Um rapaz (das Forças Especiais) às Terças::


Tudo bem, ainda é segunda, mas o redator não resistiu esperar até amanhã… Caros sete leitores (ou oito, sei lá…), conheçam Yang Guoxigiang. Porque vocês devem conhecer um obscuro piloto da Força Aérea do Exército de Libertação do Povo da China? Boa pergunta… Leia para saber. A entrevista foi publicada na edição de janeiro de 2010 da Revista Air&Space Smithsonian, feita pelo repórter especializado Bob Bergin. A entrevista completa (e o redator tem certeza que os sete leitores vão querer ler) pode ser lida em www.airspacemag.com::

O piloto Yang Guoxing, da Força Aérea do Exército de Libertação do Povo da China, quando em treinamento, por volta de 1959. Em 1971, no período final da Revolução Cultural, os postos tinham sido abolidos das forças armadas chinesas, por serem "desvios burgueses". Haviam apenas "oficiais" e "soldados", o que não necessariamente traduzia uma cadeia hierárquica, pois as unidades eram "comandadas democraticamente" por assembléias populares (era esse exército que pretendeu entrar em combate contra a URSS, em 1968...). Yang era, então, um jovem oficial, mas sua competência estava acima de questão, pois o programa nuclear chinês foi mantido, de forma sensata, fora do alcance dos Conselhos Revolucionários e dos Guardas Vermelhos.

Nascido nas remotas montanhas da província de Yunnan, Yang teve de se esforçar muito para freqüentar a escola. Tornou-se guerrilheiro e depois soldado do Exército de Libertação do Povo. A carreira militar levou-o à função de piloto de ataque ao solo. Nos anos 1970, quando a China desenvolveu o caça tático supersônico Qiang 5, ele foi selecionado como piloto de teste, tendo tido papel fundamental no desenvolvimento da aeronave. Ele também foi selecionado para lançar uma bomba de hidrogênio em teste. A detonação bem sucedida colocou o armamento termonuclear chinês em status operacional.

Seu primeiro vôo de lançamento falhou. O que deu errado? Em 30 de dezembro de 1971 eu decolei e subi até a altitude de 300 metros, e então aproei em direção ao alvo em Lop Nor, a 300 quilômetros de distância. A cerca de 11 quilômetrosdo alvo, iniciei uma subida de 45 graus até alcançar o teto de 1200 metros, quando liberei a bomba. Nada aconteceu! Ela não se soltou do cabide onde estava presa (nota do editor:: – observem que o sujeito fala de uma bomba de hidrogênio como se fosse uma garrafa de limonada). Havia três mecanismos de liberação iguais, dois dos quais eram reservas. Nenhum deles funcionou. Segui os mesmos procedimentos na segunda passagem, mas outra vez nada aconteceu. A mesma coisa na terceira passagem. Eu estava ficando sem combustível. Poderia abandonar a aeronave e deixá-la cair na região próxima de Lop Nor, onde se espatifaria sem ferir ninguém. Ou poderia tentar levá-la de volta à base. Refleti sobre o tempo e esforço gastos no projeto da bomba-H, e o dinheiro que custara ao povo chinês, e tomei minha decisão. Quando notifiquei a torre de controle que estava retornando com a bomba, soaram as sirenes de evacuação. Todo mundo pôs máscaras de gás e correu para dentro dos abrigos.

Qual era sua maior preocupação, durante o retorno? Pendurada no cabide, a bomba ficaria a aproximadamente 10 centímetros acima da pista de pouso, e havia a possibilidade de que ela explodisse ao contato. Todo mundo naquela base ainda lembra meu nome: eu quase levei até eles o Juízo Final. Mas fiz um pouso perfeito. Quando cortei o motor, tudo estava em silêncio. Todo o pessoal estava nos abrigos. Eu não podia deixar a cabine: não havia escada que me permitisse sair do avião. Eu chamei a torre para pedir ajuda. O pessoal lá estava furioso, pois eu havia posto dez mil vidas em risco. Disseram-me que me arrastasse até a cauda e pulasse de lá. Como eu trouxera de volta, inesperadamente, a bomba-H de teste, não havia viaturas de serviço equipadas com escudos de segurança (antirradiação). Fiquei no campo de pouso por longo tempo.

O que causou o defeito? Os mecanismos de liberação do cabide estavam guardados em uma área aquecida, até poucos momentos antes de serem montados na aeronave. Depois da decolagem, da rápida subida e do choque com o ar frio, a súbita mudança de temperatura pode ter afetado as tolerâncias do material e emperrado o mecanismo.

E seu vôo seguinte? Em 7 de janeiro de 1972. Dessa vez, quando liberei a bomba, ela se separou do avião. Reverti o curso de forma a deixar a área de explosão, e ativei os escudos que me protegiam dentro da cabine. A 12 milhas da área de detonação, vi um grande clarão. A onda de choque sacudiu o avião como se fosse um barquinho no oceano, e então vi a nuvem em forma de cogumelo. Meu nome foi mantido em sigilo até que fui formalmente reconhecido, numa conferência comemorando os sucessos da bomba-A, da bomba-H e do primeiro satélite artificial, os mais importantes projetos desenvolvidos pelo Exército de Libertação do Povo, depois da fundação da República Popular da China::

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