Minha comemoração particular do fim da Segunda Guerra Mundial::Prussianos antes, alemães depois e a aceleração da História::


 

parte1/2No post anterior, abrindo minha comemoração particular,etc., etc., e talvez em função dos sentimentos que esse evento me desperta, usei a afirmativa “pretensões de opressão universal”, para qualificar as ambições alemãs em 1914. É possível que tenha exagerado. E, na linha desse raciocínio, lancei mão de um conceito controverso: “aceleração da História”. Isso diz respeito a queimar etapas do processo histórico (uma reflexão interessante sobre o tema, aqui). Segundo outros teóricos, implica passar do pensamento à ação.

Como o texto provocou pelo menos um contraditório, (pelo Luiz Candido, um dos oito ou nove leitores fiéis de causa:: – na íntegra, o texto está na área de comentários da postagem anterior) , resolvi refletir um pouco e voltar à pesquisa, pois o debate merece complementações, e elas podem começar com a seguinte afirmação – que começo por reconhecer controversa: pelo menos entre 1870 e 1939, e dada a conjuntura histórica do período, a Alemanha tinha a tendência a provocar guerras de agressão.

Falar em “conjuntura histórica” é uma tremenda pretensão. O redator::, embora se admita um tanto delirante (só às vezes – nem sempre…), sabe que essa discussão, no que tange à Alemanha ou qualquer outra formação política, seria tema para um livro – ou vários -, não para um modesto recurso de pesquisa. Entretanto, não podemos deixar de lado certas observações que nos permitam caracterizar a Alemanha do período. E, no caso, temos de estabelecer: essa formação política tem de ser chamada das Reich. Isso significa “o Império”, “o Domínio”. O “Terceiro Império” (ora eles diziam das Drittes Reich, ora das Deutsches Reich) foi inaugurado em 28 de fevereiro de 1933, no evento de um decreto que suspendeu os direitos civis. Então em posição de força  os nazistas acabaram com a experiência republicana inaugurada em 1919 e buscaram estabelecer continuidade com o “Segundo Reich” (uma visão geral do assunto aqui).

Esse conjunto de eventos se insere na linha geral do advento da “modernidade” (mais sobre o tema, aqui) e da busca pelas utopias políticas. A modernidade avança por uma longa seqüência de processos e eventos históricos articulados. Em geral, pode ser caracterizada pelo surgimento dos estados centralizados, pela crise do sistema feudal, pelo racionalismo, pela emergência do capitalismo e pela maquinização da indústria e de amplos setores da vida social. E é plena de tentativas de aceleração da História.

As origens da 2ª GM só podem ser entendidas em continuidade com o processo de unificação da Alemanha. Esse evento foi característico da conjuntura européia da segunda metade do século 19, época de agitação política, reivindicações de descompressão social e mudanças institucionais. No caso da Alemanha, estamos falando de condições históricas e políticas observadas na Europa Central, que incluem o desaparecimento tardio do feudalismo e o caráter do surgimento do capitalismo por lá, a partir do início do século 19.

A região que hoje em dia chamamos de “Alemanha” era, de fato, uma colcha de retalhos de pequenas formações políticas de características feudais, que viviam sob a influência de alguns grandes estados, principalmente a Prússia e a Áustria. Também é bom lembrar que desde a Idade Média a região foi caminho de todas as guerras européias. Essa característica de campo de batalha dos grandes impérios (Rússia, Suécia, Prússia, França, Áustria, Otomano – só para falar dos que me lembro no momento…) influenciou as formações sociais que surgiram lá, particularmente a Prússia. O que entendemos hoje por “soldado alemão” e “exército alemão” era, de fato, o sistema militar prussiano, estabelecido a partir do século 17, e consolidado após a Guerra do Norte (1700-1721). Mas é claro que nenhum leitor de causa:: imagina que exércitos dêem em árvore: essas corporações surgem das condições políticas e estratégicas dos estados que demandam deles para a própria defesa e expansão. E não surgem sozinhos: exércitos bem organizados sucedem à burocracias de estado bem organizadas. Aí está, no caso, o ”xis” da questão.

A formação do Reino da Prússia remonta a 1701. Não é o caso de entrar em detalhes (eles estão no link Prússia, acima) – importa que, desde seus antecedentes, era formação política rigidamente centralizada, na qual o rei governava por delegação da nobreza, e desta saíam os quadros da burocracia de estado e do exército permanente. As profissões de servidor público e de militar acabaram sendo, por causa disso, quase uma segunda natureza para os membros dessa categoria social.

Em torno desse sistema também se formou uma classe média urbana que ocupava cargos intermediários e técnicos do serviço público, e servia ao exército, do qual constituía a reserva. Assim, manter o controle do serviço público e da profissão militar significava manter o status.quo, e vice-versa. Essa característica prussiana não era observada em todos os estados alemães da época, cuja organização variava. O fato é que nenhum deles tinha força para enfrentar a Prússia e a Áustria. Alguns dos estados maiores, como Saxônia, Baviera ou o Württemberg mantinham exércitos permanentes, mas a fraqueza econômica dessas regiões, provocada pelo natureza parasitária das categorias superiores, fazia com que procurassem alianças uns contra os outros e contra os maiores.

É de se perguntar porque as classes populares não se levantaram, como na França e em outros lugares da Europa. Reposta (simples): o controle da burocracia e do exército, assim como a anuência da classe media tornou improvável, em toda a região, o surgimento de regimes mais abertos, ao longo da segunda metade do século 18 e do século 19. Por outro lado, os interesses da nobreza rural e a influência do protestantismo – que propagava a probidade, a equidade e a dedicação – levaram à estruturação de estados relativamente bem organizados, contando com burocracias bem formadas e sólidas e centros de formação de boa qualidade. Ao longo do século 18, alguns princípios do Racionalismo e do Iluminismo foram bem recebidos na região, e contribuíram para melhorar um serviço público que já se destacava com relação aos congêneres da Europa ocidental e mediterrânica. Curiosamente, esse ambiente de racionalidade acabou possibilitando uma convivência menos beligerante das três principais religiões (o catolicismo romano, o luteranismo e o calvinismo), independente de qual delas estivesse mais próxima do centro do poder, o que também contribuía para uma estabilidade política altamente conservadora.

Nesse ambiente aparentemente tolerante, a nobreza não admitia questionamento de sua posição. Como o regime de terras de características feudais persistiu até o século 19, não houve o surgimento de uma classe de pequenos proprietários rurais plebeus, como na Inglaterra ou na França; também não havia nesses estados uma classe comerciante capaz de pressionar por seus interesses. Essas características determinaram o nível econômico da região, muito baixo, em comparação com outras áreas da Europa.

O período das guerras da Revolução Francesa e napoleônico não observou grandes modificações no quadro acima, já que a França seguiu a tendência secular de sua política centro-européia: manipular os pequenos estados alemães de modo a isolar, política e estrategicamente, tanto a Prússia quanto a Áustria. O rompimento da ordem institucional e as desordens sociais do período da Revolução pareceram confirmar os temores da nobreza e das classes médias dos principais estados, e o resultado foi o enrijecimento de um conservadorismo já bastante rígido.  Por outro lado, o período da guerra fez com que em ambos os grupos surgissem pessoas que passaram a ver como aceitável um sistema qualquer que aproximasse os estados, tanto é que foi forte a reação contra a deliberação do Congresso de Viena que indicava a reconstituição do Sacro Império Romano-Germânico, confederação de 300 estados, alguns minúsculos, ingovernável nas condições do século 19. Isso não significava, entretanto, qualquer simpatia das elites pelo liberalismo – por sinal, uma característica da região ao longo de todo o século 19.

Como todos (pelo menos aqui no blogue…) sabemos, tudo que existe na face da terra tem história. À esta altura, o redator:: imagina que, se o leitor chegou até aqui, já está vislumbrando as características que, hoje em dia, identificam o “alemão”: um sujeito metódico, disciplinado, conservador. Ou seja, apegado à ordem. Nem sempre foi assim: essas seriam as características do “prussiano”; nos pequenos reinos, a persistência de relações políticas feudais, sem o contrapeso de um estado rigidamente organizado e hierarquizado, tendia a tornar o ambiente político algo chegado a um caos, entravando qualquer desenvolvimento político e econômico.

A partir desse momento, e misturando no caldeirão o pós-Guerras Napoleônicas, as novas idéias políticas, o desenvolvimento de um capitalismo com características locais e a diversificação social resultante, talvez se aplique a idéia de “aceleração da História”. Veremos isso no próximo post::

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