O (segundo) mês da Guerra do Paraguai::A guarda morre, mas não se rende::


A Guerra do Paraguai durou bem mais de dois meses – para sermos mais exatos, durou mais de 70 meses… O número de mortos, ninguém nunca irá calcular, já que naquela época, não existiam metodologias seguras de identificação e registro de baixas, em lugar nenhum do mundo. Já a frase posta como chamada, aí em cima é atribuída ao general francês Pierre -Jacques-Etienne Cambronne (La garde meurt mais ne se rend pas! – se você conseguiu ler isto, poderá ler a biografia do general, aqui) , comandante da Guarda Imperial, durante a batalha de Waterloo. O redator, apesar de reconhecer em si mesmo certa teatralidade (outros diriam “canastrice”…) não quer chegar a ser bombástico, mas o fato é que o governo federal continua empenhado em seu objetivo de devolver “El Cristiano” para o governo paraguaio, tendo encarregado o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) de tomar as providências para tanto. O interessante é que o canhão, do qual os oito leitores de causa:: já estão íntimos, está instalado num pátio interno do Museu Histórico Nacional, no Rio de Janeiro, desde 1922, quando o prédio do antigo Arsenal de Guerra, então vazio, foi reformado para as festas do Centenário da Independência. O “Cristiano” já se encontrava lá desde 1871, pelo menos, como parte do acervo do Museu de Artilharia (não confundir com o museu português com o mesmo nome, existente até hoje). Com a transferência do Arsenal para novas instalações na ponta do Caju, o Exército tinha esvaziado o prédio, mas largou lá uma coleção de bocas-de-fogo considerada, hoje em dia, a mais importante existente na América Latina. Essa coleção foi um dos núcleos em torno dos quais formou-se o MHN (esta página contém um excelente documentário fotográfico sobre o MHN na atualidade – procure pelo item “Vistas do pátio interno onde existe uma exposição de canhões antigos e históricos“). Em 1972, quando o governo militar (por isso que este redator vive dizendo: militar serve para muita coisa, menos para ser governo…) permitiu que parte dos objetos capturados durante a guerra fosse devolvida ao Paraguai, “El Cristiano” se encontrava naquela lista, mas acabou ficando porque não se conseguiu encontrar uma forma de removê-lo da posição onde se encontrava (e ainda se encontra) sem detonar o prédio histórico. Pois muito bem: parece que as atuais autoridades não estão nem aí para o prédio, que terá de ser parcialmente demolido (a um custo altíssimo) para depois ser reconstruído. E o governo brasileiro ainda pretende que seja construído um memorial à paz com o Paraguai no lugar onde, por quase noventa anos, o canhão esteve instalado (!!!). Mas o que tem a frase da chamada com tudo isso? Aparte o fato de que o redator gosta de frases bombásticas, é para frisar que a posição de causa:: na questão, embora não faça diferença alguma, não mudou, e não mudará.

Ou seja…

Existem questões políticas que remetem ao interesse nacional, e que devem ser implementadas pelos governos, com o uso de todas as ferramentas que lhes estejam disponíveis, mas não em detrimento de valores que constituam parte da identidade nacional. As relações políticas e econômicas com a República do Paraguai são, sem dúvida, parte importante do conjunto de relações internacionais que o Brasil mantêm com seus vizinhos latino-americanos, e que, desde muito tempo, têm se pautado pela busca do entendimento. Esse objetivo, entretanto, não deve ser construído sobre o ocultamento da história. Museus e monumentos (dos quais os troféus de guerra são uma categoria) foram inventados para permitir que as gerações futuras cultivem os acertos e reflitam sobre os erros – para que relembrem, enfim que a história é dinâmica, e que o passado é apenas parte dela.

E, completando, o redator pede licença para lembrar as nossas autoridades de que existem troféus de guerra tomados aos brasileiros em mãos da República do Paraguai, inclusive um navio inteiro, a canhoneira Anhabahy. Não seria uma atitude razoável, então, solicitar, educadamente, que sejam enviados para nós, pelo menos como gesto de boa vontade?..::

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8 pensamentos sobre “O (segundo) mês da Guerra do Paraguai::A guarda morre, mas não se rende::

  1. bitt, sugiro um post sobre o tratado assinado pelo ministro da defesa com os americanos, vi coisas a respeito pela internet mas de uma forma muito mal explicada, ainda não entendi essa história de base americana no rio.

    • Logan,
      tenho separado algum material sobre assuntos estratégicos, considerando inclusive a economia nesse patamar. Li outro dia uma dessas perspectivas que diz que, em 2050, todos os BRICs terão deixado a Europa e o Japão para trás e a China terá passado os EUA em 30 por cento. O interessante dessa perspectiva é q cada um terá se especializado em uma coisa: China em produção industrial, Brasil em alimentos e insumos brutos e industrializados, Rússia em armamentos, ferramental e petróleo e Índia em tecnologia de ponta. Faz um certo sentido, visto o impulso que estão tendo as discussões para a implantação de um mercado comum. Esperemos q não entre um Serra desses aí, chefiando um elite que aspira a um modelo de civilização totalmente ultrapassado e ficar por aí falando francês… E, no meio do caminho, acabe subordinando o país a esse modelo obsoleto de capitalismo especulativo.

    • Prof,
      se a gente tivesse invadido o Paraguai. Mas foi o contrário. Conheço um cara que teve dois descendentes maternos mortos na guerra. É um pessoal q até hj tem o que resta de uma enorme fazenda de café em Resende (RJ). O arquivo da família é interessante pra caramba, e dava um livro e tanto – dentre outras coisas, o patriarca gastou dinheiro a rodo comprando e libertando 56 negros para enviar pro Exército de modo a impedir q o filho mais novo, que tinha 20 anos e era alferes da Guarda Nacional, acabasse em combate. Seria interessante se esse pessoal – ou quem sabe a família dos tripulantes do vapor Marquês de Olinda – resolvesse pedir indenização ao governo paraguaio…

  2. OUVI DIZER QUE EXISTE UM MONUMENTO NO PARAGUAI
    REFERENTE A GUERRA QUE ESTÁ ESCRITO, “AQUI UM HERÓI PARAGUAIO MORTO POR UM COVARDE BRASILEIRO”, ISTO É VERDADE? SE ALGUÉM PUDER RESPONDER GOSTARIA MUITO DE SABER.

    • Vou procurar saber e respondo. O Paraguai é cheio d e monumentos à guerra e a Solano Lopez, que eles consideram herói nacional (não discuto isso – Solano não pode ser cpmparado a Hitler, por exemplo). E também consideram q o país deles foi “traído” numa conspiração internacional. Aí já é delírio, e delírios desse tipo podem muito bem gerar sandices do tipo q vc citou.

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