O redator insiste: só parece guerra, mas não é – é incúria geral, mesmo::


PARA gáudio da imprensa diária carioca e brasileira, o “crime organizado” dos morros da Cidade Maravilhosa conseguiu, afinal “derrubar um helicópetero”. Um AS350B2 do Grupo Aéreo e Marítmo da Polícia Militar do Rio de Janeiro foi abatido no sábado com um tiro, provavelmente de arma automática. De lamentável, principalmente a morte de dois policiais militares. A comemorar, o sangue-frio, espírito de sacrifício e (last but not least – ou sera o contrário?..) treinamento de primeira, demonstrados pelo piloto, que conseguiu evitar uma tragédia ainda maior, que seria a queda da aeronave sobre as pobres moradias dos trabalhadores, estudantes e donas-de-casa que nada tem com a história.

Até o momento, nenhum resultado pericial indicou o que realmente aconteceu. A aposta aqui do redator é que um projetil 7.62X51 mm NATO perfurou o tanque de combustível ou algum ponto sensível da turbina (o modelo 350B2 tem apenas uma). A primeira hipótese é a mais provável, em função do rápido incêndio que que tomou a aeronave logo após o pouso. De qualquer maneira, perícia de acidentes aéreos é coisa para peritos, e, sobre isso o redator não irá palpitar.

Mas de tiro, causa:: entende. Foi um tiro ao acaso? Quase com certeza – nisso o redator não apenas palpita, como aposta. Dificilmente o “crime organizado” teria em seu poder armas anti-aéreas (os motivos já foram explicados aqui no blogue mesmo). As armas do tráfico têm de ser relativamente fáceis de transportar e esconder. Esse é apenas um dos motivos. Querem outro? Todos quanto tiverem prestado serviço militar ou, pelo menos, estado perto de um fuzil-metralhador, sabem que usar um negócio desses é uma pedreira. Uma arma assim não é feita para disparar salvas singelas, mas apenas rajadas, o que a torna difícil de manter estável. Tomemos como exemplo uma das armas citadas pela reportagem do “vibrante matutino” carioca “O Globo”, a FN Herstal “MINIMI” 5.56X45 mm (arma do padrão NATO , usada também pelos EUA): pesa 7,5 quilos sem a munição, tem quase 80 centímetros de comprimento é feita, principalmente, para disparo parado, com o atirador deitado e o conjunto apoiado num bipé. Não é sem razão: sua função, como a de todo fuzil-metralhador, é dar apoio de fogo à esquadra de infantaria, nas mãos de um atirador especializado, geralmente mais “parrudo” que o resto da tropa (no Exército dos EUA, por algum motivo, esses caras são chamados de “Pig“). Só que a “MINIMI” não é uma arma contra aeronaves. O cartucho 5.56 NATO é muito pouco potente para lidar contra coisas minimamente protegidas – aeronaves ou veículos militares de blindagem leve (como, por exemplo, um Urutu ou um MOWAG). As armas anti-aéreas leves continuam operando munição 7,62 NATO.

O Exército Brasileiro não opera, até o momento, qualquer versão da “MINIMI“. Os Fuzileiros Navais adotaram, já fazem pelo menos dez anos, o calibre 5.56X45 NATO, e tem o M16A2 mod. 705 como arma-padrão e  a *M249 como fuzil de apoio de fogo do Grupo de Combate FN. Mais acessível a “usuários” do tipo que temos em mente seria a *MAG M1971. Trata-se de uma metralhadora leve de uso geral, calibre 7,62X51 mm. Num tripé, ou dotada de um bipé e operada por um atirador relativamente treinado (e muito forte…), essa arma, de mais de 11 quilos e aproximadamente 125 centímetros de comprimento, com cadência de fogo de até 1000 salvas por minuto. Essa é extremamente letal, num ambiente restrito. Aí sim, é perfeitamente possível derrubar uma aeronave. Só que o redator continua apostando que os “irregulares” que as forças especiais da PMERJ costuma a enfrentar, nessas ocasiões, não teriam cacife para organizar a estrutura necessária para defesa de ponto contra aeronaves. Se tivessem uma tal infra, poderiam perfeitamente botar o BOPE para correr. E não põem – pelo contrário, a lista de baixas foi de 10X0. Placar que, por sí, dá a quem entenda um pouco do assunto, diversas informações.

Mas, como em agosto (e sempre…), novamente os redatores “especializados” continuam entendendo profundamente do assunto. Além da “MINIMI”, outra arma citada, por exemplo, é uma metralhadora “.30” “calibre 7.92X57” “fabricada na antigo República da Tchecoslováquia”, “com capacidade de tiro capaz de derrubar um helicóptero”. Pela madrugada! Certamente entre os seis leitores (contadinhos…) de causa:: não consta nenhum redator do “vibrante”. Vejamos:  a Lehky Kulomet ZB (de zbrojovka, “empresa“) vz 26 (modelo 1926) é uma metralhadora leve que se tornou um dos desenhos mais bem sucedidos do período entreguerras. Só que o calibre 7.92X57 nada tem com o “ponto trinta”: um é o antigo Mauser da Wehrmacht, o “IS” (Infanterie, Spitz), que, até onde se saiba, poderá ser conseguido em museus ou em fábricas de material bélico para colecionadores e re-enacters (que não deve ser a diversão preferida dos traficantes cariocas). Já o “ponto trinta”, o “.30-06” Springfield, no jargão do exército dos EUA, ou 7.62X63 mm, foi o calibre utilizado em armas de infantaria dos EUA a partir de 1906 até os anos 1950. Ainda existe e é fácil de conseguir, pois grande quantidade de armas militares usa essa munição, inclusive as mal-fadadas “metralhadoras .30”, de que tanto falam os redatores do “vibrante”. O curioso é que essas armas poderiam estar mesmo nas mãos do tráfico carioca. O redator chato encontrou na Grande Rede uma lista de armamentos desativados e preparados para destruição, pelo Exército. Lá estão relacionadas pelo menos 100 CZs convertidas para o calibre 7 mm (o calibre do Exército até  a conversão para o padrão norte-americano, no início dos anos 1940). Também estão relacionadas nessa lista mais de mil (é isso aí – um milhar) *metralhadoras Browning dos modelos 1919A4 e M1919A6 (este último, uma preciosidade). Seria perfeitamente possível disparar uma arma dessas contra um helicóptero ou pequeno avião,  e destruí-lo. Ainda assim, o redator continua duvidando dessa possibilidade, pelos mesmíssimos motivos.

Pois então, a posição de causa:: continua a mesma de agosto – o problema não será resolvido pela pura e simples militarização da questão, e nem com o sacrifício disfarçado do estado de direito tão duramente conquistado, de modo a criar dois países – o nosso e o deles. O “vibrante”, hoje (19 de outubro), faz uma cobertura que procura analisar apenas o confronto – como se uma briga de bandidos pés-rapados fosse a invasão israelense contra a Faixa de Gaza (e certamente ninguém será, no caso, levado ao Tribunal Penal Internacional): quem dispõe de que tipo de armamento.Questões mais sérias, citadas apenas tangencialmente pela reportagem, não são sequer propostas para debate por quem as levantou. A mais séria dessas é a que coloca a possibilidade da ação de invasão de uma comunidade favelada bem no coração da cidade do Rio de Janeiro ter sido planejada dentro de várias penitenciárias federais de segurança máxima. Neste ponto, é bom citar o comentário de um dos seis leitores (contadinhos…) do blogue, o Luiz Candido.  Diz o LC: Não há como evitar a conclusão: não se trata mais de criminosos comuns, assim como o seu tipo de associação não é mais devidamente classificado em nosso código penal. Os conceitos usuais e o aparato jurídico disponível simplesmente não são suficientes para tratar de uma situação deste tipo. Devo dizer que continuo discordando. O fato de nosso código penal não dar mais conta das demandas da atual sociedade brasileira é um problema político, e assim tem de ser resolvido. Não será enquanto reús dos mais diversos artigos puderem ser eleitos para todos os níveis do poder legislativo; não será enquanto a venerável Ordem dos Advogados do Brasil continuar exigindo privilégios para seus membros, privilégios que acabam por beneficiar justamente os “organizadores” do crime organizado; não será enquanto os policiais, agentes penitenciários, defensores e promotores públicos não tiverem melhoradas ao máximo possível suas condições de trabalho; não será enquanto os trabalhadores, as mães, os estudantes – enfim, o povo das comunidades faveladas – não passarem a ser tratados como cidadãos, ao invés de um problema a ser resolvido com “… a arma Metralhadora Leve de dotação do Exército Israelense até que este desenvolvesse a IMI NEGEV…” (nem cortar direito um texto besta da Internet essa gente sabe – ô raça…) e com o “… caveirão do ar, o ‘helicóptero Huey’ II…” E, claro, com acusações de negligência e descaso para com o Rio, insinuadas contra o Exército Brasileiro. Este que, muito sabiamente, não quer colocar sobre a parte mais frágil do Rio de Janeiro um helicóptero de assalto tripulado por homens que vivem em constante estado de estresse. 

Analisar armamento e pegar as bobagens alarmistas de nossa imprensa é fácil. Difícil é oferecer respostas que nos façam a todos acordar do pesadelo de sábado passado::

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4 pensamentos sobre “O redator insiste: só parece guerra, mas não é – é incúria geral, mesmo::

  1. Pois eu acho até uma afronta chamar de “organizado” o crime no Rio de Janeiro. Fosse organizado, o pessoal iria continuar comprando seu entorpecente normalmente, o tráfico iria continuar lucrando e quem sabe, nos moldes da máfia napolitana, lavando uma parte do dinheiro em alguma atividade legalizada.
    É assim que funciona nas outras milhares de cidades brasileiras,desde as mais pequenas, onde o tráfico rola solto e todo mundo faz de conta que não vê.
    Há alguma coisa implícita nessa história toda, que não sei o que é, fazendo a bandidagem sair de sua zona de conforto e partir para o conflito com os grupos rivais, chamando a atençaõ da opinião pública e prejudicando, inclusive, seu lucro. Coisa que o crime organizado nunca permitiria.

  2. Post muito bom, como sempre. O comentário do diogo diz tudo, realmente seria pura estupidez, e eu achava que só os jornais daqui da bahia eram tão incompetentes em suas reportagens.

  3. Bitt, me parece que você interpretou o meu comentário anterior como uma proposta de tomada de algum tipo de iniciativa fora do contexto legal. Se for o caso, você está enganado. O que eu quis dizer é que a legislação deve ser atualizada para prever o tipo de crime que a bandidagem carioca (principalmente) vem praticando há anos. Eles não apenas cometem homicídios, roubos, tráfico de entorpecentes, sequestros, agressões, uso de grave ameaça e outros crimes devidamente listados em jurdiquês nas venerandas páginas dos nossos códigos. Me parece que um numeroso grupo – um bando – dotado de armas de guerra (uso exclusivo das forças armadas) que invade e domina determinada porção do território nacional, resistindo às tentativas das forças policiais e lhes causando baixas e destruição de material, é algo que talvez só possa ser encontrado em documentos que tratem de invasões por parte de potências estrangeiras. No período da Ditadura, havia algo a respeito na “Lei de Segurança Nacional”, mas com a “redemocratização”, não somente esta lei foi varrida, mas o próprio conceito se tornou inadmissível. Me parece que alguma “lei de proteção do estado democrático” deveria tipificar tais fatos, mas primeiramente seria necessário reconhecer que estes existem, o que é inconcebível, principalmente com os “compromissos internacionais” assumidos pelo Brasil: a Copa de 2014 e as Olimpíadas de 2016. Então, oficialmente vivemos num clima de paz e harmonia…

    Pensando bem, talvez isto nem fosse necessário. Bastaria que os bandidos simplesmente cumprissem, em regime fechado, o somatório das penas pelos crimes que cometeram. Mas a nossa alma generosa libera os piores facínoras após o cumprimento de não mais de 1/6 de uma pena normalmente branda. Enquanto criminosos puderem se candidatar a cargos eletivos, não temos chance de que qualquer mudança na legislação neste sentido. Eles não costumam dar tiro no próprio pé.

    Como de hábito, a sua análise sobre o material bélico foi excelente. Mas lembro que independentemente da incompetência dos jornais para analisar este aspecto da situação, a bandidagem continua entrincheirada, dominando as laboriosas comunidades que não tem absolutamente nada a ver com tais elementos (nunca os viram, não sabem quem são, se soubessem, certamente ajudariam os policiais) e derrubaram o helicóptero, quer com fuzil-metralhadora tcheca, com metralhadora israelense, com fuzil belga, russo ou americano, com espingarda de chumbinho, com atiradeira ou com mera cusparada. Este é o ponto.

    Diogo, pois é, parece que falta alguma coisa neste pessoal, talvez apenas maturidade para entender que um acordo geral para divisão dos territórios lhes seria muito mais benéfico. Mas o fato é que eles são suficientemente organizados para participar de forma decisiva da desorganização geral da sociedade brasileira. E os grandes chefes, o pessoal que mora em mansões nas melhores partes da cidade, que desfilam como figuras impolutas nas mais altas rodas, lavam, sim, em negócios suficientemente legalizados, este dinheiro sujo.

    Um abraço no Bitt e nos meus cinco seletos colegas,

  4. Diogo & Luiz Candido:

    Há uma solução triste já utilizada no passado mas, que diante do quadro geral de “dengrigolamento” que está o Rio talvez com mais alguns helicópteros abatidos seja implantada, a meu ver falta pouco pra isso.
    Seria uma operação nos moldes da “Operação Bandeirantes” com algum “Fleury” à frente.
    É triste dizer isso mas, pelas vias legais de hoje, creio que não há outra solução, infelizmente.

    :-/

    *sei que este comentário não é politicamente correto nem sou “direitoba” mas, sem um núcleo fechado e coeso com “carta branca” pra agir (claro, sem toda aquela tortura e assassinatos da Oban), a coisa não funciona. A maioria aqui pelo jeito nunca esteve na linha de frente, nem imagina que cobradores de ônibus possam estar a serviço do tráfico como em cidades do interior de São Paulo controladas pelo PCC, eles tudo vêem tudo ouvem e relatam, é só a ponta d’um iceberg.

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