O mês da Guerra do Paraguai::Algumas observações sobre as origens da guerra

Nos 140 anos que nos separam do fim da Guerra do Paraguai, a situação mudou bastante na região do Cone Sul do continente sul-americano. Embora as encrencas eventuais com nosso ex-inimigo e ex-aliados, o horizonte agora é de boa vontade mútua, embora ainda se note, vez por outra, alguma desconfiança da nação guarani com relação a seu enorme vizinho tupi – ou seja, nós mesmos.

O que não mudou é que os interesses brasileiros na região continuam muito grandes, embora tenham mudado um pouco de caráter. Agora, giram em torno da energia produzida pelo complexo de Itaipu, empresa administrada em parceria entre os dois países. Os interesses no Uruguai, por outro lado, agora são menores. Cento e quarenta anos atrás, a colônia brasileira no Uruguai equivalia a uns 50 mil brasileiros, população igual ou talvez maior do que a da acanhada cidade de Montevidéu. Os interesses dessa gente eram ligados pelos mais diversos laços, aqueles dos brasileiros residentes no Rio Grande do Sul.

A região, hoje pacífica, era então palco de conflitos armados constantes, de maior ou menor intensidade. Por ali, todo mundo tinha certa capacidade de mobilizar milícias. Região de “fronteira viva” por excelência, era habitada por gente que sabia montar (muito bem), sabia manejar lanças de cavalaria (afinal, eram muito parecidas com as que eram usadas para reunir o gado) e sabia atirar (geralmente mal). Esses grupos de milicianos tiveram sua maior expressão na “califórnia do Chico Pedro”, grupo de ginetes reunido, durante a Guerra dos Farrapos, por Francisco Pedro Buarque de Abreu. Chico Pedro é um exemplo do tipo de miliciano que proliferou na região. Estancieiro na fronteira com o Uruguai, criou uma força militar para defender os interesses dos fazendeiros rio-grandenses no Uruguai. Enfrentou os bandos de “orientales” (uruguaios) que incursionavam pelo território brasileiro e acabou combatendo contra a rebelião farroupilha. Liderou um grupo de uns 400 cavaleiros levemente armados e altamente móveis, que atuavam reunindo-se rapidamente e incursionando contra objetivos adversários, numa espécie de “guerrilha a cavalo”. Argentinos e uruguaios também conseguiam reunir esse tipo de forças, que não eram unidades militares e, em combate, eram muito pouco confiáveis devido ao baixo grau de disciplina. As tropas milicianas dificilmente contavam com infantaria e artilharia: normalmente, a proporção era de 5/8 cavaleiros para cada infante. Seus líderes, embora tivessem postos atribuídos pela Guarda Nacional, não tinham formação militar. Eram, de fato, chefes e sua autoridade decorria do poder político local que exerciam em suas regiões. Não eram comandantes, na acepção técnica da palavra. O Império tinha a vantagem de poder contar com um pequeno exército profissional, formado por oficiais e soldados de carreira, embora a força militar estivesse, desde 1831, limitada a cerca de 17.000 homens.

Outra vantagem, maior ainda, que tinha o Império do Brasil, era a posse de uma Marinha de Guerra. Esta existia desde 1822, tendo como base os oficiais e marinheiros portugueses que haviam aderido ao novo país de forma mais-ou-menos consensual. Também foram contratados oficiais e graduados britânicos, desempregados após o fim das Guerras Napoleônicas, que vagavam pela América do Sul como soldados da fortuna. A esse pessoal, já com bastante treinamento e experiência de guerra, juntaram-se marinheiros nacionais. A extensa costa brasileira e o sistema viário inexistente faziam do transporte marítimo a principal forma de ligação entre as diversas regiões. Toda essa gente foi guarnecer navios de guerra portugueses apanhados em portos brasileiros ou adquiridos em países estrangeiros. De qualquer forma, a Marinha Imperial teve destino diferente do Exército, cuja confiabilidade foi comprometida pelos surtos de indisciplina durante o Primeiro Reinado, que culminaram com a quase desmobilização, na década de 1830. A Marinha, devido ao tamanho da costa brasileira, teve papel estratégico na Guerra da Independência, pois impediu, pelo bloqueio naval, a articulação das regiões onde as juntas governativas mantinham-se politicamente fiéis a Portugal, entre si e com o Reino. É interessante observar que a criação da Marinha teve forte influência de José Bonifácio e de Caldeira Brant Pontes, ambos diplomatas e conselheiros do Imperador, e que, tendo prestado serviços à Coroa portuguesa, provavelmente tinham idéia sobre a importância do controle do mar. A Marinha continuou, após a independência, cumprindo o papel de garantir as comunicações entre as diversas partes do Império do Brasil e, ao contrário do Exército, não criou problemas políticos. Teve papel fundamental na repressão de revoltas locais, como a Confederação do Equador, em Pernambuco, e na defesa da posição brasileira na Guerra  da Cisplatina (1825-1828). Nessa época, a Marinha já dispunha de 96 navios de diversos tipos, o que a tornava a maior da região. O corpo principal, formado por dois navios-de-linha (naus), dez fragatas e vinte corvetas, montava quase 500 canhões. Daí por diante, a presença naval brasileira na região do Prata seria constante, visto que os conflitos naquela região não cessaram. Em 1851, com o Império mais uma vez em guerra contra as Províncias Unidas do Rio da Prata, uma esquadra brasileira de 16 navios, comandada pelo vice-almirante John Pascoe Grenfell foi enviada à região. Nessa ocasião, a esquadra brasileira conseguiu ultrapassar o forte de Tonelero, efetuando o desembarque de tropas trazidas do Rio Grande.  A importância da Marinha pode ser notada pela atenção que demonstra o governo imperial com a força.  Os programas de modernização e pela atualização que mostram os comandantes da força demonstram essa constante atenção, e já no final dos anos 1840, um programa de substituição de meios navais começou a introduzir o vapor na esquadra. Buenos Aires não dispunha de uma força naval com o nível de organização e estrutura da Marinha Imperial do Brasil, de modo que o domínio das águas do Prata era mantido sem maiores dificuldades. Em 1858, segundo os estudos do especialista almirante Max Justo Guedes, da Marinha Brasileira, estavam na região a fragata a vapor Amazonas, oito corvetas a vapor, vinte canhoneiras e oito transportes de tropas. O mesmo especialista afirma que, em 1860, às vésperas do início da Guerra do Paraguai, os principais navios da Marinha, embora novos (alguns com menos de dez anos de incorporados) já estavam em estado de obsolescência, devido aos progressos que as tecnologias metalúrgica, mecânica e química, acelerados pela Segunda Revolução Industrial, tinham introduzido nas maiores marinhas.

O problema é que, até então, as ações navais conduzidas no estuário do Prata eram ações de águas abertas, ou seja, os navios disponíveis atuavam no mar. O vapor dava-lhes enorme vantagem sobre os navios à vela, pois a propulsão à máquina tornara a manobra independente do vento. A busca da vantagem tática (a melhor posição para o tiro) passara a depender apenas da habilidade do comandante e do grau de adestramento da tripulação.

A entrada do Paraguai como ator na região, em busca de uma posição determinante viria a mudar a situação estratégica. Francisco Solano López que, em 1862 tinha herdado o governo paraguaio do pai, o moderado Carlos Antônio López, via na presença brasileira no Uruguai uma ameaça aos interesses paraguaios.

Que interesses eram esses? O Paraguai tinha se tornado independente em 1811, depois de recusar a integração com as Províncias Unidas. A partir de 1814, o governo de José Gaspar Rodriguez de Francia, que governou até 1840, manteve as fronteiras fechadas e o país afastado das querelas regionais. O ditador, bastante popular no país, entendia que a independência paraguaia só seria mantida caso o país se mantivesse estritamente neutro em assuntos de política externa. Embora considerasse a Argentina a maior ameaça à república, não procurou fazer movimentos em direção ao Brasil, depois de 1822. As relações com os dois países eram quase estritamente econômicas, e através delas, o Paraguai obtinha uma lista de bens considerados indispensáveis – principalmente armamento, obtido através do acesso às rotas marítimas oceânicas, que passavam pelo estuário do Prata e por Montevidéu. A política isolacionista revelou uma vantagem adicional – lançou as bases de uma pequena indústria local, que abastecia as necessidades do país, em termos de produtos básicos, como têxteis, peças de metal, carpintaria, pólvora e munições. Francia morreu em setembro de 1840, sem deixar sucessor indicado. Após um semestre de confusão política, o advogado Carlos Antonio López, um riquíssimo criador de gado e plantador de erva-mate, que, é claro, uma vez no governo, enriqueceu ainda mais. Ainda assim, mostrou-se administrador tão ou mais hábil  que Francia. Intensificou as relações comerciais com a Europa e, para tal, implementou a rede de estradas do país e implantou um sistema de comunicações telegráficas e uma estrada de ferro.  Incentivou também a produção de alimentos e as atividades manufatureiras, dentro das possibilidades de um país em que 80 por cento da população era constituído por analfabetos de origem indígena. Talvez por isso mesmo “El Excelentissimo” (como ele gostava de ser chamado) investiu fortemente na educação da população, construindo escolas e “importando” professores da Argentina e até da Espanha.

López implementou as atividades econômicas, importou médicos, engenheiros e técnicos da Europa e dos EUA, e, na direção contrária, enviou estudantes para aprender profissões técnicas, principalmente na Alemanha e nos EUA.

A política externa de López também foi marcada por mudanças notáveis de direção. “El Excelentissimo” começou a deixar a posição de neutralidade estabelecida por Francia e, com o incentivo brasileiro, passou a interferir na política argentina, chegando a declarar guerra contra o ditador argentino Rosas, em 1845. Esse ensaio de política externa agressiva acabou resultando num bloqueio naval que quase interrompeu as comunicações paraguaias com a Europa, onde se encontrava Francisco, o filho de López, brigadeiro-general encarregado de comprar armamentos para o Paraguai. Depois que Rosas deixou o governo, em função da derrota para uma coalizão de brasileiros e uruguaios, López começou a fomentar políticas de enfrentamento com seus vizinhos. Até então, a independência paraguaia servia às potências regionais como uma espécie de cunha que  uma imaginava meter nos interesses da outra, já que o país tinha disputas tanto com a Argentina como com o Brasil. O Paraguai funcionava como um tampão entre as desconfianças mútuas de pretensão expansionista, uma espécie de sub-imperialismo regional.

“El Excelentissimo” morreu em 1862, e Francisco assumiu o poder no Paraguai. López pai tinha, ao longo de 20 anos, se equilibrado entre dois perigosos inimigos, Brasil e Argentina; o filho logo deixou a prudência política para trás, revelando planos para transformar o Paraguai numa potência militar.

O fato é López largamente subestimou seus inimigos e superestimou a capacidade de seu próprio país, mediterrâneo, subdesenvolvido e com uma população de uns 450000 habitantes, relativamente pequena (o Império tinha, na época, em torno de 8 milhões de habitantes – incluídos os 3 milhões de escravos –, e a Argentina, algo em torno de 3 milhões). O maior erro de avaliação de López, entretanto, foi ter esperado que os dois adversários não conseguissem superar as diferenças que os separavam. Talvez o Paraguai tivesse tido uma chance caso as desavenças que mantinham Brasil e Argentina em perene estado de guerra, na bacia do Prata, tivessem continuado assim. Mas ambos rapidamente identificaram onde estava o perigo maior::

Para perpetrar um absurdo::Presidente, não permita que “El Cristano” viaje!::

Querem saber? O redator está indignado. In-dig-na-do! Quinta-feira passada (04 de março), enquanto cuidava da vida e pensava no próximo tópico do blogue das boas causas, eis que começam a pipocar e-mails e mensagens SMS, da rede social da turma que gosta de estudos militares. Que notícia provocaria tamanha agitação? A compra de 72 Rafales de uma vez? O lançamento do subnuke no próximo Dia do Marinheiro? A descoberta de uma bateria Aspide na favela da Rocinha? Não. Nada tão corriqueiro. Simplesmente, as autoridades brasileiras (???), primeiras interessadas em cultivar (???) nosso passado e disseminar nossa história, anunciaram a devolução do canhão El Cristiano ao Paraguai. A peça de artilharia de 12 toneladas foi retirada da fortaleza de Humaitá depois da tomada desse bastião, depois de uma memorável campanha, completada em 25 de julho de 1868, com a rendição da guarnição paraguaia, então completamente isolada.

A fortaleza era a principal obra defensiva destinada a “trancar” o rio Paraguai e os acessos à principal região do país vizinho, que tinha por centro a capital nacional, Assunção. Por sinal, um dos fatores dentre os que acabaram por provocar a Guerra do Paraguai (ou, no caso do nome oficial, “Guerra da Tríplice Aliança contra a República do Paraguai”) foi o temor do então Império do Brasil que o rio acabasse fechado à navegação. Um tal evento praticamente cortaria as comunicações entre a capital imperial e Mato Grosso, que se faziam através da foz do Rio da Prata e acesso aos rios Paraná, Paraguai e São Lourenço. Entravam nesse caldeirão as disputas do Império, no Sul do continente, com Buenos Aires, em torno do Uruguai, estado cuja independência era garantida pelo Brasil. Na prática, essas disputas não passavam da continuação daquelas entre os impérios espanhol e português no continente sul-americano.

A questão das comunicações com o interior do território do Império era de fundo: ao longo dos séculos anteriores, esquadrões de canoas de grandes proporções seguiam a trilha das “monções“, no período das chuvas, desde São Paulo, até a região onde se situava Cuiabá. O surgimento da navegação a vapor, que se tornou comum na América do Sul a partir dos final dos anos 1830, tornou o trajeto pela bacia do Prata mais rápido e prático, dando nova feição às comunicações marítimas na região. Não é por outro motivo que o Brasil sempre insistiu na liberdade de navegação fluvial na região centro-sul do continente, chegando, em 1854-1855, a tentar praticar um arremedo de “diplomacia das canhoneiras”, com uma expedição em que a fragata a vapor Amazonas (que, dez anos depois, cumpriria papel decisivo na batalha do Riachuelo), acabou encalhada antes de alcançar Assunção… Dez anos depois, as pretenções expansionistas de Francisco Solano Lopez acabaram levando à guerra, que consumiu seis anos e centenas de milhares de mortos e prejuízos financeiros difíceis, ainda hoje, de calcular, para ambos os lados. Mas, por ora, é suficiente: tentaremos fazer uma resenha da guerra em outro post, visto que acaba de ocorrer ao redator o pouco conhecimento que temos de nossa própria história. Isto sim, nos torna uma nação de segunda classe, suscetível aos discursos vazios de qualquer demagogo que saiba colocar uma palavra atrás da outra. Imagina este agora irritado pesquisador que o próprio presidente da República talvez não conheça bem a história do país do qual é autoridade maior, pois, se fosse o oposto, certamente não perpetraria um absurdo de tamanho porte. A diplomacia brasileira sempre foi capaz, na brilhante tradição do marquês de São Vicente, e depois do barão do Rio Branco, de equilibrar interesses divergentes, naturais entre uma comunidade de nações como a porção sul da América Latina. Nunca precisou pisar na memória das centenas de milhares de anônimos brasileiros que morreram quando a defesa desses interesses teve de se fazer pelas armas. Devolver um troféu de guerra é um ato de desrespeito difícil de descrever, o o canhão El Cristiano, caso soubéssemos aquilatar essas coisas, deveria estar no topo da hierarquia de nossos troféus, juntamente com as correntes que bloqueavam o rio diante da “Bateria Londres” (vamos fazer um pacote completo e devolve-las também?..), e os canhões alemães trazidos da Itália em 1945.

Pessoal, não somos uma nação assim tão “pacífica”. Isso não existe. Nosso passado está cheio de episódios bélicos e de violência; nossa construção, como nação, está cimentada pelo sangue de compatriotas a maioria dos quais não tem sequer uma sepultura marcada. E ninguém “deu a vida” espontaneamente: foram, a maioria deles, obrigados a entregá-la, arrancados de suas vidas humildes pelo vento da guerra. O soldado profissional e  o civil que se vê metido em uniforme, não morrem na guerra por vontade própria. Morrem porque têm de morrer, e a morte, em geral, chega sem avisar. E assim se fazem pais que têm de lamentar viver mais que os filhos, assim se fazem viúvas, assim se fazem órfãos. Respeitar a memória dessa gente é o mínimo que podemos fazer, e o começo de tudo isso é aprender história e fugir dos discursos pacifistas cretinos.

Assim, caros oito leitores (ou mais, espero, neste momento…), PROTESTEMOS! PROTESTEMOS contra a cretinice geral que assola este país de autoridades ignorantes. Escrevamos ao presidente Lula; vamos adverti-lo de que está sendo mal assessorado; vamos adverti-lo de que, muito antes dele sair do interior de Pernambuco para cumprir sua jornada até Brasília, outros nordestinos já tinham feito jornadas semelhantes, só que anônimas. Não apenas para garantir a unidade territorial deste país, mas também para defender a integridade do solo nacional.

Desta forma, causa:: vai parar tudo e está abrindo o “mês da Guerra do Paraguai”. Ao longo do que resta de março, teremos posts que falam sobre esse tema que deveria ser bem conhecido. Esperamos que cada um dos leitores, assíduos os eventuais, mande uma mensagem para um deputado e autoridade, exigindo que tal absurdo não seja completado::