Regras de área, bombardeios estratégicos, armas atômicas e, no meio, um digno cidadão japonês::


Dias atrás, o redator em férias, lendo um jornal, de papo para o ar numa rede, com um chapéu de palha na cabeça e uma limonada na barriga (bem, a maior parte disso é exagero…) teve a atenção chamada para a notícia da morte de Tsutomu Yamagushi. Esse japonês é um dos heróis aqui do blogue, pois foi protagonista de uma das mais dignificantes histórias de vida dos tempos contemporâneos. Com o coração de luto (por sinal, a humanidade deveria estar de luto…), o redator ficou matutando sobre a insânia da guerra nuclear, a única guerra que não pode ter vencedores (apesar das afirmações contrários de anões amorais-homicidas como Curtis LeMay e Edward Teller). Largando o chapéu de palha e pondo a limonada na geladeira, correu então para a Internet, pois esse evento merece algumas considerações. Aproveitem!::

parte1A única pessoa oficialmente reconhecida como sobrevivente dos dois ataques nucleares contra o Japão, Tsutomu Yamagushi, morreu no último dia 4 de janeiro, de um câncer no estômago (ao que parece, não provocado pela exposição à radiação). A história desse japonês de 93 anos beira às raias do absurdo, e poderia torná-lo, a depender do ponto de vista, ou um dos maiores sortudos ou um dos maiores azarados do século 20. Em 5 de agosto de 1945, Yamagushi, engenheiro empregado pelo conglomerado Mitsubishi, então com 39 anos de idade, tinha chegado a Hiroshima por razões de trabalho. No dia seguinte, a cidade foi atacada (se você lê inglês, vale à pena dar uma olhada neste artigo; se não ler, também vale…) pelo B29 Enola Gay, do coronel Paul Tibbets. O japonês se encontrava a aproximadamente três quilômetros do centro da explosão, que o deixou gravemente queimado. Tendo recebido socorro médico, e considerado em condições de se locomover, resolveu, em 7 de agosto, retornar a Nagasaki, a uns 300 quilômetros de distância, onde residia e trabalhava. Dois dias depois, um grupo de aviões liderados pelo B-29 denominado Bock´s Car, lançou a segunda bomba – exatamente lá. No momento da explosão, Yamagushi, em um escritório localizado a uns quatro quilômetros do “marco zero”, narrava à sua equipe de trabalho como tinha sido a explosão nuclear em Hiroshima. Desta vez, ele não ficou ferido, mas a confusão que se espalhou na cidade acabou por impedir que recebesse atendimento médico para as queimaduras da explosão anterior. Os curativos reduzidos a farrapos e os ferimentos infeccionados quase lhe custaram a vida. Depois da guerra, Yamagushi aos poucos tornou-se um entusiasmado crítico da posse e uso de armas nucleares por todas as nações, chegando a escrever um livro sobre sua experiência. Em 2006, ele e outros “duplos sobreviventes” foram apresentados em um documentário, projetado em sessão solene, nas Nações Unidas. Após a projeção, Yamagushi pronunciou veemente discurso contra a existência de armas atômicas, que ele pediu que fossem totalmente abolidas e proibidas, para o “bem do futuro”.

O redator já conhecia a história de Tsutomu Yamagushi, que, nos anos 1960, chegou a ser considerado personna non grata pelo governo dos EUA. Sua cruzada contra as armas atômicas talvez não emocionasse estrategistas empedernidos nos EUA ou na União Soviética, mas tocava qualquer ser humano dotado de um mínimo de senso moral. Em suas entrevistas, dizia coisas como “A razão pela qual eu odeio as armas atômicas é o que elas fazer com a dignidade dos seres humanos.”

O que uma explosão nuclear faz “com a dignidade dos seres humanos” é exatamente reduzi-los a nada, a “megamortes”, unidade que corresponde a um milhão de mortos num prazo menor que 48 horas (para termo de comparação, a 2a GM provocou 55 “megamortes” em quase seis anos de matança). Como começou tudo isso? Em diversas oportunidades, as pesquisas de causa:: levaram o blogue perto de concuir que a humanidade é maluca. Digamos que estamos um pouco mais perto. Vejamos o motivo…::

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6 pensamentos sobre “Regras de área, bombardeios estratégicos, armas atômicas e, no meio, um digno cidadão japonês::

  1. Não conhecia a história de Yamagushi, mas li a compilação das reportagens de John Hersey para The New Yorker, em formato de livro, que só foi publicado aqui recentemente. Nele, ele acompanha o que aconteceu com seis sobreviventes:
    Reverendo Kiyoshi Tanimoto: um pastor Metodista educado nos Estados Unidos na Universidade de Emory;
    Hatsuyo Nakamura: uma viúva de guerra, mãe de três crianças;
    Dr. Masakazu Fujii: médico proprietário de um hospital privado;
    Padre Wilhelm Kleinsorge (Makoto Takakura): um pastor Jesuíta designado para a cidade;
    Dr. Terufumi Sasaki: um jovem médico no Hospital da Cruz Vermelha; e
    Toshiko Sasaki: uma funcionária administrativa da East Asia Tin Works (sem parentesco com Terufumi Sasaki). (Wikipedia)

    Em função da guerra fria, o livro original de 1946 foi censurado no Japão sob ocupação americana. Provavelmente porque a descrição do qur foi o bombardeio é daquelas coisas aterrorizantes, com pessoas correndo em busca de água, enquanto a pele de seus corpos literalmente se desprendia.

    Quarenta anos depois, ele voltou ao Japão para investigar o que havia acontecido aos sobreviventes e relatou (wikipedia):Kiyoshi Tanimoto se tornou a “celebridade” do grupo, fazendo viagens pelos Estados Unidos para levantar fundos para sua igreja, ajudando jovens garotas feridas pela explosão com coisas como cirurgia plástica, e também estabelecer o Centro de Paz de Hiroshima. Em uma destas visitas, descrita em detalhes, ele apareceu no popular programa de televisão Esta é a Sua Vida, onde ele foi colocado na desconfortável posição de ser reunido com o Capitão Robert Lewis, copiloto do Enola Gay, que jogou a bomba na cidade.

    Eu vi esta cena num documentário sobre Hiroshima e me pergunto que tipo de ser humano seria Robert Lewis – claro que não do mesmo calibre de CurtisLeMay, mas ainda assim, bem dodói, acho.

    Por outro lado, se até filmes de ação com visual impactante como Avatar, rende discussão ideológica e a meu ver meio estapafúrdia, seja da esquerda ou da direita, acho que Hiroshima, pelo menos, é história real, com o perdão da comparação. 😦

  2. Bem dodói mesmo, Alba. Lewis foi acossado durante toda a vida por problemas psiquiátricos. Era frequentemente colocado na posição de “coitadinho”. Um questão interessante é q, de fato, a maioria dos oficiais da Força Aérea do Exército não fazia a menor idéia do q iriam fazer. Paul Tibbets foi informado apenas que teria de sair o mais rápido possível da região de detonação. Segundo a lenda, qdo perguntou o q era a bomba q transportava, recebeu a resposta de que não precisava saber.Tibbets passou o resto da vida dizendo q faria exatamente a mm coisa, e que a bomba tinha salvado “vidas americanas”. Era o clima da Guerra Fria.

  3. Obrigada, bitt. Isso explica porque ele se sujeitou a aparecer naquele tipo de programa, apenas para quem sabe, apertar a mão do japonês, em sinal de arrependimento. Por outro lado, até dá pra entender a atitude dos pilotos. Se os caras fossem racionalizar os efeitos das bombas que despejavam,depois de um tempo não fariam mais isso, imagino.

    bitt, o NPTO escreveu um post interessante lembrando a importância da Batalha de Stalingrado. Não conheço ninguém mais qualificado que você para escrever sobre o tema. Não nos daria esse presente? 🙂

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