Para perpetrar um absurdo::Presidente, não permita que “El Cristano” viaje!::


Querem saber? O redator está indignado. In-dig-na-do! Quinta-feira passada (04 de março), enquanto cuidava da vida e pensava no próximo tópico do blogue das boas causas, eis que começam a pipocar e-mails e mensagens SMS, da rede social da turma que gosta de estudos militares. Que notícia provocaria tamanha agitação? A compra de 72 Rafales de uma vez? O lançamento do subnuke no próximo Dia do Marinheiro? A descoberta de uma bateria Aspide na favela da Rocinha? Não. Nada tão corriqueiro. Simplesmente, as autoridades brasileiras (???), primeiras interessadas em cultivar (???) nosso passado e disseminar nossa história, anunciaram a devolução do canhão El Cristiano ao Paraguai. A peça de artilharia de 12 toneladas foi retirada da fortaleza de Humaitá depois da tomada desse bastião, depois de uma memorável campanha, completada em 25 de julho de 1868, com a rendição da guarnição paraguaia, então completamente isolada.

A fortaleza era a principal obra defensiva destinada a “trancar” o rio Paraguai e os acessos à principal região do país vizinho, que tinha por centro a capital nacional, Assunção. Por sinal, um dos fatores dentre os que acabaram por provocar a Guerra do Paraguai (ou, no caso do nome oficial, “Guerra da Tríplice Aliança contra a República do Paraguai”) foi o temor do então Império do Brasil que o rio acabasse fechado à navegação. Um tal evento praticamente cortaria as comunicações entre a capital imperial e Mato Grosso, que se faziam através da foz do Rio da Prata e acesso aos rios Paraná, Paraguai e São Lourenço. Entravam nesse caldeirão as disputas do Império, no Sul do continente, com Buenos Aires, em torno do Uruguai, estado cuja independência era garantida pelo Brasil. Na prática, essas disputas não passavam da continuação daquelas entre os impérios espanhol e português no continente sul-americano.

A questão das comunicações com o interior do território do Império era de fundo: ao longo dos séculos anteriores, esquadrões de canoas de grandes proporções seguiam a trilha das “monções“, no período das chuvas, desde São Paulo, até a região onde se situava Cuiabá. O surgimento da navegação a vapor, que se tornou comum na América do Sul a partir dos final dos anos 1830, tornou o trajeto pela bacia do Prata mais rápido e prático, dando nova feição às comunicações marítimas na região. Não é por outro motivo que o Brasil sempre insistiu na liberdade de navegação fluvial na região centro-sul do continente, chegando, em 1854-1855, a tentar praticar um arremedo de “diplomacia das canhoneiras”, com uma expedição em que a fragata a vapor Amazonas (que, dez anos depois, cumpriria papel decisivo na batalha do Riachuelo), acabou encalhada antes de alcançar Assunção… Dez anos depois, as pretenções expansionistas de Francisco Solano Lopez acabaram levando à guerra, que consumiu seis anos e centenas de milhares de mortos e prejuízos financeiros difíceis, ainda hoje, de calcular, para ambos os lados. Mas, por ora, é suficiente: tentaremos fazer uma resenha da guerra em outro post, visto que acaba de ocorrer ao redator o pouco conhecimento que temos de nossa própria história. Isto sim, nos torna uma nação de segunda classe, suscetível aos discursos vazios de qualquer demagogo que saiba colocar uma palavra atrás da outra. Imagina este agora irritado pesquisador que o próprio presidente da República talvez não conheça bem a história do país do qual é autoridade maior, pois, se fosse o oposto, certamente não perpetraria um absurdo de tamanho porte. A diplomacia brasileira sempre foi capaz, na brilhante tradição do marquês de São Vicente, e depois do barão do Rio Branco, de equilibrar interesses divergentes, naturais entre uma comunidade de nações como a porção sul da América Latina. Nunca precisou pisar na memória das centenas de milhares de anônimos brasileiros que morreram quando a defesa desses interesses teve de se fazer pelas armas. Devolver um troféu de guerra é um ato de desrespeito difícil de descrever, o o canhão El Cristiano, caso soubéssemos aquilatar essas coisas, deveria estar no topo da hierarquia de nossos troféus, juntamente com as correntes que bloqueavam o rio diante da “Bateria Londres” (vamos fazer um pacote completo e devolve-las também?..), e os canhões alemães trazidos da Itália em 1945.

Pessoal, não somos uma nação assim tão “pacífica”. Isso não existe. Nosso passado está cheio de episódios bélicos e de violência; nossa construção, como nação, está cimentada pelo sangue de compatriotas a maioria dos quais não tem sequer uma sepultura marcada. E ninguém “deu a vida” espontaneamente: foram, a maioria deles, obrigados a entregá-la, arrancados de suas vidas humildes pelo vento da guerra. O soldado profissional e  o civil que se vê metido em uniforme, não morrem na guerra por vontade própria. Morrem porque têm de morrer, e a morte, em geral, chega sem avisar. E assim se fazem pais que têm de lamentar viver mais que os filhos, assim se fazem viúvas, assim se fazem órfãos. Respeitar a memória dessa gente é o mínimo que podemos fazer, e o começo de tudo isso é aprender história e fugir dos discursos pacifistas cretinos.

Assim, caros oito leitores (ou mais, espero, neste momento…), PROTESTEMOS! PROTESTEMOS contra a cretinice geral que assola este país de autoridades ignorantes. Escrevamos ao presidente Lula; vamos adverti-lo de que está sendo mal assessorado; vamos adverti-lo de que, muito antes dele sair do interior de Pernambuco para cumprir sua jornada até Brasília, outros nordestinos já tinham feito jornadas semelhantes, só que anônimas. Não apenas para garantir a unidade territorial deste país, mas também para defender a integridade do solo nacional.

Desta forma, causa:: vai parar tudo e está abrindo o “mês da Guerra do Paraguai”. Ao longo do que resta de março, teremos posts que falam sobre esse tema que deveria ser bem conhecido. Esperamos que cada um dos leitores, assíduos os eventuais, mande uma mensagem para um deputado e autoridade, exigindo que tal absurdo não seja completado::

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16 pensamentos sobre “Para perpetrar um absurdo::Presidente, não permita que “El Cristano” viaje!::

  1. Bitt, eu não quero discutir com você, por quem tenho grande respeito e admiração, mas essa história de “o rei é bom, apenas está mal acessorado” não se aplica ao Lula. Já está mais do que provada a sua capacidade capacidade de deixar os interesses nacionais em segundo plano quando deseja agradar certos governantes estrangeiros. No caso do padreco paraguaio cheio de filhos por aí, primeiro foi o pagamento pela energia de Itaipu, agora esta peça histórica. Para o Lula, a História do Brasil começou com ele, o que apaga todo o significado da Guerra da Tríplice Aliança que, é claro, ele jamais alcançou nem deseja fazê-lo. Desta forma, “el Cristiano” não passa de um monte de ferro velho. Quer? Pode levar!
    Um grande abraço,

  2. Bem, como dizia o Fiuza democracia não é um jogo de damas no convento. Manda quem incomoda mais, e nada como um governo em tempos de eleição para ficar mais simpático e lutar a todo o custo para ficar bem na fita. Acho que se realmente criarmos caso sobre o assunto os jornais nos ouvem e quem sabe um deputado aqui e ali.

    Posso copiar este seu post para algumas comunidades no orkut?

  3. duvido muito que algum político em ano de eleição vai querer alguma participação nisso, acho mais fácil vocês buscarem, jornais, blogs, comunidades, grupos ativistas, etc.

  4. Luiz, sds.
    Sou favorável ao governo Lula, e tenho certeza que existem pontos, que sejam poucos, em que vc tamb é. Mas não discutamos isso. Acho que nessa questão ele realmente foi mal assessorado e está prestes a perpetrar um equívoco q não terá conserto. O motivo não deve ser, em minha opinião, diferente do da maioria das pessoas q conheço: nunca deve ter sequer ouvido falar de “El Cristiano” e do que significa. Ou dizem o q um boçal metido a moderninho replicou à msg: “Ainda bem que finalmente essa chaga na nossa história vai ser fechada.” Pois é… Independente de qq interpretação, de sermos ou não a favor ou contra, acho q temos de trabalhar para q esse equívoco não seja perpetrado.

    Renato,
    pode usar o texto, sim, nem precisa citar fonte, se não quiser. Pode copidescar, se achar mto longo. Use, enfim, se ajudar, ótimo. Acabei de enviar o e-mail para o CB, e para outros senadores, via lista do Senado.

    Logan,
    precisamos agir em conjunto. No q vc puder dar força, ajuda.

  5. Bitt:

    Olha, li seu texto no dia que saiu, fiquei indignado também, o sangue subiu e achei melhor não responder de sangue quente como você à questão.

    Hoje, mais calmo e “reflexivo” aceitaria a devolução do dito canhão nas seguintes condições:

    1- Que os paraguaios o levem mas, deixem no lugar outro de igual tamanho, características e que funcione (para que possamos dar uns tiros em datas comemorativas).

    2- Que deixem de culpar os brasileiros por tudo que lhes acontece de ruim (já matamos dois terços deles em passado recente, que fiquem pianinho para não acontecer de novo).

    3- Que os paraguaios deixem Itaipu, ela é brasileira.

    Se concordarem, que seja devolvido o dito canhão.

    hehe.

    Olha, sei que esse comentário foi “podre” mas, que o dito cujo não seja devolvido é minha opinião. Trofeu se conquista, devolver é “falta de senso, tem base não” (como se diz aqui em Goiás).

    🙂

    • Prof,
      se fosse para trocar por Itaipu, aí acho q valeria à pena até clonar o Solano López…
      Mas, piada à parte, acho que o Paraguai tem realmente direito à sua parte em Itaipu, mas dentro das regras estabelecidas. E, pense bem, os dois fatos, dadas suas proporções, derivam da mesma matriz.

  6. bitt,

    De fato, é um absurdo e compartilho da preocupação dos colegas em como reverter isso, dado o ano eleitoral e tudo mais. De toda forma, divulgarei a quem puder, vale a pena tentar.

    Um abraço

  7. Deixei o link no NPTO, que tem vários comentaristas historiadores e muitos interessados em história, como naquela interessantissima discussão sobre Stalingrado. Quem sabe? 🙂

    • É ótima idéia, Alba. Vou recorrer ao NPTO. Não tenho problemas com a discordãncia, e acho q temos de debater. Os museus no mínimo e suas coleções são ferramentas esplêndidas para a reflexão sobre o presente. Evaziá-los de seus objetos-suportes de sentidos múltiplos é um ato idiota. Neste sentido, os paraguaios, em sua luta de décadas pela devolução dos troféus, demonstram muito mais sensatez do que nós.

  8. Besteirada total, Bitt.

    Qual o problema em devolver o canhão? A guerra, para eles, tem uma dimensão de massacre, que para nós nem se chega a discutir. Se eles querem o canhão de volta, deixemos levá-lo.

    Para nós, esta guerra já passou completamente, não tem mais nenhuma dimensão real no nosso dia-a-dia. para eles, que ainda curtem a derrota, isto teria um peso simbólico enorme. Política de boas vizinhanças, agrado ao vizinho, vantagens no futuro, quem sabe o que pode vir daí?

    e que se dane El Christiano, quem se importa realmente?

    • Vc certamente não se importa, companheiro, mas sua declaração certamente demonstra, na prática, as disputas q se travam em torno da memória coletiva e social, e de sua forma científica, a história. Vc pode, por motivos q não conheço, e não vêm ao caso, achar “besteirada total”, mas objetos revestidos de sentido são elementos formadores das múltiplas identidades da formação nação. Esta guerra só passou para quem imagina que uma coletividade vive presa em uma temporalidade e uma única dinâmica, ou, pior, para quem acha que a história pode ser purificada. Ou, pior ainda, para quem está “cagando”, e não liga para que sejamos uma coletividade de ignorantes, vegetando num cotidiano fútil e sem sentido. Lamento, mas uma tal posição só merece desprezo.

      • Hmm, acho que perdi parte da discussão. De qualquer modo acho que todo o barulho vale. Devolver itens da memória nacional são no mínimo itens que deveriam ter uma justa discussão popular. Se querem devolver lamento, mas as pessoas tem de saber o que ocorre.

  9. Bitt, em #9, acho que você cortou meu comentário. Continuo concordando com você em relação aos símbolos históricos. Mas não considero o El Cristano digno desta memória. Lamento que você tenha levado para a agressão minha argumentação, não havia sido esta minha intenção.

    Agora, se você só quer ser frequentado por gente que concorda com você, me avise aí que eu não volto.

    abraços

  10. Bitt,

    Eu tornei a mencionar o assunto lá no NPTO e ele deu o nihil obstat a que eu expusesse a questão. Só que você pode fazê-lo muito melhor qu eu, não é?

    Abraço

    PS – Estamos discutindo agora a última batatada do Lula, pra ser boazinha, confundindo deliberadamente presos políticos e presos comuns. tsctsc..

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