O (segundo) mês da Guerra do Paraguai::Para finalizar, um pouco sobre tradição::

Parte2-3É interessante observar que, em todo o mundo, dentre as forças singulares, as marinhas de guerra parecem as mais ligadas às tradições. Por outro lado, as que parecem menos ligar para essas coisas são as Forças Aéreas. A explicação não é difícil: do ponto de vista de corporação, as marinhas de guerra são as forças singulares mais antigas. Se estruturaram antes que os exécitos nacionais. Esquadras de guerra passaram a ser mantidas pelos estados pelo menos desde o século 16. Operar navios com canhões exige uma estrutura que não está só no mar, mas também em terra: escolas de treinamento de oficiais e marinheiros, bases navais, estaleiros e assim por diante. Marinhas são forças caras. Com o advento dos canhões, só os estados tinham capacidade de reunir e manter , permanentemente, recursos e competências para tanto. Certamente existiram marinhas privadas, operando navios com grandes canhões à bordo: as chamadas “companhias privilegiadas”, com a permissão das Coroas exploravam o ultramar – as colônias. Uma dessas – a “Companhia das Índias Ocidentais“, dos Países Baixos, praticamente financiou a invasão do nordeste brasileiro, a partir de 1624. 

Mas essa é outra história. A partir do século 18, as marinhas passaram a ser corporações exclusivamente estatais. E um dos primeiros países a reservar ao Estado o controle de esquadras de guerra foi a Inglaterra. A Marinha Real – cujas tradições navais boa parte das marinhas (inclusive a brasileira) procura copiar – remonta ao rei Henrique VIII, que a tornou um braço da Coroa (daí o designativo “real”), com um corpo de funcionários militares e civis permanente e profissional. Mas o desenvolvimento da Real Marinha  começou, de fato, sob a liderança de Oliver Cromwell, durante seu período como “Lord Protetor do Trono Inglês”, depois do fim das guerras civis, em 1649. Nessa época, a ilha já tomada pelo Protestantismo, começou a confiar em sua marinha como garantia de suas riquezas e segurança. Entre 1646 e 1659 a marinha inglesa cresceu para mais de 200 navios. Depois da morte de Cromwell e da restauração dos Stuart, em 1660, mais navios foram construídos.  Mas o crescimento da marinha não garantia sucesso imediato, especialmente contra outro povo considerado, por excelência, marinheiro: os holandeses. A disputa com essa nação européia, pelo Atlântico e pelas rotas do Oriente resultou em três guerras, nos seguintes 25 anos. Nessa época nasce a grande tradição da Marinha Inglesa.

Boa parte da oficialidade era oriunda da pequena nobreza, o que explica parcialmente o comportamento à bordo. Além disso, os oficiais mantinham a disciplina exigindo da marujada o tratamento respeitoso que, em terra, dariam a seus senhores. Em países como Portugal, Espanha e França, todos de antiga tradição naval, as marinhas também se profissionalizaram, mas as Coroas mantiveram no oficialato grande número de membros da nobreza, da qual dependiam para governar. Em Portugal e na Espanha, os postos de comando eram frequentemente exercidos por figuras da alta nobreza, sem a menor ligação com a profissão naval; na França, com a consolidação do Estado centralizado, a profissão marinheira acabou destinada a naturais de regiões como a Normandia e a Bretanha – onde as profissões do mar já eram tradicionais; os oficiais eram, geralmente, membros da pequena nobreza, que assim tinha garantido um meio de vida. Esses homens acabaram por se tornar marinheiros muito competentes (basta ver o exemplo do almirante-corsário DuGuay Trouin).

No Brasil, a Marinha foi criada em 1821, às vésperas da independência. Nessa época, a carreira naval, no mundo inteiro, já era uma profissão altamente especializada, de modo que o governo que se constituía precisou contratar oficiais estrangeiros ou lançar mão  dos inúmeros portugueses que, ligados ao Brasil, se apresentaram ao serviço. De toda maneira, uma tradição começou a se constituir, a partir de eventos memoráveis (como o bloqueio de Salvador, em 1823), e continuou a se consolidar nas campanhas da Guerra da Independência, das Guerras no Sul, da Guerra do Paraguai e da Segunda Guerra Mundial. É curioso o fato de que o patrono da Marinha seja o almirante marquês de Tamandaré, Joaquim Marques Lisboa, e não lord Cochrane, um inglês que realmente criou a Marinha, por organizar a oficialidade e introduzir o uso de táticas modernas. Isso é compreensível: Cochrane, um oficial de patente intermediária (no final das Guerras Napoleônicas, tinha o posto equivalente ao de capitão-de-fragata, na Marinha Real) era, de fato, um mercenário que, com problemas políticos em seu país, a Escócia ofereceu seus serviços aos governos que se constituíam na América Latina. Manteve relações com Simon Bolívar e organizou a Marinha do Chile. Em 1822, foi convidado a comandar a marinha do Império do Brasil, mas manteve com seus contratantes relações tensas, que culminaram com o abandono do serviço, em 1827. Cochrane tinha cansado de esperar pelo pagamento combinado com o governo brasileiro. Já o marquês manteve-se em serviço ininterrupto desde 1821, quando se alistou como aprendiz-marinheiro, tendo chegado ao posto de vice-almirante (posto máximo, na Marinha Imperial). Em 1889, já bastante idoso, retirou-se do serviço público sem renegar a República, e principalmente, mantendo distância dos oficiais que, em 1891 e 1893, promoveram um enorme motim na esquadra e na Escola Naval, contra o governo de Deodoro da Fonseca e Floriano Peixoto. Essas revoltas também entraram na tradição da Marinha, que, a partir delas, passou a se ver como apolítica e defensora das instituições. O fato é que a segunda revolta arrasou parte do Rio de Janeiro e acabou provocando a intervenção estrangeira em assuntos brasileiros: Floriano, sem condições de opor resistência eficaz contra os canhões da esquadra amotinada, negociou o apoio de navios de guerra estrangeiros surtos na baía de Guanabara.  Tamandaré, assim, apresentava as qualidades que a Marinha buscava como suas: profissionalismo e neutralidade política. Em 1948, no dia de seu nascimento – 13 de dezembro – passou a ser comemorado como “dia do marinheiro”.

Por outro lado, a parte as “disputas da memória”, a Marinha Brasileira comemora, (como todas as outras marinhas), suas tradições,  batizando os navios com os nomes de eventos da República (os nomes dos Estados da federação ou acidentes geográficos notáveis), eventos importantes da força (nomes de batalhas) e vultos memoráveis (comandantes destacados e heróis). Assim, os navios se tornam um tipo de monumento, no qual as gerações do presente homenageiam seus marcos e seus antecessores. É curioso, entretanto, que as tais “batalhas pela memória” se travam mesmo nesse campo. No final dos anos 1960, quando a Marinha decidiu adquirir, na Alemanha, quatro navios-varredores de minas (NV) classe Schütze (aqui denominada “classe Aratu“), houve quem discordasse que um deles recebesse o nome de “Anhatomirim”. Explica-se: essa classe de navios costuma receber nomes de acidentes geográficos notáveis pela grandeza ou por estarem ligados a eventos navais. Acontece que, em Anhatomirim, ilha situada na baía de Santa Catarina), foi afundado, em 1894, por um torpedo o encouraçado Aquidabã (um excelente artigo sobre o assunto, aqui), um dos últimos eventos da Revolta da Armada. O tiro torpédico que inutilizou o encouraçado foi o primeiro realizado com sucesso em operação de combate, no mundo; foi aquele que demonstrou a viabilidade do torpedo automóvel como arma naval; durante muitos anos, foi o único evento brasileiro citado nos cursos de história naval da Academia Naval dos EUA. Por outro lado, o evento de Anhatomirim demonstrou certa incompetência por parte dos “nobres oficiais” comandados pelo almirante Saldanha. Pior: foi uma vitória indiscutível da “esquadra legal” comandada pelo “detestável” almirante Gonçalves, único oficial que se apresentou para comandar os navios de Floriano Peixoto. Deu para entender a implicância? Outro caso:  em 1994, quando foram completados entendimentos para a aquisição na Inglaterra, de fragatas tipo 22/1 pela Marinha Brasileira, o então ministro resolveu batizar duas delas com os nomes de “Rademaker” e “Bosísio”. Augusto Haman Rademaker Grünewald é mais conhecido – trata-se de um personagem ligado a triste memória do golpe militar de 1964. Paulo Bosísio é mais conhecido dentro da própria Marinha: trata-se do ministro que, em 1965, atendeu ao chamado do general Castello Branco para conduzir o desfecho da séria crise da Aviação Naval, que quase provocou um cisma dentro das forças armadas (um artigo sobre esse episódio bizarro, aqui). É interessante que a escolha dos nomes dos novos navios, que no caso da MB, seriam os principais meios flutuantes , incorporassem nomes de duas figuras de legitimidade duvidosa. Os dois estariam ao lado do aspirante Greenhalg, herói da Guerra do Paraguai, e do vice-almirante Jorge Dodsworth Martins, ministro da Marinha do governo interino de José Linhares e primeiro ocupante da pasta no governo Dutra (1946). Ainda que sem muito brilho, Dodsworth Martins parece ser considerado como paladino naval da transição democrática de 1946 – uma transição em que as forças armadas tiveram papel destacado (derrubaram Getúlio e foram fiadoras do processo político). Pois então temos um mártir da defesa da integridade do território, um fiador da liberdade,  um almirante que conduziu a marinha na “luta pela liberdade contra o comunismo”, e um oficial que soube colocar-se ao lado de seu chefe, na melhor tradição da Marinha. É possível ver nessa lista de nomes, a forma como a Marinha Brasileira vê a si mesma, ainda que essa visão seja para os civis, um tanto embaçada::

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O (segundo) mês da Guerra do Paraguai::Para finalizar, um pouco sobre tradição::

Parte1-3Todos os exércitos do mundo – ou, pelo menos, os exércitos que contam… – têm suas unidades tradicionais. O Exército britânico, por exemplo, é atualmente a força terrestre das Forças Armadas Reais. Entretanto, não tem o Royal no título: historicamente, as forças de terra da Grã-Bretanha eram convocadas localmente, por ordem do Parlamento e não da Coroa, pois esta, a partir da Revolução Gloriosa de 1689, foi proibida de ter homens de armas sob seu comando direto. Entretanto, algumas unidades tem o título de “real”, por ter membros da  Família Real como comandantes honorários – por exemplo, o 5° Regimento de Infantaria, ou Real Regimento de Fuzileiros de Northumberland, cujo comandante honorário (“coronel honorário”) era o duque de Northumberland; o Real Regimento de Fuzileiros de Warwick, tradicionalmente the Warwickshires, tinha como coronel honorário o duque de Warwick. Esses caras são, diretamente, parentes do ocupante do trono (em 1968, essas e mais seis unidades foram reunidas no Real Regimento de Fuzileiros, que continua a tradição militar das antigas unidades “pedestres”). Já dos “Guardas Galeses”, todo mundo conhece o Primeiro Batalhão, a “Guarda Real”: foram formados em 1915, em função da Primeira Guerra Mundial e têm o Príncipe de Gales como coronel honorário. Já do Exército norte-americano, atualmente todo mundo conhece a 101ª Divisão de Infantaria Paraquesdista, as “águia berradoras”. Essa unidade, dissolvida após o fim da guerra, tornou-se “pop” em função do patrioteiro Band of Brothers, ótima história de guerra e sofrível livro de história militar do historiador Stephen Ambrose. Poderíamos citar outras unidades tradicionais, no exército russo, como a atual Infantaria Russa de Guardas, continuadora da Infantaria de Guardas Soviéticos. Essas unidades remontavam aos guardas do czar Pedro, o Grande, regulamentados em 1690. Foram extintas em 1918, pela Revolução Soviética, mas durante a Segunda Guerra Mundial, a insígnia de “Guarda Soviética” passou a ser atribuída a unidades (por exemplo, esta aqui, caso você leia inglês) que tivessem se distinguido em combate. Depois da guerra, a distinção foi retida, e mesmo depois do fim da URSS, não desapareceu. Atualmente, unidades dos exércitos da Rússia, Belarus (antiga Bielorussia) e Ucrânia mantêm a designação “de Guarda” em função das tradições do extinto Exército Soviético.

Poderíamos passar muitas páginas falando de unidades militares tradicionais. No entanto, por ora basta saber que a tradição é muito importante na constituição não apenas das forças armadas, mas do serviço público como um todo. No caso do Brasil, as constantes “reformas” que são feitas, a cada governo que entra não deixam perceber essa tradição, mas temos pelo menos duas instituições que são reconhecidas internacionalmente, por colegas e especialistas de outros países: o Itamarati e o Patrimônio Histórico Nacional. A diplomacia é parte do aparelho de Estado em todos os países do mundo, e constitui um corpo profissional altamente reconhecido pela sociedade – basta ver a quantidade de “avenidas” e “ruas” Barão do Rio Branco que existem ao longo de todo o país (se você não sabe quem foi o barão – pelo amor de Deus! – clique aqui). Já o IPHAN, repartição pública criada em 1937 por Getúlio Vargas, por influência de intelectuais modernistas como Rodrigo Melo Franco de Andrade e Mário de Andrade (não eram parentes…), teve a participação de gente como Carlos Drummond de Andrade e Lúcio Costa, figuras extremamente representativas da moderna tradição brasileira. A tradição portanto consolida as instituições, porque faz com que seus membros se sintam parte de uma coletividade que transcende o tempo, por ter história e memórias a compartilhar. Sem medo de se tornar reduntante, o redator de causa:: repete outra vez: um povo que não sabe sua história não é nada. E a história das instituições é parte da história nacional. Continuaremos falando no assunto mais um pouco…::

O (segundo) mês da Guerra do Paraguai::O significado da “Guerra do Paraguai” na história do Brasil::

Revendo a papelada, o redator topou com uma preciosa velharia, guardada para a época de necessidade: uma palestra ministrada mais de 15 anos atrás por um dos grandes historiadores brasileiros, o professor Fernando Antônio Novais, da Universidade de Campinas. O professor Novais é responsável, com seu livro “Portugal e Brasil na crise do Antigo Sistema Colonial (1777-1808)” por uma das mais importantes linhas de reflexão sobre a formação da nação brasileira. Sua discussão sobre a Guerra do Paraguai coloca o conflito na dinâmica da crise do regime e do Estado brasileiros, no século 19. Por sinal, a reflexão do historiador é bastante atual, e aponta questões sobre a atualidade de nosso país. Nessa época em que autoridades e intelectuais parecem dispostos a esquecer o passado, ou pior, relativizá-lo… Cabe lê-la. E com atenção. Por sinal, cabe ler esta e todas as palestras que, em novembro de 1994, foram ministradas no simpósio “Guerra do Paraguai – 130 anos”, na Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro, e que depois surgiram em livro, atualmente esgotadíssimo (e que o redator tem a sorte de ter…)::

Cumpre refletir sobre o significado da Guerra do Paraguai na história do Brasil, sobretudo na história do Império, cuja análise tem sido bastante renovada, nos últimos tempos, pelos historiadores.

Joaquim Nabuco foi o primeiro a chamar a atenção para o significado mais profundo que teve, no transcurso da história, o fenômeno da Guerra da Tríplice Aliança. Ele disse que a Guerra do Paraguai foi ao mesmo tempo o apogeu do Império e o seu declínio. Os estudiosos da política do século passado no Brasil também insistem em que a Questão Militar surge logo depois da Guerra do Paraguai e vai-se aprofundando até a República. Qual a razão disso?

A sociedade escravista, uma sociedade em que a escravidão atinge uma expansão que ultrapassa o plano de uma simples instituição social – como era o caso do Império Brasileiro e da sociedade do Sul dos Estados Unidos –, é incompatível com a existência de um exército moderno, de forças armadas modernas. No limite, esta incompatibilidade inviabiliza o próprio Estado.

Na clássica definição de Max Weber, o Estado é o monopólio da violência legítima. Ora, numa sociedade escravista, o Estado não pode ter o monopólio da violência legítima, porque a sociedade organiza-se sobre a violência privada dos senhores contra seus escravos.

Por isso, na Independência do Brasil, ao se constituir um Estado soberano e ao se manter a escravidão, passou-se a viver um verdadeiro dilema. A manutenção da escravidão era uma das condições para a preservação da unidade nacional. Mas mantê-la significava inviabilizar o Estado, porque como escravidão não se constrói o monopólio da violência legítima.

Sabe-se que a Guarda Nacional foi criada durante a regência exatamente porque o Estado não confiava na tropa. Desta maneira, a sociedade escravista bloqueia os fundamentos do exército moderno, das modernas forças armadas. Esses fundamentos são basicamente dois: a universalidade do recrutamento e a hierarquia do oficialato baseada no mérito.

Uma sociedade escravista como a brasileira bloqueia o recrutamento de pelo menos metade da população, os escravos. Por sua vez, os que possuam escravos e, portanto, detinham uma parcela da violência legítima não queriam ingressar nas forças armadas, que tiveram de ser recrutadas nas camadas intermediárias da sociedade. Por outro lado, a hierarquia do exército define-se pelo mérito. Mas, no Império Brasileiro, ela definia-se pela própria estratificação da sociedade.

A Guerra do Paraguai exigiu a constituição de um exército. Na realidade, o Brasil não estava preparado para uma guerra, pois não dispunha de força armada moderna. Como o Paraguai tinha essa força armada constituída e moderna, tornou-se necessário que o Brasil montasse, pela primeira vez, um exército moderno, exército que vai para o Paraguai e faz a Guerra.

Não se monta impunemente, contudo, uma força armada moderna. Depois de tê-la formado, não se pode mais descartá-la. O que fazer com ela? A partir daí é que se instaura a Questão Militar, que iria progressivamente se aprofundando. E como não se pode desmontar a força armada, acaba-se por desmontar a própria Monarquia. Isso significa dizer que, para eliminar sua incompatibilidade visceral, a sociedade irá adequar-se à força armada moderna, e não a força armada moderna à sociedade. Este é o fundamento da Questão Militar.Outros aspectos menos importantes também devem ser considerados. A ideologia do Império Brasileiro sempre foi a de que a Monarquia era a civilização, enquanto a República era a barbárie.Esta foi, inclusive, a ideologia da diplomacia brasileira no século 19. Diplomacia que foi brilhante, exceto em alguns momentos, quando ela tinha de seguir as razões de Estado, como qualquer outra diplomacia.

Durante todo aquele período da primeira à segunda metade do século19, na ideologia do neo-imperialismo, Uruguai. Argentina e Paraguai eram países chamados barbaresques, em francês, mesmo que se estivesse falando no Parlamento inglês. O que se quer dizer com barbaresque? Barbaresque é um lugar que não só pode como deve ser invadido para ser civilizado. A opção da Monarquia brasileira era a seguinte: cabia provar que esta não era uma terra barbaresque.Era preciso provar que o Brasil não podia ser invadido, como o fora a Argélia, porque aqui havia um rei.

Costumo dizer que a Independência foi uma revolução conservadora no Brasil. A expressão pode parecer paradoxal, mas é a mais apropriada. É uma revolução porque uma colônia transforma-se em Estado soberano; mas é conservadora porque, com a vinda da Corte portuguesa, este fenômeno absolutamente extraordinário da história do Brasil, essa peculiaridade única da nossa história – a colônia colonizando a metrópole – a iniciativa da metrópole tinha ido tão longe que ultrapassou o ideário do senhoriato brasileiro, um senhoriato que estava realmente inventando uma nação.

A fórmula da Independência brasileira deixou-nos um legado da colonização sob a forma de um Império, que era uma garantia de continuidade. A idéia de Império era, portanto, uma idéia de preservação territorial e, até mais do que isso, era uma idéia expansionista, que se apresentou, desde o início, nas intervenções cisplatinas.

Mas o fato é que, com a guerra, a aliança com a Argentina e o Uruguai fez com que a afirmação segundo a Monarquia é a civilização e a República é a barbárie perdeu sua força, porque na Guerra, o Brasil teve que se aliar com duas repúblicas para lutar contra uma terceira.

Voltemos à nossa questão: como foi possível que, tendo uma estrutura incompatível com a existência de um exército moderno, o Império Brasileiro tenha se envolvido em uma guerra que exigia a montagem de modernas forças armadas? Essa questão relaciona-se com a forma pela qual o Brasil emerge como nação.

Não foi um erro de visão dos estadistas do Império do Brasil envolverem o país na Guerra do Paraguai. A guerra realmente comprometia a estrutura política e social do Império, porque criava um exército moderno incompatível com o escravismo. Mas, se a guerra não foi um erro, ela foi uma necessidade. O eixo da vida política brasileira no século 19 girava em torno dessa contradição.

Neste sentido, pode-se dizer que a grande vantagem que tivemos com a Guerra do Paraguai não foi vencer a guerra, mas participar dela, porque ela expôs as contradições, tornou pública a política brasileira da época, questão que se resolveu com a República, ou, pelo menos, começou  a se resolver a partir da República::

O (segundo) mês da Guerra do Paraguai::A guarda morre, mas não se rende::

A Guerra do Paraguai durou bem mais de dois meses – para sermos mais exatos, durou mais de 70 meses… O número de mortos, ninguém nunca irá calcular, já que naquela época, não existiam metodologias seguras de identificação e registro de baixas, em lugar nenhum do mundo. Já a frase posta como chamada, aí em cima é atribuída ao general francês Pierre -Jacques-Etienne Cambronne (La garde meurt mais ne se rend pas! – se você conseguiu ler isto, poderá ler a biografia do general, aqui) , comandante da Guarda Imperial, durante a batalha de Waterloo. O redator, apesar de reconhecer em si mesmo certa teatralidade (outros diriam “canastrice”…) não quer chegar a ser bombástico, mas o fato é que o governo federal continua empenhado em seu objetivo de devolver “El Cristiano” para o governo paraguaio, tendo encarregado o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) de tomar as providências para tanto. O interessante é que o canhão, do qual os oito leitores de causa:: já estão íntimos, está instalado num pátio interno do Museu Histórico Nacional, no Rio de Janeiro, desde 1922, quando o prédio do antigo Arsenal de Guerra, então vazio, foi reformado para as festas do Centenário da Independência. O “Cristiano” já se encontrava lá desde 1871, pelo menos, como parte do acervo do Museu de Artilharia (não confundir com o museu português com o mesmo nome, existente até hoje). Com a transferência do Arsenal para novas instalações na ponta do Caju, o Exército tinha esvaziado o prédio, mas largou lá uma coleção de bocas-de-fogo considerada, hoje em dia, a mais importante existente na América Latina. Essa coleção foi um dos núcleos em torno dos quais formou-se o MHN (esta página contém um excelente documentário fotográfico sobre o MHN na atualidade – procure pelo item “Vistas do pátio interno onde existe uma exposição de canhões antigos e históricos“). Em 1972, quando o governo militar (por isso que este redator vive dizendo: militar serve para muita coisa, menos para ser governo…) permitiu que parte dos objetos capturados durante a guerra fosse devolvida ao Paraguai, “El Cristiano” se encontrava naquela lista, mas acabou ficando porque não se conseguiu encontrar uma forma de removê-lo da posição onde se encontrava (e ainda se encontra) sem detonar o prédio histórico. Pois muito bem: parece que as atuais autoridades não estão nem aí para o prédio, que terá de ser parcialmente demolido (a um custo altíssimo) para depois ser reconstruído. E o governo brasileiro ainda pretende que seja construído um memorial à paz com o Paraguai no lugar onde, por quase noventa anos, o canhão esteve instalado (!!!). Mas o que tem a frase da chamada com tudo isso? Aparte o fato de que o redator gosta de frases bombásticas, é para frisar que a posição de causa:: na questão, embora não faça diferença alguma, não mudou, e não mudará.

Ou seja…

Existem questões políticas que remetem ao interesse nacional, e que devem ser implementadas pelos governos, com o uso de todas as ferramentas que lhes estejam disponíveis, mas não em detrimento de valores que constituam parte da identidade nacional. As relações políticas e econômicas com a República do Paraguai são, sem dúvida, parte importante do conjunto de relações internacionais que o Brasil mantêm com seus vizinhos latino-americanos, e que, desde muito tempo, têm se pautado pela busca do entendimento. Esse objetivo, entretanto, não deve ser construído sobre o ocultamento da história. Museus e monumentos (dos quais os troféus de guerra são uma categoria) foram inventados para permitir que as gerações futuras cultivem os acertos e reflitam sobre os erros – para que relembrem, enfim que a história é dinâmica, e que o passado é apenas parte dela.

E, completando, o redator pede licença para lembrar as nossas autoridades de que existem troféus de guerra tomados aos brasileiros em mãos da República do Paraguai, inclusive um navio inteiro, a canhoneira Anhabahy. Não seria uma atitude razoável, então, solicitar, educadamente, que sejam enviados para nós, pelo menos como gesto de boa vontade?..::