Cultura material militar::Minié: a arma da Guerra do Paraguai::

Já que o redator parte do princípio de que conhecemos pouco nossa história, evidentemente que os inúmeros desdobramentos dela, conheceremos menos ainda. Assim, a história da técnica não será exatamente a especialidade mais conhecida mesmo entre interessados. Fanático por tecnologia, o redator resolveu dar uma espiada na cultura material militar do período da Guerra do Paraguai. O resultado foi que, ao contrário do que se possa imaginar, as forças armadas do Império do Brasil não estavam assim tão mal equipadas, durante aquele conflito. Embora as autoridades da época não tenham dado grande atenção ao Exército (a Marinha foi tratada um pouco melhor), a partir dos anos 1850, a seqüência de conflitos na região do Prata, ou seja, conflitos internacionais, fez com que o governo olhasse com maior cuidado para a capacidade de seus militares. Abaixo, examinaremos uma das armas revolucionárias que surgiram no século 19, revolução que alcançou os campos de batalha sul-americanos::  

parte 1Embora travada em um ambiente economicamente periférico e tecnologicamente insignificante, do ponto de vista da inovação, a Guerra do Paraguai incorporou, de ambos os lados, alguns avanços significativos, que ajudaram a tornar o conflito um dos mais mortíferos do século 19. Um desses avanços foi o fuzil Minié, distribuído em grandes números para o exército do Império. Essa foi uma das mais importantes inovações técnicas no campo de batalha do século 19. Surgiu em 1849 como conseqüência da invenção do projetil Minié, em 1847. A arma de Minié era, de fato, um conjunto de inovações adotadas em torno de um novo tipo de projétil. Em algum lugar do blogue das boas causas falamos de como uma das formas de melhorar a precisão do tiro seria raiar o cano da arma, de forma a imprimir ao projétil movimento giratório, de modo a estabilizar seu centro de gravidade e, por conseguinte, a trajetória de vôo. O problema é que, nas armas de antecarga (carregadas pela boca), os projéteis ou tinham de deslizar por dentro do cano, até a câmara da arma, ou tinham de ser forçadas até lá por uma haste, o que tornava o carregamento muito lento. Com o raiamento do cano, o processo se tornou ainda mais complicado, pois o projétil, ao moldar-se às raias, descia de maneira ainda mais lenta. Uma idéia que surgiu no final dos Setecentos foi usar projéteis cujo calibre, apenas ligeiramente inferiores ao diâmetro do cano da arma, se deformavam com a explosão do propelente, amoldando-se ao cano e, conseqüentemente, ao raiamento. O projétil de Minié foi uma idéia revolucionária, mas não surgiu da noite para o dia. Foi inventado pelo capitão do Exército Francês Claude Etienne Minié, mas teve a ajuda do colega Henri-Gustave Delvigne. Delvigne foi o inventor de um fuzil raiado eficiente, em 1826, utilizando um projétil de formato esférico que seria socado através da vareta contra uma superfície semi-esférica, adaptando-se assim ao raiamento do cano. O problema era que o método de carregamento deformava o projétil, comprometendo-lhe a eficiência. Delvigne teve então a idéia de introduzir na parte posterior do projétil de chumbo um pequeno taco de madeira. Essa peça deveria limitar a deformação do projétil, sem impedir que este se amoldasse aos sulcos do raiamento. A inovação mostrou-se bastante eficiente, e difundiu-se rapidamente em todos os exércitos. O raiamento tornava o disparo muito mais preciso e aumentava o alcance da arma sem exigir um notável aumento do tamanho do cano. Esse fator marcou a superioridade dos fuzis sobre as armas de alma lisa, então ainda muito comuns.

O fuzil Minié, assim como seu predecessor, o Delvigne, ainda eram, tecnicamente, mosquetes, mas isso não é ainda muito importante. O ponto de inflexão foi o ano de 1830, quando Delvigne iniciou o desenvolvimento dos projéteis cilíndrico-cônicos. Posteriormente, a introdução de ranhuras Tamisier (nome do inventor do processo, um oficial francês de artilharia) tornou os projéteis bem mais estáveis, embora tornassem o amoldamento às raias mais complicado. Na mesma época, outro oficial francês (era definitivamente a era dos franceses…) descobriu uma forma de controlar a deformação do projétil, introduzindo um pino no centro da câmara, bem mais longo do que essa parte e fixado à culatra da arma. Esse pino fazia o projétil deformar-se quando pressionado contra ele pela vareta, amoldando-se às raias. Só que, nesse processo, o projétil tomava um formato alongado e mais aerodinâmico. Essas inovações, que surgiram umas após as outras, desde o início dos oitocentos, convergiram no *projétil Minié: tratava-se de um projétil cilíndrico-cônico feito de uma liga macia de chumbo. O Minié era ligeiramente menor do que o diâmetro do cano, e tinha quatro ranhuras bem pronunciadas, que eram preenchidas com graxa, e o interior era oco desde a base, em formato cônico. A novidade é que o capitão Minié substituíra o taco de madeira por um pequeno tarugo de metal, acoplado de maneira folgada à parte inferior do interior oco, mas sem o preencher. O carregamento acontecia com o atirador deixando a pólvora negra escorrer para a câmara, e em seguida fazendo o projétil deslizar para sua posição, sobre a pólvora. Era necessária apenas uma pancada com a vareta, pois a graxa ajudava o projétil a deslizar. Acionado o gatilho, a explosão do propelente lançava o tarugo de metal para a parte vaia do espaço cônico dentro da bala, uma fração de segundo antes do início da trajetória desta através do cano. O resultado é que o tarugo, mais duro que o chumbo, fazia o projétil expandir-se o suficiente para amoldar-se ao raiamento, sem deformação notável, mas suficiente para obturar a câmara e potencializar a expansão dos gases gerados pela explosão. A graxa, derretida pelo súbito aquecimento, tornava mais fácil o trajeto.

Testes realizados em 1849 demonstraram que a potência de um disparo usando o sistema Minié era capaz de penetrar duas pranchas duplas de madeira-de-lei separadas por 50 centímetros, a uma distância de uns 15 metros; entre os soldados começou um falatório que dizia que, a mil metros, um disparo de Minié atravessava um homem e sua mochila, e ainda poderia derrubar o cara que estivesse atrás dele. Posteriormente, os boatos aumentaram: a mil metros, um disparo de Minié atravessava uma linha de 15 homens.

Mesmo assim, a distribuição do novo fuzil foi lenta, embora diversos exércitos o tenham testado. Durante a Guerra Civil Americana (1861-1865) tornou-se a principal arma de infantaria em ambos os lados. Os motivos que assustavam os combatentes eram os mesmos que tornaram a arma popular entre eles: a alta velocidade e o calibre aumentado pela deformação do projétil (em alguns casos, chegava a 18 mm) tornava qualquer ferimento incapacitante, se não mortal.

O fuzil Minié, do ponto de vista técnico, era uma arma de antecarga, com um fecho de percurssão que utilizava o sistema “de fulminante”. O calibre era de 18 mm (existiram versões em outros calibres), e o peso do projétil cilíndrico-cônico girava em torno de 32,4 g – a variação, quando acontecia, era mínima. O cano tinha o comprimento de 95.8 cm, para um comprimento total da arma de pouco mais de 140 cm. O peso era de cerca de 4,8 quilos. Seu alcance eficaz era de mais de 1000 metros, mas a precisão era bem razoável  a até 550 metros. Uma novidade bastante notável eram as novas alças de mira, capazes de apontar arma dentro das novas distâncias úteis.

Soldados negros do Exército da União armados com fuzis Minié. A revista Harper´s, criada em 1857, com base em Nova Iorque, notabilizou-se por enviar correspondentes de guerra que seguiam nos calcanhares das tropas em combate.

Um dado que deve ser levado em consideração é que o período em que surgiu o Minié foi o da Segunda Revolução Industrial. Essa segunda fase da Revolução Industrial teve grandes avanços na aplicação de conhecimentos científicos que resultaram em novas técnicas em siderurgia e metalurgia, bem como nos diversos ramos da indústria metal-mecânica. Esses desenvolvimentos afetaram todo o processo produtivo, permitindo a padronização confiável de peças mecânicas em metal. Essa padronização abriu a possibilidade de que uma arma robusta e precisa fosse distribuída em números razoáveis, afetando não apenas as doutrinas, mas também a logística dos exércitos.

O interesse gerado pela nova arma logo ultrapassou as fronteiras da França. Quase todos os países capazes de fabricar armas copiaram o projétil e *a arma (a da foto é um modelo fabricado na França para os japoneses, em 1866). O Brasil não era capaz de fabricar uma peça de tal complexidade, mas adquiriu uma pequena quantidade para testes, que foram realizados na Guerra contra Oribe e Rosas (1851); nessa campanha, outras armas de última geração também foram experimentadas, colocadas à disposição de pequenas frações de tropas. Por volta de 1860, (segundo informações levantadas por Adler Homero Castro), cerca de 2700 armas do sistema Minié, entre fuzis (armas de infantaria) e clavinas (armas mais curtas, de cavalaria), comprados na Bélgica, estavam em serviço. Em 1863, uma grande quantidade de armas desse modelo foi adquirida. Isso pode parecer que o Exército Imperial buscava padronizar seu equipamento, e isso talvez possa ser considerado correto. Mas é difícil promover qualquer processo de padronização num país sem infra-estrutura industrial. As compras são, geralmente de oportunidade, feitas segundo exista disponibilidade no mercado internacional. Com virtualmente todos os exércitos do mundo buscando adquirir a arma, nem sempre os fornecedores dispunham de estoques. Pouco depois dessa grande aquisição, outra foi feita, só que de armas que seguiam o modelo Enfield – fuzil-mosquete Enfield Pattern (Modelo) 1853, que a literatura especializada por vezes chama de P53 Enfield –, modificação da patente francesa feita na Real Fábrica de Armas Leves (RSAF, em inglês), situada em Enfield Lock, Grã-Bretanha.

Soldados confederados mortos em uma trincheira. Notar os fuzis P53, largados na cena.

O P53 era, basicamente, o fuzil Minié, mas disparava um projétil simplificado, sem as raias Tamisier. Nesse novo desenho, o tarugo de metal foi substituído por um de madeira ou argila. Posteriormente, o projétil deixou de ter um tarugo, pois se verificou que a explosão era suficiente para deformar o projétil e forçá-lo no raiamento sem provocar maiores problemas.

Em princípio, P53 e o Minié francês eram armas iguais, mas a decisão do governo brasileiro em adquirir lotes de ambas rapidamente causou grande número de problemas. Segundo Adler Homero, a alça de mira das primeiras Miniés, era regulada em braças (unidade de medida portuguesa usada no Brasil, até 1865), e a das P53 estavam em jardas (unidade do sistema de medidas britânico). O resultado é que, a partir de 1865, com a adoção do sistema métrico, a conversão tornou-se um problema. Mas isso nem era problema: em braças ou jardas, as armas disparavam. Mas a pequena diferença (0,14 mm – quatorze décimos de milímetro) entre o calibre das duas armas era outra coisa. Essa diferença pode até parecer insignificante, principalmente em armas de antecarga, mas o fato é que o projétil das armas belgas não entrava nas inglesas; já o projétil de calibre menor, usado nas armas belgas, acabava não provocando o forçamento adequado nas raias. O resultado é que o projétil perdia a estabilidade logo após no início do vôo.

A seguir, veremos algumas consequências do uso militar do sistema Minié, principalmente no Brasil::

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Um rapaz da Forças Especiais::Luís Alves de Lima e Silva::

Precisa dizer mais?

Não, mas digamos assim mesmo. O Duque de Caxias nasceu Luís Alves de Lima e Silva, em 25 agosto de 1803, na Vila de Porto da Estrela, província do Rio de Janeiro (o lugar é hoje o pouco conhecido Parque Histórico Duque de Caxias, no município de Duque de Caxias). De uma linhagem de militares, seu pai, marechal-de-campo Francisco de Lima e Silva foi figura muito ligada ao Primeiro Reinado. Em 1808 o pequeno Luis Alves foi titulado Cadete de 1ª Classe – tinha então 5 anos de idade. Na época, isso não era nada de tão extraordinário, mas apenas uma forma da nobreza garantir vaga na carreira militar. O fato entrou para uma espécie de mirabilia militaris do futuro duque, forma de dizer – “nasceu para o exército”. Aos quinze anos, matriculou-se na Real Academia Militar, de onde saiu tenente, em 1821. Ao longo de sua carreira, mostrou-se tão hábil comandante militar quanto negociador político: participou ativamente das campanhas do Exército para pacificar a província do Maranhão, da qual foi presidente; em 1842 foi enviado com tropas do Império para as rebeladas província de São Paulo e de Minas Gerais, envolvidas na “Revolução Liberal”; foi chamado para pacificar a Região Sul do país, incendiada pela Revolta Farroupilha, a “Guerra dos Farrapos”. Em todos essas missões, mostrou-se negociador político sensato e sagaz: não humilhava os vencidos, visando sempre a conciliação, tendo em vista a unidade da formação política em construção, o Império do Brasil. Mas também era competente líder militar, que não hesitava em se colocar à frente de seus homens, como na batalha da Ponte de Itororó, em 6 de dezembro de 1868: “sigam-me os que forem brasileiros!”. Segundo Affonso de Carvalho, “…toda aquela massa que há pouco amolecera e se desfibrara sob a ação do pânico, readquire de súbito sua vitalidade e poder combativo…”; já Dionísio Cerqueira aponta: “…houve quem visse moribundos, quando ele passou, erguerem-se brandindo espadas ou carabinas para caírem mortos adiante…”. É claro, são exageros literários, mas a atitude de Caxias, que não era rara entre os militares de sua época, em todo o mundo, expressa a dedicação desses homens à carreira militar. Poderíamos falar muito sobre seu período no comando do exército em campanha no Paraguai, mas o talento do duque pode ser facilmente constatado em muitos livros e milhares de entradas na Internet.

Em sua homenagem, o dia de seu nascimento, 25 de agosto, passou a ser a data oficial do Dia do Soldado. Foi de Vargas a iniciativa de elevar Caxias à patrono do Exército, e colocá-lo a repousar, definitivamente, diante do quartel maior da força terrestre, desde sempre: o campo de Santana, no Rio de Janeiro. O fato é que a escolha foi tardia, e foi política, numa época em que Vargas procurava mobilizar símbolos da nacionalidade, e encontrou no duque uma expressão da unidade nacional. Até então, o “patrono informal de todos os soldados” era o marquês do Herval, Manuel Luís Osório, exemplo de soldado de carreira, cavalariano, homem do povo e liberal por profunda convicção. Caxias sempre foi homem do establishment conservador, último pilar do Império do Brasil, ao qual serviu dedicadamente por mais de 50 anos. Mas essa é outra história, e não denigre em nada a trajetória do marechal.

O visconde de Taunay,  major-engenheiro militar, autor do clássico “A Retirada da Laguna” descreveu os funerais do velho marechal, em 1880: “Carregaram o seu féretro seis soldados rasos; mas, senhores, esses soldados que circundam a gloriosa cova e a voz que se levanta para falar em nome deles, são o corpo e o espírito de todo o Exército Brasileiro. Representam o preito derradeiro de um reconhecimento inextinguível que nós militares, de norte a sul deste vasto Império, vimos render ao nosso velho Marechal, que nos guiou como General, como protetor, quase como pai durante 40 anos; soldados e orador, humildes todos em sua esfera, muito pequenos pela valia própria, mas grandes pela elevada homenagem e pela sinceridade da dor”.

O sociólogo Gilberto Freyre, tendo tido sua atenção chamada para o termo “caxias”, usado tanto por militares quanto por civis para definir alguém que não tergiversa diante de seus deveres, escreveu, sobre o assunto: “Caxiismo não é conjunto de virtudes apenas militares, mas de virtudes cívicas, comuns a militares e civis. Os “caxias” devem ser tanto paisanos como militares.” O jornalista Barbosa Lima Sobrinho encontrou no duque um  “Patrono da Anistia”, em função da sensibilidade política do marechal. O povo brasileiro ainda hoje continua usando a expressão no mesmo sentido analisado por Freyre. Uma coisa é certa: precisamos de mais “caxias” neste país::

O mês da Guerra do Paraguai::Ainda temos alguma coisa a aprender com os gringos::

É razoável considerar que o Brasil não se mete em tantas guerras quanto os EUA e a URSS/Rússia, desde sempre, ou a Grã-Bretanha, no século passado e no anterior. Mas muitos de nossos compatriotas morreram em combate, ao longo de nossa história, e o único cemitério nacional que construímos foi o Monumento aos Mortos da Segunda Guerra Mundial. Tivemos mortos antes, e tivemos mortos depois. Eles mereceriam alguma homenagem. É muito bom que nossos principais combates, ao longo do século 20, tenham se dado em campos de futebol ao redor do mundo, mas também tivemos mortos em combate, desde então, a maioria deles na espúria “quase-guerra-civil” de 1964-1976. Reconciliações para esse tipo de episódio são sempre difíceis (vide as discordâncias perenes sobre a “Lei da Anistia” e a recente proposta da “Comissão da Verdade“). Mas não seria um ato de reconciliação simbólica sepultar os mortos de ambos os lados em um único cemitério nacional? Eram inimigos mas eram todos brasileiros. Estará o redator delirando? Possivelmente. Mas que seria um belo ato, lá isso seria….

Abaixo, algumas fotos de cemitérios nacionais nos EUA, Rússia, Grã-Bretanha, França e Canadá. São tratados como monumentos de responsabilidade do governo dos respectivos países.

 

Cemitério Nacional de Arlington, Virgínia, o cemitério nacional dos EUA. A imagem mostra o “Dia da Recordação” (Memorial Day), um feriado nacional, por lá, no qual são lembrados os veteranos, vivos e mortos. É um dia de grandes paradas e visitas aos “cemitérios nacionais”, aos memoriais de guerra e aos museus militares. A Administração Nacional de Parques (National Park Service) é responsável pelo funcionamento de 14 cemitérios nacionais, no território norte-americano; a Administração Nacional de Veteranos (U.S. Department of Veteran Affairs), outros tantos.  

Cemitério Estadual dos Soldados, Mississipi. Soldados da União e dos Estados Confederados repousam lado a lado. Quem sabe não acabaram tendo tempo para resolver suas diferenças?.. Apesar de administrados pelos governos estaduais, muitos desses cemitérios são considerados monumentos nacionais – aqui, uma lista completa.

Memorial do Soldado Britânico em Atenas. Homenagem à memória de mais de 2500 militares britânicos mortos em combate nas operações realizadas em território grego na Segunda Guerra Mundial, mantido com fundos providos pelo governo da Grã-Bretanha. Dezenas de cemitérios de combate e memoriais são administrados pela Comissão de Sepulturas de Guerra da Comunidade Britânica, orgão multinacional sediado em Londres.

Cemitério Comunitário de Bailleul, França. Mais de 20.000 mortos de diversas nacionalidades, abatidos na batalha do Somme, na 1a Guerra Mundial.

Neepawa Riverside Cemetery, Ontário, Canadá. Soldados, aviadores e marinheiros canadenses mortos na 2a Guerra Mundial repousam ao lado de alguns de seus camaradas britânicos.

Corneteiro toca um dobrado fúnebre em homenagem aos soldados alemães que repousam em covas individuais no cemitério de Sologubovka, localidade próxima de São Petersburgo (antiga Leningrado). O monumento foi levantado pela Associação Alemã de Sepulturas de Guerra (Volksbund Deutsche Kriegsgräbefürsorge), organização civil federal dedicada a identificar sepultamentos de combate. Repousam lá os restos de cerca de 20.ooo combatentes alemães, metade deles identificados. A Associação espera que, no futuro, os restos de 80.000 combatentes alemães mortos na 2a Guerra Mundial sejam retirados de covas coletivas e sepultados individualmente. Ao contrário do que se imagina, os soviéticos, desde a época de Stalin, procuraram identificar e sepultar os militares estrangeiros mortos em combate em seu território. Existem atualmente 89 cemitérios militares lá, com cerca de 400.000 mortos, identificados ou não::

Um rapaz das Forças Especiais às Terças::Alferes Pio Correia da Rocha, 1866

Alferes (segundo-tenente) de infantaria (o sabre distingue um oficial dessa arma) do 7° Batalhão de Voluntários da Pátria Pio Corrêa da Rocha, de Araraquara, na província de São Paulo. O alferes Pio morreu aos 22 anos, possivelmente em decorrência de ferimentos de combate sofridos na batalha de Curupaiti, em junho de 1866 (leia a história completa da batalha aqui, e a de Pio, aqui). Não se conhece maiores informações sobre a breve carreira militar do alferes Pio, apenas que teria sido um voluntário disciplinado, foi promovido a primeiro-tenente por merecimento e era portador de condecorações. O alferes é hoje nome de uma rua em São Paulo, e a cidade de Araraquara tenta preservar sua memória. Existem muitos monumentos à memória de generais, mas, até onde saiba esse redator, nenhum homenageia o soldado sem sepultura, pois, depois da guerra, o Império do Brasil não se importou em identificar cemiterios de campanha. Em Campos dos Goitacazes (RJ), desde 1947, o capitão de Voluntários da Pátria Manuel Teodoro Batista, morto em 1866 em um hospital de Buenos Aires, por ferimentos sofridos na Batalha de Tuiuti, descansa em um dos ângulos do “Monumento ao Soldado Brasileiro”; em Monte Alegre de Minas encontra-se o único cemitério identificado onde repousam mortos da Guerra do Paraguai; em Barra dos Bugres (MS), um monumento lembra os mortos sem rosto daqueles seis anos memoráveis.  Quem conhecer algum outro, manifeste-se…::

Cultura material militar::Troféus, triunfos e o obuseiro “El Cristiano”:tudo a ver::

Pois é – temos de admitir: não conhecemos nossa própria história. Não a história dos cientistas, que enxerga por trás dos fatos, mas a história que nos cimenta como povo e nos consolida como Nação. Vivessemos em outro país, nunca um governo – qualquer governo – teria a ousadia de propor a devolução de um troféu de guerra. Em outro post, nesta série “O mês da Guerra do Paraguai”, falamos sobre “memória social” e “lugares de memória”. Troféus são “lugares de memória”, assim como são “monumentos”, ou seja, marcas que o presente, projetando-se no futuro como passado, tenta legar às gerações futuras. Nossa palavra “troféu” vem do francês antigo trophee, “presa de guerra”, que, por sua vez, vem do latim trophaeum, literalmente, “monumento a uma vitória”. A Coluna de Trajano, por exemplo, até hoje existente em Roma, é um trophaeum que chegou até nós e descreve a campanha da Dalmácia, desde sua organização até a vitória. A campanha na Dalmácia é detalhadamente descrita, e boa parte do que conhecemos sobre o exército e as tropas romanas veio do exame dos frisos daquele monumento. Na Grécia Clássica, objetos comemorativos eram feitos a partir de equipamentos (espadas, elmos, escudos, lanças, etc.) capturados ao inimigo, e se destinavam a homenagear a memória de um herói. Navios inteiros eram onservados, para lembrar uma vitória naval. Conta-se que o “Argos”, navio dos argonautas da lenda de Teseu, matador do Minotauro e conquistador do “velocino de ouro”, foi conservado em Atenas durante séculos. Geralmente, uma inscrição com a narrativa dos feitos memoráveis explicava a razão da homenagem.

Os romanos, por outro lado, não erguiam apenas grandes estátuas, grupos escultóricos ou até mesmo prédios, para lembrar suas vitórias militares ou o que consideravam grandes marcos de sua civilização. Artefatos utilitários, como armas e objetos notáveis de seus inimigos, tomados em combate ou saqueados, eram levados até a capital do império postos a desfilar em grandes paradas chamadas triumphus (a própria Coluna de Trajano representa, simbolicamente, um triumphus). Esses objetos depois ficavam depositados em templos, sendo que, na época do império, eram dedicados a Júpiter Capitolino e, por isso, expostos no templo do deus, na colina do Capitólio. Não é preciso chamar atenção de como os triunfos romanos lembram nossas atuais paradas militares, particularmente as “paradas da vitória” (em 1945, várias paradas comemorativas foram realizadas em várias grandes cidades do Ocidente, inclusive em Berlim e no Rio de Janeiro). E os estados modernos de certa forma seguiram o costume romano de depositar em templos seus troféus de guerra, mas o fazem em seus modernos templos cívicos, os museus. Ou em espaços de memória similares, memoriais e mausoléus.

Assim, o obuseiro “El Cristiano” foi parar, provavelmente depois de 1870, no Arsenal de Guerra do Rio de Janeiro, onde ficava, originalmente, exposto junto ao portão principal da instalação militar, sobre um simulacro de reparo construído especialmente para ele, no próprio Arsenal, em 1875. O Arsenal era, então uma das poucas instalações fabris existentes no então Império do Brasil com capacidade para fundir grandes peças de metal. Provavelmente em algum momento em 1921 ou 1922, o enorme objeto foi deslocado para dentro do prédio, que estava sendo reformado para a Exposição Internacional Comemorativa do Centenário da Independência. Já fazia então mais de 50 anos que se encontrava lá, maciço testemunho da grande vitória conseguida pelas forças armadas brasileiras.

Tecnicamente, “El Cristiano” é um obus, ou “obuseiro”, ou seja, uma arma de fogo de grandes proporções, mas não um canhão. A diferença é que o canhão, geralmente, destina-se a disparar em trajetória tensa, ou seja, apontado para o alvo. Já o obuseiro dispara em trajetória parabólica, embora numa parábola não tão acentuada quanto a de um morteiro. Por sinal, o obuseiro tem o tubo-alma relativamente curto em relação ao calibre. Num tubo-obus, os munhões (peças cilíndricas que fazem parte do tubo, e que servem para fixar o conjunto no reparo) situam-se mais-ou-menos na metade do comprimento total. Em tempos mais antigos da artilharia, uma das características do obuseiro é não disparar projéteis sólidos, mas granadas ou metralha.

“El Cristiano” foi fundido nas instalações de Ybicuy e acabado no Arsenal do Estado, em Assunção, no Paraguai, provavelmente em 1866 ou 1867. As igrejas do país “doaram” seus sinos ao Estado, o que não é estranho, pois tdas as nações fazem coisas semelhantes, em tempo de guerra. Por esse motivo, uma inscrição nos munhões diz “El Cristiano”, e do outro lado, “a religião ao Estado”. Seu calibre é de 305 mm (12 polegadas), o que indica o comprimento do tudo em 8,3 calibres, ou seja, 294 centímetros (num canhão, a relação seria de mais de 25 calibres). O peso total da peça é dado em algumas fontes como em torno de 12 mil quilos. Acredita-se que o peso tenha sido determinado quando do transporte da peça, mas nunca chegou a ser confirmado.

Embora fabricado em um arsenal do estado, “El Cristiano” não representa capacidade industrial fora do comum. O processo de fundição é de péssima qualidade, inclusive porque a liga de bronze utilizada em sinos não é adequada à fabricação de peças de artilharia. Sinos utilizam liga de menor densidade o que, na hora da fundição, resultou num material muito poroso nas proximidades da boca. De fato, toda a peça é extremamente mal-acabada. O fato pode ser explicado porque, em peças de artilharia modernas, em que o processo de fundição industrial eliminou o acabamento artístico e a inserção de medalhões, cartelas e golfinhos (espécie de alças situadas na seção superior do tubo, que serviam para move-lo, passando-se cordas ou varais através delas) que eram verdadeiras esculturas, o acabamento era feito em grandes tornos movidos a vapor, e por processos químicos, destinados a aumentar a durabilidade da peça, protegendo o metal. O acabamento ruim tem duas possíveis explicações: a peça foi fundida às pressas, para atender as necessidades militares do exército paraguaio, ou o arsenal do estado não tinha tornos suficientemente possantes para girar peças daquele peso.

O obuseiro esteve inicialmente instalado no forte de Curupaiti, de onde foi retirado para ser reinstalado, provavelmente “a barbeta” (numa posição protegida, mas não acasamatada, onde as peças disparam sobre uma amurada), na fortaleza de Humaitá, na principal bateria, que merecia o nome de “Londres” (apesar de não ter nada a ver com a Grã-Bretanha), artilhada com mais de 180 peças de diversos calibres. A especulação sobre a posição dessa peça de artilharia deve-se à constatação (feita por Adler Homero Castro em suas pesquisas) de que dificilmente se conseguiria disparar dela um projétil sólido pesando cerca de 200 quilos sem faze-la rebentar. Assim, é mais provável que disparasse granadas de aproximadamente 80 quilos, cheias de pólvora e reguladas para explodir por fuso. Mas é muito provável que, de fato, “El Cristiano” nunca tenha sido disparado. Quando a fortaleza foi invadida pelas tropas brasileiras comandadas pelo marquês de Caxias, os paraguaios demoliram a bateria Londres e lançaram as bocas-de-fogo ao rio. Terminada a guerra, provavelmente em 1871, a Marinha Imperial, cujos encouraçados levaram muitos tiros disparados daquela posição fortificada, retiraram a peça da água e ela foi levada para o Rio de Janeiro. Outro canhão de grandes proporções, o Criollo, foi levado para a Argentina.

Algumas fotografias dessa peça de artilharia podem ser vistas aqui. Por sinal, não deixe de ler o texto de Adler Homero Castro. Um outro ponto de vista pode ser conferido aqui. É um contraditório bem menos razoável do que outros que têm aparecido na Grande Rede. Confiram os dois, e decidam por si::

O mês da Guerra do Paraguai::A guerra, as patriotadas e a revisão científica::

Um dos oito assíduos leitores do blogue das boas causas, a Alba, dileta amiga da época do Weblog, enviou um contraditório de peso sobre a questão do obuseiro “El Cristiano”. Trata-se de um artigo, publicado na Folha de São Paulo pelo grande historiador Boris Fausto. Ora, uma opinião desse cientista não pode ser descartada, de modo que, com permissão da Alba e – espero… – dos editores da FSP, transcrevo na íntegra, para que os oito leitores possam comparar com meus próprios argumentos.

Aproveito para esclarecer, uma vez mais, que o redator aqui tem uma opinião formada, e não irá revê-la, ainda que seja voto vencido. Entretanto, isso não significa não admitir que é muito oportuna a revisão da história da guerra, por sinal, muito mal conhecida. Não só da guerra em si, mas de toda a dinâmica política e social que a produziu. Não desanimemos: a história militar brasileira começa a passar por ampla revisão, e a conectar-se com a história política e com a história social. Boris Fausto tem razão quando afirma que, até recentemente, a visão predominante tem sido a “patrioteira”, decorrente da apropriação por historiadores amadores (em geral militares de carreira) dos fatos que, dizem essas pessoas, são de exclusivo interesse das forças armadas. No extremo oposto, a partir dos anos 1970, um conjunto de “pesquisas” geralmente levadas a cabo por jornalistas buscou desqualificar os principais episódios militares brasileiros. Não foi apenas o jornalista Schiavenatto, com seu “Genocídio americano” (a editora, até onde lembro, foi a Brasiliense), mas também o global William Waack, com um livro sobre a FEB, no qual os oficiais brasileiros são apresentados como barnabés incompetentes e os pracinhas como uma trupe maltrapilha e indisciplinada. Na década de 1980, algumas pesquisas acadêmicas começaram a recolocar a questão militar, e alguns textos de extração jornalística apresentaram os fatos de modo menos tendencioso. O jornalista Ricardo Bonalume Neto publicou “A nossa Segunda Guerra Mundial“, uma visão bem mais equilibrada sobre a FEB. Mais até, formulou a tese de que pesquisas como a de Waack – e, digo eu, a de Schiavenatto – apenas expressavam a inevitável antipatia da sociedade civil pelas forças armadas, após 1964. Atualmente, essa implicância tem se dissipado, em função do retorno das FA às suas funções constitucionais, e a universidade tem olhado com mais interesse as questões militares, embora a produção historiográfica ainda seja tímida, e tenha alcançado menos a Guerra do Paraguai. Mas, como estamos vendo, alcançará, como mostra o artigo de Boris Fausto. Mas ainda fica devendo, por exemplo, uma história militar sobre a Guerra dos Trinta Anos no Brasil – na opinião deste redator, a maior guerra que nossa história registra. Por sinal… Alguém sabe do que fala este redator?..
Resta perguntar, entretanto, o motivo que torna a devolução do obuseiro “uma ato de justiça”. Como assim? Mesmo se não considerarmos o fato de que o então Império do Brasil foi atacado sem provocação (o que começou a guerra), a fortaleza de Humaitá foi tomada aos paraguaios depois de uma campanha longa e muito bem travada, um tipo de operação que é chamada pelos militares de “operação combinada”. O general Lima e Silva, depois duque de Caxias, no comando das operações mostrou notável visão estratégica, e, por essa atuação, qualificou-se como um dos grandes comandantes militares das Américas, no século 19.
“El Cristiano” foi retirado de lá e trazido (sabe-se lá a que esforço) para o Rio de Janeiro como tributo à memória dos 50 mil brasileiros que, como chama atenção o professor, deixaram suas vidas ao longo do curso do rio Paraguai. Assim, se for decidido que esse objeto deve ser devolvido, que seja, mas classifiquemos tal iniciativa corretamente: é um ato político, e, como todo ato político, deverá ser julgado pela História.
Esse redator espantado também não consegue não consegue atinar os motivos que levaram o general Gilberto Barbosa de Figueiredo a classificar a devolução de um troféu como “ato de grandeza”. Pode até ser, mas grandeza mesmo tiveram os dois povos, que souberam conviver, depois da guerra, e até hoje, em mútua tolerância::

O valor de um canhão
BORIS FAUSTO COLUNISTA DA FOLHA

Revisão histórica da Guerra do Paraguai afasta influência da Inglaterra no maior conflito bélico da América Latina

A pedido do vice-presidente do Paraguai, Federico Franco, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva anunciou a decisão de devolver àquele país o canhão “Cristão”, fabricado pelos paraguaios a partir de sinos de igrejas, no curso da guerra com a Tríplice Aliança, formada pelo Brasil, a Argentina e o Uruguai, entre 1864 e 1870. A medida foi aplaudida pelo presidente do Clube Militar [general Gilberto Barbosa de Figueiredo], afirmando que “normalmente não se devolve troféu de guerra, mas o povo paraguaio merece; é um ato de grandeza”. Aplausos, com um pequeno adendo: mais do que um ato de grandeza, a devolução é um ato de justiça.“Guerra brasileira”
A Guerra do Paraguai foi o fato mais relevante da história latino-americana, na segunda metade do século 19. A luta contra aquele país, liderado por Francisco Solano López, que a princípio reuniu os três países citados, passou a ser, cada vez mais, uma “guerra brasileira”, seja pelos efetivos militares envolvidos, seja por sua repercussão interna. O episódio tem também muito interesse pelas controvérsias historiográficas que gerou. Até anos recentes, Solano López era considerado, no Paraguai, um herói nacional; no Brasil, foi pintado como um tirano sanguinário, que tivemos de esmagar, apesar de nossa vocação pacifista.
Nem tão herói assim. Essas visões mudaram nos dois lados, pois, se Solano continua a ser um herói da pátria para a maioria do povo paraguaio, vários historiadores daquele país promoveram a revisão para baixo de sua figura. Quanto ao Brasil, a Guerra do Paraguai foi descrita e analisada, por muitas décadas, a partir de uma versão patrioteira. Qualquer outra versão era considerada impatriótica e implicitamente perigosa. Uma reviravolta ocorreu a partir dos anos 1960 do século passado, no âmbito da voga do nacionalismo anti-imperialista, nos meios intelectuais da América Latina. Um dos pontos centrais da revisão diz respeito às causas da guerra, atribuída às maquinações do imperialismo britânico. Um livro típico daquela época, “Genocídio Americano – A Guerra do Paraguai”, do jornalista Julio José Chiavenato (1979, ed. Moderna, esgotado), teve imenso sucesso nas escolas brasileiras, incorporando a versão conspirativa. Segundo o autor, ao destruir o Paraguai, o imperialismo inglês manteve o status quo na América meridional e impediu a ascensão de seu único Estado economicamente livre. Hoje, a tese conspirativa está desacreditada, graças aos trabalhos de Francisco Doratioto, baseado em fontes brasileiras e paraguaias (“Maldita Guerra”, 2002, Cia. das Letras), e de outros historiadores, como Ricardo Salles [“Guerra do Paraguai – Escravidão e Cidadania na Formação do Exército”, Paz e Terra] e Vitor Izecksohn [“O Cerne da Discórdia – A Guerra do Paraguai e o Núcleo Profissional do Exército”, E-Papers]. Na verdade, aos ingleses interessava acima de tudo a estabilidade da região, como garantia de seus bons negócios, e não um conflito. É certo, que após estourar a guerra, bancos ingleses financiaram o Brasil, agravando aliás o problema de nossa dívida pública, mas isso é outra história. O conflito teve causas locais, embora nem sempre fáceis de discernir. ~
Morticínios De um lado, Solano López, que instaurara no Paraguai uma ditadura férrea e convertera o país numa grande fazenda pertencente ao Estado, pretendia romper o relativo isolamento paraguaio e abrir caminho para uma presença maior na bacia do [rio da] Prata. De outro lado, as pretensões paraguaias eram tidas como francamente expansionistas e vistas com suspeita pelos países da Tríplice Aliança. Se López não era um herói precursor do anti-imperialismo, o Brasil liberal, mas escravista, não ficava em boa posição na luta contra o ditador. Além disso, ao longo do conflito, as forças brasileiras perpetraram uma série de morticínios, assim como o saque de Assunção, quando a capital paraguaia foi ocupada, em janeiro de 1869. O que não quer dizer que as ações paraguaias não se caracterizassem também por muitas barbaridades. No terreno dos números, há uma total incerteza quanto às mortes do lado do Paraguai, variando as cifras entre 9% e 69% da população! O Brasil enviou para a guerra cerca de 139 mil homens, dos quais uns 50 mil morreram nos combates ou foram vítimas de doenças. Os contingentes incluíram, além do Exército, os “voluntários da pátria” -na verdade, gente enviada à força para a frente de combate, entre eles escravos que substituíram filhos da elite. Para qualificar o conflito numa frase, lembremos uma carta escrita pelo barão de Cotegipe para o barão de Penedo, em maio de 1866. Nela, há um trecho eloquente, lembrado por Doratioto: “Maldita guerra, atrasa-nos meio século!”. De fato, a guerra não nos atrasou meio século, como pensava o provecto barão, mas certamente mereceu o qualificativo de maldita.”
BORIS FAUSTO é historiador e preside o Conselho Acadêmico do Gacint (Grupo de Análise da Conjuntura Internacional), da USP. É autor de “A Revolução de 30″ (Companhia das Letras).

O mês da Guerra do Paraguai:: “El Cristiano”, a memória e o que podemos perder::

Semana passada, a coluna do Ancelmo Gois, no vibrante matutino carioca “O Globo” fez uma referência ao caso da devolução do obuseiro “El Cristiano”, troféu de guerra brasileiro depositado, desde 1870, no antigo Arsenal de Guerra do Rio de Janeiro, prédio em que  funciona, até hoje, o Museu Histórico Nacional. Citou, claro, o Adler Homero (um dos que realmente entende do assunto, em nosso país…) e este redator; no lado contrário, Ancelmo mobiliza o arquiteto Carlos Fernando Andrade, superintendente do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) no Rio de Janeiro. O distinto se posicionou favorável a volta do obuseiro ao Paraguai . Argumento: “Lutamos pelo repatriamento de todas as obras.”

Trata-se da declaração da autoridade responsável pela proteção legal e preservação do patrimônio histórico nacional no estado do Rio de Janeiro (por sinal, essa mesma autoridade criou um caso com a bandeira nacional em Cabo Frio). Não discutiremos a questão legal, que implica em destombar o bem. Isso é o mesmo que dizer que será necessário retirar de “El Cristiano” a cobertura do Decreto-Lei 25/1937, que instituiu a proteção do patrimônio cultural em nosso país. Essa questão é mais para juristas e advogados. De fato, existem diversas convenções internacionais que estabelecem a proteção de bens culturais em caso de conflito armado e também que determinam o retorno de bens que, por quaisquer motivos, tenham sido retirados de seus locais de origem. Essa discussão é intensa e interminável. Não vamos debater o fato de que essa regra é pensada com relação, principalmente, ao patrimônio roubado ou movido ilegalmente e a bens de origem arqueológica ou etnográfica, que, como todos sabemos, foram amplamente saqueados do mundo periférico, desde o século 19. O redator tem algum conhecimento desse movimento, amplamente incentivado pela UNESCO e seus conselhos específicos. É impossível não considerar justas as reivindicações feitas pela Grécia, Egito ou mesmo pelo Irã e Iraque, países que tiveram parte considerável de suas heranças patrimoniais dispersa pelo mundo. Supõe o redator que talvez o superintendente do IPHAN no Rio de Janeiro tenha essa preocupação em mente.

Outra questão a ponderar é quando o doutor Carlos Fernando se refere ao obuseiro como “obra”. Na medida em que “obra”, segundo a definição da maioria dos dicionários usuais, refere-se “aquilo que resulta de um trabalho, de uma ação”, ou ainda ao “resultado do conjunto do trabalho de um operário, artesão ou artista”, então, qualquer artefato é uma obra e, como tal, ligado a processos sociais, políticos, econômicos, tecnológicos, e por aí vai – enfim, a processos históricos e culturais. Se o obuseiro foi fundido no Paraguai e esteve instalado na fortaleza de Humaitá, então é de fato uma “obra” paraguaia, mas também está ligado a processos estritamente conectados com a história brasileira: trata-se de um troféu de guerra. Nosso argumento é que não pertence mais apenas ao Paraguai, mas principalmente ao Brasil. No Brasil, “El Cristiano” é um “lugar de memória” da Guerra do Paraguai e de tudo quanto ela significou e deveria significar.

Essa expressão vale um esclarecimento. Foi criada pelo historiador francês Pierre Nora.  Ele acreditava que, em nossa época, países e grupos sociais mudaram a relação que tradicionalmente mantêm com o passado. Assim, segundo esse especialista, uma das questões significativas da cultura contemporânea situa-se no entrecruzamento entre a relação com o passado (não importa se real ou construído) e o sentimento de pertencimento a um dado grupo; entre a consciência coletiva e individualidade; entre memória e identidade. Os “lugares de memória” seriam, pois, lugares sociais referentes a construção, sempre secular, das identidades e da memória dos países e das diversas comunidades que os formam.  O interessante é quando essa discussão foi lançada na França, no início dos anos 1980, foi considerada muito oportuna, pois se sentia urgência em refletir sobre esses processos, diante das avassaladoras e então ainda novas realidades da proposta da União Européia, da globalização e do multiculturalismo. O conceito tornou-se, desde então, uma das principais ferramentas de análise e reflexão de inúmeras categorias de cientistas sociais, e expandiu-se às preocupações políticas dos Estados.

Uma pergunta que não quer calar é o que pretendemos fazer com a memória da Guerra do Paraguai, processo que faz parte da dinâmica histórica da nação brasileira, mas deve ser visto em um contexto mais amplo e complexo. Alguns especialistas dizem que o Brasil tem uma sociedade fraca e um Estado forte, o que significa que, quando se coloca uma questão como a da devolução de um bem da significação de “El Cristiano”, tende-se a colocar os interesses do momento em detrimento da questão de fundo, que é a da memória histórica e a construção das identidades. Não é que pretenda o redator que o obuseiro deve ficar e acabou. O problema é que não acontece debate algum e o ponto de vista “forte” prevalece. Este blogue não tem a menor esperança de que ainda reste lembrança, mas em 1972 diversos objetos e documentos escritos tomados aos paraguaios foram devolvidos pelo governo militar, em função do acordo que estava sendo urdido para a construção de Itaipu (se os oito leitores tiverem paciência, chegaremos lá…). Esses objetos estão hoje expostos em Assunção, junto com restos de navios brasileiros capturados depois da retirada de Barroso do teatro operações de Riachuelo, onde os brasileiros venceram a memorável batalha naval.

A atual realidade é a da tentativa de construção de uma estrutura de integração política e econômica latino-americana, o Mercosul, mas também das relações bilaterais com o Paraguai. A demanda paraguaia pela revisão das relações políticas e econômicas se expressa na revisão do acordo de Itaipu, e o argumento de que esse tratado foi firmado por duas ditaduras tem sido invocado como razão para um possível reexame.

O general Alfredo Stroessner desde 1954 ditador do Paraguai assinou, em 1973, com o general Garrastazu Médici, o acordo que viabilizou juridicamente a construção da usina hidrelétrica de Itaipu, que firmou os entendimentos a respeito do aproveitamento compartilhado pelos dois países, do potencial hidrelétrico do rio Paraná. O tratado foi de importância estratégica, que se tornou ainda maior em função do afastamento observado entre os dois países, cujas relações foram, desde a Guerra da Tríplice Aliança, um tanto frias. Segundo alguns estudos, para o Brasil, as relações com o Paraguai tinham por objetivo expandir sua área de influência geopolítica na região do Prata. A posse da região de Sete Quedas, entretanto, transformou-se em uma questão conflituosa, que não poderia ser conduzida sem o envolvimento da Argentina. Brasil e Paraguai insistiam em conduzir o problema como bilateral; o governo argentino, à época também ditatorial, colocava a questão como de interesse de todos os demais ribeirinhos. Ao se entender com o Brasil, o Paraguai fez opção definitiva por entrar na esfera de influência geopolítica de nosso país, influência que se traduz num claro desequilíbrio nas relações econômicas.

O redator imagina que todos nós concordaríamos com o especialista Ronaldo Alexandre do Amaral e Silva, quando este afirma, em sua dissertação de mestrado, que “… Itaipu é fundamental para o Brasil pelos benefícios do fornecimento de energia e de atração do Paraguai para uma parceria de prazo indeterminado; e é mais fundamental ainda para o Paraguai, um país com limitados recursos naturais e que, ao mesmo tempo que se torna parceiro estratégico do Brasil, ganha poder de barganha nas relações com o vizinho. Por esse motivo, Itaipu é, indubitavelmente, outro grande marco na reaproximação brasileiro-paraguaia.” O que se deve discutir é se os marcos da memória histórica e social do Brasil devem ser sacrificados em função da resolução das dificuldades que se coloquem na relação entre os dois países.