Reflexões de fim de ano::

Olha só, o ano está quase terminando… É uma boa oportunidade para reflexão ou seja, para que o redator pretensioso fazer o que mais gosta – falar sobre seu blogue. Como sabem os sete ou oito leitores, causa:: se pretende “recurso de pesquisa”. Isso significa que seu objetivo é apoiar, fornecendo conteúdo, todos aqueles que pretendam adquirir conhecimentos sobre os assuntos que abordados aqui – em termos gerais: história militar, história da tecnologia militar e cultura material militar (este último é mais difícil de definir, mas diz respeito a todos os artefatos que conformam e fazem parte da vida militar). Ao longo desse ano, o redator notou que os temas de interesse acabam conduzindo a outros. Assim, os três temas acima acabam se desdobrando, e assuntos sobre política nacional, internacional e a irmã siamesa delas, a estratégia, surgem freqüentemente. E um quarto tema acaba sendo figurinha fácil – a história. Os leitores já devem ter notado que, com certa assiduidade, causa:: aponta a necessidade de se conhecer história para que melhor sejam distrinchados os problemas e as vicissitudes que assolam nossa Pátria – e que, todos sabemos, não são poucos. Constatar esses problemas não significa “não gostar” de nosso país. Ao contrário. Como diz o historiador Benedict Anderson, “o nacionalismo é como um corpo saudável, e ter uma nacionalidade é considerado tão natural como ter um nariz”. O redator concorda, e acrescentaria que, para além da Nação, a Pátria é o sentimento individual de pertencimento à Nação. Entretanto, é curioso que alguns dentre nós, brasileiros, tenham a mania de falar mal de nosso país, como se fazer parte dele fosse algo a lamentar. E alguns dentre nós, brasileiros, insistem em confundir coisas que não deveriam ser confundidas, como, por exemplo, o país com o governo; ou falta de guerra com inutilidade das forças armadas. Ou “patriotismo” com “coisa de militar”. Neste quesito, os próprios militares entram na confusão, já que, em geral, parecem considerar-se mais “patriotas” do que o resto de nós. Por outro lado, muitos de nós, civis, parecem achar que “o patriotismo é o último refúgio dos canalhas“. Nem uma coisa, nem outra. Nesse momento, o redator invoca a história. A confusão, de ambos os lados, vem de que, de fato, todos conhecemos mal nossa história, e quando conhecemos, é uma “versão oficial” qualquer. A história, quando na “versão oficial” (aquela cheia de nomes, datas, batalhas, homens sérios, etc, etc), é um abrigo seguro e confortável para algumas certezas – que de certas, não tem nada. Por certo, conhecer a história que foi vivida, aquela cheia de luta, trabalho, construção, discordância, vitória, derrota – ou seja, aquela de que as pessoas, militares e civis, são os atores – é o melhor caminho para derrubar abrigos e certezas. A história mostra que, se não forem pertencimento e responsabilidade comum, o passado nunca é o que parece e o futuro, apenas incerto. Pois então, continuaremos, no próximo ano, às voltas com a história – com nosso presente e seu tributários, passado e futuro. É uma tarefa produtiva e divertida, ou seja – faz vale o tempo que o redator dedica à essas pesquisas e (espera ele), o tempo que os sete ou oito leitores gastam no blogue.

E, por ora, é só. Ou melhor, por um mês, o de janeiro, em que o redator tirará férias e o blogue ficará inativo. Isso não significa parada total, mas apenas que os dois tópicos semanais (média de postagens que foi mantida em 2009) provavelmente diminuirá muito. Em fevereiro, voltamos, com a expectativa de que os leitores voltem também::

Historinhas de Natal de causa::O Natal da FEB

Ano Novo (31 de dezembro, 1944) em Porreta, nos Apeninos. Da esquerda para a direita, capitães Figueiredo, Salamini, Pará; general de divisão Mascarenhas, tenente Abott; capitães Brandão, Romaguerra e Melo Cahu

Digamos que a Força Expedicionária Brasileira (FEB), uma das maiores contribuições brasileiras à luta contra o fascismo, também não era uma instituição natalina. Mas, ainda assim, o país que lhe deu origem era já naquele tempo, uma nação de católicos, onde o Catolicismo era uma espécie de religião oficial informal. Assim, a tropa brasileira foi para a guerra levando sua religiosidade junto com o equipamento. Melhor seria dizer que a religiosidade era parte do equipamento…

A Força Expedicionária Brasileira passou um Natal na Itália, o de 1944, debaixo de um frio infernal, visto que aquele inverno foi o pior registrado no continente europeu, em muitos anos. Ainda assim, os soldados brasileiros não deixaram de comemorar, e esse Natal quase sempre aparece nas recordações dos expedicionários ainda vivos. A maioria deles fala na saudade da família e dos amigos. Também comentam sobre a neve “que não era tão branquinha quanto aparecia nas gravuras natalinas que circulavam, naquela época” (como ainda hoje) pelo Brasil. O frio extremo (em alguns pontos dos Apeninos alcançou 20 graus negativos) interrompeu as operações, pois tornava o terreno montanhoso, já extremamente difícil para ações militares, impraticável. Os combatentes de ambos os lados se escondiam onde podiam. O soldado Aribides Pereira, da Bateria de Comando da Artilharia Divisionária, então com 24 anos, procedente de Santa Maria, no Rio Grande, recorda ter passado o Natal num casario nas proximidades de Porreta. Não deixou de ter festa: os soldados brasileiros arrumaram carne de carneiro fresca junto aos italianos. A festa deu direito, inclusive, a uma ou duas doses de grappa, uma aguardente italiana fortíssima, e que muitos dos que estiveram lá consideram a única forma eficaz de espantar o frio. O lugar tinha até árvore de Natal. Por sinal, são muitos os testemunhos que declaram que esse símbolo da festa cristã se espalhava apor toda a frente. Segundo o correspondente de guerra Joel Silveira, se viam árvores de Natal “nas estradas, nas vitrines das cidades, nos hospitais e no abrigo das patrulhas avançadas”. O depoimento de Joel, que foi correspondente dos “Diários Associados”  junto a FEB, sintetiza o que, com certeza, era o sentimento de todos os combatentes, em todas as frentes (talvez até entre os soviéticos, mas é suposição…): “Aqui no nosso quartel, o correspondente Bagley já levantou sua árvore e nela dependurou esferas iluminadas e pequenas velas de todas as cores. É um grande prazer, à noite, quando o frio é total lá fora, olhar aqueles verdes e tão retos ramos de pinheiro, distrair os olhos no mundo brilhante da árvore e pensar nos amigos e pessoas queridas que estão muito longe.”::

Historinhas de Natal de causa::Wehrmachtweinachten::

Dando continuidade a nosso levantamento de instituições nada natalinas afetadas pelo espírito de Natal, causa:: localizou um interessante artigo (em inglês) publicado pelo pesquisador Jason Pipes, do excelente sítio de história da Wehrmacht Feldgrau. Pipes descreve, com muitos detalhes, como eram as comemorações de Natal da Wehrmacht. Por mais esquisito que possa parecer falar em nazistas comemorando o Natal, devemos lembrar que pouco menos de 90 por cento da população da Alemanha, em 1939, se declarava cristã, protestante ou católica. A ditadura implantada em 1933 nunca chegou a declarar-se anti-religiosa ou anti-clerical, de modo que os alemães  continuaram a praticar suas crenças. Por sinal, muitos religiosos colaboraram intensamente com os nazistas. Para além, o Natal é uma festa particularmente significativa na Europa Central e do Norte, onde se originaram muitas das tradições associadas à festa natalina. A árvore de natal, por exemplo, é resquício de práticas das antigas tribos germânicas, assim como o uso de guirlandas de folhas de carvalho na porta das casas (visavam afastar os maus espíritos). Os nazistas tentavam capitalizar essas (e muitas outras) tradições ancestrais do povo alemão.

Muitos combatentes alemães, dos mais fanáticos, consideravam que a “superioridade ariana” derivava, dentre outros motivos, da religiosidade. O coronel SS e líder dos rexistas valões, Leon Degrelle, se declarava “profundamente católico”. Após a guerra, falou sobre o Natal que, em 1943, passou junto aos valões (belgas que reivindicavam uma nacionalidade própria) que atenderam em grandes números à convocação para formar uma força com o efetivo de brigada, que, para fins de propaganda, recebeu o nome de 28ª Divisão de Infantaria Waffen SS “Wallonien”:

“De madrugada, os tiros foram cessando. Nosso capelão, deu a Comunhão às tropas, que chegavam da frente, esquadrão após esquadrão, para tomar lugar na capela ortodoxa onde os padres valões, trajados em seus uniformes acinzentados juntaram-se, de modo verdadeiramente cristão, ao velho sacerdote do vilarejo russo, que usava sua mitra púrpura. Os corações, dos soldados, tristes e amargurados, se acalmaram. Seus amados pais, esposas e filhos, em casa, tinham participado da mesma Missa e recebido a mesma Eucaristia. Os soldados voltaram para suas posições com suas almas simples, puras como a grande estepe branca, que cintilava na manhã de Natal.”

Depois da guerra, Degrelle fugiu para a Espanha, ode viveu de forma considerada faustosa e espalhafatosa, sempre se declarando cristão e anticomunista. Abaixo, causa:: publica algumas fotos que mostram como era a comemoração de Natal entre as tropas da Wehrmacht. Não devia, por sinal, ser muito diferente daquelas festejadas pelo inimigo.

Efetivos da companhia de metralhadoras do Regimento de Infantaria 24, da 21ª Divisão de Infantaria, comemora o Natal nos alojamentos da unidade, em território polonês, dezembro de 1939.

A ceia de Natal, numa unidade não-identificada da Luftwaffe, provavelmente em dezembro de 1942. Muitas dessas fotos eram tomadas por elementos das Propaganda Kompanie, unidades equivalentes aos correspondentes de guerra dos aliados.

Graduados de uma unidade do exército (Heer; Wehrmacht - "Força Militar" - era a denominação do conjunto das forças armadas) recebem cartas e pacotes de casa. É, provavelmente, o Natal de 1943, pois o soldado no centro usa um uniforme do padrão de camuflagem denominado Erbsenmuster ("padrão grão de ervilha"), que começou a ser distribuído no final desse ano.

Historinhas de Natal de causa::

E quem disse que o espírito de Natal não existe? Pois existe, e se manifesta das formas mais esdrúxulas, e afeta as até mesmo as instituições menos natalinas que possamos imaginar. Querem uma? Fazem 50 anos que o NORAD (acrônimo de North American Aerospace Defense Command, Comando de Defesa Aérea e Espacial da América do Norte), coloca seus radares para monitorar a chegada de Papai Noel… Absurdo? Pois curtam a comemoração de Natal aqui de causa::.

Em 1955, um anúncio publicado nos jornais dos EUA, pela loja de departamentos Sears (que existiu aqui no Brasil, até o início dos anos 1990), convidava as crianças norte-americanas a fazer telefonemas para Papai Noel – e divulgou um número para contato. Tudo bem – se o telefone não estivesse miseravelmente errado. Aliás, diria o redator (e creio que os oito leitores concordarão…) que foi o número de telefone mais errado da história do telefone. De fato, o anúncio designava um aparelho que deveria tocar numa seção da cadeia de lojas, na cidade de Colorado Springs. Só que alguém no Departamento de Propaganda da Sears cometeu um baita de um engano. O número publicado era, de fato, da área de Colorado Springs, mas não o da loja. O pessoal que, na manhã do dia 24 de dezembro, foi encarregado de se fazer passar por “ajudantes de Papai Noel” e responder às chamadas das milhares de crianças, ficou à-toa.

Quem se viu no meio de uma tremenda roubada foi o Chefe de Operações do Comando Continetal de Defesa Aérea da Força Aérea (CONAD, Continental Air Defense Command, como era designada, então, a coordenação de defesa anti-aérea dos EUA), coronel Harry W. Shoup, cujo telefone ficava na base de Cheyenne Mountain, nas proximidades da cidade. O chefe do CONAD  não achou nada engraçado quando atendeu o primeiro telefonema. Uma vozinha infantil pedia, de presente, um foguete de brinquedo… Devia ser um trote. É provável que o militar tenha sentido vontade de mandar o interlocutor enfiar o foguete… Bem, vocês podem imaginar onde, em Papai Noel. Seja como for, conseguiu se controlar e desligou o  aparelho. Após vários telefonemas do mesmo teor, Shoup percebeu o que estava acontecendo e ordenou a cada membro desocupado de sua equipe que passasse a dar as coordenadas da “posição de Papai Noel” para toda criança que telefonasse para aquele número. A imprensa soube do acontecido, que recebeu ampla cobertura e foi considerado “show de bola” de relações públicas da Força Aérea. Na época do Natal, desde então, telefones são disponibilizados no centro de controle de Cheyenne Mountain e na base área de Peterson, no dia 24 de dezembro. Milhões de crianças fazem milhões de telefonemas, atendidos por centenas de militares voluntários. Nenhuma criança fica sem resposta, e a conversa com os “elfos” dura, em média, 30 segundos.

Em 1997, o NORAD passou a alimentar um sítio na Grande Rede, para alívio dos voluntários militares que passam, em média, duas horas conversando com as crianças. Entretanto, NORAD ainda mantém um Centro de Operações de Rastreamento de Papai Noel (TSOC – Tracks Santa Operations Center ) com linhas de telefone que entram em operação às 4:00 da manhã (hora local) em 24 de dezembro. causa::, prestando (para variar…) um serviço à paz mundial, coloca à disposição de seus leitores o número do telefone vermelho (ou será branco?..): 1-877-HI-NORAD (1-877-446-6723). Um membro da equipe do TSOC tentará explicar a exata localização de Papai Noel no espaço aéreo norte-americano, na hora do telefonema. Se o chegado de causa:: preferir um meio menos dispendioso (uma chamada de 1 minuto para Colorado Springs ficará em uns sete reais…), poderá, em 24 de dezembro, enviar um email (em inglês) para NORAD, e receberá de volta a última posição conhecida de Papai Noel.

O redator ficou imaginado se o momento ideal para um ataque nuclear contra o território norte-americano não seria a véspera de Natal…::

Acho que todos os leitores perceberam que o objetivo dessa historinha é dar ao redator a oportunidade de desejar a todos exatamente o contrário, e bem o contrário, do que costumamos a discutir e nos deleitar aqui no blogue – ou seja: fiquemos todos em paz, e que a paz seja, sempre, nossa maior e definitiva causa::

Uma moça (em uniforme) às Segundas::

Já que o Logan, um dos famosos “poucos” aqui do causa:: clama por assuntos relativos à Segunda Guerra Mundial…

Alguns especialistas dizem que os exércitos entraram na 1a GM usando uniformes de corte, e quando saíram, os combatentes trajavam uniformes de fábrica adaptados. É uma boa observação. Quando a 2a GM começou, os exércitos trajavam uniformes da 1a GM e, no fim do conflito, trajavam a moda ditada pelas novas doutrinas: velocidade, mecanização, logística. Assim, a moda militar segue a doutrina. Os uniformes alemães e norte-americanos, por exemplo, foram adaptados para o uso no ambiente estreito dos veículo de combate: túnicas mais curtas, jaquetas sem golas ou outros elementos que pudessem atrapalhar a mobilidade do combatente, agarrando-se em volantes, travas, alavancas.

Os uniformes femininos seguiram essa tendência, tendo seus desenhos adequados às novas funções femininas. Mas quais foam as “funções femininas” na 2a GM? Até muito recentemente, nenhum Estado pensaria em colocar uma arma nas mãos de uma mulher e mandá-la para o combate. De fato, até a 1a GM, a participação da mulher nas corporações militares era bastante restrita. Casos como os de Maria Quitéria, da condessa Emilia Platter, que serviu no exército polonês em 1831, de Mollie Bean e Calamity Jane, que serviram na Guerra Civil Norte-americana, a primeira no lado dos confederados, a segunda como batedora da cavalaria da União, são extremamente raros. Não configuravam alistamento feminino, mas mulheres que se disfarçaram de homem, para ter acesso às formações militares. Na 1a GM, as mulheres foram convocadas em números sem precedentes, mas, ainda assim, os casos de combatentes do sexo feminino ainda foram muito raros. Geralmente, as mulheres eram alistadas para servir em funções masculinas abertas pela convocação em números sem precedentes: policiais, funcionários públicos, trabalhadores em ferrovias e, principalmente, operários. Nos exércitos, a situação era a mesma, e as mulheres prestaram serviço principalmente em funções de escritório e como enfermeiras. Durante a Segunda Guerra Mundial, a situação não mudou, e as mulheres continuaram sendo convocadas a ocupar espaços abertos pela convocação maciça de homens. A moça acima é uma militar norte-americana, em uniforme classe B, de passeio. Observe-se que é um uniforme padrão do exército, adaptado para uso de convocadas: elementos como as cores e o desenho das peças, como o dolmã, são os mesmos usados pelos homens. Apenas a cobertura foi modificada, pois o quepi não era considerado funcional diante do corte de cabelo feminino. As cores e distintivos são exatamente os mesmos (claro, observando-se que cada posto e função tinha os seus). A participação em combate inexistia, embora algumas funções, como conduzir aviões até as bases de retaguarda (é o caso da moça da foto, que usa as asas de piloto da Força Aérea do Exército dos EUA) e como enfermeiras, em hospitais de campanha, fossem novidade. Nas forças armadas britânicas a participação feminina também foi grande, mas, como nos EUA, em funções consideradas “adequadas à constituição feminina“. Apenas a URSS mandou mulheres para a frente, em função da dramática falta de homens para convocação. Não se sabe exatamente quantas mulheres perderam a vida em combate, mas muitas combatentes soviéticas foram condecoradas como “Herói da União Soviética”::

Cultura material militar::As primeiras armas de fogo de infantaria::

parte3O redator imagina que, no momento que iniciar a leitura desta parte 3 da interminável série sobre a evolução histórica e tecnológica do tiro, os sete leitores (ou oito, sabe-se lá…), já estejam cansados de saber que dois problemas acompanham essa prática desde sua origem: a quantidade de energia impressa ao projetil e a estabilização do vôo, de modo que a trajetória possa ser controlada. O problema da quantidade de energia começou a ser resolvido com a invenção da pólvora negra; o da estabilização demoraria mais. Começou a ser ultrapassado com a invenção do processo chamado “raiamento” (em inglês, rifling, daí a expressão rifle). Tratava-se de escavar, no interior do cano, uma série de sulcos muito rasos, que lhe percorriam o comprimento em um movimento de hélice. O projetil, ao ser violentamente tirado da inércia pela expansão dos gases, passava a correr por esses sulcos e começava a girar sobre si mesmo. O efeito giroscópico da rotação axial estabilizava o vôo, tornando a trajetória mais precisa e previsível.

Esse processo foi inventado na segunda metade do século 15, na Europa Central. É provável que, inicialmente, o raiamento tenha visado aproveitar melhor a pressão gerada pelos gases da explosão, visto que as primeiras raias eram retas, e foram aplicadas em armas de caça, de alto luxo. Geralmente, um par de raias dividia o interior do cano em duas seções. (O Museu Histórico Nacional, no Rio de Janeiro, possui um exemplar desse tipo de arma em suas coleções). Havia, entretanto, o problema da dificuldade do carregamento, que ficava mais lento. Pressionar o projetil ao longo do cano, por meio da vareta, o amoldava às raias e fazia o processo funcionar, mas exigia força e certo cuidado. Em armas de caça, isso não era problema; em armas de combate carregadas pela boca, essa operação tinha de ser rápida, e, como já vimos, o projetil simplesmente “escorria” pelo cano, empurrado suavemente até alcançar a câmara. Os especialistas dizem que, em meados do século 18, um soldado dotado de cartuchos conseguia carregar um mosquete Brown Bess em cerca de vinte segundos; já um rifle de caça tomava do atirador cerca de um minuto para um tiro cuja precisão (caso fosse um bom atirador) podia alcançar 400 metros. Determinados rifles, armas de caça de pederneira feitas nos EUA por armeiros de origem alemã, também se distinguiam pelos longos canos, forma de potencializar a expansão dos gases. Ainda no século 18, a habilidade de civis que lidavam com armas de caça, particularmente na Europa Central, levou à criação de tropas especializadas, formadas por homens que sabiam lidar com “canos raiados”: Jägern, Chasseurs, Cazadores, eram os nomes que receberam esses soldados. Formavam uma espécie de infantaria ligeira, que podia se deslocar buscando melhores posições para o tiro. Nos último quartel do século 18, a eficiente participação de caçadores civis nas milícias que combateram os ingleses durante a Guerra da Independência dos EUA, e depois as guerras contra a França, levaram ao estudo, pelos ingleses, de novas táticas baseadas no tiro de precisão, e a formação de tropas especiais, os Corpos de Rifles. No caso, “rifle” designa um soldado equipado com esse tipo de arma. O Departamento de Armamento (em inglês, Board of Ordnance) foi então autorizado a encomendar certa quantidade de rifles de caça fabricados na Prússia, para testes. Uma série de equívocos, ao longo do processo, despertou certa implicância com a nova arma, e atrasou sua adoção. O grosso das tropas de infantaria continuou equipado com mosquetes e o Board começou a buscar, na indústria local, uma arma semelhante.  

O modelo escolhido (embora não se saiba exatamente o motivo) foi o Rifle Baker, produzido pela oficina do armeiro Ezequiel Baker, que baseou seu produto numa arma de produção prussiana, utilizada pelas Tropas de Caçadores daquele reino. A arma apresentada tinha muitas características comuns com os mosquetes do exército, os Brown Bess, a começar pelo calibre .75 (19,05 mm), e o cano de 32 polegadas (81,3 cm), se bem que, posteriormente, algumas modificações foram feitas, para adequar a nova arma ao uso da cavalaria. Os rifles eram carregados pela boca e podiam ser equipados com um enorme sabre-baioneta com uma lâmina de 61 cm.

Entretanto, se o raiamento melhorava o rendimento do tiro, não resolvia todos os problemas e ainda criava alguns novos. Um deles era, exatamente, a dificuldade do carregamento. Um manual da época indicava o seguinte procedimento: “O soldado, por seu lado esquerdo, coloca o rifle no chão deixando-o deslizar através da mão esquerda, com o cano para cima, com cuidado, mantendo-a perto da boca da arma, o polegar esticado ao longo do suporte de madeira do cano, e a coronha apoiada entre os calcanhares. O cano fica entre os joelhos, que devem estar dobrados para a tarefa; o cartucho é posto dentro do cano e a vareta, posicionada entre o indicador e o polegar da mão direita. A vareta, agarrada com a esquerda, e colocada em posição, forçada cerca de três e meio  centimetros dentro do cano. O cartucho é então empurrado até cerca de 9 centímetros; o soldado se coloca em posição ereta novamente, retira a vareta com a mão direita e a coloca no suporte.” Um atirador muito bem treinado levaria uns 40 segundos para completer toda a operação.

Apesar dos problemas, o Baker se tornou o primeiro rifle a ser distribuído em grandes números entre as tropas inglesas, a partir de 1801. Conforme a guerra contra Napoleão se desenrolava, novos modelos foram sendo introduzidos, inclusive uma versão mais curta e leve, destinada à cavalaria.  

Custaria até que os rifles se tornassem comuns. O processo de raiar canos ainda era complexo embora a tecnologia da Revolução Industrial Inglesa tivesse melhorado os materiais disponíveis. O processo continuou a ser feito com ferramentas manuais e envolvia um grau bastante alto de imprecisão, o que não impediu a melhora da qualidade do tiro. Entretanto, passaria ainda algum tempo até que armeiros e atiradores percebessem que ainda havia um terceiro elemento envolvido no processo: o desenho do projetil. O formato das balas não ajudava, mas algum elemento tornava o tiro em cano raiado mais preciso. Pela comparação com flechas e outros projetis alongados, os engenheiros perceberam que o formato alongado funcionava melhor, em vôo, quando em giro axial. Um outro detalhe que eles perceberam é que, ao ser forçada através do cano, adquiria um formato alongado.

Os séculos 18 e 19 foram, sem sombra de dúvida, os séculos da ciência. A pressão exercida pela expansão do sistema econômico sobre o conjunto da sociedade levou a que a atividade científica se tornasse parte integrante do processo produtivo. De observadores e intérpretes da natureza, em busca de um conhecimento racional sobre a realidade, os cientistas se tornaram elementos de uma cadeia cujo objetivo era ampliar a capacidade de produção da indústria. O século 19 se tornaria o século do vapor e do metal, da produção mecanizada e da expansão industrial. Os processos laboratoriais de experimentação foram incluídos na estrutura da indústria, com a produção de conhecimento relativa. Isso significa que estava terminando a época do erudito amador, generalista interessado em todas as ciências, foi deixada para trás, com século 18. Os novos métodos permitiam medições que tornavam os resultados das experiências mais precisos.

E o século 19 foi também o da industrialização da guerra. As guerras napoleônicas foram as últimas travadas com tropas formadas e equipadas segundo a lógica pré-industrial, lutadas por soldados com equipamentos produzidos em oficinas que ainda usavam métodos artesanais. Os novos projetis são produtos dessa nova organização social.::

Cultura material militar::As primeiras armas de fogo de infantaria::

parte2Estivemos examinado, ao longo das últimas postagens, alguns tópicos relativos à teoria e história do tiro e das armas de fogo. O redator imagina que os sete leitores (contadinhos…) já saibam, à esta altura, que o tiro por arma de fogo começou a se desenvolver no final da Idade Média, depois da introdução, no Ocidente, da pólvora negra e das primeiras armas de fogo. Essas tinham diversas limitações, que foram sendo resolvidas conforme a tecnologia, em diversos campos, avançava. A ciência do tiro, de início, era empírica, ou seja, ia se desenvolvendo por uma série de experiências de acerto e erro. Os maiores problemas eram decorrentes da baixa confiabilidade da pólvora, das limitações da metalurgia e o pouco conhecimento de física. O tiro é influenciado por diversas variáveis que têm de  ser calculadas a partir de questões matematicamente formuladas. Por sinal, sejamos mais precisos: o tiro é uma questão de matemática e de física. A precisão só pode ser implementada conforme a física se desenvolve e a matemática consegue traduzir, naquela estranha e fascinante linguagem, as questões colocadas pelos artilheiros e atiradores. Dentre elas, talvez a principal fosse a criação de instrumentos de pontaria que permitissem ao atirador um certo controle sobre a trajetória do projetil. De fato, esse problema estava ligado à diversas condicionantes.

Por exemplo: qual a carga de pólvora necessária para fazer o projetil voar? Uma quantidade muito pequena tornava o tiro inocuo; muito grande, rebentava a arma. Ferramentas matemáticas (equações) que permitissem calcular a potência da explosão só surgiram no século 18. Até então, era um exercício de experimentação. As quantidades de pólvora iam sendo reguladas, e, após determinadas, passavam a constar de manuais que ensinavam aos soldados as quantidades corretas, sem muitas perguntas. O atirador conduzia, no século 16, diversas unidades de uma espécie de bisnaga, chamada *polvorinho, com as quantidades adequadas de pólvora. Para carregar a arma (uma explicação mais detalhada e – louvado seja! – em português, aqui) esta era posta com a coronha no chão (o “cabo” da tal bengala) e a pólvora despejada lá dentro. Um pouco de estopa era socada, por intermédio da vareta, sobre a pólvora e, em seguida, o atirador colocava a *bala (essa palavra deriva do inglês ball, “bola”; o substântivo inglês bullet, por sua vez, deriva do francês boulette, “bolinha“) no cano e socava tudo com uma peça integrante do conjunto, a vareta. O projetil descia através do cano com facilidade por ser este último liso e estar aquele envolvido em uma bucha, um pequeno pedaço de couro embebido em óleo ou gordura. O passo seguinte era expor a caçoleta e colocar nela um pouco de pólvora de escorva, uma pólvora mais fina destinada a servir de “pavio”. A escorva ficava em outro recipiente, de modo que é possível calcular o número de operações necessárias para carregar um arma, dessa maneira. Em seguida, o atirador puxava o cão para trás, até que ficasse preso com a mola distendida. Para o disparo, a arma era apoiada numa forquilha (uma coisa dessas podia pesar até vinte quilos…) e o disparo feito. Entre a ignição da escorva e a da carga, ocorria certo tempo, visto que a pólvora negra era de queima lenta. Isso significava que o atirador deveria ficar firme, no momento da primeira explosão, esperando que a carga explodisse – e a primeira explosão gerava um monte de fumaça quente e fagulhas, bem próximo ao rosto do coitado… Que Deus protegesse esses primeiros atiradores – e eles deviam viver rezando, já que as principais guerras do período eram por motivos religiososos. Nessas guerras, talvez para matar mais rápido a cavalaria católica, o campeão da causa protestante, o Rei Gustavo Adolfo, da Suécia,  durante a Guerra dos Trinta Anos, introduziu uma série de importantes inovações teóricas e técnicas, todas relativas à implementação do tiro em combate. Uma dessas foi a do cartucho, que não passava de uma carga preparada para uso, levada pelo atirador em um embornal. O cartucho reunia, numa embalagem de papel encerado, o projetil, a carga e a escorva, e eliminava a necessidade da bucha, visto que o papel que enrolava tudo passava a cumprir essa função. A tropas de Gustavo Adolfo atiravam muito mais rápido que todas as outras, e logo a inovação se difundiu. entre seus aliados e logo entre todos os beligerantes.

A questão é que, por serem as armas de cano liso, o projetil ficava meio solto lá dentro. A folga entre a parede interna do cano e o projetil decorria do fato de que ele tinha de deslizar para dentro com alguma facilidade. Só que essa folga criava uma pequena folga entre as paredes do projetil e as do cano, e a pressão exercida pelo gás gerado pela explosão da pólvora acabava sendo desigualmente distribuída. O resultado é que o projetil iniciava sua corrida até a boca ricocheteando na parede interna do cano. As consequências resultantes dessa situação acabavam fazendo com que a trajetória final não pudesse ser minimamente controlada (dependendo da seção do cano da arma com que o projetil se chocasse por último, ele podia iniciar o vôo mais para cima, para baixo ou para os lados). Além do mais, o projetil deixava o cano numa rotação axial que não era suficiente para vencer a resistência do ar. 

A idéia de fazer um projetil girar em torno do próprio eixo (esse movimento é chamado “hélice”, um curva cuja torção é constante e proporcional à curvatura), ao longo de uma trajetória tensa não era nova. De fato, era aplicada a projetis de formato alongado, tais como flechas e dardos, de modo a compensar a resistência do ar. Em sistemas mecânicos de lançamento, imprimir ao projetil um movimento de rotação, ainda que instável, não era difícil. Em flechas, uma carenagem constituída por penas ou qualquer elemento que oponha suficiente resistência à passagem do ar, situada na extremidade posterior do corpo, era suficiente para provocar um movimento giratório. Como o ar é um fluído, a resistência a penetração de um corpo (chamada de “arrasto”) é inversamente proporcional à capacidade desse corpo em rompê-la, ou seja, à quantidade de energia impressa a ele e existente no elemento de oposição. O problema seria, então, a quantidade de energia. A invenção da pólvora negra colocou à disposição dos projetistas de armas um processo de geração de energia que resolveu o entrave da quantidade, embora tenha criado outros. Um deles, talvez o principal, foi o descrito mais acima, diretamente relacionado com o formato desses primeiros projetis. Mas levaria tempo até que cientistas e engenheiros da época (que não eram chamados “cientistas” e “engenheiros”) conseguissem transformar a invenção num processo prático. Examinaremos os motivos na parte 3::

Datas de causa::7 de dezembro, 1941::

As datas de causa:: são comemoradas quando o redator lembra de alguma, relevante em termos dos temas abordados aqui no blogue. Pois é… Hoje de manhã, lendo a imprensa diária pela Internet (aquela imprensa não paga que agora os jornalões incompetentes querem cobrar), lembrei que, 68 anos trás, em 1941…::

Dia da Infâmia, ataque traiçoeiro, e tal. Mas, no ponto de vista de causa:: uma operação estratégica muito bem planejada, na qual o poder aéreo se consolidou como elemento integrante do poder naval. A fotografia, tirada no dia seguinte ao ataque, é simbólica: mostra dois contratorpedeiros, Downes e Cassin, da classe Mahan, e, ao fundo, o encouraçado USS Pennsylvania, danificado. Foram todos apanhados numa doca seca. O Downes foi atingido por uma bomba penetrante de blingagem destinada ao encouraçado, lançada por um bombardeiro de mergulho, e saiu do ataque tremendamente danificado; o Cassin sofreu menos. O Pennsylvania, com danos medianos, voltou para a Califórnia por seus próprios meios. Os norte-americanos sofreram uma tremenda pancada no saco e no ego, da qual levariam algum tempo para se recuperar. Mas para os japoneses foi pior: os navios-aeródromos de esquadra não estavam na base. O que ninguém (nem os japoneses) percebeu com clareza, é que encouraçados, dali por diante, não fariam muita diferença e, nos meses seguintes, e pelo resto da guerra, teriam muito pouca utilidade.::

Um rapaz (das Forças Especiais) às Terças::

Tudo bem, ainda é segunda, mas o redator não resistiu esperar até amanhã… Caros sete leitores (ou oito, sei lá…), conheçam Yang Guoxigiang. Porque vocês devem conhecer um obscuro piloto da Força Aérea do Exército de Libertação do Povo da China? Boa pergunta… Leia para saber. A entrevista foi publicada na edição de janeiro de 2010 da Revista Air&Space Smithsonian, feita pelo repórter especializado Bob Bergin. A entrevista completa (e o redator tem certeza que os sete leitores vão querer ler) pode ser lida em www.airspacemag.com::

O piloto Yang Guoxing, da Força Aérea do Exército de Libertação do Povo da China, quando em treinamento, por volta de 1959. Em 1971, no período final da Revolução Cultural, os postos tinham sido abolidos das forças armadas chinesas, por serem "desvios burgueses". Haviam apenas "oficiais" e "soldados", o que não necessariamente traduzia uma cadeia hierárquica, pois as unidades eram "comandadas democraticamente" por assembléias populares (era esse exército que pretendeu entrar em combate contra a URSS, em 1968...). Yang era, então, um jovem oficial, mas sua competência estava acima de questão, pois o programa nuclear chinês foi mantido, de forma sensata, fora do alcance dos Conselhos Revolucionários e dos Guardas Vermelhos.

Nascido nas remotas montanhas da província de Yunnan, Yang teve de se esforçar muito para freqüentar a escola. Tornou-se guerrilheiro e depois soldado do Exército de Libertação do Povo. A carreira militar levou-o à função de piloto de ataque ao solo. Nos anos 1970, quando a China desenvolveu o caça tático supersônico Qiang 5, ele foi selecionado como piloto de teste, tendo tido papel fundamental no desenvolvimento da aeronave. Ele também foi selecionado para lançar uma bomba de hidrogênio em teste. A detonação bem sucedida colocou o armamento termonuclear chinês em status operacional.

Seu primeiro vôo de lançamento falhou. O que deu errado? Em 30 de dezembro de 1971 eu decolei e subi até a altitude de 300 metros, e então aproei em direção ao alvo em Lop Nor, a 300 quilômetros de distância. A cerca de 11 quilômetrosdo alvo, iniciei uma subida de 45 graus até alcançar o teto de 1200 metros, quando liberei a bomba. Nada aconteceu! Ela não se soltou do cabide onde estava presa (nota do editor:: – observem que o sujeito fala de uma bomba de hidrogênio como se fosse uma garrafa de limonada). Havia três mecanismos de liberação iguais, dois dos quais eram reservas. Nenhum deles funcionou. Segui os mesmos procedimentos na segunda passagem, mas outra vez nada aconteceu. A mesma coisa na terceira passagem. Eu estava ficando sem combustível. Poderia abandonar a aeronave e deixá-la cair na região próxima de Lop Nor, onde se espatifaria sem ferir ninguém. Ou poderia tentar levá-la de volta à base. Refleti sobre o tempo e esforço gastos no projeto da bomba-H, e o dinheiro que custara ao povo chinês, e tomei minha decisão. Quando notifiquei a torre de controle que estava retornando com a bomba, soaram as sirenes de evacuação. Todo mundo pôs máscaras de gás e correu para dentro dos abrigos.

Qual era sua maior preocupação, durante o retorno? Pendurada no cabide, a bomba ficaria a aproximadamente 10 centímetros acima da pista de pouso, e havia a possibilidade de que ela explodisse ao contato. Todo mundo naquela base ainda lembra meu nome: eu quase levei até eles o Juízo Final. Mas fiz um pouso perfeito. Quando cortei o motor, tudo estava em silêncio. Todo o pessoal estava nos abrigos. Eu não podia deixar a cabine: não havia escada que me permitisse sair do avião. Eu chamei a torre para pedir ajuda. O pessoal lá estava furioso, pois eu havia posto dez mil vidas em risco. Disseram-me que me arrastasse até a cauda e pulasse de lá. Como eu trouxera de volta, inesperadamente, a bomba-H de teste, não havia viaturas de serviço equipadas com escudos de segurança (antirradiação). Fiquei no campo de pouso por longo tempo.

O que causou o defeito? Os mecanismos de liberação do cabide estavam guardados em uma área aquecida, até poucos momentos antes de serem montados na aeronave. Depois da decolagem, da rápida subida e do choque com o ar frio, a súbita mudança de temperatura pode ter afetado as tolerâncias do material e emperrado o mecanismo.

E seu vôo seguinte? Em 7 de janeiro de 1972. Dessa vez, quando liberei a bomba, ela se separou do avião. Reverti o curso de forma a deixar a área de explosão, e ativei os escudos que me protegiam dentro da cabine. A 12 milhas da área de detonação, vi um grande clarão. A onda de choque sacudiu o avião como se fosse um barquinho no oceano, e então vi a nuvem em forma de cogumelo. Meu nome foi mantido em sigilo até que fui formalmente reconhecido, numa conferência comemorando os sucessos da bomba-A, da bomba-H e do primeiro satélite artificial, os mais importantes projetos desenvolvidos pelo Exército de Libertação do Povo, depois da fundação da República Popular da China::