Cultura material militar::A linhagem AK::


No posto anterior, que abriu o assunto, vimos alguns detalhes sobre a história do fuzil de assalto AK-47. Opa! AK-47? Não. Nada disso. Esse é um dos erros mais comuns, no que diz respeito a notação do Avtomat Kalashnikova modelo 1947: de fato, as forças armadas e policiais da antiga URSS denominam a arma de AK, simplesmente, e acrescentam mais uma ou duas letras que designam os diversos modelos. Portanto, os (mais ou menos…) oito leitores de causa:: ficam proi-bi-dos de chamar essa venerável peça de engenharia militar de AK-47. Como chamá-la? Bom, veremos adiante, na parte 2::

parte2O fuzil automático de Kalashnikov, modelo 1947 foi adotado no ano de 1947 (quanta inteligência aqui do redator, hein?..). Entretanto, isso não significa que, seis meses depois de tomada a decisão, cada militar soviético estivesse com um deles à bandoleira. Nos 15 meses seguintes foram tomadas providências políticas, organizativas e industriais para que a arma começasse a ser fabricada em massa. A distribuição para as tropas só começou na primeira metade de 1949, e mesmo assim em números bastante modestos – claro, para os padrões da gigantesca máquina militar soviética de então. A produção iniciou-se na enorme Fábrica de Máquinas deIzhevsky, conhecida como  Izhmash (embora enfrentando sérios problemas financeiros, ainda uma das principais instalações industriais de fabricação de armas da Rússia), mas logo se espalhou por diversas outras instalações industriais nas repúblicas soviéticas e nos países da esfera de influência de Moscou.

Tecnicamamente falando, todas as armas da linhagem AK são fuzis de assalto de fogo seletivo, operados por recuperação de gás. É feito principalmente em aço estampado e usinado (o cano e certas partes do bloco de culatra) e madeira laminada (a coronha, o punho de pistola e a empunhadura do cano). Isso resulta num conjunto que, sem a munição, pesa, vazio, 4.300 gramas; introduzidas as 30 cargas de munição M1943, o peso da arma sobe para 4.875 gramas. O comprimento total do conjunto é de 87 centímetros, sendo que o cano ocupa 41,5 centímetros. O alcance efetivo (distância em que o projétil ainda conserva energia para penetrar obstáculos de alguma dureza) é de cerca de 800 metros (dada a velocidade de saída do projetil, de 715 m/s); o alcance útil é de uns 400 metros em modo semi-automático, caindo para 300 se o seletor estiver em modo automático. 

O princípio de operação de toda a família AK é a recuperação de gás (veja aqui um excelente corte do AK, mostrando as peças internas)- por sinal, o mesmo princípio usado pelo fuzil de assalto alemão StuG-44 (observe, nesta foto, detalhes do fuzil de assalto alemão). Como todo leitor de causa:: já sabe na ponta da língua, uma arma de fogo funciona pela expansão violenta de gás resultante da explosão de um propelente – pólvora química, no caso. A expansão do gás impulsiona o projétil, mas boa parte dela se perde no recuo da arma e no “sangramento”, ou seja na perda resultante da saída através dos espaços abertos da arma. As armas automáticas e semi-automáticas funcionam todas por princípios que aproveitam parte dessa energia para rearmar o sistema (coisa que, em armas de repetição, é feita pelo próprio atirador). No caso da “recuperação de gás”, parte desse, que acompanha o projétil até a boca, entra por uma válvula situada na seção superior do cano. Essa válvula dá acesso à um tubo onde se encontra instalado um pistão, ligado por uma haste ao bloco da culatra. O recuo do pistão empurra o conjunto do bloco para trás, e aciona uma peça chamada “ferrolho”. Trata-se de um bloco de aço que, parado, é mantido no lugar pela pressão de uma mola, e mantém a câmara vedada por estar firmemente justaposto às paredes da caixa de culatra (em inglês, essa parte da arma é chamada receiver). Ao ser empurrado, para trás, o ferrolho expõe a câmara da arma, e retira o cartucho vazio (por meio de uma peça chamada “extrator”), que é ejetado através de uma janela que se abre na caixa de culatra. Outra carga é “puxada” para dentro da câmara pelo movimento do bloco e com a ajuda de uma mola instalada no carregador, para então ser empurrada para a posição pelo movimento contrário do bloco, que outra vez veda a câmara (quando da explosão da carga, a vedação é implementada pela deformação das paredes do cartucho). No caso do AK, o pistão tem um curso longo (também é o caso do StuG-44), pois ao longo do percurso a pressão do gás diminuí e, por consequência, o impacto do recuo também, além de mitigar o desgaste das peças. Existem diversos métodos de funcionamento do ferrolho. No caso do AK, trata-se do “ferrolho rotativo”: como diz o nome, uma peça de metal com função de abrir e fechar a câmara. Quando essa peça recua, faz um giro parcial sobre seu eixo; no retorno, o giro se dá no sentido inverso. Os “ciclos de tiro”, ou seja, a  quantidade de vezes que o sistema repete esses movimentos, permitem uma cadência máxima (em condições de laboratório) de 600 salvas por minuto, em modo automático; em modo semi-automático, um bom atirador consegue disparar até 90 salvas por minuto.  Para selecionar  os modos de fogo, basta que o atirador modifique a posição de uma alça situada do lado direito da arma, exatamente acima do gatilho. Essa alça é uma das características mais interessantes do AK – foi redesenhada a partir de uma arma de origem norte-americana. o Remington modelo 8. Quando deslocada para cima, interrompe a trajetória da alavanca de armar (que prepara a arma para o tiro); quando abaixada, a alça libera a alavanca e torna-se o seletor de modo. A pontaria, por sua vez, é feita através de uma alça de mira regulável, graduada de 100 até 800 metros, instalada na parte anterior da caixa da culatra.

Diversas peças do mecanismo do AK, assim como o cano, são cromadas. Essa providência destina-se a diminuir o desgaste provocado pelo gás da explosão da carga, altamente corrosivo. A cromagem também aumenta a durabilidade do conjunto por diminuir a necessidade de manutenção do equipamento. Outro ponto que ajuda é a distância entre as peças, calculada para diminuir o atrito e permitir melhor lubrificação. Todas essas características dão ao AK uma espantosa capacidade de  funcionar em condições adversas: fala-se em armas que, no Vietnam, passavam seis meses sem ser limpas.

A primeira produção do AK encontrou diversos problemas, principalmente relativos aos processos industriais. A fabricação das peças da caixa de culatra revelou-se muito problemática. A peça principal, que constituía o corpo da caixa era estampada, feita em prensas hidraulicas de alta pressão. Algumas peças internas (guias e trilhos que colocavam e mantinham o conjunto ferrolho-extrator no lugar)  tinham de ser soldadas, e o processo resultava mal-acabado. Muitas armas do primeiro lote simplesmente não funciovam e eram rejeitadas. A decisão de interromper a produção seria antes de tudo política, de responsabilidade do Comissariado para a Defesa do Povo, e poderia ter sérias consequências. A opção foi continuar a produção, usando peças de metal usinadas, processo que se mostrou complicado e caro. Entretanto, os engenheiros do arsenal Izhmash (talvez com medo de acabarem no gulag), tiveram uma idéia brilhante: aproveitar os métodos e máquinas-ferramentas usados na fabricação da caixa de culatra dos fuzis de repetição Mosin-Nagant, que tinha semelhanças técnicas com as peças do AK. A idéia funcionou (sorte deles – ainda era a época de Stalin…), a produção do fuzil foi acelerada, mas a distribuição estava comprometida: só iria alcançar números razoáveis a partir de 1956. O peso do conjunto  também aumentou consideravelmente, dadas as diferenças estruturais entre peças estampadas e usinadas.

A versão standart do AK foi logo seguida por outra, de notação AKS, o “S” significando Skladnoy, ou “dobrável”). Era o mesmo AK, mas dotado de uma conhonha rebatível, feita em arame de aço, que se recolhia ao longo da caixa de culatra e empunhadura do cano. Essa versão, que pesava quese um quilo a menos do que a de coronha fixa, destinava-se à distribuição para tropas paraquedistas e motorizadas, e teve os mesmos problemas que a outra versão.

O desenvolvimento do AK e sua distribuição revelaram diversos problemas não apenas com a arma, mas com os processos de fabricação. A partir da modificação dos processos industriais, que resultaram na melhoria de desempenho e permitiram a distribuição em grandes números, novos aperfeiçoamentos foram sendo introduzidos. Os métodos que corrigiram os defeitos de fabricação dos primeiros lotes, foram simplificados, e marcaram o início do redesenho da arma, iniciado em 1957 e aceito em 1959, como AKM (o “m” significando modernizirovanniy ou “modernizado”).

A primeira e mais marcante modificação foi a adoção do processo de estamparia para a fabricação da caixa da culatra. Essa providência destinou-se a diminuir o peso do AK, e foi muito bem sucedida: o peso do conjunto diminuiu em quase 1 quilo. Entretanto, os desenhistas temiam que a resistência da caixa diminuisse, de modo que uma seção tubular cruzada, destinada a reforçar a resistência estrutural. O principal ganho da adoção da caixa de culatra estampada foi a possibilidade de instalar as peças de fixação da mola e do cano através de rebites, enquanto no AK essas peças eram aparafusadas. O aperfeiçoamento de processos de solda elétrica sob pressão permitiram a instalação precisa das guias do ferrolho/ejetor. Diversas outras medidas para economia de peso foram tomadas, utilizando-se, onde fosse possível, materiais mais leves e peças de menor espessura. A coronha também recebeu um compartimento oco, destinado a diminuir o peso do conjunto. Outra inovação foi um freio de boca, destinado a aumentar a estabilidade da arma no momento do tiro.

Fora essas diferenças, o AKM e o AK eram iguais, tanto é que diversas peças eram intercambiáveis. A nova versão do fuzil tinha todas as qualidades da anterior, e tinha tido a maioria dos defeitos resolvidos. O AKM tornou-se arma padrão das forças armadas e policiais da URSS e rapidamente começou a ser distribuído para os países aliados. No caso da China, então em ótimas relações com os soviéticos, os planos do AK foram repassados ainda em 1956, razão da arma ser lá conhecida como “Fuzil automático Tipo 56”. Não se sabe exatamente quantos “Tipo 56” foram fabricados na China, mas parte considérável deles foi exportada para países do Terceiro Mundo. A maioria dos AK que surpreenderam os combatentes norte-americanos no Vietnam eram de origem chinesa. Uma diferença marcante entre o AK e o “Tipo 56” era a baioneta, que diferia, entre o original russo e a cópia chinesa: nesta, o equipamento era fixo, sendo girado para trás quando não em uso. Os chineses também logo passaram a produzir o AKS, que recebeu a notação “Tipo 56-I” Em meados dos anos 60, os chineses começaram a fabricar (sem auxílio nem permissão dos russos) uma versão semelhante ao AKM, de notação “Tipo 56-1”. Os três tipos produzidos na China podem ser vistos aqui. Note que o do meio é um “Tipo 56” original, que se reconhece pela ausência do freio de boca.

Calcula-se que, entre todas as unidades e versões fabricadas, existam mais de 50 milhões de AK e AKM espalhados pelo mundo, o que significa que um em cada três fuzis de assalto existentes sejam Kalashnikov. A arma ainda está em pleno uso, e provavelmente continuará, ainda por muito tempo. A eficácia dessa peça de engenharia mecânica e militar já foi mais que comprovada, e a torna uma das mais importantes armas já projetadas e fabricadas, em qualquer época. O que não impediu que o tempo a tornasse ultrapassada. O problema talvez nem seja propriamente a arma em si, mas o calibre: o cartucho M1943, apesar de sua eficácia e confiabilidade, é pesado e, apesar das características, ainda muito potente. Por volta de meados dos anos 1960, os soviéticos já estavam trabalhando no desenvolvimento de um cartucho de menor calibre. Mas falaremos nisso na parte3::

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Um pensamento sobre “Cultura material militar::A linhagem AK::

  1. Olha, o AK não é tão ruim nem tão bão, faz um arregaço lascado a curta distância, guenta um tranco que um FAL ou M 16 não guentariam, trabalha até debaixo d’água, gelo e areia. Isso é público e notório.

    O que pega é que ele é “barulhento” (e você irá ouvir muito poucos falarem isso na Rede). Você usa o bicho durante o dia, de noite sabe que precisa limpar o desgraçado daí, solta um ferrolho, solta isso e aquilo, vai montar e o infeliz faz um barulho lascado no meio do mato lá prás duas da manhã… . Tem dó…. .

    🙂

    *é um bom (excelente) rifle.

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