O mês da Guerra do Paraguai::A guerra, as patriotadas e a revisão científica::


Um dos oito assíduos leitores do blogue das boas causas, a Alba, dileta amiga da época do Weblog, enviou um contraditório de peso sobre a questão do obuseiro “El Cristiano”. Trata-se de um artigo, publicado na Folha de São Paulo pelo grande historiador Boris Fausto. Ora, uma opinião desse cientista não pode ser descartada, de modo que, com permissão da Alba e – espero… – dos editores da FSP, transcrevo na íntegra, para que os oito leitores possam comparar com meus próprios argumentos.

Aproveito para esclarecer, uma vez mais, que o redator aqui tem uma opinião formada, e não irá revê-la, ainda que seja voto vencido. Entretanto, isso não significa não admitir que é muito oportuna a revisão da história da guerra, por sinal, muito mal conhecida. Não só da guerra em si, mas de toda a dinâmica política e social que a produziu. Não desanimemos: a história militar brasileira começa a passar por ampla revisão, e a conectar-se com a história política e com a história social. Boris Fausto tem razão quando afirma que, até recentemente, a visão predominante tem sido a “patrioteira”, decorrente da apropriação por historiadores amadores (em geral militares de carreira) dos fatos que, dizem essas pessoas, são de exclusivo interesse das forças armadas. No extremo oposto, a partir dos anos 1970, um conjunto de “pesquisas” geralmente levadas a cabo por jornalistas buscou desqualificar os principais episódios militares brasileiros. Não foi apenas o jornalista Schiavenatto, com seu “Genocídio americano” (a editora, até onde lembro, foi a Brasiliense), mas também o global William Waack, com um livro sobre a FEB, no qual os oficiais brasileiros são apresentados como barnabés incompetentes e os pracinhas como uma trupe maltrapilha e indisciplinada. Na década de 1980, algumas pesquisas acadêmicas começaram a recolocar a questão militar, e alguns textos de extração jornalística apresentaram os fatos de modo menos tendencioso. O jornalista Ricardo Bonalume Neto publicou “A nossa Segunda Guerra Mundial“, uma visão bem mais equilibrada sobre a FEB. Mais até, formulou a tese de que pesquisas como a de Waack – e, digo eu, a de Schiavenatto – apenas expressavam a inevitável antipatia da sociedade civil pelas forças armadas, após 1964. Atualmente, essa implicância tem se dissipado, em função do retorno das FA às suas funções constitucionais, e a universidade tem olhado com mais interesse as questões militares, embora a produção historiográfica ainda seja tímida, e tenha alcançado menos a Guerra do Paraguai. Mas, como estamos vendo, alcançará, como mostra o artigo de Boris Fausto. Mas ainda fica devendo, por exemplo, uma história militar sobre a Guerra dos Trinta Anos no Brasil – na opinião deste redator, a maior guerra que nossa história registra. Por sinal… Alguém sabe do que fala este redator?..
Resta perguntar, entretanto, o motivo que torna a devolução do obuseiro “uma ato de justiça”. Como assim? Mesmo se não considerarmos o fato de que o então Império do Brasil foi atacado sem provocação (o que começou a guerra), a fortaleza de Humaitá foi tomada aos paraguaios depois de uma campanha longa e muito bem travada, um tipo de operação que é chamada pelos militares de “operação combinada”. O general Lima e Silva, depois duque de Caxias, no comando das operações mostrou notável visão estratégica, e, por essa atuação, qualificou-se como um dos grandes comandantes militares das Américas, no século 19.
“El Cristiano” foi retirado de lá e trazido (sabe-se lá a que esforço) para o Rio de Janeiro como tributo à memória dos 50 mil brasileiros que, como chama atenção o professor, deixaram suas vidas ao longo do curso do rio Paraguai. Assim, se for decidido que esse objeto deve ser devolvido, que seja, mas classifiquemos tal iniciativa corretamente: é um ato político, e, como todo ato político, deverá ser julgado pela História.
Esse redator espantado também não consegue não consegue atinar os motivos que levaram o general Gilberto Barbosa de Figueiredo a classificar a devolução de um troféu como “ato de grandeza”. Pode até ser, mas grandeza mesmo tiveram os dois povos, que souberam conviver, depois da guerra, e até hoje, em mútua tolerância::

O valor de um canhão
BORIS FAUSTO COLUNISTA DA FOLHA

Revisão histórica da Guerra do Paraguai afasta influência da Inglaterra no maior conflito bélico da América Latina

A pedido do vice-presidente do Paraguai, Federico Franco, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva anunciou a decisão de devolver àquele país o canhão “Cristão”, fabricado pelos paraguaios a partir de sinos de igrejas, no curso da guerra com a Tríplice Aliança, formada pelo Brasil, a Argentina e o Uruguai, entre 1864 e 1870. A medida foi aplaudida pelo presidente do Clube Militar [general Gilberto Barbosa de Figueiredo], afirmando que “normalmente não se devolve troféu de guerra, mas o povo paraguaio merece; é um ato de grandeza”. Aplausos, com um pequeno adendo: mais do que um ato de grandeza, a devolução é um ato de justiça.“Guerra brasileira”
A Guerra do Paraguai foi o fato mais relevante da história latino-americana, na segunda metade do século 19. A luta contra aquele país, liderado por Francisco Solano López, que a princípio reuniu os três países citados, passou a ser, cada vez mais, uma “guerra brasileira”, seja pelos efetivos militares envolvidos, seja por sua repercussão interna. O episódio tem também muito interesse pelas controvérsias historiográficas que gerou. Até anos recentes, Solano López era considerado, no Paraguai, um herói nacional; no Brasil, foi pintado como um tirano sanguinário, que tivemos de esmagar, apesar de nossa vocação pacifista.
Nem tão herói assim. Essas visões mudaram nos dois lados, pois, se Solano continua a ser um herói da pátria para a maioria do povo paraguaio, vários historiadores daquele país promoveram a revisão para baixo de sua figura. Quanto ao Brasil, a Guerra do Paraguai foi descrita e analisada, por muitas décadas, a partir de uma versão patrioteira. Qualquer outra versão era considerada impatriótica e implicitamente perigosa. Uma reviravolta ocorreu a partir dos anos 1960 do século passado, no âmbito da voga do nacionalismo anti-imperialista, nos meios intelectuais da América Latina. Um dos pontos centrais da revisão diz respeito às causas da guerra, atribuída às maquinações do imperialismo britânico. Um livro típico daquela época, “Genocídio Americano – A Guerra do Paraguai”, do jornalista Julio José Chiavenato (1979, ed. Moderna, esgotado), teve imenso sucesso nas escolas brasileiras, incorporando a versão conspirativa. Segundo o autor, ao destruir o Paraguai, o imperialismo inglês manteve o status quo na América meridional e impediu a ascensão de seu único Estado economicamente livre. Hoje, a tese conspirativa está desacreditada, graças aos trabalhos de Francisco Doratioto, baseado em fontes brasileiras e paraguaias (“Maldita Guerra”, 2002, Cia. das Letras), e de outros historiadores, como Ricardo Salles [“Guerra do Paraguai – Escravidão e Cidadania na Formação do Exército”, Paz e Terra] e Vitor Izecksohn [“O Cerne da Discórdia – A Guerra do Paraguai e o Núcleo Profissional do Exército”, E-Papers]. Na verdade, aos ingleses interessava acima de tudo a estabilidade da região, como garantia de seus bons negócios, e não um conflito. É certo, que após estourar a guerra, bancos ingleses financiaram o Brasil, agravando aliás o problema de nossa dívida pública, mas isso é outra história. O conflito teve causas locais, embora nem sempre fáceis de discernir. ~
Morticínios De um lado, Solano López, que instaurara no Paraguai uma ditadura férrea e convertera o país numa grande fazenda pertencente ao Estado, pretendia romper o relativo isolamento paraguaio e abrir caminho para uma presença maior na bacia do [rio da] Prata. De outro lado, as pretensões paraguaias eram tidas como francamente expansionistas e vistas com suspeita pelos países da Tríplice Aliança. Se López não era um herói precursor do anti-imperialismo, o Brasil liberal, mas escravista, não ficava em boa posição na luta contra o ditador. Além disso, ao longo do conflito, as forças brasileiras perpetraram uma série de morticínios, assim como o saque de Assunção, quando a capital paraguaia foi ocupada, em janeiro de 1869. O que não quer dizer que as ações paraguaias não se caracterizassem também por muitas barbaridades. No terreno dos números, há uma total incerteza quanto às mortes do lado do Paraguai, variando as cifras entre 9% e 69% da população! O Brasil enviou para a guerra cerca de 139 mil homens, dos quais uns 50 mil morreram nos combates ou foram vítimas de doenças. Os contingentes incluíram, além do Exército, os “voluntários da pátria” -na verdade, gente enviada à força para a frente de combate, entre eles escravos que substituíram filhos da elite. Para qualificar o conflito numa frase, lembremos uma carta escrita pelo barão de Cotegipe para o barão de Penedo, em maio de 1866. Nela, há um trecho eloquente, lembrado por Doratioto: “Maldita guerra, atrasa-nos meio século!”. De fato, a guerra não nos atrasou meio século, como pensava o provecto barão, mas certamente mereceu o qualificativo de maldita.”
BORIS FAUSTO é historiador e preside o Conselho Acadêmico do Gacint (Grupo de Análise da Conjuntura Internacional), da USP. É autor de “A Revolução de 30″ (Companhia das Letras).

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5 pensamentos sobre “O mês da Guerra do Paraguai::A guerra, as patriotadas e a revisão científica::

  1. Na verdade, aos ingleses interessava acima de tudo a estabilidade da região, como garantia de seus bons negócios, e não um conflito. É certo, que após estourar a guerra, bancos ingleses financiaram o Brasil, agravando aliás o problema de nossa dívida pública, mas isso é outra história. O conflito teve causas locais, embora nem sempre fáceis de discernir. ~
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    Diferente do que o historiador pensa, eu cresci acreditando na versão de que a guerra foi causada pelo temor dos ingleses em relação ao crescimento do paraguai, e que este não era uma fazendo do estado e sim um país predominantemente agrário em processo de industrialização. Termnei o colégio em 2008, claro que hoje não tenho essa mesma visão mas acredito que seja a predomiante hoje em dia.

    Agora não entendi esse trecho acima, primeiro ele diz que a Inglaterra não se beneficiaria do conflito e sim da estabilidade, mas após a guerra os próprios ingleses financiaram o Brasil, bastante contraditório. Não acho que isso seja “outra história” ele deveria ter se prolongado um pouco mais no tema.

  2. Logan, o que entendo foi que a Inglaterra não tinha interesse no conflito, mas já que rolou ia tentar lucrar do mesmo jeito.

    Pelo que já ouvi falar, eles inclusive observaram ao conflito por um tempo antes de apostar em quem ia ganhar.

    Agora, acho que o Boris Fausto ficou em cima do muro. Ele discorreu muito bem sobre como andou a visão brasileira do conflito e que nenhum dos lados é santo na história. O que acho ótimo para contrariar esse raciocínio de “coitadinho do Paraguai”. Mas não vi inclinação contra ou a favor da devolução do canhão. Façam uma porra de museu conjunto em foz do iguaçu. Preservariam a história de ambos os lados e seria um belíssimo exemplo de convivência.

  3. Renato, o Boris Fausto não ficou em cima do muro, não, ele apóia a devolução. Releia o trecho: “Aplausos, com um pequeno adendo: mais do que um ato de grandeza, a devolução é um ato de justiça”.

    Eu me lembrei da impressionante coleção de canhões que há no “Musée de l’Armée”, em Paris. Há de todos os tipos e épocas, os mais bacanas eram os do século XVII, principalmente os turcos. São presas de inúmeras campanhas travadas ao longo de séculos. Estes não mais consistem em qualquer tipo de provocação aos países de origem, que também devem ter lá seus canhões franceses. São apenas documentos históricos que os povos mais cultos fazem questão de preservar. Infelizmente, parece que nós não temos direito a ter História, que estamos condenados a viver apenas o momento. O primeiro comentário desta lista de posts do Bitt foi meu, deplorando a ignorância e oportunismo do Lula. Agora, que o general Gilberto Barbosa de Figueiredo vem apoiar esta iniciativa, o que me resta dizer?

  4. Ok, achei que o adendo era da parte do General, ainda assim não vi muita ênfase do Fausto nesse apoio. Bem que alguém poderia pedir para ele explicar melhor essa parte da “justiça”. Vi os comentários de alguns paraguaios mais moderados numa lista de discussão e sinceramente não vejo sequer ganho político. Eles acham que só estamos fazendo nossa obrigação, não creio que essa suposta “grandeza” vá ser de alguma serventia.

    Esse museu francês é realmente muito legal, com a maior coleção de armaduras que já vi. Outro achado em Paris é o Museu da legião de honra, de frente para o D´Orsay. Eles tem uma coleção de medalhas de vários países que é bem legal para quem gosta de símbolos nacionais.

    Voltando ao assunto do canhão, acho que só nos resta continuar discordando do general, nem que seja por uma questão de princípios. E pelo menos não somos os únicos, o blog das forças terrestres (http://www.forte.jor.br/) até fez uma enquete sobre o assunto.

  5. Temos um navio apressionado pelos paraguaios, será que vão nos devolver?Lula não entende nem de tornearia, vai entender de história?

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