Cultura material militar::As primeiras armas de fogo de infantaria::


parte2Estivemos examinado, ao longo das últimas postagens, alguns tópicos relativos à teoria e história do tiro e das armas de fogo. O redator imagina que os sete leitores (contadinhos…) já saibam, à esta altura, que o tiro por arma de fogo começou a se desenvolver no final da Idade Média, depois da introdução, no Ocidente, da pólvora negra e das primeiras armas de fogo. Essas tinham diversas limitações, que foram sendo resolvidas conforme a tecnologia, em diversos campos, avançava. A ciência do tiro, de início, era empírica, ou seja, ia se desenvolvendo por uma série de experiências de acerto e erro. Os maiores problemas eram decorrentes da baixa confiabilidade da pólvora, das limitações da metalurgia e o pouco conhecimento de física. O tiro é influenciado por diversas variáveis que têm de  ser calculadas a partir de questões matematicamente formuladas. Por sinal, sejamos mais precisos: o tiro é uma questão de matemática e de física. A precisão só pode ser implementada conforme a física se desenvolve e a matemática consegue traduzir, naquela estranha e fascinante linguagem, as questões colocadas pelos artilheiros e atiradores. Dentre elas, talvez a principal fosse a criação de instrumentos de pontaria que permitissem ao atirador um certo controle sobre a trajetória do projetil. De fato, esse problema estava ligado à diversas condicionantes.

Por exemplo: qual a carga de pólvora necessária para fazer o projetil voar? Uma quantidade muito pequena tornava o tiro inocuo; muito grande, rebentava a arma. Ferramentas matemáticas (equações) que permitissem calcular a potência da explosão só surgiram no século 18. Até então, era um exercício de experimentação. As quantidades de pólvora iam sendo reguladas, e, após determinadas, passavam a constar de manuais que ensinavam aos soldados as quantidades corretas, sem muitas perguntas. O atirador conduzia, no século 16, diversas unidades de uma espécie de bisnaga, chamada *polvorinho, com as quantidades adequadas de pólvora. Para carregar a arma (uma explicação mais detalhada e – louvado seja! – em português, aqui) esta era posta com a coronha no chão (o “cabo” da tal bengala) e a pólvora despejada lá dentro. Um pouco de estopa era socada, por intermédio da vareta, sobre a pólvora e, em seguida, o atirador colocava a *bala (essa palavra deriva do inglês ball, “bola”; o substântivo inglês bullet, por sua vez, deriva do francês boulette, “bolinha“) no cano e socava tudo com uma peça integrante do conjunto, a vareta. O projetil descia através do cano com facilidade por ser este último liso e estar aquele envolvido em uma bucha, um pequeno pedaço de couro embebido em óleo ou gordura. O passo seguinte era expor a caçoleta e colocar nela um pouco de pólvora de escorva, uma pólvora mais fina destinada a servir de “pavio”. A escorva ficava em outro recipiente, de modo que é possível calcular o número de operações necessárias para carregar um arma, dessa maneira. Em seguida, o atirador puxava o cão para trás, até que ficasse preso com a mola distendida. Para o disparo, a arma era apoiada numa forquilha (uma coisa dessas podia pesar até vinte quilos…) e o disparo feito. Entre a ignição da escorva e a da carga, ocorria certo tempo, visto que a pólvora negra era de queima lenta. Isso significava que o atirador deveria ficar firme, no momento da primeira explosão, esperando que a carga explodisse – e a primeira explosão gerava um monte de fumaça quente e fagulhas, bem próximo ao rosto do coitado… Que Deus protegesse esses primeiros atiradores – e eles deviam viver rezando, já que as principais guerras do período eram por motivos religiososos. Nessas guerras, talvez para matar mais rápido a cavalaria católica, o campeão da causa protestante, o Rei Gustavo Adolfo, da Suécia,  durante a Guerra dos Trinta Anos, introduziu uma série de importantes inovações teóricas e técnicas, todas relativas à implementação do tiro em combate. Uma dessas foi a do cartucho, que não passava de uma carga preparada para uso, levada pelo atirador em um embornal. O cartucho reunia, numa embalagem de papel encerado, o projetil, a carga e a escorva, e eliminava a necessidade da bucha, visto que o papel que enrolava tudo passava a cumprir essa função. A tropas de Gustavo Adolfo atiravam muito mais rápido que todas as outras, e logo a inovação se difundiu. entre seus aliados e logo entre todos os beligerantes.

A questão é que, por serem as armas de cano liso, o projetil ficava meio solto lá dentro. A folga entre a parede interna do cano e o projetil decorria do fato de que ele tinha de deslizar para dentro com alguma facilidade. Só que essa folga criava uma pequena folga entre as paredes do projetil e as do cano, e a pressão exercida pelo gás gerado pela explosão da pólvora acabava sendo desigualmente distribuída. O resultado é que o projetil iniciava sua corrida até a boca ricocheteando na parede interna do cano. As consequências resultantes dessa situação acabavam fazendo com que a trajetória final não pudesse ser minimamente controlada (dependendo da seção do cano da arma com que o projetil se chocasse por último, ele podia iniciar o vôo mais para cima, para baixo ou para os lados). Além do mais, o projetil deixava o cano numa rotação axial que não era suficiente para vencer a resistência do ar. 

A idéia de fazer um projetil girar em torno do próprio eixo (esse movimento é chamado “hélice”, um curva cuja torção é constante e proporcional à curvatura), ao longo de uma trajetória tensa não era nova. De fato, era aplicada a projetis de formato alongado, tais como flechas e dardos, de modo a compensar a resistência do ar. Em sistemas mecânicos de lançamento, imprimir ao projetil um movimento de rotação, ainda que instável, não era difícil. Em flechas, uma carenagem constituída por penas ou qualquer elemento que oponha suficiente resistência à passagem do ar, situada na extremidade posterior do corpo, era suficiente para provocar um movimento giratório. Como o ar é um fluído, a resistência a penetração de um corpo (chamada de “arrasto”) é inversamente proporcional à capacidade desse corpo em rompê-la, ou seja, à quantidade de energia impressa a ele e existente no elemento de oposição. O problema seria, então, a quantidade de energia. A invenção da pólvora negra colocou à disposição dos projetistas de armas um processo de geração de energia que resolveu o entrave da quantidade, embora tenha criado outros. Um deles, talvez o principal, foi o descrito mais acima, diretamente relacionado com o formato desses primeiros projetis. Mas levaria tempo até que cientistas e engenheiros da época (que não eram chamados “cientistas” e “engenheiros”) conseguissem transformar a invenção num processo prático. Examinaremos os motivos na parte 3::

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2 pensamentos sobre “Cultura material militar::As primeiras armas de fogo de infantaria::

  1. um BOM COMENTARIO DE ALGUEM COM BONS CONHECIMENTOS DA AREA,GOSTEI,PESSOAS COMO O SENHOR ,AJUDAM MUITO A ELUCIDAR PESSOAS MENOS INFORMADAS,QUE SE DIZEM ENTENDIDOS EM QUE OS CONHECIMENTOS BASEIAM-SE EM MITOS DO CINEMA E LENDAS URBANAS,GOSTEI, CONTINUE COM O BOM TRABALHO E BOAS FESTAS .

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