Cultura material militar::Troféus, triunfos e o obuseiro “El Cristiano”:tudo a ver::


Pois é – temos de admitir: não conhecemos nossa própria história. Não a história dos cientistas, que enxerga por trás dos fatos, mas a história que nos cimenta como povo e nos consolida como Nação. Vivessemos em outro país, nunca um governo – qualquer governo – teria a ousadia de propor a devolução de um troféu de guerra. Em outro post, nesta série “O mês da Guerra do Paraguai”, falamos sobre “memória social” e “lugares de memória”. Troféus são “lugares de memória”, assim como são “monumentos”, ou seja, marcas que o presente, projetando-se no futuro como passado, tenta legar às gerações futuras. Nossa palavra “troféu” vem do francês antigo trophee, “presa de guerra”, que, por sua vez, vem do latim trophaeum, literalmente, “monumento a uma vitória”. A Coluna de Trajano, por exemplo, até hoje existente em Roma, é um trophaeum que chegou até nós e descreve a campanha da Dalmácia, desde sua organização até a vitória. A campanha na Dalmácia é detalhadamente descrita, e boa parte do que conhecemos sobre o exército e as tropas romanas veio do exame dos frisos daquele monumento. Na Grécia Clássica, objetos comemorativos eram feitos a partir de equipamentos (espadas, elmos, escudos, lanças, etc.) capturados ao inimigo, e se destinavam a homenagear a memória de um herói. Navios inteiros eram onservados, para lembrar uma vitória naval. Conta-se que o “Argos”, navio dos argonautas da lenda de Teseu, matador do Minotauro e conquistador do “velocino de ouro”, foi conservado em Atenas durante séculos. Geralmente, uma inscrição com a narrativa dos feitos memoráveis explicava a razão da homenagem.

Os romanos, por outro lado, não erguiam apenas grandes estátuas, grupos escultóricos ou até mesmo prédios, para lembrar suas vitórias militares ou o que consideravam grandes marcos de sua civilização. Artefatos utilitários, como armas e objetos notáveis de seus inimigos, tomados em combate ou saqueados, eram levados até a capital do império postos a desfilar em grandes paradas chamadas triumphus (a própria Coluna de Trajano representa, simbolicamente, um triumphus). Esses objetos depois ficavam depositados em templos, sendo que, na época do império, eram dedicados a Júpiter Capitolino e, por isso, expostos no templo do deus, na colina do Capitólio. Não é preciso chamar atenção de como os triunfos romanos lembram nossas atuais paradas militares, particularmente as “paradas da vitória” (em 1945, várias paradas comemorativas foram realizadas em várias grandes cidades do Ocidente, inclusive em Berlim e no Rio de Janeiro). E os estados modernos de certa forma seguiram o costume romano de depositar em templos seus troféus de guerra, mas o fazem em seus modernos templos cívicos, os museus. Ou em espaços de memória similares, memoriais e mausoléus.

Assim, o obuseiro “El Cristiano” foi parar, provavelmente depois de 1870, no Arsenal de Guerra do Rio de Janeiro, onde ficava, originalmente, exposto junto ao portão principal da instalação militar, sobre um simulacro de reparo construído especialmente para ele, no próprio Arsenal, em 1875. O Arsenal era, então uma das poucas instalações fabris existentes no então Império do Brasil com capacidade para fundir grandes peças de metal. Provavelmente em algum momento em 1921 ou 1922, o enorme objeto foi deslocado para dentro do prédio, que estava sendo reformado para a Exposição Internacional Comemorativa do Centenário da Independência. Já fazia então mais de 50 anos que se encontrava lá, maciço testemunho da grande vitória conseguida pelas forças armadas brasileiras.

Tecnicamente, “El Cristiano” é um obus, ou “obuseiro”, ou seja, uma arma de fogo de grandes proporções, mas não um canhão. A diferença é que o canhão, geralmente, destina-se a disparar em trajetória tensa, ou seja, apontado para o alvo. Já o obuseiro dispara em trajetória parabólica, embora numa parábola não tão acentuada quanto a de um morteiro. Por sinal, o obuseiro tem o tubo-alma relativamente curto em relação ao calibre. Num tubo-obus, os munhões (peças cilíndricas que fazem parte do tubo, e que servem para fixar o conjunto no reparo) situam-se mais-ou-menos na metade do comprimento total. Em tempos mais antigos da artilharia, uma das características do obuseiro é não disparar projéteis sólidos, mas granadas ou metralha.

“El Cristiano” foi fundido nas instalações de Ybicuy e acabado no Arsenal do Estado, em Assunção, no Paraguai, provavelmente em 1866 ou 1867. As igrejas do país “doaram” seus sinos ao Estado, o que não é estranho, pois tdas as nações fazem coisas semelhantes, em tempo de guerra. Por esse motivo, uma inscrição nos munhões diz “El Cristiano”, e do outro lado, “a religião ao Estado”. Seu calibre é de 305 mm (12 polegadas), o que indica o comprimento do tudo em 8,3 calibres, ou seja, 294 centímetros (num canhão, a relação seria de mais de 25 calibres). O peso total da peça é dado em algumas fontes como em torno de 12 mil quilos. Acredita-se que o peso tenha sido determinado quando do transporte da peça, mas nunca chegou a ser confirmado.

Embora fabricado em um arsenal do estado, “El Cristiano” não representa capacidade industrial fora do comum. O processo de fundição é de péssima qualidade, inclusive porque a liga de bronze utilizada em sinos não é adequada à fabricação de peças de artilharia. Sinos utilizam liga de menor densidade o que, na hora da fundição, resultou num material muito poroso nas proximidades da boca. De fato, toda a peça é extremamente mal-acabada. O fato pode ser explicado porque, em peças de artilharia modernas, em que o processo de fundição industrial eliminou o acabamento artístico e a inserção de medalhões, cartelas e golfinhos (espécie de alças situadas na seção superior do tubo, que serviam para move-lo, passando-se cordas ou varais através delas) que eram verdadeiras esculturas, o acabamento era feito em grandes tornos movidos a vapor, e por processos químicos, destinados a aumentar a durabilidade da peça, protegendo o metal. O acabamento ruim tem duas possíveis explicações: a peça foi fundida às pressas, para atender as necessidades militares do exército paraguaio, ou o arsenal do estado não tinha tornos suficientemente possantes para girar peças daquele peso.

O obuseiro esteve inicialmente instalado no forte de Curupaiti, de onde foi retirado para ser reinstalado, provavelmente “a barbeta” (numa posição protegida, mas não acasamatada, onde as peças disparam sobre uma amurada), na fortaleza de Humaitá, na principal bateria, que merecia o nome de “Londres” (apesar de não ter nada a ver com a Grã-Bretanha), artilhada com mais de 180 peças de diversos calibres. A especulação sobre a posição dessa peça de artilharia deve-se à constatação (feita por Adler Homero Castro em suas pesquisas) de que dificilmente se conseguiria disparar dela um projétil sólido pesando cerca de 200 quilos sem faze-la rebentar. Assim, é mais provável que disparasse granadas de aproximadamente 80 quilos, cheias de pólvora e reguladas para explodir por fuso. Mas é muito provável que, de fato, “El Cristiano” nunca tenha sido disparado. Quando a fortaleza foi invadida pelas tropas brasileiras comandadas pelo marquês de Caxias, os paraguaios demoliram a bateria Londres e lançaram as bocas-de-fogo ao rio. Terminada a guerra, provavelmente em 1871, a Marinha Imperial, cujos encouraçados levaram muitos tiros disparados daquela posição fortificada, retiraram a peça da água e ela foi levada para o Rio de Janeiro. Outro canhão de grandes proporções, o Criollo, foi levado para a Argentina.

Algumas fotografias dessa peça de artilharia podem ser vistas aqui. Por sinal, não deixe de ler o texto de Adler Homero Castro. Um outro ponto de vista pode ser conferido aqui. É um contraditório bem menos razoável do que outros que têm aparecido na Grande Rede. Confiram os dois, e decidam por si::

Anúncios

Um pensamento sobre “Cultura material militar::Troféus, triunfos e o obuseiro “El Cristiano”:tudo a ver::

  1. Bitt, em Cananéia -SP na década de 70 em festa comemorativa o pessoal colocou pólvora num canhão antigo que ficava em frente à Igreja.
    Nem preciso dizer que deu merda…
    O dito cujo explodiu bonito, vôou pedaço de canhão pra tudo quanto é lado e, como estáva-mos no regime militar a coisa toda foi abafada.
    Ouvi sobre o caso em Iguape-SP por conta d’um amigo do meu pai que presenciou (e saiu vivo) do “causo”.

    🙂

    Nem sei porque estou te relatando isso, me veio na memória e fica aí o registro.

    🙂

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s