O (segundo) mês da Guerra do Paraguai::Para finalizar, um pouco sobre tradição::


Parte2-3É interessante observar que, em todo o mundo, dentre as forças singulares, as marinhas de guerra parecem as mais ligadas às tradições. Por outro lado, as que parecem menos ligar para essas coisas são as Forças Aéreas. A explicação não é difícil: do ponto de vista de corporação, as marinhas de guerra são as forças singulares mais antigas. Se estruturaram antes que os exécitos nacionais. Esquadras de guerra passaram a ser mantidas pelos estados pelo menos desde o século 16. Operar navios com canhões exige uma estrutura que não está só no mar, mas também em terra: escolas de treinamento de oficiais e marinheiros, bases navais, estaleiros e assim por diante. Marinhas são forças caras. Com o advento dos canhões, só os estados tinham capacidade de reunir e manter , permanentemente, recursos e competências para tanto. Certamente existiram marinhas privadas, operando navios com grandes canhões à bordo: as chamadas “companhias privilegiadas”, com a permissão das Coroas exploravam o ultramar – as colônias. Uma dessas – a “Companhia das Índias Ocidentais“, dos Países Baixos, praticamente financiou a invasão do nordeste brasileiro, a partir de 1624. 

Mas essa é outra história. A partir do século 18, as marinhas passaram a ser corporações exclusivamente estatais. E um dos primeiros países a reservar ao Estado o controle de esquadras de guerra foi a Inglaterra. A Marinha Real – cujas tradições navais boa parte das marinhas (inclusive a brasileira) procura copiar – remonta ao rei Henrique VIII, que a tornou um braço da Coroa (daí o designativo “real”), com um corpo de funcionários militares e civis permanente e profissional. Mas o desenvolvimento da Real Marinha  começou, de fato, sob a liderança de Oliver Cromwell, durante seu período como “Lord Protetor do Trono Inglês”, depois do fim das guerras civis, em 1649. Nessa época, a ilha já tomada pelo Protestantismo, começou a confiar em sua marinha como garantia de suas riquezas e segurança. Entre 1646 e 1659 a marinha inglesa cresceu para mais de 200 navios. Depois da morte de Cromwell e da restauração dos Stuart, em 1660, mais navios foram construídos.  Mas o crescimento da marinha não garantia sucesso imediato, especialmente contra outro povo considerado, por excelência, marinheiro: os holandeses. A disputa com essa nação européia, pelo Atlântico e pelas rotas do Oriente resultou em três guerras, nos seguintes 25 anos. Nessa época nasce a grande tradição da Marinha Inglesa.

Boa parte da oficialidade era oriunda da pequena nobreza, o que explica parcialmente o comportamento à bordo. Além disso, os oficiais mantinham a disciplina exigindo da marujada o tratamento respeitoso que, em terra, dariam a seus senhores. Em países como Portugal, Espanha e França, todos de antiga tradição naval, as marinhas também se profissionalizaram, mas as Coroas mantiveram no oficialato grande número de membros da nobreza, da qual dependiam para governar. Em Portugal e na Espanha, os postos de comando eram frequentemente exercidos por figuras da alta nobreza, sem a menor ligação com a profissão naval; na França, com a consolidação do Estado centralizado, a profissão marinheira acabou destinada a naturais de regiões como a Normandia e a Bretanha – onde as profissões do mar já eram tradicionais; os oficiais eram, geralmente, membros da pequena nobreza, que assim tinha garantido um meio de vida. Esses homens acabaram por se tornar marinheiros muito competentes (basta ver o exemplo do almirante-corsário DuGuay Trouin).

No Brasil, a Marinha foi criada em 1821, às vésperas da independência. Nessa época, a carreira naval, no mundo inteiro, já era uma profissão altamente especializada, de modo que o governo que se constituía precisou contratar oficiais estrangeiros ou lançar mão  dos inúmeros portugueses que, ligados ao Brasil, se apresentaram ao serviço. De toda maneira, uma tradição começou a se constituir, a partir de eventos memoráveis (como o bloqueio de Salvador, em 1823), e continuou a se consolidar nas campanhas da Guerra da Independência, das Guerras no Sul, da Guerra do Paraguai e da Segunda Guerra Mundial. É curioso o fato de que o patrono da Marinha seja o almirante marquês de Tamandaré, Joaquim Marques Lisboa, e não lord Cochrane, um inglês que realmente criou a Marinha, por organizar a oficialidade e introduzir o uso de táticas modernas. Isso é compreensível: Cochrane, um oficial de patente intermediária (no final das Guerras Napoleônicas, tinha o posto equivalente ao de capitão-de-fragata, na Marinha Real) era, de fato, um mercenário que, com problemas políticos em seu país, a Escócia ofereceu seus serviços aos governos que se constituíam na América Latina. Manteve relações com Simon Bolívar e organizou a Marinha do Chile. Em 1822, foi convidado a comandar a marinha do Império do Brasil, mas manteve com seus contratantes relações tensas, que culminaram com o abandono do serviço, em 1827. Cochrane tinha cansado de esperar pelo pagamento combinado com o governo brasileiro. Já o marquês manteve-se em serviço ininterrupto desde 1821, quando se alistou como aprendiz-marinheiro, tendo chegado ao posto de vice-almirante (posto máximo, na Marinha Imperial). Em 1889, já bastante idoso, retirou-se do serviço público sem renegar a República, e principalmente, mantendo distância dos oficiais que, em 1891 e 1893, promoveram um enorme motim na esquadra e na Escola Naval, contra o governo de Deodoro da Fonseca e Floriano Peixoto. Essas revoltas também entraram na tradição da Marinha, que, a partir delas, passou a se ver como apolítica e defensora das instituições. O fato é que a segunda revolta arrasou parte do Rio de Janeiro e acabou provocando a intervenção estrangeira em assuntos brasileiros: Floriano, sem condições de opor resistência eficaz contra os canhões da esquadra amotinada, negociou o apoio de navios de guerra estrangeiros surtos na baía de Guanabara.  Tamandaré, assim, apresentava as qualidades que a Marinha buscava como suas: profissionalismo e neutralidade política. Em 1948, no dia de seu nascimento – 13 de dezembro – passou a ser comemorado como “dia do marinheiro”.

Por outro lado, a parte as “disputas da memória”, a Marinha Brasileira comemora, (como todas as outras marinhas), suas tradições,  batizando os navios com os nomes de eventos da República (os nomes dos Estados da federação ou acidentes geográficos notáveis), eventos importantes da força (nomes de batalhas) e vultos memoráveis (comandantes destacados e heróis). Assim, os navios se tornam um tipo de monumento, no qual as gerações do presente homenageiam seus marcos e seus antecessores. É curioso, entretanto, que as tais “batalhas pela memória” se travam mesmo nesse campo. No final dos anos 1960, quando a Marinha decidiu adquirir, na Alemanha, quatro navios-varredores de minas (NV) classe Schütze (aqui denominada “classe Aratu“), houve quem discordasse que um deles recebesse o nome de “Anhatomirim”. Explica-se: essa classe de navios costuma receber nomes de acidentes geográficos notáveis pela grandeza ou por estarem ligados a eventos navais. Acontece que, em Anhatomirim, ilha situada na baía de Santa Catarina), foi afundado, em 1894, por um torpedo o encouraçado Aquidabã (um excelente artigo sobre o assunto, aqui), um dos últimos eventos da Revolta da Armada. O tiro torpédico que inutilizou o encouraçado foi o primeiro realizado com sucesso em operação de combate, no mundo; foi aquele que demonstrou a viabilidade do torpedo automóvel como arma naval; durante muitos anos, foi o único evento brasileiro citado nos cursos de história naval da Academia Naval dos EUA. Por outro lado, o evento de Anhatomirim demonstrou certa incompetência por parte dos “nobres oficiais” comandados pelo almirante Saldanha. Pior: foi uma vitória indiscutível da “esquadra legal” comandada pelo “detestável” almirante Gonçalves, único oficial que se apresentou para comandar os navios de Floriano Peixoto. Deu para entender a implicância? Outro caso:  em 1994, quando foram completados entendimentos para a aquisição na Inglaterra, de fragatas tipo 22/1 pela Marinha Brasileira, o então ministro resolveu batizar duas delas com os nomes de “Rademaker” e “Bosísio”. Augusto Haman Rademaker Grünewald é mais conhecido – trata-se de um personagem ligado a triste memória do golpe militar de 1964. Paulo Bosísio é mais conhecido dentro da própria Marinha: trata-se do ministro que, em 1965, atendeu ao chamado do general Castello Branco para conduzir o desfecho da séria crise da Aviação Naval, que quase provocou um cisma dentro das forças armadas (um artigo sobre esse episódio bizarro, aqui). É interessante que a escolha dos nomes dos novos navios, que no caso da MB, seriam os principais meios flutuantes , incorporassem nomes de duas figuras de legitimidade duvidosa. Os dois estariam ao lado do aspirante Greenhalg, herói da Guerra do Paraguai, e do vice-almirante Jorge Dodsworth Martins, ministro da Marinha do governo interino de José Linhares e primeiro ocupante da pasta no governo Dutra (1946). Ainda que sem muito brilho, Dodsworth Martins parece ser considerado como paladino naval da transição democrática de 1946 – uma transição em que as forças armadas tiveram papel destacado (derrubaram Getúlio e foram fiadoras do processo político). Pois então temos um mártir da defesa da integridade do território, um fiador da liberdade,  um almirante que conduziu a marinha na “luta pela liberdade contra o comunismo”, e um oficial que soube colocar-se ao lado de seu chefe, na melhor tradição da Marinha. É possível ver nessa lista de nomes, a forma como a Marinha Brasileira vê a si mesma, ainda que essa visão seja para os civis, um tanto embaçada::

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