Cultura material militar::”pontotrinta”: uma aula para redatores da imprensa carioca


SINCERAMENTE? O redator preferia voltar a falar de submarinos alemães e brasileiros. Mas como o “vibrante matutino” O Globo continua se dando ao direito de publicar asneiras como se fossem verdades absolutas e incontestáveis sobre o “crime organizado” carioca e seu “armamento que a polícia não tem”, causa::, querendo ou não, se sente na obrigação de contribuir para a cultura metralhadorística dos redatores especializados da imprensa nacional. Que perdoem este insignificante amador os insignes Roberto Godoy e Ricardo Bonalume Neto, jornalistas especializados (mesmo): vocês deviam pedir espaço nos manuais de redação dos jornalões em que trabalham…

E já que dez entre dez redatores especializados da imprensa diária parecem ter certa fixação obsessiva por “metralhadoras capazes de derrubar um helicóptero” e por “armas pontotrinta” (seja lá o que isto for…), vamos então introduzir o assunto::

Façamos de conta que estamos dando uma aula para um monte de entusiasmados pós-adolescentes diplomados em comunicação social. Todos estagiários nas editorias de cidade e polícia do “vibrante matutino”. Os meninos (e – melhor ainda – meninas) fazem perguntas que expressam suas angústias e aspirações e o redator de causa::, que nunca trabalhou em jornal algum (imaginem o conflito que isso produzirá na cabeça dos jovenzitos – existe vida inteligente fora da redação…), tenta responder. Bem, já surge (na imaginação delirante do redator) um bracinho levantado…

– Seu causa::, (certo, certo – o redator está plagiando descaradamente vocês sabem quem…) metralhadora “pontotrinta” derruba helicóptero?

– Meu filho, não existe uma coisa chamada “metralhadora pontotrinta”. Existe uma arma chamada “metralhadora”, inventada aos poucos, ao longo do século 19. Trata-se,a grosso modo, de uma arma capaz de disparar salvas em seqüência, uma vez que o atirador acione o sistema, ou seja, aperte o gatilho.

– Mas toda metralhadora não é “ponto trinta”? Não tem a “ponto trinta” 7.92, a “ponto trinta” 7.62, a “ponto trinta” 5.56? Eu escrevi isso e meu editor não disse nada…

– Bem, meu filho, seu editor deve ser ainda mais imbecil que você (cara de choro). “Pontotrinta” é a notação norte-americana, pois eles não usam o sistema métrico, como nós. Se você fizer uma conta simples, verá que 0.3 polegadas dá exatos 7,62 dos nossos milímetros. Isso corresponde à largura da base do projétil, onde ele se encaixa no estojo. No caso, “ponto trinta” equivale à notação .30-06, também chamada “munição Springfield”, sendo que o “zero-seis” equivale a 1906, ano em que essa munição foi distribuída. Ela se tornou base para diversas armas usadas ao longo dos 50 anos seguintes, pelas forças armadas dos EUA. Por sinal, “Springfield” não é a cidade onde mora Homer Simpson, mas um enorme arsenal (fábrica de armas) pertencente ao governo dos EUA, que ficava na cidade de Springfield, Massachusetts, até ser fechado em 1968.

Outro bracinho se levanta.

– Mas seu causa::, então todas as armas dos traficantes são “ponto trinta”? Tem AR-15 “pontotrinta” e SIG-Sauer “pontotrinta”?

– Não, filhinha (digamos que a pergunta tenha sido feita por uma linda aluna da PUC-RJ – o redator já está para bode-velho…). AR-15 e Sig-Sauer são fuzis de assalto, armas de infantaria modernas, fabricadas nos EUA e na Suiça, respectivamente, ambas (como a maioria das armas de infantaria, hoje em dia), usando munição 5,56X45 milímetros.

– Ihhhh… Quanto número…

– É o seguinte, filhinha. Toda munição, de modo geral, se divide em projétil, estojo, carga (que algumas pessoas chamam de “propelente”) e espoleta. Quando falamos em 5.56X45 milímetros, estamos falando sobre o diâmetro do projétil e o comprimento do estojo. Quer dizer, o estojo tem 45 milímetros de comprimento.

– Tão pequeininho assim? (ahhh, essas meninas criadas com kit-kat e ursinhos carinhosos…)

– Pois é, criança, mas o problema é que um projétil – que a maioria das pessoas chama de “bala” – é disparado em alta velocidade pela explosão de uma carga de pólvora, que gera certa quantidade de gás. Quando se expande em altíssima velocidade, o gás gera grande pressão e esta imprime velocidade ao projétil. É mais-ou-menos o mesmo que atirar uma pedra com um estilingue, só que a “pedra” tem um formato aerodinâmico, alcançando velocidade muitas vezes maior que a do som (uma bala de fuzil geralmente deixa o cano da arma percorrendo 800 metros por segundo, ou seja, quase três vezes a velocidade do som). No momento em que encontra um obstáculo, se este for muito duro, pode interromper a trajetória; se não for assim tão duro (como um peito humano ou um barraco de favela…), entra nele.

– Então os traficantes não usam “pontotrinta”?

– Eu acho muito difícil. Não é que não possam arrumar armas e munição desse calibre, pois a munição .30-06 ainda é amplamente usada nos EUA, em algumas unidades da Guarda Nacional, e principalmente para caça e tiro esportivo. Mas seria muito difícil conseguir em grande quantidade, pois não é mais usada como munição de guerra desde a época do Vietnam. Seria preciso arrumar munição de países subdesenvolvidos que ainda usam essas armas, mas mesmo assim é complicado. Estoques existiram em grande quantidade, no mercado norte-americano, até os anos 1960. Podia-se, então, encontrar facilmente até mesmo munição especializada, como traçantes e perfurantes de blindagem. Hoje em dia, lojas especializadas ainda têm estoques, mas grande parte dela estará inutilizada, caso tiver permanecido guardada durante muito tempo. A graxa de proteção é muito corrosiva e deve ser muito bem limpa dos cartuchos. Agora, vem cá – você acredita mesmo que favelados semi-analfabetos tomariam todo esse cuidado?

Um rostinho brilhante de indignação interrompe o redator para pedir a palavra.

-Isso é preconceito! Você está dizendo que favelados não poderiam aprender a usar armas?

(O redator, sentindo grande simpatia pelos professores universitários cariocas, suspira profundamente…) – Não, meu filho, não estou. O que estou querendo dizer é que alguém sem treinamento não sabe o que fazer, nesses casos. Ainda que o sujeito tenha passado por algumas das formações de elite de nosso Exército, ele teria de ser armeiro para tomar certas providências de manutenção, além de acesso à uma oficina especializada, o que não é muito fácil. A gente lê que a polícia, de vez em quando, prende armeiros trabalhando para o “crime organizado”. É o que vocês dizem. Mas quando alguém que conheça o assunto examina a notícia, nota que de fato, são pára-quedistas ou fuzileiros que sabem desmontar, limpar e remontar uma arma. Por exemplo, segundo essa notícia aqui (com certo prazer, o redator agita um recorte de O Dia), um ex-fuzileiro foi preso com 235 cargas de 7 milímetros e 15 cargas de 7.62 NATO, além de três revólveres… Se isso é um arsenal, então galinha preta é urubu…

– E não é??? (a expressão de espanto da bela estagiária da ECO-UFRJ é comovente)

– Não, criança, não é. Munição 7X57 milímetros foi usada pelas forças armadas brasileiras e por algumas polícias militares até os anos 1960, se tanto. A última vez que se fabricou, aqui no Brasil, esse tipo, foi em 1964, e ainda assim em pequena quantidade. O que nos faz voltar à tal ZB, uma venerável peça histórica da qual o coleguinha de vocês, de nome Sérgio Ramalho, tem feito um cavalo de batalha. A Lehky Kulomet existiu em dois calibres: o 7.92X57, munição Mauser tipo IS, que também era usada pela Tchecoslováquia antes da 2a GM. Que eu (e qualquer um) saiba, essa arma foi importada em 1927, em pequenas quantidades, na versão 7X57, “Mauser espanhol”. Bem, existe uma loja em Portugal onde o sujeito poderá comprar munição 7 milímetros de caça. Vocês até podem fazer uma vaquinha e comprar algumas cargas, pela Internet. De outro modo, o sujeito, para derrubar um helicóptero com uma coisa dessas terá que jogar tudo na cabeça do piloto. Até as pedras sabem que essa arma nunca existiu na versão “pontotrinta” de que vocês tanto gostam…

– Mas o tráfico está cheio de metralhadoras que podem derrubar qualquer helicóptero da polícia. O Serginho pesquisou…

– Mas claro que ele pesquisou – e não se deu ao trabalho de verificar a pesquisa, provavelmente por achar que policiais das delegacias especializadas, por usarem uma arma na cintura entendem do assunto. E uma coisa não tem nada com a outra. Como foi dito, o surgimento da munição Springfield (causa:: já abordou o assunto) deu origem a diversas armas. Uma delas foi a metralhadora Browning M1917, uma arma alimentada a cinta (a munição é arrumada para uso em fitas de tecido) e refrigerada à água, cujo conceito tinha sido estabelecido no final do século 19 por John Moses Browning, um dos maiores inventores dos EUA em todos os tempos. A M1917 foi adotada, como diz a notação, em 1917, como metralhadora pesada padrão do exército dos EUA. O maior problema da M1917 era o peso: a coisa toda (arma completa, tripé, carda de água refrigerante e um cofre de munição preparada com 250 salvas) pesava cerca de 50 quilos. Sua instalação em veículos e particularmente em aeronaves mostrou-se muito problemática e, por esse motivo, o exército resolveu buscar um outro modelo, mais leve e compacto. Assim surgiu a M1919, refrigerada a ar. Essa arma passou a ser produzida em série a partir de 1934, em diversas versões, para uso em tanques, aeronaves e como arma de apoio de fogo, apoiada em um pequeno tripé. O conjunto, sem munição, pesa pouco mais de 14 quilos. Na 2a GM, essa arma foi produzida em quantidades enormes.

– Mas como essas armas vieram parar aqui no Brasil? Foram contrabandeadas pelo Fernandinho Beira-Mar, como meu editor explicou? (outro suspiro desalentado do redator)

– Parte dessas quantidades acabou vindo parar no Brasil como armamento distribuído para a FEB, que era organizada e equipada como um divisão de infantaria regular do exército dos EUA. A partir dos acordos de defesa mútua, do final dos anos 1940, quando os EUA assumiram o treinamento do exército nacional, mais armas do tipo vieram para cá. Talvez o Exército tivesse em estoque, no fim dos anos 1970, quando foi retirada de serviço, umas 20.000 delas. Mas nessa época, já era muito ultrapassada. A munição ainda é fabricada, mediante encomenda, para exportação, pela Companhia Brasileira de Cartuchos. Mas não existe em estoque, no Exército Brasileiro.

– Então, seu causa:: o senhor está dizendo que o helicóptero caiu sozinho?

– Não. Estou dizendo que essa hipótese é a menos plausível de todas, porque não bastaria ter a arma, mas diversas providências teriam de ser tomadas, e duvido que o “crime organizado carioca” tenha organização suficiente para tomá-las. Não sei se vocês entenderam o fato de que, numa arma dessas, a munição tem de ser preparada, ou seja, arrumada em cintas especiais de algodão, isso se o sujeito dispuser de cargas suficientes. Ainda que dispusesse dessa munição, as forças armadas não as manteriam preparadas. Outro ponto curioso é que uma arma dessas, para disparar, precisa de um reparo especial, pois ela não pode ser operada diretamente das mãos do atirador. Poderiam gastar algumas horas desfiando detalhes técnicos, mas é perda de tempo: vocês não querem entender essas coisas (um falatório desencontrado surge das jovens boquinhas, em protesto).

– Nós queremos informar o público! Queremos a verdade!

– Acredito, mas então, tratem de pôr as coisas nos lugares certos. A questão da violência no Rio de Janeiro não será resolvida simplesmente equipando-se a polícia com armamento pesado, como metralhadoras de esquadra. Isso só provocará mais mortes. Vocês querem ver uma coisa? O jornal em que trabalham – e todos os outros – tentam passar a idéia de que existe uma guerra em curso. Não existe. Existe uma forma de abordar o problema totalmente equivocada, para começar, que é a militarização da questão. Aí o debate fica reduzido a quem tem mais armas. E nem dar as informações corretas vocês dão. (o redator levanta a mão, autoritariamente, quando começa, de novo, o falatório) E não adianta reclamar. Adianta pesquisar melhor; adianta não colocar o tráfico, um grupo totalmente desorganizado, como capaz de confrontar as autoridades. Não é. Querem ver um detalhe sobre o qual se deveria chamar atenção? O “escore de mortos”. O helicóptero chama atenção, mas no chão, as forças especiais da polícia mataram dez criminosos. Considerando que fossem todos, de fato, criminosos (no caso, é possível que fossem mesmo), isso significa que os caras não tiveram capacidade de se defender. Para um leigo, a impressão é que os policiais sobem o morro de forma atabalhoada, mas quem sabe olhar o material que vocês publicam vê que são forças muito bem treinadas para combate urbano. É preciso derrotar quem pega uma arma e desafia o Estado? É – com toda certeza. É preciso usar tropas de combate? É. Mas também é preciso ocupar o território, pois não estamos falando de território estrangeiro, mas de território nacional. Existe uma política de combate à violência? Parece que não, e aí reside o verdadeiro problema. Foi uma maluquice enviar um helicoptero de salvamento marítimo para uma missão voando em baixo nível (iam resgatar um policial que tinha ficado isolado), mas isso já foi feito diversas outras vezes. No chão, um cara com um fuzil de assalto provavelmente deu alguns tiros para cima e conseguiu aquilo que os norte-americanos chamam “the golden BB shot“. Nesse caso, foi azar dos PMs, mesmo. Adquirir uma aeronave blindada não vai resolver nada. Querem ver a questão por outro ângulo? Então leiam o que o colega de vocês, jornalista Elio Gaspari, escreveu ontem. Ou leiam o que o juiz Maierovith publicou ante-ontem; ou esse simplíssimo texto de Michel Misse, que já circula na rede tem tempo. Querem saber? A solução é, na verdade, muito simples. É como dizia aquela música: “polícia para quem precisa de polícia”. É preciso dar uma lavada nas favelas. Um banho. Um banho, mas não de polícia – de política::

Anúncios

3 pensamentos sobre “Cultura material militar::”pontotrinta”: uma aula para redatores da imprensa carioca

  1. Bitt, desta forma você não vai conseguir ganhar a pós-adolescente da PUC-Rio…

    O fato é que este crime desorganizado que não possui nenhuma “pontotrinta” que funcione, nem armeiros para torná-las operacionais, nem acesso à munição apropriada etc, vem mantendo o domínio sobre grande parte da cidade e aterrorizando o restante, que, de fato, é uma forma de domínio. Nada mal para gente desqualificada em todos os sentidos.

    Quanto ao “banho de política”, este existe há muito. A manutenção deste absurdo status quo não ocorre à revelia dos poderes públicos, mas com sua anuência: é uma forma de exercício de poder que se provou extremamente lucrativa para políticos (executivo e legislativo), juízes, polícias (militar e civil), os grandes traficantes, os distribuidores locais (os traficantes nas favelas), a população das “comunidades” que trabalha diretamente com estes (gerentes das “bocas”, malhadores/embaladores, fogueteiros, vapores, motociclistas/kombistas que levam e trazem fregueses e bagulho, olheiros, a “guarda armada” etc.), a população em geral, que se beneficia com o fluxo de dinheiro oriundo do tráfico e com a proteção para sua expansão territorial, ONGeiros de todo tipo, que alegam levar a “cidadania” para os menos favorecidos etc. etc. etc. A Favela é um excelente negócio para muita gente, não pode acabar.

    Mas estou certo que em 2014 e 2016 não teremos grandes problemas: haverá um “banho de política”, um acordão entre os políticos e os big bosses do tráfico para segurar a onda, não melar os grandes eventos que revelarão ao mundo a paz e a harmonia que reina entre nós.

    Abração,

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s