Datas relevantes de causa:: Dois de fevereiro::


Houve noites tépidas ou manhãs claras, eu lembro. Mas não importa ao monstro. Ele é apenas dentes e morte, o cheiro do frescor não lhe causa espécie. O que olha são apenas os ossos a esmigalhar. (Isaak Bluhmnstein, 16 anos, morto em Stalingrado, ca. novembro, 1942)

Quase ninguém lembrou- o próprio redator ia esquecendo, mas no dia 2 de fevereiro, 66 anos atrás, entre as ruínas da cidade de Stalingrado, às margens do rio Volga, o fascismo entrava em curva descendente. Esse redator sem o menor talento literário poderia escrever outro texto analítico, mas certamente eles já existem por aí, melhores. Então… Rendamos tributo. E, nas entrelinhas, deixemos claro: não podemos esquecer!::

Carta a Stalingrado (Carlos Drummond de Andrade)

Depois de Madri e de Londres, ainda há grandes cidades!/ O mundo não acabou, pois que entre as ruínas outros homens surgem, a face negra de pó e de pólvora,/ e o hálito selvagem da liberdade/dilata os seus peitos, Stalingrado,/ seus peitos que estalam e caem,/ enquanto outros, vingadores, se elevam.//A poesia fugiu dos livros, agora está nos jornais./Os telegramas de Moscou repetem Homero./ Mas Homero é velho. Os telegramas cantam um mundo novo/ que nós, na escuridão, ignorávamos./ Fomos encontrá-lo em ti, cidade destruída,/ na paz de tuas ruas mortas mas não conformadas,/ no teu arquejo de vida mais forte que o estouro das bombas,/ na tua fria vontade de resistir.// Saber que resistes./ Que enquanto dormimos, comemos e trabalhamos, resistes./ Que quando abrimos o jornal pela manhã teu nome (em ouro oculto) estará firme no alto da página./ Terá custado milhares de homens, tanques e aviões, mas valeu a pena./ Saber que vigias, Stalingrado,/ sobre nossas cabeças, nossas prevenções e nossos confusos/pensamentos distantes/dá um enorme alento à alma desesperada e ao coração que duvida.// Stalingrado, miserável monte de escombros,/ entretanto resplandecente!/ As belas cidades do mundo contemplam-te em pasmo e silêncio./ Débeis em face do teu pavoroso poder,/ mesquinhas no seu esplendor de mármores salvos e rios não profanados,/as pobres e prudentes cidades, outrora gloriosas, entregues sem luta,/ aprendem contigo o gesto de fogo./Também elas podem esperar.// Stalingrado, quantas esperanças!/ Que flores, que cristais e músicas o teu nome nos derrama!/ Que felicidade brota de tuas casas!/ De umas apenas resta a escada cheia de corpos;/ de outras o cano de gás, a torneira, uma bacia de criança./ Não há mais livros para ler nem teatros funcionando nem
trabalho nas fábricas,/ todos morreram, estropiaram-se, os últimos defendem pedaços negros de parede,/ mas a vida em ti é prodigiosa e pulula como insetos ao sol,/ ó minha louca Stalingrado! // A tamanha distância procuro, indago, cheiro destroços sangrentos,/ apalpo as formas desmanteladas de teu corpo, / caminho solitariamente em tuas ruas onde há mãos soltas e relógios partidos,/ sinto-te como uma criatura humana, e que és tu, Stalingrado, senão isto?/ Uma criatura que não quer morrer e combate,/ contra o céu, a água, o metal, a criatura combate,
contra milhões de braços e engenhos mecânicos a criatura combate,/ contra o frio, a fome, a noite, contra a morte a criatura combate,/ e vence.// As cidades podem vencer, Stalingrado!/ Penso na vitória das cidades, que por enquanto é apenas uma fumaça subindo do Volga./ Penso no colar de cidades, que se amarão e se defenderão contra tudo./ Em teu chão calcinado onde apodrecem cadáveres, a grande Cidade de amanhã erguerá a sua Ordem.::

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6 pensamentos sobre “Datas relevantes de causa:: Dois de fevereiro::

  1. Bitt:

    Creio que só Babilônia (a antiga) sofreu mais que Stalingrado (Talvez Massada também como exemplo servisse mas, lá morreu todo mundo né?).

    Conheci um russo em São Paulo (amigo da família da minha primeira mulher) que esteve em Stalingrado na época do cerco, o cara era muito sequelado, falava muito mal o português mas, nos entendemos.

    O frio foi o pior inimigo para ambos os lados, o cara deu receitas de como preparar ratos e cachorros, contou como os chocolates alemães eram a “prata da casa” quando se conseguia abater o infeliz que os tinha. Contou muitas outras coisas que nem dá pra relatar aqui, Guerra é uma coisa muito suja (talvez o ser humano seja a pior espécie na face da terra, infelizmente).

    Bitt, você foi solidário comigo lá no PD, agradeço aqui.

    Não foi minha intenção provocar o PD, sempre disse e cobro transparência nos comentários, é de bom tom deixar tudo muito bem explicado pra não dar interpretação diversa, dessa vez parece que não ficou claro ao PD que minhas críticas não são “cutucões”, são alertas (tanto que o novo pedaço dele está “às moscas”).

    Fazer o quê né?

    Fiz minha parte (como amigo, disse de boa o que penso, pelo jeito fui mal interpretado).

    A vida é assim mesmo, os relacionamentos na rede são complicados…

    Outra coisa, voltando ao assunto “redes”: a Rússia implantou alguns equipamentos em cabos ópticos submersos para tentar captar “pacotes”, não sei se deu certo, creio que não (cabos submarinos de cobre eram fáceis de “grampear”, você sabe).

    Outra: há no mercado um programa que roda em SO Linux, você instala num notebook com placa wireless, ele leva de duas a oito horas pra hackear as redes wirelesse que captar, depois disso dá a você até a senha dos modems, isso é seríssimo, nunca confie em conexão wireless.

    Tudo isso poderia ter falado lá no PD mas, foge às regras dele (e também poderia perder todo o texto quando aquela página recarrega, é um saco).

    Bitt, bom Bitt, vou ficar por aqui, um abração prôce!

    🙂

  2. Bitt, posto aqui para você e os demais sete leitores (…) um link divertido e talvez interessante, um show de uma banda militar norueguesa: http://sorisomail.com/email/16993/exibicao-de-banda-militar–um-espectaculo-imperdivel.html

    A meu ver, o coreógrafo desta apresentação é pobre porque quer: com tanto talento faria carreira fácil na Broadway ou em Hollywood. Ou, melhor, haja vista a continuidade do militarismo patrioteiro americano, eles adorariam ter bandas assim desfilando mundo afora. E a máxima atribuída a Napoleão é confirmada: é possível fazer tudo com uma baioneta, exceto sentar-se nela. Mas os garbosos branquelos estão próximos de fazê-lo (eu estava vendo a hora de vê-los cair em spacatto).

    Para você, em particular, que deve saber o modelo dos fuzis usados no show (bobeia, até os números de série…), uma sugestão: que tal falar das bandas militares? Pelo que sei, hove uma época que estas eram imprescindíveis nos campos de batalha europeus, seus componentes eram garotos e era tácito que não podiam ser atacadas. Parece que a moda acabou, como quase todos os sonhos e ilusões “civilizados” do Ocidente, na guerra 14-18, como dizem os franceses. Confere?

    Proftel, o PD reabriu o blog ou isto é papo antigo? Em tempo: eu também nunca vi o wireless com bons olhos.

    Abraços aos meus prezados sete colegas,

    • Luiz, o PD está com um blog no Estadão:

      http://blogs.estadao.com.br/pedro-doria/

      Lá há regras claras, não se pode fugir do assunto do post nos comentários. Há mais, se você for comentar, abra o bloco de notas para escrever seu comentário, depois de escrito copie e cole na caixa de comentários. O blog fica atualizando e você perde tudo que escreveu se escrever “direto” na caixa.

      🙂

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