Cultura material militar::A linhagem AK::


Retôrno em grande estilo da seção favorita dos oito leitores… E por grande estilo, grande estilo mesmo: apresentaremos e destrincharemos a linhagem AK. Uma linhagem de grande tradição: “AK”, nas últimas décadas, quase virou sinônimo para “fuzil de assalto”, mesmo para aqueles que não sabem direito o significa a notação (se bem que quase todo mundo que o redator conhece consegue pronunciar calaxinicóvi…). Trata-se de uma das armas portáteis mais produzidas da história (se não a mais produzida…) – o que não é pouca coisa. Como se não bastasse, tem presença em quase todos os conflitos modernos, sejam esses convencionais ou assimétricos. Querem mais? Cinqüenta países produzem ou produziram alguma versão da linhagem AK. Querem ainda mais? Pois leiam o artigo – em 3 partes para que a diversão dure mais tempo!::

parte1O AK-47 (notação de Avtomat Kalashnikova) é um fuzil de assalto de fogo seletivo, mecanismo acionado por recuperação de gás, originalmente utilizando o cartucho *M1943 (7.62X39 mm). Sua primeira versão surgiu em 1947, na antiga URSS, embora sua adoção como arma-padrão do Exército Vermelho tenha levado mais de dez anos para se completar.

O projeto dessa arma começou a ser desenvolvido em 1944. Os leitores de causa:: já sabem que foram os alemães os primeiros a, na metade final da 2a GM, desenvolver o conceito de “fuzil de assalto”. Rememorando: a idéia de base é que, na guerra moderna, as trocas de tiros acontecem em distâncias curtas, em geral não maiores que 300 ou 400 metros. Por outro lado, a automatização do tiro em distâncias curtas indicava que a precisão podia ser posta em segundo plano, visto que a “cadência de tiro” (a quantidade de projetis lançados pela arma a cada liberação do mecanismo) tornava-se fator compensador. O infante moderno, segundo estudos realizados em 1948, pelo Exército dos EUA, atirava em movimento, com a arma a altura da cintura. Assim, os cartuchos de armas longas então em uso, tais como o .30-06 (7.62X63 mm) norte-americano ou o Mauser 7.92X57 mm IS alemão, com alcance útil de 800 metros, seriam excessivamente potentes, não permitindo o disparo em rajadas, a não ser em armas bastante pesadas e canhestras, como era o caso do *fuzil-metralhador BAR. Os alemães buscaram desenvolver um fuzil que incorporasse certas características das submetralhadoras, em uso desde os anos 1920: capacidade de disparar rajadas, carregadores de 30 até 35 cargas, fogo seletivo e alcance útil de 200 a 300 metros. A solução encontrada pelos alemães foi diminuir a carga e conseqüentemente, o comprimento do estojo do cartucho Mauser, o que levou ao surgimento da versão Kurtz (essa história está bem contada aqui mesmo em causa::).

De fato, a ideía alemã não era totalmente original (pelo menos a parte que diz respeito à automatização da repetição do disparo…), e seus antecedentes remontavam ao período anterior à 1a GM, quando na Itália, no Canadá e na Rússia surgiram fuzis capazes de disparar em rajadas ou em salvas simples, a partir de carregadores com certa quantidade de cargas. É muito citado como o avô dos fuzis de assalto a arma projetada pelo major italiano Amerigo Cei-Rigotti, no final do século 19. Essa arma utilizava um cartucho de 6.5 mm, o Carcano, de de média potência, e foi a primeira conhecida a usar o princípio de recuperação de gás. Entretanto, o Cei-Rigotti apresentou, ao longo de seu desenvolvimento, diversos problemas que não chegaram a ser resolvidos. Na mesma época, o ateliê austríaco Mannlicher chegou a projetar uma carabina automática em torno do calibre experimental 7,65X32 mm, de fato redesenho de um cartucho de pistola. Essa arma não passou do estágio de projeto. Outra arma a antecipar o conceito foi o fuzil russo *Federov, surgido em 1916, que chegou a ser colocado em campo, embora em pequenas quantidades. Projetado usando o sistema de “recuo curto”, o Federov disparava o cartucho japonês Arisaka 6.5X50 mm, a partir de um carregador tipo “caixa”, de 20 cargas.  

Alguns especialistas costumam a alegar que essas armas não podem ser consideradas “fuzis de assalto” por não lançarem mão do “cartucho curto”. De certo esse é um forte argumento, mas algumas características do futuro conceito já se encontravam presentes, como, por exemplo, a estabilidade do tiro através da diminuição do recuo, razão para que essas armas utilizassem cartuchos menos potentes (ainda que não “curtos”). Debates aparte, é inegável que o SturmGewehr 44 foi o primeiro fuzil de assalto real, e um dos argumentos em torno do qual os pesquisadores concordam é que os altos números de produção alcançados (calcula-se que entre 500 e 600 mil unidades tenham deixado as fábricas, entre o último trimestre de 1944 e o fim da guerra) permitiram avaliação plena de combate e disseminação de princípios de utilização pelas pequenas frações de tropa (esquadras, pelotões e companhias). Os especialistas também concordam que o surgimento do StuG 44 teve forte impacto em todos os beligerantes, mas foram os soviéticos que os primeiros a avaliar as potencialidades dessa nova arma de infantaria.

Ao ponto de se ter criado a lenda que o AK é simplesmente de um clone da arma alemã. Não é bem por aí: o desenvolvimento do AK começou antes, e de forma independente, do StuG44 – ainda que o disparo do processo tenha sido influenciado pelo surgimento do conceito alemão. Mas a ampla distribuição de armas automáticas entre as tropas soviéticas, que datava de antes da invasão nazista, levou a uma série de experiências, no início de 1943, com cartuchos com de menor potência, tanto norte-americanos quanto alemães. Segundo fontes da época, o Conselho Técnico do Comissariado do Povo para o Armamento ficou seriamente impressionado com o desempenho de alguns fuzis alemães *Haenel MKb42, capturados quando se encontravam em testes de campo. Os testes feitos pelos soviéticos concluíram que o projétil ogival em cartucho “curto” tinha desempenho balístico incomparavelmente superior ao dos cartuchos de pistola utilizados por submetralhadoras, e perdia pouco, em performance, para os cartuchos convencionais de fuzil. Segundo o Conselho, era urgente desenvolver um cartucho de potência reduzida, desenvolvimento que começou naquele mesmo ano. Por volta do final do ano, surgiram proptótipos de munições que lançavam mão do projétil do cartucho 7,62X54R convencional (fabricado desde 1891), mas com um estojo encurtado para 39 mm, e com um diâmetro menor do que o do padrão Kurz alemão. Nesse ponto toda a bibliografia é concordante: a originalidade do cartucho M1943 soviético.

O StuG 44 e o AK são, de fato, fisicamente, muito parecidos. Não é estranho que as equipes soviéticas que trabalhavam no projeto tenham tido acesso a muitos exemplares dentre os capturados na fase final da guerra (fontes norte-americanas dão conta de aproximadamente 40.000 unidades aprisionadas sem uso, em depósitos da Wehrmacht situados na área de ocupação ocidental da Alemanha). Entretanto, o mecanismo das duas armas guarda diferenças notáveis.

O projetista do AK foi Mikhail Kalashnikov, um sargento das forças blindadas soviéticas, que, em 1943, se recuperava de um ferimento em combate. Durante seu período no hospital, Kalashnikov projetou uma submetralhadora que, embora submetida às instâncias especializadas do Exército Vermelho, foi recusada por ser considerada cara e difícil de construir. Ainda assim, as autoridades soviéticas (segundo a lenda…) se surpreenderam com a capacidade do jovem sargento, e o designaram para Centro de Pesquisas e Testes de Armas Leves e Morteiros do Exército Vermelho, perto de Moscou. Kalashnikov continuou por lá depois do fim da guerra, e concebeu um fuzil semi-automático que, embora não aceito, serviu de base para outro projeto, esse em torno de uma arma totalmente automática. Essa última,, surgida em 1946, já incorporava os principais elementos do que, posteriormente, seria o AK-47: recuperação operada a gás usando um pistão de trajeto curto, instalado sobre o cano, bloco de culatra com ferrolho rotativo, e receptor (a parte da arma onde ficam instalados os mecanismos do percurssor, seletor e bloco de culatra) dividido em duas partes.

A adoção do AK, entretanto, não aconteceu imadiatamente. O Exército Vermelho estava promovendo uma competição  em vista a adotar uma nova arma. A batalha de Berlim, nas duas últimas semanas de 1945 tinha produzido nos comandantes soviéticos impressão, suponhamos, desagradável: defensores alemães grandemente inferiorizados, em números absolutos, (por vezes de 12 para 1), conseguiram conter as tropas de assalto durante muito mais tempo que o esperado. A vantagem foi atribuída ao uso, então já dissemidado, do StuG 44 (além da qualidade inegável das armas anticarro alemãs, mas esta é outra história…). Os militares soviéticos, por outro lado, estavam às voltas com um problema: a requisição por uma nova arma tinha gerado, por volta de meados de 1944, pelo menos dez protótipos, além de outro tanto de carabinas semi-automáticas. Uma primeira seleção atribuía grandes qualidades ao fuzil automático *AS-44, desenhado pelo engenheiro Sudaev, que foi distribuído e extensivamente testado em condições de combate na fase final da guerra. A principal qualidade do AS-44, segundo os relatórios de campo, era a precisão, quando em fogo semi-automático, muito maior do que a da submetralhadora PPSh. Por outro lado, os infantes soviéticos se viram às voltas com uma geringonça que, sem a munição, pesava mais de cinco quilos, além de ser muito difícil de transportar (os soldados alemães faziam a mesma reclamação, embora o StuG pesasse bem menos). Este motivo, segundo registros de arquivos examinados recentemente, foi o principal motivo para a recusa do AS-44, apesar dos relatórios favoráveis. A questão é que o AS tinha sido desenhado em torno do cartucho 7.62x41mm desenvolvido em 1943, na mesma época em que havia surgido o cartucho M1943. Esse cartucho, com um projetil ogival pesando oito gramas, exigia uma carga de pólvora química maior. Essa carga suplementar implicava em um estojo de latão mais comprido e de paredes mais espessas, o que, no fim das contas, tornava o conjunto de carregador mais 30 cargas consideravelmente mais pesado. A potência da munição acabava exigindo bloco de culatra mais resistente, o que implicava em mais peso, daí…  

A fase final da guerra deixou tudo em suspenso. Uma nova competição foi organizada em meados de 1946, e então o birô Kalashnikov apresentou um novo desenho: tratava-se de uma arma de operação a gás, cujo mecanismo de culatra era similar aquele apresentado em 1944. A arma incorporava uma característica aparentemente copiada dos fuzis de assalto alemães: o carregador curvo de 30 cargas. Os dois modelos apresentados, que receberam as notações AK-1 e *AK-2).

As duas armas se saíram muito bem nos testes, junto com outros desenhos. No final do ano, um dos assistentes de Kalashnikov propôs que algumas características da arma fossem repensadas, de forma a melhorar a confiabilidade do conjunto. Kalashnikov não gostou da idéia, e achava que dificilmente seu fuzil poderia ser melhorado. Ainda assim, aceitou as propostas formuladas por sua equipe e uma nova versão da arma surgiu, com a notação *AK-47. Esta se mostrou, de fato, mais simples e fácil de manter, em condições de campanha. Em 1949, após testes extensivos que tomaram todo o ano anterior, foi adotada oficialmente pelo Exército Vermelho. Isso não significa que, seis meses depois, cada infante soviético estivesse com um AK à bandoleira. Afinal, fazia menos de dois anos que a guerra tinha terminado e os estoques de armas remanescentes, notadamente as quase onipresentes PPSh, eram gigantescos::

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4 pensamentos sobre “Cultura material militar::A linhagem AK::

  1. Olá! gostaria de saber o seu nome para poder usar de referencia no meu trabalho e se puder me passar seu email para entrarmos em contato ficaria muito grato.

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