Cultura material militar::A linhagem AK::

No posto anterior, que abriu o assunto, vimos alguns detalhes sobre a história do fuzil de assalto AK-47. Opa! AK-47? Não. Nada disso. Esse é um dos erros mais comuns, no que diz respeito a notação do Avtomat Kalashnikova modelo 1947: de fato, as forças armadas e policiais da antiga URSS denominam a arma de AK, simplesmente, e acrescentam mais uma ou duas letras que designam os diversos modelos. Portanto, os (mais ou menos…) oito leitores de causa:: ficam proi-bi-dos de chamar essa venerável peça de engenharia militar de AK-47. Como chamá-la? Bom, veremos adiante, na parte 2::

parte2O fuzil automático de Kalashnikov, modelo 1947 foi adotado no ano de 1947 (quanta inteligência aqui do redator, hein?..). Entretanto, isso não significa que, seis meses depois de tomada a decisão, cada militar soviético estivesse com um deles à bandoleira. Nos 15 meses seguintes foram tomadas providências políticas, organizativas e industriais para que a arma começasse a ser fabricada em massa. A distribuição para as tropas só começou na primeira metade de 1949, e mesmo assim em números bastante modestos – claro, para os padrões da gigantesca máquina militar soviética de então. A produção iniciou-se na enorme Fábrica de Máquinas deIzhevsky, conhecida como  Izhmash (embora enfrentando sérios problemas financeiros, ainda uma das principais instalações industriais de fabricação de armas da Rússia), mas logo se espalhou por diversas outras instalações industriais nas repúblicas soviéticas e nos países da esfera de influência de Moscou.

Tecnicamamente falando, todas as armas da linhagem AK são fuzis de assalto de fogo seletivo, operados por recuperação de gás. É feito principalmente em aço estampado e usinado (o cano e certas partes do bloco de culatra) e madeira laminada (a coronha, o punho de pistola e a empunhadura do cano). Isso resulta num conjunto que, sem a munição, pesa, vazio, 4.300 gramas; introduzidas as 30 cargas de munição M1943, o peso da arma sobe para 4.875 gramas. O comprimento total do conjunto é de 87 centímetros, sendo que o cano ocupa 41,5 centímetros. O alcance efetivo (distância em que o projétil ainda conserva energia para penetrar obstáculos de alguma dureza) é de cerca de 800 metros (dada a velocidade de saída do projetil, de 715 m/s); o alcance útil é de uns 400 metros em modo semi-automático, caindo para 300 se o seletor estiver em modo automático. 

O princípio de operação de toda a família AK é a recuperação de gás (veja aqui um excelente corte do AK, mostrando as peças internas)- por sinal, o mesmo princípio usado pelo fuzil de assalto alemão StuG-44 (observe, nesta foto, detalhes do fuzil de assalto alemão). Como todo leitor de causa:: já sabe na ponta da língua, uma arma de fogo funciona pela expansão violenta de gás resultante da explosão de um propelente – pólvora química, no caso. A expansão do gás impulsiona o projétil, mas boa parte dela se perde no recuo da arma e no “sangramento”, ou seja na perda resultante da saída através dos espaços abertos da arma. As armas automáticas e semi-automáticas funcionam todas por princípios que aproveitam parte dessa energia para rearmar o sistema (coisa que, em armas de repetição, é feita pelo próprio atirador). No caso da “recuperação de gás”, parte desse, que acompanha o projétil até a boca, entra por uma válvula situada na seção superior do cano. Essa válvula dá acesso à um tubo onde se encontra instalado um pistão, ligado por uma haste ao bloco da culatra. O recuo do pistão empurra o conjunto do bloco para trás, e aciona uma peça chamada “ferrolho”. Trata-se de um bloco de aço que, parado, é mantido no lugar pela pressão de uma mola, e mantém a câmara vedada por estar firmemente justaposto às paredes da caixa de culatra (em inglês, essa parte da arma é chamada receiver). Ao ser empurrado, para trás, o ferrolho expõe a câmara da arma, e retira o cartucho vazio (por meio de uma peça chamada “extrator”), que é ejetado através de uma janela que se abre na caixa de culatra. Outra carga é “puxada” para dentro da câmara pelo movimento do bloco e com a ajuda de uma mola instalada no carregador, para então ser empurrada para a posição pelo movimento contrário do bloco, que outra vez veda a câmara (quando da explosão da carga, a vedação é implementada pela deformação das paredes do cartucho). No caso do AK, o pistão tem um curso longo (também é o caso do StuG-44), pois ao longo do percurso a pressão do gás diminuí e, por consequência, o impacto do recuo também, além de mitigar o desgaste das peças. Existem diversos métodos de funcionamento do ferrolho. No caso do AK, trata-se do “ferrolho rotativo”: como diz o nome, uma peça de metal com função de abrir e fechar a câmara. Quando essa peça recua, faz um giro parcial sobre seu eixo; no retorno, o giro se dá no sentido inverso. Os “ciclos de tiro”, ou seja, a  quantidade de vezes que o sistema repete esses movimentos, permitem uma cadência máxima (em condições de laboratório) de 600 salvas por minuto, em modo automático; em modo semi-automático, um bom atirador consegue disparar até 90 salvas por minuto.  Para selecionar  os modos de fogo, basta que o atirador modifique a posição de uma alça situada do lado direito da arma, exatamente acima do gatilho. Essa alça é uma das características mais interessantes do AK – foi redesenhada a partir de uma arma de origem norte-americana. o Remington modelo 8. Quando deslocada para cima, interrompe a trajetória da alavanca de armar (que prepara a arma para o tiro); quando abaixada, a alça libera a alavanca e torna-se o seletor de modo. A pontaria, por sua vez, é feita através de uma alça de mira regulável, graduada de 100 até 800 metros, instalada na parte anterior da caixa da culatra.

Diversas peças do mecanismo do AK, assim como o cano, são cromadas. Essa providência destina-se a diminuir o desgaste provocado pelo gás da explosão da carga, altamente corrosivo. A cromagem também aumenta a durabilidade do conjunto por diminuir a necessidade de manutenção do equipamento. Outro ponto que ajuda é a distância entre as peças, calculada para diminuir o atrito e permitir melhor lubrificação. Todas essas características dão ao AK uma espantosa capacidade de  funcionar em condições adversas: fala-se em armas que, no Vietnam, passavam seis meses sem ser limpas.

A primeira produção do AK encontrou diversos problemas, principalmente relativos aos processos industriais. A fabricação das peças da caixa de culatra revelou-se muito problemática. A peça principal, que constituía o corpo da caixa era estampada, feita em prensas hidraulicas de alta pressão. Algumas peças internas (guias e trilhos que colocavam e mantinham o conjunto ferrolho-extrator no lugar)  tinham de ser soldadas, e o processo resultava mal-acabado. Muitas armas do primeiro lote simplesmente não funciovam e eram rejeitadas. A decisão de interromper a produção seria antes de tudo política, de responsabilidade do Comissariado para a Defesa do Povo, e poderia ter sérias consequências. A opção foi continuar a produção, usando peças de metal usinadas, processo que se mostrou complicado e caro. Entretanto, os engenheiros do arsenal Izhmash (talvez com medo de acabarem no gulag), tiveram uma idéia brilhante: aproveitar os métodos e máquinas-ferramentas usados na fabricação da caixa de culatra dos fuzis de repetição Mosin-Nagant, que tinha semelhanças técnicas com as peças do AK. A idéia funcionou (sorte deles – ainda era a época de Stalin…), a produção do fuzil foi acelerada, mas a distribuição estava comprometida: só iria alcançar números razoáveis a partir de 1956. O peso do conjunto  também aumentou consideravelmente, dadas as diferenças estruturais entre peças estampadas e usinadas.

A versão standart do AK foi logo seguida por outra, de notação AKS, o “S” significando Skladnoy, ou “dobrável”). Era o mesmo AK, mas dotado de uma conhonha rebatível, feita em arame de aço, que se recolhia ao longo da caixa de culatra e empunhadura do cano. Essa versão, que pesava quese um quilo a menos do que a de coronha fixa, destinava-se à distribuição para tropas paraquedistas e motorizadas, e teve os mesmos problemas que a outra versão.

O desenvolvimento do AK e sua distribuição revelaram diversos problemas não apenas com a arma, mas com os processos de fabricação. A partir da modificação dos processos industriais, que resultaram na melhoria de desempenho e permitiram a distribuição em grandes números, novos aperfeiçoamentos foram sendo introduzidos. Os métodos que corrigiram os defeitos de fabricação dos primeiros lotes, foram simplificados, e marcaram o início do redesenho da arma, iniciado em 1957 e aceito em 1959, como AKM (o “m” significando modernizirovanniy ou “modernizado”).

A primeira e mais marcante modificação foi a adoção do processo de estamparia para a fabricação da caixa da culatra. Essa providência destinou-se a diminuir o peso do AK, e foi muito bem sucedida: o peso do conjunto diminuiu em quase 1 quilo. Entretanto, os desenhistas temiam que a resistência da caixa diminuisse, de modo que uma seção tubular cruzada, destinada a reforçar a resistência estrutural. O principal ganho da adoção da caixa de culatra estampada foi a possibilidade de instalar as peças de fixação da mola e do cano através de rebites, enquanto no AK essas peças eram aparafusadas. O aperfeiçoamento de processos de solda elétrica sob pressão permitiram a instalação precisa das guias do ferrolho/ejetor. Diversas outras medidas para economia de peso foram tomadas, utilizando-se, onde fosse possível, materiais mais leves e peças de menor espessura. A coronha também recebeu um compartimento oco, destinado a diminuir o peso do conjunto. Outra inovação foi um freio de boca, destinado a aumentar a estabilidade da arma no momento do tiro.

Fora essas diferenças, o AKM e o AK eram iguais, tanto é que diversas peças eram intercambiáveis. A nova versão do fuzil tinha todas as qualidades da anterior, e tinha tido a maioria dos defeitos resolvidos. O AKM tornou-se arma padrão das forças armadas e policiais da URSS e rapidamente começou a ser distribuído para os países aliados. No caso da China, então em ótimas relações com os soviéticos, os planos do AK foram repassados ainda em 1956, razão da arma ser lá conhecida como “Fuzil automático Tipo 56”. Não se sabe exatamente quantos “Tipo 56” foram fabricados na China, mas parte considérável deles foi exportada para países do Terceiro Mundo. A maioria dos AK que surpreenderam os combatentes norte-americanos no Vietnam eram de origem chinesa. Uma diferença marcante entre o AK e o “Tipo 56” era a baioneta, que diferia, entre o original russo e a cópia chinesa: nesta, o equipamento era fixo, sendo girado para trás quando não em uso. Os chineses também logo passaram a produzir o AKS, que recebeu a notação “Tipo 56-I” Em meados dos anos 60, os chineses começaram a fabricar (sem auxílio nem permissão dos russos) uma versão semelhante ao AKM, de notação “Tipo 56-1”. Os três tipos produzidos na China podem ser vistos aqui. Note que o do meio é um “Tipo 56” original, que se reconhece pela ausência do freio de boca.

Calcula-se que, entre todas as unidades e versões fabricadas, existam mais de 50 milhões de AK e AKM espalhados pelo mundo, o que significa que um em cada três fuzis de assalto existentes sejam Kalashnikov. A arma ainda está em pleno uso, e provavelmente continuará, ainda por muito tempo. A eficácia dessa peça de engenharia mecânica e militar já foi mais que comprovada, e a torna uma das mais importantes armas já projetadas e fabricadas, em qualquer época. O que não impediu que o tempo a tornasse ultrapassada. O problema talvez nem seja propriamente a arma em si, mas o calibre: o cartucho M1943, apesar de sua eficácia e confiabilidade, é pesado e, apesar das características, ainda muito potente. Por volta de meados dos anos 1960, os soviéticos já estavam trabalhando no desenvolvimento de um cartucho de menor calibre. Mas falaremos nisso na parte3::

Regras de área, bombardeios estratégicos, armas atômicas e, no meio, um digno cidadão japonês::

Dias atrás, o redator em férias, lendo um jornal, de papo para o ar numa rede, com um chapéu de palha na cabeça e uma limonada na barriga (bem, a maior parte disso é exagero…) teve a atenção chamada para a notícia da morte de Tsutomu Yamagushi. Esse japonês é um dos heróis aqui do blogue, pois foi protagonista de uma das mais dignificantes histórias de vida dos tempos contemporâneos. Com o coração de luto (por sinal, a humanidade deveria estar de luto…), o redator ficou matutando sobre a insânia da guerra nuclear, a única guerra que não pode ter vencedores (apesar das afirmações contrários de anões amorais-homicidas como Curtis LeMay e Edward Teller). Largando o chapéu de palha e pondo a limonada na geladeira, correu então para a Internet, pois esse evento merece algumas considerações. Aproveitem!::

parte1A única pessoa oficialmente reconhecida como sobrevivente dos dois ataques nucleares contra o Japão, Tsutomu Yamagushi, morreu no último dia 4 de janeiro, de um câncer no estômago (ao que parece, não provocado pela exposição à radiação). A história desse japonês de 93 anos beira às raias do absurdo, e poderia torná-lo, a depender do ponto de vista, ou um dos maiores sortudos ou um dos maiores azarados do século 20. Em 5 de agosto de 1945, Yamagushi, engenheiro empregado pelo conglomerado Mitsubishi, então com 39 anos de idade, tinha chegado a Hiroshima por razões de trabalho. No dia seguinte, a cidade foi atacada (se você lê inglês, vale à pena dar uma olhada neste artigo; se não ler, também vale…) pelo B29 Enola Gay, do coronel Paul Tibbets. O japonês se encontrava a aproximadamente três quilômetros do centro da explosão, que o deixou gravemente queimado. Tendo recebido socorro médico, e considerado em condições de se locomover, resolveu, em 7 de agosto, retornar a Nagasaki, a uns 300 quilômetros de distância, onde residia e trabalhava. Dois dias depois, um grupo de aviões liderados pelo B-29 denominado Bock´s Car, lançou a segunda bomba – exatamente lá. No momento da explosão, Yamagushi, em um escritório localizado a uns quatro quilômetros do “marco zero”, narrava à sua equipe de trabalho como tinha sido a explosão nuclear em Hiroshima. Desta vez, ele não ficou ferido, mas a confusão que se espalhou na cidade acabou por impedir que recebesse atendimento médico para as queimaduras da explosão anterior. Os curativos reduzidos a farrapos e os ferimentos infeccionados quase lhe custaram a vida. Depois da guerra, Yamagushi aos poucos tornou-se um entusiasmado crítico da posse e uso de armas nucleares por todas as nações, chegando a escrever um livro sobre sua experiência. Em 2006, ele e outros “duplos sobreviventes” foram apresentados em um documentário, projetado em sessão solene, nas Nações Unidas. Após a projeção, Yamagushi pronunciou veemente discurso contra a existência de armas atômicas, que ele pediu que fossem totalmente abolidas e proibidas, para o “bem do futuro”.

O redator já conhecia a história de Tsutomu Yamagushi, que, nos anos 1960, chegou a ser considerado personna non grata pelo governo dos EUA. Sua cruzada contra as armas atômicas talvez não emocionasse estrategistas empedernidos nos EUA ou na União Soviética, mas tocava qualquer ser humano dotado de um mínimo de senso moral. Em suas entrevistas, dizia coisas como “A razão pela qual eu odeio as armas atômicas é o que elas fazer com a dignidade dos seres humanos.”

O que uma explosão nuclear faz “com a dignidade dos seres humanos” é exatamente reduzi-los a nada, a “megamortes”, unidade que corresponde a um milhão de mortos num prazo menor que 48 horas (para termo de comparação, a 2a GM provocou 55 “megamortes” em quase seis anos de matança). Como começou tudo isso? Em diversas oportunidades, as pesquisas de causa:: levaram o blogue perto de concuir que a humanidade é maluca. Digamos que estamos um pouco mais perto. Vejamos o motivo…::

Cultura material militar::A linhagem AK::

Retôrno em grande estilo da seção favorita dos oito leitores… E por grande estilo, grande estilo mesmo: apresentaremos e destrincharemos a linhagem AK. Uma linhagem de grande tradição: “AK”, nas últimas décadas, quase virou sinônimo para “fuzil de assalto”, mesmo para aqueles que não sabem direito o significa a notação (se bem que quase todo mundo que o redator conhece consegue pronunciar calaxinicóvi…). Trata-se de uma das armas portáteis mais produzidas da história (se não a mais produzida…) – o que não é pouca coisa. Como se não bastasse, tem presença em quase todos os conflitos modernos, sejam esses convencionais ou assimétricos. Querem mais? Cinqüenta países produzem ou produziram alguma versão da linhagem AK. Querem ainda mais? Pois leiam o artigo – em 3 partes para que a diversão dure mais tempo!::

parte1O AK-47 (notação de Avtomat Kalashnikova) é um fuzil de assalto de fogo seletivo, mecanismo acionado por recuperação de gás, originalmente utilizando o cartucho *M1943 (7.62X39 mm). Sua primeira versão surgiu em 1947, na antiga URSS, embora sua adoção como arma-padrão do Exército Vermelho tenha levado mais de dez anos para se completar.

O projeto dessa arma começou a ser desenvolvido em 1944. Os leitores de causa:: já sabem que foram os alemães os primeiros a, na metade final da 2a GM, desenvolver o conceito de “fuzil de assalto”. Rememorando: a idéia de base é que, na guerra moderna, as trocas de tiros acontecem em distâncias curtas, em geral não maiores que 300 ou 400 metros. Por outro lado, a automatização do tiro em distâncias curtas indicava que a precisão podia ser posta em segundo plano, visto que a “cadência de tiro” (a quantidade de projetis lançados pela arma a cada liberação do mecanismo) tornava-se fator compensador. O infante moderno, segundo estudos realizados em 1948, pelo Exército dos EUA, atirava em movimento, com a arma a altura da cintura. Assim, os cartuchos de armas longas então em uso, tais como o .30-06 (7.62X63 mm) norte-americano ou o Mauser 7.92X57 mm IS alemão, com alcance útil de 800 metros, seriam excessivamente potentes, não permitindo o disparo em rajadas, a não ser em armas bastante pesadas e canhestras, como era o caso do *fuzil-metralhador BAR. Os alemães buscaram desenvolver um fuzil que incorporasse certas características das submetralhadoras, em uso desde os anos 1920: capacidade de disparar rajadas, carregadores de 30 até 35 cargas, fogo seletivo e alcance útil de 200 a 300 metros. A solução encontrada pelos alemães foi diminuir a carga e conseqüentemente, o comprimento do estojo do cartucho Mauser, o que levou ao surgimento da versão Kurtz (essa história está bem contada aqui mesmo em causa::).

De fato, a ideía alemã não era totalmente original (pelo menos a parte que diz respeito à automatização da repetição do disparo…), e seus antecedentes remontavam ao período anterior à 1a GM, quando na Itália, no Canadá e na Rússia surgiram fuzis capazes de disparar em rajadas ou em salvas simples, a partir de carregadores com certa quantidade de cargas. É muito citado como o avô dos fuzis de assalto a arma projetada pelo major italiano Amerigo Cei-Rigotti, no final do século 19. Essa arma utilizava um cartucho de 6.5 mm, o Carcano, de de média potência, e foi a primeira conhecida a usar o princípio de recuperação de gás. Entretanto, o Cei-Rigotti apresentou, ao longo de seu desenvolvimento, diversos problemas que não chegaram a ser resolvidos. Na mesma época, o ateliê austríaco Mannlicher chegou a projetar uma carabina automática em torno do calibre experimental 7,65X32 mm, de fato redesenho de um cartucho de pistola. Essa arma não passou do estágio de projeto. Outra arma a antecipar o conceito foi o fuzil russo *Federov, surgido em 1916, que chegou a ser colocado em campo, embora em pequenas quantidades. Projetado usando o sistema de “recuo curto”, o Federov disparava o cartucho japonês Arisaka 6.5X50 mm, a partir de um carregador tipo “caixa”, de 20 cargas.  

Alguns especialistas costumam a alegar que essas armas não podem ser consideradas “fuzis de assalto” por não lançarem mão do “cartucho curto”. De certo esse é um forte argumento, mas algumas características do futuro conceito já se encontravam presentes, como, por exemplo, a estabilidade do tiro através da diminuição do recuo, razão para que essas armas utilizassem cartuchos menos potentes (ainda que não “curtos”). Debates aparte, é inegável que o SturmGewehr 44 foi o primeiro fuzil de assalto real, e um dos argumentos em torno do qual os pesquisadores concordam é que os altos números de produção alcançados (calcula-se que entre 500 e 600 mil unidades tenham deixado as fábricas, entre o último trimestre de 1944 e o fim da guerra) permitiram avaliação plena de combate e disseminação de princípios de utilização pelas pequenas frações de tropa (esquadras, pelotões e companhias). Os especialistas também concordam que o surgimento do StuG 44 teve forte impacto em todos os beligerantes, mas foram os soviéticos que os primeiros a avaliar as potencialidades dessa nova arma de infantaria.

Ao ponto de se ter criado a lenda que o AK é simplesmente de um clone da arma alemã. Não é bem por aí: o desenvolvimento do AK começou antes, e de forma independente, do StuG44 – ainda que o disparo do processo tenha sido influenciado pelo surgimento do conceito alemão. Mas a ampla distribuição de armas automáticas entre as tropas soviéticas, que datava de antes da invasão nazista, levou a uma série de experiências, no início de 1943, com cartuchos com de menor potência, tanto norte-americanos quanto alemães. Segundo fontes da época, o Conselho Técnico do Comissariado do Povo para o Armamento ficou seriamente impressionado com o desempenho de alguns fuzis alemães *Haenel MKb42, capturados quando se encontravam em testes de campo. Os testes feitos pelos soviéticos concluíram que o projétil ogival em cartucho “curto” tinha desempenho balístico incomparavelmente superior ao dos cartuchos de pistola utilizados por submetralhadoras, e perdia pouco, em performance, para os cartuchos convencionais de fuzil. Segundo o Conselho, era urgente desenvolver um cartucho de potência reduzida, desenvolvimento que começou naquele mesmo ano. Por volta do final do ano, surgiram proptótipos de munições que lançavam mão do projétil do cartucho 7,62X54R convencional (fabricado desde 1891), mas com um estojo encurtado para 39 mm, e com um diâmetro menor do que o do padrão Kurz alemão. Nesse ponto toda a bibliografia é concordante: a originalidade do cartucho M1943 soviético.

O StuG 44 e o AK são, de fato, fisicamente, muito parecidos. Não é estranho que as equipes soviéticas que trabalhavam no projeto tenham tido acesso a muitos exemplares dentre os capturados na fase final da guerra (fontes norte-americanas dão conta de aproximadamente 40.000 unidades aprisionadas sem uso, em depósitos da Wehrmacht situados na área de ocupação ocidental da Alemanha). Entretanto, o mecanismo das duas armas guarda diferenças notáveis.

O projetista do AK foi Mikhail Kalashnikov, um sargento das forças blindadas soviéticas, que, em 1943, se recuperava de um ferimento em combate. Durante seu período no hospital, Kalashnikov projetou uma submetralhadora que, embora submetida às instâncias especializadas do Exército Vermelho, foi recusada por ser considerada cara e difícil de construir. Ainda assim, as autoridades soviéticas (segundo a lenda…) se surpreenderam com a capacidade do jovem sargento, e o designaram para Centro de Pesquisas e Testes de Armas Leves e Morteiros do Exército Vermelho, perto de Moscou. Kalashnikov continuou por lá depois do fim da guerra, e concebeu um fuzil semi-automático que, embora não aceito, serviu de base para outro projeto, esse em torno de uma arma totalmente automática. Essa última,, surgida em 1946, já incorporava os principais elementos do que, posteriormente, seria o AK-47: recuperação operada a gás usando um pistão de trajeto curto, instalado sobre o cano, bloco de culatra com ferrolho rotativo, e receptor (a parte da arma onde ficam instalados os mecanismos do percurssor, seletor e bloco de culatra) dividido em duas partes.

A adoção do AK, entretanto, não aconteceu imadiatamente. O Exército Vermelho estava promovendo uma competição  em vista a adotar uma nova arma. A batalha de Berlim, nas duas últimas semanas de 1945 tinha produzido nos comandantes soviéticos impressão, suponhamos, desagradável: defensores alemães grandemente inferiorizados, em números absolutos, (por vezes de 12 para 1), conseguiram conter as tropas de assalto durante muito mais tempo que o esperado. A vantagem foi atribuída ao uso, então já dissemidado, do StuG 44 (além da qualidade inegável das armas anticarro alemãs, mas esta é outra história…). Os militares soviéticos, por outro lado, estavam às voltas com um problema: a requisição por uma nova arma tinha gerado, por volta de meados de 1944, pelo menos dez protótipos, além de outro tanto de carabinas semi-automáticas. Uma primeira seleção atribuía grandes qualidades ao fuzil automático *AS-44, desenhado pelo engenheiro Sudaev, que foi distribuído e extensivamente testado em condições de combate na fase final da guerra. A principal qualidade do AS-44, segundo os relatórios de campo, era a precisão, quando em fogo semi-automático, muito maior do que a da submetralhadora PPSh. Por outro lado, os infantes soviéticos se viram às voltas com uma geringonça que, sem a munição, pesava mais de cinco quilos, além de ser muito difícil de transportar (os soldados alemães faziam a mesma reclamação, embora o StuG pesasse bem menos). Este motivo, segundo registros de arquivos examinados recentemente, foi o principal motivo para a recusa do AS-44, apesar dos relatórios favoráveis. A questão é que o AS tinha sido desenhado em torno do cartucho 7.62x41mm desenvolvido em 1943, na mesma época em que havia surgido o cartucho M1943. Esse cartucho, com um projetil ogival pesando oito gramas, exigia uma carga de pólvora química maior. Essa carga suplementar implicava em um estojo de latão mais comprido e de paredes mais espessas, o que, no fim das contas, tornava o conjunto de carregador mais 30 cargas consideravelmente mais pesado. A potência da munição acabava exigindo bloco de culatra mais resistente, o que implicava em mais peso, daí…  

A fase final da guerra deixou tudo em suspenso. Uma nova competição foi organizada em meados de 1946, e então o birô Kalashnikov apresentou um novo desenho: tratava-se de uma arma de operação a gás, cujo mecanismo de culatra era similar aquele apresentado em 1944. A arma incorporava uma característica aparentemente copiada dos fuzis de assalto alemães: o carregador curvo de 30 cargas. Os dois modelos apresentados, que receberam as notações AK-1 e *AK-2).

As duas armas se saíram muito bem nos testes, junto com outros desenhos. No final do ano, um dos assistentes de Kalashnikov propôs que algumas características da arma fossem repensadas, de forma a melhorar a confiabilidade do conjunto. Kalashnikov não gostou da idéia, e achava que dificilmente seu fuzil poderia ser melhorado. Ainda assim, aceitou as propostas formuladas por sua equipe e uma nova versão da arma surgiu, com a notação *AK-47. Esta se mostrou, de fato, mais simples e fácil de manter, em condições de campanha. Em 1949, após testes extensivos que tomaram todo o ano anterior, foi adotada oficialmente pelo Exército Vermelho. Isso não significa que, seis meses depois, cada infante soviético estivesse com um AK à bandoleira. Afinal, fazia menos de dois anos que a guerra tinha terminado e os estoques de armas remanescentes, notadamente as quase onipresentes PPSh, eram gigantescos::

Datas relevantes de causa::25 anos de democracia no Brasil e na Argentina

E eis que causa::  das férias… Os oito leitores, com certeza, já estarão com saudades desde… Desde… causa:: saiu de férias em 26 de dezembro do agora ano passado. Pouco tempo antes, o redator tinha aberto uma nova seção, chamada… Bem, como aí em cima. Mas janeiro marcou realmente uma data relevante – ou duas: em 15 de janeiro de 2010 completou-se um quarto de século desde a ascensão ao cargo de presidente da República do senador Tancredo Neves. Não é preciso lembrar de tudo o que aconteceu nos meses seguintes, mas a data, com certeza, tem de ser. É como dizia  comemorada. De lá para cá, nossa jovem democracia tem, suportada por toda a população, ido adiante. Como dizia Winston Churchill, a democracia é o pior dos regimes políticos, com excessão de todos os outros. Churchill sabia o que falava: quando lhe perguntaram se não tinha se apressado em oferecer apoio a Stalin e à URSS, após a invasão alemã, ele respondeu: “Se Hitler invadisse o inferno, eu teria algumas boas palavras para dizer sobre Satanás.” Não é preciso dizer o que pretendiam os fascistas.

Menos conhecido por aqui é o aniversário do final desmoralizante da ditadura terrorista implantada em 1976 sob o beneplácito dos EUA (bem, alguém se lembra de um regime de excessão implantado na América Latina sem o beneplácito dos EUA?..). Bem, pois em 10 de dezembro de 1983, os generais argentinos, após lançarem o país numa guerra de três meses, no ano anterior, contra a Inglaterra, então governada por Margareth Tatcher, esperando pelo apoio dos EUA… Bem… Curiosamente, o maior apoio acabou vindo mesmo da União Soviética (que passou a rastrear a esquadra britânica por via de satélites de reconhecimento) e a Líbia, que forneceu armamento e peças de reposição compradas com seus fartos petrodólares. Alguma ajuda da ditadura brasileira (menos terrorista, admitamos e com um general de fancaria como chefe de governo, mas… Ditadura é ditadura) também veio: empréstimo de aeronaves de vigilância (dois Bandeirulha P95A de vigilância marítima, equipados com um radar Eaton APS/AN-128 e vista grossa para os aviões de carga de Muammar el-Gaddafi que faziam escala no Brasil, a caminho da Argentina). Nada disso ajudou: depois de uma campanha muito bem organizada e dois meses de combates que custaram aos britânicos oito navios metidos a pique e mais de 700 militares, mortos a rendição foi o destino inevitável. Os militares argentinos bem que tentaram (inclusive com algumas demonstrações de coragem suicida por parte de pilotos da marinha e da força aérea), mas sabe como é: uma coisa é bater em gente amarrada, outra, muito diferente, é tentar bater em gente armada e que sabe se defender::