geralmente deixa o cano da arma percorrendo 800 metros por segundo, ou seja, quase três vezes a velocidade do som). No momento em que encontra um obstáculo, se este for muito duro, pode interromper a trajetória; se não for assim tão duro (como um peito humano ou um barraco de favela…), entra nele.

– Então os traficantes não usam “pontotrinta”?

– Eu acho muito difícil. Não é que não possam arrumar armas e munição desse calibre, pois a munição .30-06 ainda é amplamente usada nos EUA, em algumas unidades da Guarda Nacional, e principalmente para caça e tiro esportivo. Mas seria muito difícil conseguir em grande quantidade, pois não é mais usada como munição de guerra desde a época do Vietnam. Seria preciso arrumar munição de países subdesenvolvidos que ainda usam essas armas, mas mesmo assim é complicado. Estoques existiram em grande quantidade, no mercado norte-americano, até os anos 1960. Podia-se, então, encontrar facilmente até mesmo munição especializada, como traçantes e perfurantes de blindagem. Hoje em dia, lojas especializadas ainda têm estoques, mas grande parte dela estará inutilizada, caso tiver permanecido guardada durante muito tempo. A graxa de proteção é muito corrosiva e deve ser muito bem limpa dos cartuchos. Agora, vem cá – você acredita mesmo que favelados semi-analfabetos tomariam todo esse cuidado?

Um rostinho brilhante de indignação interrompe o redator para pedir a palavra.

-Isso é preconceito! Você está dizendo que favelados não poderiam aprender a usar armas?

(O redator, sentindo grande simpatia pelos professores universitários cariocas, suspira profundamente…) – Não, meu filho, não estou. O que estou querendo dizer é que alguém sem treinamento não sabe o que fazer, nesses casos. Ainda que o sujeito tenha passado por algumas das formações de elite de nosso Exército, ele teria de ser armeiro para tomar certas providências de manutenção, além de acesso à uma oficina especializada, o que não é muito fácil. A gente lê que a polícia, de vez em quando, prende armeiros trabalhando para o “crime organizado”. É o que vocês dizem. Mas quando alguém que conheça o assunto examina a notícia, nota que de fato, são pára-quedistas ou fuzileiros que sabem desmontar, limpar e remontar uma arma. Por exemplo, segundo essa notícia aqui (com certo prazer, o redator agita um recorte de O Dia), um ex-fuzileiro foi preso com 235 cargas de 7 milímetros e 15 cargas de 7.62 NATO, além de três revólveres… Se isso é um arsenal, então galinha preta é urubu…

– E não é??? (a expressão de espanto da bela estagiária da ECO-UFRJ é comovente)

– Não, criança, não é. Munição 7X57 milímetros foi usada pelas forças armadas brasileiras e por algumas polícias militares até os anos 1960, se tanto. A última vez que se fabricou, aqui no Brasil, esse tipo, foi em 1964, e ainda assim em pequena quantidade. O que nos faz voltar à tal ZB, uma venerável peça histórica da qual o coleguinha de vocês, de nome Sérgio Ramalho, tem feito um cavalo de batalha. A Lehky Kulomet existiu em dois calibres: o 7.92X57, munição Mauser tipo IS, que também era usada pela Tchecoslováquia antes da 2a GM. Que eu (e qualquer um) saiba, essa arma foi importada em 1927, em pequenas quantidades, na versão 7X57, “Mauser espanhol”. Bem, existe uma loja em Portugal onde o sujeito poderá comprar munição 7 milímetros de caça. Vocês até podem fazer uma vaquinha e comprar algumas cargas, pela Internet. De outro modo, o sujeito, para derrubar um helicóptero com uma coisa dessas terá que jogar tudo na cabeça do piloto. Até as pedras sabem que essa arma nunca existiu na versão “pontotrinta” de que vocês tanto gostam…

– Mas o tráfico está cheio de metralhadoras que podem derrubar qualquer helicóptero da polícia. O Serginho pesquisou…

– Mas claro que ele pesquisou – e não se deu ao trabalho de verificar a pesquisa, provavelmente por achar que policiais das delegacias especializadas, por usarem uma arma na cintura entendem do assunto. E uma coisa não tem nada com a outra. Como foi dito, o surgimento da munição Springfield (causa:: já abordou o assunto) deu origem a diversas armas. Uma delas foi a metralhadora Browning M1917, uma arma alimentada a cinta (a munição é arrumada para uso em fitas de tecido) e refrigerada à água, cujo conceito tinha sido estabelecido no final do século 19 por John Moses Browning, um dos maiores inventores dos EUA em todos os tempos. A M1917 foi adotada, como diz a notação, em 1917, como metralhadora pesada padrão do exército dos EUA. O maior problema da M1917 era o peso: a coisa toda (arma completa, tripé, carda de água refrigerante e um cofre de munição preparada com 250 salvas) pesava cerca de 50 quilos. Sua instalação em veículos e particularmente em aeronaves mostrou-se muito problemática e, por esse motivo, o exército resolveu buscar um outro modelo, mais leve e compacto. Assim surgiu a M1919, refrigerada a ar. Essa arma passou a ser produzida em série a partir de 1934, em diversas versões, para uso em tanques, aeronaves e como arma de apoio de fogo, apoiada em um pequeno tripé. O conjunto, sem munição, pesa pouco mais de 14 quilos. Na 2a GM, essa arma foi produzida em quantidades enormes.

– Mas como essas armas vieram parar aqui no Brasil? Foram contrabandeadas pelo Fernandinho Beira-Mar, como meu editor explicou? (outro suspiro desalentado do redator)

– Parte dessas quantidades acabou vindo parar no Brasil como armamento distribuído para a FEB, que era organizada e equipada como um divisão de infantaria regular do exército dos EUA. A partir dos acordos de defesa mútua, do final dos anos 1940, quando os EUA assumiram o treinamento do exército nacional, mais armas do tipo vieram para cá. Talvez o Exército tivesse em estoque, no fim dos anos 1970, quando foi retirada de serviço, umas 20.000 delas. Mas nessa época, já era muito ultrapassada. A munição ainda é fabricada, mediante encomenda, para exportação, pela Companhia Brasileira de Cartuchos. Mas não existe em estoque, no Exército Brasileiro.

– Então, seu causa:: o senhor está dizendo que o helicóptero caiu sozinho?

– Não. Estou dizendo que essa hipótese é a menos plausível de todas, porque não bastaria ter a arma, mas diversas providências teriam de ser tomadas, e duvido que o “crime organizado carioca” tenha organização suficiente para tomá-las. Não sei se vocês entenderam o fato de que, numa arma dessas, a munição tem de ser preparada, ou seja, arrumada em cintas especiais de algodão, isso se o sujeito dispuser de cargas suficientes. Ainda que dispusesse dessa munição, as forças armadas não as manteriam preparadas. Outro ponto curioso é que uma arma dessas, para disparar, precisa de um reparo especial, pois ela não pode ser operada diretamente das mãos do atirador. Poderiam gastar algumas horas desfiando detalhes técnicos, mas é perda de tempo: vocês não querem entender essas coisas (um falatório desencontrado surge das jovens boquinhas, em protesto).

– Nós queremos informar o público! Queremos a verdade!

– Acredito, mas então, tratem de pôr as coisas nos lugares certos. A questão da violência no Rio de Janeiro não será resolvida simplesmente equipando-se a polícia com armamento pesado, como metralhadoras de esquadra. Isso só provocará mais mortes. Vocês querem ver uma coisa? O jornal em que trabalham – e todos os outros – tentam passar a idéia de que existe uma guerra em curso. Não existe. Existe uma forma de abordar o problema totalmente equivocada, para começar, que é a militarização da questão. Aí o debate fica reduzido a quem tem mais armas. E nem dar as informações corretas vocês dão. (o redator levanta a mão, autoritariamente, quando começa, de novo, o falatório) E não adianta reclamar. Adianta pesquisar melhor; adianta não colocar o tráfico, um grupo totalmente desorganizado, como capaz de confrontar as autoridades. Não é. Querem ver um detalhe sobre o qual se deveria chamar atenção? O “escore de mortos”. O helicóptero chama atenção, mas no chão, as forças especiais da polícia mataram dez criminosos. Considerando que fossem todos, de fato, criminosos (no caso, é possível que fossem mesmo), isso significa que os caras não tiveram capacidade de se defender. Para um leigo, a impressão é que os policiais sobem o morro de forma atabalhoada, mas quem sabe olhar o material que vocês publicam vê que são forças muito bem treinadas para combate urbano. É preciso derrotar quem pega uma arma e desafia o Estado? É – com toda certeza. É preciso usar tropas de combate? É. Mas também é preciso ocupar o território, pois não estamos falando de território estrangeiro, mas de território nacional. Existe uma política de combate à violência? Parece que não, e aí reside o verdadeiro problema. Foi uma maluquice enviar um helicoptero de salvamento marítimo para uma missão voando em baixo nível (iam resgatar um policial que tinha ficado isolado), mas isso já foi feito diversas outras vezes. No chão, um cara com um fuzil de assalto provavelmente deu alguns tiros para cima e conseguiu aquilo que os norte-americanos chamam “the golden BB shot“. Nesse caso, foi azar dos PMs, mesmo. Adquirir uma aeronave blindada não vai resolver nada. Querem ver a questão por outro ângulo? Então leiam o que o colega de vocês, jornalista Elio Gaspari, escreveu ontem. Ou leiam o que o juiz Maierovith publicou ante-ontem; ou esse simplíssimo texto de Michel Misse, que já circula na rede tem tempo. Querem saber? A solução é, na verdade, muito simples. É como dizia aquela música: “polícia para quem precisa de polícia”. É preciso dar uma lavada nas favelas. Um banho. Um banho, mas não de polícia – de política::

É um bom dia para pensar::

É, talvez seja um bom dia para pensar sobre os incidentes da semana passada::

O medo faz parte da profissão. Se eu não tiver, posso morrer. Mas tem de ser controlado. O medo descontrolado faz você morrer também.

Cabo PM Daniel da Cruz, ao jornal O Globo, em 19 de outubro de 2009

Um menino novo, que entrou par a polícia almejando uma carreira bonita e que acaba assim, por descaso do governo. Existe verba para Olimpíadas, Copa. Agora, para equipar a polícia, dar vida digna aos que estão trabalhando para a segurança do povo, não. Eles dão helicóptero sem ser blindado e mandam o policial dar a cara para morrer. Até quando? A marginalidade está se sobrepondo.

Rosa Maria Barbosa, tia do soldado PM Edney Canazaro de Oliveira, morto na queda do helicóptero Fênix 3, do GAM/PMRJ 19 de outubro de 2009

Porque a polícia vem aqui? Não sei. Tem vez que a gente tá ali no larguinho, e eles aparecem. Tem vez que eles só dão uma volta e olham feio, mas tem vez que começam a atirar. E ainda dizem pra gente não correr, porque se correr é pior, porque só corre quem deve.

Evaldo M. S., morador do Morro do Juramento, no Rio de Janeiro, 2 de fevereiro de 2008

 

A população do Terceiro Mundo está se tornando a maior população urbana da história: no ano 2000 a população total dos países em desenvolvimento será quase o dobro da dos países industrializados, uma estimativa que será quatro vezes maior pelo ano 2025. Um grande número de pessoas migra da zona rural para os centros urbanos  em busca de uma melhor qualidade de vida  para encontrar piores condições. Incapazes financeiramente de sustentarem moradias urbanas, esses migrantes habitam favelas ou cidades de palha erguidas nos arredores  dos grandes centros, criando solo fértil para crises, conflitos, terrorismo, revolta e outras formas de violência política. Contribuindo também para a violência está a proliferação irrestrita de armas leves nos países em desenvolvimento. De acordo com os analistas Jennifer Taw e Bruce Hoffman, os futuros campos de morte dos países em desenvolvimento não serão as florestas impenetráveis em áreas montanhosas remotas, onde tradicionalmente as guerras de guerrilha têm ocorrido, mas em áreas edificadas super-povoadas, no interior ou em torno de centros urbanos, cujos moradores se tornam um inextrincável emaranhado no conflito rebeldes-governo.

Henry H. Shelton, general do Exército dos EUA – Forças de Operações Especiais – visão futura.