Minha comemoração particular do fim da Segunda Guerra Mundial::Uma data a ser escrita em ouro


Estejamos todos conscientes: escapamos de algo assim, ou talvez ainda pior.

Dia Oito de Maio de 1945 – assim mesmo: escrito em letras de ouro. Imagino que hoje, em diversos lugares do mundo, pessoas, jovens e idosas, estejam reunidas para comemorar o dia em que foi erradicada do mundo a praga do fascismo, em sua versão mais virulenta: o nacional-socialismo, desde então assombrando a todos nós sob a aglutinação nazismo. Não houve outro modo – tudo que pudesse ter sido lançado contra esse regime teria de ser lançado. A insistência no apaziguamento teria resultado num mundo sob influência fascista, e esse seria tenebroso. Seria um mundo de sombras, talvez de sombras nucleares. Mas certamente seria um mundo da pior desigualdade possível: a da escravização pela violência das armas.

De fato, o fascismo não morreu. Morreram suas possibilidades como forma de organização política. Pensando bem, talvez as únicas “guerras justas” dos últimos cem anos tenham sido as 1ª e 2ª Guerras Mundiais. Guerras contra as pretensões de opressão universal saídas das fantasias de homens de Estado, de governo e de seus seguidores, ensandecidos pela idéia de sociedades perfeitas.

Por “Utopias“. Como o nome diz, “não-lugar”, o “lugar nenhum”, a fantasia renascentista de uma sociedade totalmente equilibrada em suas contradições. Ouvimos muito falar do “fracasso das utopias” (se você ainda não ouviu falar, tudo bem, apure seus ouvidos aqui). A segunda metade do século 19 foi herdeira de mudanças sócio-econômicas revolucionárias, que praticamente libertaram o Ocidente das amarras e limitações impostas pela natureza. Os homens que lançaram, na segunda metade dos Oitocentos, as bases do socialismo e do fascismo não estavam mal-intencionados. Eram pensadores e políticos procurando entender as desigualdades extremas que se consolidaram entre seres aparentemente iguais uns diante dos outros. A resposta, em dado momento, pareceu brilhar em um “não-lugar” que poderia ser construído pela revolução. A ordem institucional equilibrada em seus contrários, baseada na justiça e na lei, vinha sendo construída paulatinamente. Se por um lado apresentava resultados aparentemente defeituosos – em grande medida mantendo e institucionalizando a desigualdade – por outro surgia de modo insuportavelmente lento para as massas que sofriam as consequências das novas tecnologias e da organização social e econômica decorrente. O século 19 foi um século de fábricas sombrias, cidades superlotadas, onde multidões trabalhavam sem recompensa e eram convocadas a lutar em guerras mortíferas que pareciam ter como finalidade aumentar a opressão. Em determinado momento, o rompimento da ordem institucional destinada, aparentemente, a manter tal estado de coisas pareceu a única forma de acelerar a velocidade da mudança. E “aceleração” foi, naquela época, quase um sinônimo de “modernidade”. A passagem do pensamento à ação, de objetos da História a sujeitos da História. Acelerar a caminhada até o “não-lugar”. Trazer a utopia para a realidade.

Não funcionou, e tivemos de passar por duas guerras declaradas e uma implícita, para perceber que a história tem seu próprio ritmo. A 2ª Guerra Mundial e a “Guerra Fria” que se seguiu, nas quatro décadas seguintes foram dois momentos semelhantes e diversos. Semelhantes porque foram o resultado das fantasias de homens de Estado dispostos a acelerar a História. Diversos porque a 2ª Guerra Mundial não teria resultado em uma “Guerra Fria”. A teoria e a prática políticas do nacional-socialismo só admitiam a violência como forma de interação, e a extinção do adversário como objetivo. Não havia meio-termo possível: ou você é como eu, ou está morto. Depois de 1945, as duas potências que, saídas dos escombros da guerra, pretendiam impor as visões de mundo de seus pensadores e governantes, admitiam debater. E uma delas até admitiu – não pacificamente, é verdade – que não tinha dado certo.

Assim, é opinião deste redator:: que o fim da 2ª Guerra Mundial continuará sendo comemorado e festejado, independente das mudanças por quais passe nosso mundo. E é assim que deve ser. O fim da União Soviética não é comemorado por ter sido apenas mais um movimento da História, e, como tal, de interesse da classe de cientistas que chamamos “historiadores”. E o socialismo, que viva, não como forma de organização política, mas como inspiração para a busca de uma sociedade se não justa, pelo menos menos injusta. O fim da 2ª GM e do fascismo, não. Será sempre data de interesse de toda a humanidade.

Pois bem, estamos entrando no mês da comemoração particular do redator:: Que usará de todos os subterfúgios que possa imaginar para convencer os oito leitores (ou já serão nove?..) de que Oito de Maio é uma data a ser escrita em letras de ouro::

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6 pensamentos sobre “Minha comemoração particular do fim da Segunda Guerra Mundial::Uma data a ser escrita em ouro

  1. Bitt, como sempre, muito pertinente e muitíssimo bem escrito, exceto, a meu ver, por um detalhe: a Primeira Guerra não tem nada a ver com a Segunda, não foi causada por “…pretensões de opressão universal saídas das fantasias de homens de Estado, de governo e de seus seguidores, ensandecidos pela idéia de sociedades perfeitas”, tampouco “…fantasias de homens de Estado dispostos a acelerar a História”. O Reich de então era uma típica “grande potência européia”, em nada significativamente distinto dos impérios austro-húngaro e britânico ou mesmo da República Francesa (III? IV? já nem sei mais) e provavelmente melhor do que o russo. A guerra foi um imbecilidade criminosa armada durante décadas, quando se imaginava que seria algo “elegante” e rápido como a Guerra Franco-Prussiana. De certa forma, foi mesmo “elegante”: 90% das suas vítimas foram soldados em ação, não civis, como tem acontecido desde a Segunda. O fato mais cruel é que não houve qualquer grande causa por trás do morticínio de 1914-18. Mas ele criou o ambiente propício para que velhas estruturas caíssem nas potências perdedoras e mesmo numa aliada (Rússia, 1917), além de ter armado a bomba-relógio do nazi-fascismo. Bem, você e os outros 7 ou 8 leitores sabem disso, eu só queria livrar a cara da Alemanha de uma acusação incabível.

    • Luiz, sds.
      Com relação à 1a GM, vc tem razão, mas ela esteve articulada à problemática política da unificação alemã sob a regência dos prussianos. Segundo historiadores, a Prússia era uma típica formação política centro-européia, que teve um desenvolvimento capitalista bastante peculiar e disputou espaço o tempo todo com a Áustria-Hungria, que não queria ver a Alemanha unificada por causa de seus interesses na Alemanha do Sul. É interessante observar que o Exército Real era formado basicamente pela pequena nobreza prussiana comandando camponeses da mobilizados na Prussia Oriental e na Silésia. Depois da unificação, uma parte considerável começou a ser convocada na Baviera e no Brandenburgo, mas o grosso da oficialidade de carreira continuou a ser majoritariamente prussiana e, principalmente, o Estado Maior Geral (de onde saiam os comandantes do exército), também. Durante a 1a GM, o Império e principalmente o Exército, era baseado na estrutura administrativa prussiana, e acabou se tornando, depois de 1915, uma ditaduta militar, coordenada por Hindenburg e principalmente por Ludendorff (que eram ambos prussianos), com o Kaiser aparecendo como figura de proa.A história da “facada nas costas” (que é uma fantasia, mas não inventada pelos nazistas) vem daí – em dado momento, acho que setembro de 1918, qdo começaram a surgir revoltas e indisciplina principalmente na Marinha, por causa da mobilização total que estava provocando escassez de alimentos e de combustível, o Kaiser e a estrutura civil agiram para tirar a Alemanha da guerra. Claro, isso não seria feito sem a anuência do comando do exército, mas não é à toa q os SA diziam, na ascensão do nazismo, que “esses aristocratas de merda perderam uma guerra e com certeza vão perder outra”. Os nazistas herdaram a estrutura civil e militar prussiana, sem nenhuma mudança – os militares negociaram para que a SA fosse tirada do jogo – foi a tal “noite das longas facas”, na prática um golpe palaciano. As SA se formaram com base na estrutura dos “Corpos Francos”, que eram unidades desmobilizadas em 1918 e que foram mantidas juntas, como tropas paramilitares, armadas e mantendo uma cadeia de comando. Ernst Röhm, um dos personagens mais interessantes dessa primeira fase, tinha idéias de formar um exército popular baseado em mobilização massiva e treinamento constante. Ele pretendia que a estrutura fosse mudada, ficando a SA no comando da formação de reservas e do treinamento de recrutas, o que significava tirar o poder da aristocracia militar. Eu não sou favorável a esse tipo de avaliação, mas acho que se ele não tivesse sido morto e as SA, na prática, dissolvidas, a guerra teria sido diferente. Mas o fato é que o governo nazista manteve a estrutura do Estado prussiano, com suas instituições autoritárias por formação (o serviço público) e militaristas (o exército prussiano). A remilitarização de 1935 foi uma concessão aos prussianos, que assumiram o processo. A “parte nazista” dizia respeito à coordenação da economia e da produção, com o partido tornando-se parte da máquina de Estado, e não apenas coordenação da máquina de Estado. A estrutura continuou a mesma, ou seja, o serviço público se organizando em torno e com a finalidade de servir aos interesses do Estado, e não propriamente ao público (coisa que Marx já tinha percebido, quando ainda era estudande de doutorado). Os servidores públicos não eram obrigados a se filiar ao partido – apenas se esperava que servissem ao Estado sem discussão. A única coisa que os nazistas realmente mudaram foi a polícia, por motivos obvios, que passou a ser diretamente subordinada ao governos das “Land”. No Exército foi a mesma coisa, e tanto os nazistas não confiavam totalmente nos militares que criaram uma estrutura paralela, a Waffen SS, separada da SS e emulando a estrutura do exército.
      Por sinal esse é um bom tópico prum post… :c)

    • Prazer em ve-lo, companheiro.
      Mantenha-se ligado. Esse mês, vou me desdobrar em dois, pq, do ano passado pra cá, levantei mta coisa interessante sobre o assunto, e conheci um neonazista catarinense… Desde setembro passado, qdo encontrei o cara, estava doido pra comemorar…

  2. Bitt, seu comentário às minhas maltraçadas foi tão grande quanto o artigo original. Que honra! Principalmente porque tudo isso foi para dizer, com propriedade, que minha intervenção estava essencialmente correta. Hoje, dormirei o sono dos justos!

    • Luiz, sds!
      Como sempre digo, isto aqui tem cara de blog, pinta de blog, jeito de blog, mas… Não é blog, é recurso de pesquisa para especialistas e amadores eruditos (como é meu caso). Ptanto, questões interessantes merecem respostas interessantes. E pode esperar – sua questão vai render um post, pq essa história da relação entre 1a e 2a GMs rende. :c)

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