Minha comemoração particular do fim da Segunda Guerra Mundial::Drops para o fim de semana::


Drops extraídos do excelente livro Alemanha, 1945: Da guerra à paz, de Richard Bessel (Companhia das Letras, 2009, 483 p.). O Doutor Bessel é conhecido nos arraiais especializados como dos pesquisador dos temas “fim da guerra”  e “pós-guerra”, e não apenas “pesquisador” (isto o redator:: aqui também é…), mas “bom pesquisador”. O tema é particularmente interessante pois as análises militares frequentemente desviam a atenção, mesmo quando o leitor é especialista, do fato de que, em 8 de maio de 1945 a Europa – incluindo aí os vencedores (claro, com excessão dos EUA) – estava arrasada. Enormes problemas políticos, sociais, econômicos  e humanitários se colocaram diante das potências que ocuparam a Alemanha. Embora tenha sido a base sobre a qual construiu-se a Europa moderna, particularmente sua metade ocidental, esse período traumático tem merecido pouca atenção. O ponto alto da pesquisa de Bessel é exatamente chamar atenção para o fato de que, em 8 de maio, o povo alemão, sem governo, com a instituições civis em colapso e o país em ruínas, mergulhou nas trevas. Também é interessante observar que, dentre as maiores preocupações dos Aliados – que tinham plena consciência dos problemas e da urgência em enfrentá-los -, no topo estava  a assim chamada “desnazificação”, objetivo associado à extirpação do “militarismo prussiano”. O professor Bessel, que leciona História do Século Vinte na Universidade de York, reconhece (e com ele, este redator::) que a desmontagem das estruturas cuja origem era muito anterior ao surgimento do nazismo, e  sobre as quais cresceu a asquerosa besta fascista foi o mais importante e durador produto da vitória. Tudo bem que os acordos entre as potências urdidos meio às pressas e com cada um querendo garantir sua parte do botim nos legaram um mundo injusto, desigual e problemático. E cheio de guerras, quentes e frias. Mas pelo menos a humanidade que vive sobre ele pode pensar em cuidar da vida sem armar, periodicamente, uma matança em escala global. Vale à pena lembrar de vez em quando, que talvez devamos nossas existências ao período que se abriu em 9 de maio daquele ano::

O povo alemão combina, da maneira mais letal, as qualidades do guerreiro e do escravo. Não valorizam a liberdade, e o espetáculo da liberdade alheia lhes parece odioso. Sempre que se tornam fortes buscam uma presa, e seguem com disciplina férrea qualquer um que os lidere nessa busca. O cerne da Alemanha é a Prússia. Ali está a fonte da recorrente pestilência. … A tirania nazista e o militarismo prussianosão os dois principais elementos da vida alemã que precisam ser inteiramente destruídos se a Europa e o mundo quiserem evitar um terceiro conflito ainda mais devastados. (Winston Churchill em discurso na Câmara dos Comuns, 21 de setembro de 1943  – grifo do redator::

É nosso objetivo inflexível destruir o militarismo e o nazismo alemães e garantir que a Alemanha nunca mais perturbe a paz no mundo. Estamos decididos a desarmar e dispersar as forças armadas alemãs; dissolvel para sempre o Estado-Maior alemão, que reiteradamente encontrou meios de fazer ressurgir o militarismo alemão; remover e destruir todos os equipamentos militares alemães; eliminar ou controlar toda a indústria alemã que possa ser usada para a produção militar; exterminar o Partido Nazista, as leis, organizações e instituições nazistas; extirpar todas as influências nazistas e militaristas da vida cultural e econômica do povo alemão; e tomar outras medidas necessárias para a paz e aa segurança do mundo. Não é nosso objetivo destruir o povo da Alemanha, mas só quando o nazismo e o militarismo forem extirpados haverá esperança de vida descente para os alemães e um lugar para eles na política de boa vizinhança das nações. Declaração final da Conferência de Ialta (4-11 de fevereiro de 1945) — grifo do redator::

Convencidos que a causa principal da mais terrível das guerras está na natureza predatória da economia capitalista, do imperialismo do capital financeiro e da consequente depravação moral e política do lumpenproletariat e da pequena burguesia, exigimos que a crise social seja resolvida por intermédio de uma economia socialista. A Alemanha só poderá ser reconstruída economicamente numa base socialista. Construir ou destruir cidades como empreendimento capitalista é tão impossível quanto a reconstrução da indústria com o dinheiro dos contribuintes. Trecho do “Manifesto de Buchenwald”, redigido pelo ativista social-democrata doutor Herman Brill (1895-1959), depois chefe da administração civil da cidade de Weimar, instalado no cargo pelo Exército dos EUA em maio de 1945. Brill vagou de prisão nazista em prisão nazista entre 1938 e 1945, até ser libertado pelos norte-americanos do KZ (campo de concentração) Buchenwald, na Turíngia. Em julho, quando a administração da região foi entregue aos soviéticos, Brill não durou 15 dias no cargo. Opositor da administração comunista instalada a partir de então, acabou se  transferindo para a zona ocidental no fim do ano. Em 1948, foi um dos fundadores do reconstruído SPD (Soziademocratische Partei Deutschlands).

Os horrores do fascismo podem ter ficado para trás, mas temos de aguentar juntos suas consequências catastróficas também no futuro, evitar pacificamente os distúrbios que já se verificam. A educação para a democracia, para a paz e para a liberdade continua sendo a tarefa comum de uma frente unida antifascista tão ampla quanto possível. Não sabemos quais e quantos partidos surgirão na zona francesa. Mas seja a União Democrata-Cristã, sejam os liberais democratas, sejam socialistas ou comunistas, todos hão de reconhecer que a cooperação e a união são a mais importante força-motriz da reconstrução de nossa economia e de nosso novo Estado. [Esta é] a garantia do cumprimento das resoluções dos Aliados em Potsdam, na verdade da existência da nação alemã. Pois nunca mais a velha Alemanha nazista, militarista, imperialista e reacionária deverá ressurgir dos mortos; uma nova Alemanha de trabalho, de democracia forte e de paz honesta deve ser construída. O bloco livre antifascista, formado por todas as forças democráticas, será sempre seu firme alicerce. Trecho do “Manifesto” da Frente Antifascista de Kontantz, publicado pelo jornal Südkurier, da cidade de Konztantz, zona de ocupação francesa.

O Terceiro Reich está praticamente esquecido, todos se opõem a ele, “sempre” se opuseram; e as pessoas têm as idéias mais absurdas sobre o futuro. Victor Klemperer (1881-1960), intelectual mischilinge, no livro To the bitter end: The diaries of Victor Kemplerer 1942-1945.

Quado chegamos à cidade industrial de Halle no fim da tarde, as casas não destruídas estavam ocupadas por tropas de combate. Procuramos um lugar para passar a noite, mas não havia nada. Uma moça russa dirigiu-se a mim num alemão estropiado e perguntou onde estava o Kommandantur. Ela acabara de chegar à cidade, depois de fugir da fazenda onde trabalhava como escrava, e procurava desesperadamente alguém que pudesse ajudá-la. Não tinha nada, só o que levava nas costas, e seus olhos estavam úmidos de choro. Quero ir para casa“, disse, soluçando. Por favor, me ajude a ir para casa. Tenho apenas dezessete anos.” Saul Padover (1905-1981), historiador e professor universitário norte-americano, capitão do Exército do EUA destacado para o Departamento de Serviços Estratégicos (OSS, na sigla em inglês), , abril de 1945.

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5 pensamentos sobre “Minha comemoração particular do fim da Segunda Guerra Mundial::Drops para o fim de semana::

  1. Ótima compilação, Bitt.
    Me chamou atenção um trecho da declaração da Conferência de Ialta: “eliminar ou controlar toda a indústria alemã que possa ser usada para a produção militar”
    Como ninguém é 100% bonzinho, dá pra imaginar que a intenção, ao controlar a indústria, não seria apenas evitar o desenvolvimento militar nazi-fascista…

  2. Hahaha, os rotos [ingleses] falando dos esfarrapados [alemães]. Como a maior potência colonialista pré-segunda guerra tem a audácia moral de falar das ambições alemães? Desculpe-me Bitt, mas eu não compro a tese de “Guerra Justa” tão facilmente.

  3. Eu concordo bastante com o Diogo, a potência que cometeu infâmias como as Guerras do Ópio não tem moral para criticar ninguém. O Nazismo foi mesmo um horror em particular, mas teve – e tem até hoje – uma grande utilidade: é bom de esculachar, esculachando-o qualquer um pode posar de grande democrata.

    Por falar nisso, eu tenho uma idéia para um “amador dedicado” como você se denomina, Bitt, uma pesquisa. Os judeus alegam que o chamado Holocausto Nazista foi o pior crime de todos os tempos, absolutamente insuperável e, é claro, exigem que todos reconheçam esta classificação. Eu tenho por mim que certamente foi um dos maiores crimes da História, princialmente pelo “método científico” da sua execução, embora crimes ainda maiores possam ter sido cometidos, tão grandes que não sobrou alguém vivo para narrá-lo.

    Mas não pretendo fazer um “ranking” dos maiores crimes, isto não levaria a nada, a minha idéia é a seguinte: Nunca houve ofensa mais absolutamente desagravada em todos os tempos. Os ofensores, os nazistas, foram absolutamente derrotados, sua máquina de guerra absolutamente desmantelada, seu país de origem impiedosamente bombardeado, sem qualquer preocupação com a população (em Dresdem morreu mais gente do que em Hiroshima), que nunca reclamou de absolutamente nada, que, aliás, pagou indenizações milhonárias para indivíduos e bilhonárias para o Estado de Israel. Em termos culturais e sociais, criou-se uma absoluta aversão à idéia do nazismo e a qualquer dos seus símbolos, inclusive com legislação específica (vale tudo, menos o nazismo), além de um estigma no povo alemão que perdura até hoje, três gerações depois, que provavelmente influiu em sua análise traduzida nos últimos artigos.

    Então, será que é possível pesquisar e fazer um post sobre as ofensas históricas que tiveram desagravos consideráveis?

  4. “O Nazismo foi mesmo um horror em particular, mas teve – e tem até hoje – uma grande utilidade: é bom de esculachar, esculachando-o qualquer um pode posar de grande democrata.”

    Perfeito, Luiz Candido. Hoje virou clichê propagandear a vitória de Jesse Owens, nas Olímpiadas de 36, como uma vitória contra o preconceito racial, mas pouca gente se pergunta como era a sociedade americana à época. Aliás, como era a sociedade americana em 1960, quanto à questão racial?

    E o Caso Tuskegee, nos EUA, que perdurou até meados de 1970, deixa algo a desejar aos experimentos nazistas?

    Nem vamos falar da URSS e seu expansionismo tirano, tendo como um dos legados da opressão política nas ex-Repúblicas do Leste Europeu, vejam só, o aumento da admiração ao nazismo entre parcelas cada vez mais crescentes da população.

    Ok, há que se comemorar, sim. Mas talvez os mocinhos da história não sejam tão puros assim.

  5. Pois é, Diogo, a conclusão é que simplesmente não há “mocinhos” entre os atores da nossa tragicomédia histórica. Claro que não é “tudo igual” e que a vitória dos Aliados sobre o Eixo foi melhor do que seria o oposto. Mas não vamos ficar tão “alegrinhos” assim: a coisa é bem mais complicada.

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